PGL – Maria del Carmen F. G., ourensana, professora de primário e aluna de português na EOI, adicta ao ludismo e aos jogos de perguntas, é contra a segregação por línguas e a favor da educação através do exemplo.
PGL – María del Carmen é uma sócia invulgar. Os psicólogos parecem concordar em que segundo avançarmos na vida, as pessoas tornamos mais relutantes a mudar de esquemas. Não é o teu caso. Com 58 anos (a Carmen aceitou eu dar esta informação) vem de aderir à estratégia luso-brasileira.
CF – Em realidade eu também não mudo de esquemas até que a minha posição já não tem defesa possível, mas não se pode culpar a idade pelo imobilismo, ao contrário, uma longa vida permite errar muitas vezes e retificar, se quisermos, outras tantas e deveria ser-nos mais fácil assumir que nem sempre estamos no certo.
PGL – Que te levou a mudar o esquema?
CF – Foi fundamental convencer-me de que o galego, mesmo o normativo, não está tão longe do português como eu pensava e, portanto, ainda é possível o re-encontro. O facto de começar a conhecer o português fez modificar o meu ponto de vista sobre o galego.
PGL – Onde e como tomaste contato com o português?
CF – Matriculei-me no ano passado na Escola Oficial de Idiomas, o que com a minha idade parecia uma decisão pouco prudente, mas acabou sendo um acerto pois as aulas e os companheiros foram muito interessantes. E como para um galego ler em português não tem grandes dificuldades, esse foi o meu começo. Pouco depois conheci o Planeta NH e, como gosto especialmente dos jogos de perguntas e neste podia ademais colaborar, acabei namorada do português.
PGL – Carmen tem elaborado vários jogos para o planeta. Esta paixão tem a ver com o teu labor docente com crianças?
CF – É possível, porque no ensino já não fica ninguém que acredite num sistema do tipo eu-ensino-tu-calas-e-escoitas, e até os mais sérios tentamos manter o espírito lúdico. Nesse sentido, todos os jogos podem ser úteis, mas os do Planeta NH têm a vantagem de serem facilmente adaptáveis a diferentes matérias, embora ser o seu fim principal o aprimoramento da língua. Além do mais, também a língua se aprimora quando falamos em outros temas que não são especificamente linguísticos e são muitos que opinam ser isso o mais acertado quando tencionamos que os alunos não dominem apenas um idioma, mas que o amem.
PGL – Como e quando se poderia introduzir nas aulas os falares e os “sabores” de Portugal e de Brasil?
CF – Tendo em conta que os meninos galegos aprendem três idiomas desde os três anos, acho que não podemos pensar num ensino formal de outra língua, mas é possível estabelecer contacto com essas culturas que nos são tão próximas por médio de canções, leituras ou jogos. Quiçá o momento adequado seja nos últimos anos do ensino primário, quando as crianças já vão tendo assentado o conhecimento dos outros idiomas. Se falamos de médios audiovisuais, a iniciação pode ser mais temporã, pois os meninos têm uma grande facilidade para ler imagens.
A meu modo de ver, a dificuldade pode estar mais na sociedade que na escola, em se a sociedade percebe ou não como interessante o conhecimento das culturas e a língua portuguesas.
PGL – Que visom tinhas da AGAL, que te motivou a te associares e que esperas da associaçom?
CF – Quando se fizeram as normas do galego eu compartilhava a ideia de que era conveniente fugir tanto do castelhano como do português e depois continuei a manter essa opinião, de modo que Agal era para mim, no melhor dos casos, um grupo de românticos e, no pior, um exemplo de teimosia.
Agora decidi associar-me principalmente por duas razões: em primeiro lugar, porque estou convencida de que nos anos 80 fiz uma escolha precipitada, sem dados suficientes e, como consequência, errada e, em segundo lugar, porque o sentimento contrário ao idioma galego que se percebe ultimamente tanto a nível oficial como a nível da rua acabou de convencer-me de que algo tinha que fazer. Associar-me pareceu-me então de sentido comum.
PGL – Qual seria em tua opinião a melhor forma de divulgar a estratégia luso-brasileira para a língua nos ambientes onde desenvolves a tua vida profissional?
CF – Dizia Einstein que não há melhor educação que o exemplo, embora seja o exemplo de um monstro, e parece-me que este pensamento adequa-se bastante bem à minha forma de ver as coisas. Não se trata tanto de grandes estratégias quanto de comunicar a nossas razões para que depois cada um tome as suas decisões; mas este sistema, que tem a vantagem de evitar as aderências pouco meditadas e, portanto, pouco estáveis, tem o inconveniente da lentidão; portanto, seria bom combiná-lo com outros. Pessoalmente confio na criatividade dos jovens de Agal para procurar novas fórmulas.
Quanto as crianças, e sei que a minha opinião é pouco popular, considero que qualquer estratégia, tanto se falamos de galego normativo como se falamos de galego reintegracionista, deve passar por não separar os meninos na escola segundo o idioma, e isto não é só para mim um princípio educativo irrenunciável, mas também é a posição que encontro mais proveitosa, porque, a meu modo de ver, a segregação só beneficia o mais forte. Com outras palavras, entendo que seja reclamada por Galicia bilingüe, porque fortaleceria as suas posições. Que é o mesmo que dizer que prejudicaria a posição do galego.
Conhecendo Carmen Fátima
- Um sítio web: aam.blogcindario.com
- Um invento: A linguagem
- Uma música: Concerto para piano nº 26, de Mozart
- Um livro: Caim, de Saramago
- Um facto histórico: A conquista pelas mulheres do direito ao voto
- Um prato na mesa: Os doces, de todas as classes
- Um desporto: Patinagem artística no gelo
- Um filme: O Nome da Rosa
- Uma maravilha: O universo
- Além de galega: Espírito da contradição

