Camilo Nogueira: “É evidente que o galego nom vai desaparecer”



charo lopes

charo lopes

Neste ano 2021 há 40 anos desde que o galego passou a ser considerada língua co-oficial na Galiza, passando a ter um estatus legal que permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisar este período, iremos realizar ao longo de todo o ano, umha série de entrevistas a diferentes agentes sociais para darem-nos a sua avaliaçom a respeito do processo, e também abrir possíveis novas vias de intervençom de cara o futuro. Desta volta entrevistamos o economista e político, Camilo Nogueira.

Qual foi a melhor iniciativa nestes quarenta anos para melhorar o status do galego?
Nom há nada que melhorar, melhor refere-te a fala-lo. A luta que temos que dar é ir contra a ideia de o galego ser umha cousa pequerrechinha. O galego nom é pequerrechinho. Fala-se na Galiza, sabe fala-lo a maioria da populaçom galega, e ademais é internacional. A mim, estando num táxi no Brasil, perguntou-me o chofer: “e você, de que parte do Brasil é?”
O galego nom está potenciado, mas nom é que a gente decida nom falar galego. A mesma gente que nom o fala, entende-o perfeitamente, e a maioria, definitivamente, fala galego, ainda que nom seja habitualmente.

Se pudesses recuar no tempo, que mudarias para que a situação na atualidade fosse melhor?
No franquismo a maioria dos galegos falavam galego. Sempre. Franco fodia-nos, mas a gente falava galego. Agora como algumhas crianças nom estudam galego na escola e isto nom vai mais alá… pois claro, o decreto do ensino é insuficiente, o galego deveria ser a língua veicular, como já é em muitos centros. Nom há que ficar centrado em que as crianças aqui som obrigadas a falarem em castelhano. O galego é mui falado.
Eu penso que se fala mais galego que castelhano. Em Compostela fala-se em galego, e em Ponte Vedra e em Vigo… E no Brasil também.

Que haveria que mudar a partir de agora para tentar minimizar e reverter a perda de falantes?
Eu nom colocaria nesses termos a questom, aqui as crianças nascem falando já galego e castelhano, e essa é a melhor forma para aprenderem a falar inglês e francês. A chave é que se fale galego, e que haja umha identificaçom com o português e o brasileiro. A gente que está interessada polo galego nom tem umha dimensom real do que é, é evidente que o galego nom vai desaparecer.

 

A chave é que se fale galego, e que haja umha identificaçom com o português e o brasileiro. A gente que está interessada polo galego nom tem umha dimensom real do que é, é evidente que o galego nom vai desaparecer.

Achas que seria possível que a nossa língua tivesse duas normas oficiais, uma similar à atual e outra ligada com as suas variedades internacionais?
Eu nom o vejo, porque é como se houvesse duas línguas, e o problema nom se arranja escrevendo de outra forma.
A minha posiçom é que tu podes escrever como escrevem em Portugal e no Brasil. E claro, tenho que chamar-lhe cabrons aos que se negam a permitir escrever o galego da mesma forma que se escreve em Brasil, claro que si. Mas som a mesma cousa, falamos a mesma cousa.
É importante nom criar umha divisom, nem comparar Galiza com Noruega, nós falamos umha única língua.


PUBLICIDADE

  • Nicolau

    Vejo um pouco desarrumadas as respostas, com muitas ideias e conceitos no fundo para as quais umhas poucas linhas nom parecem ser suficientes, mas que em geral eu identifico porque coincidem com a minha opiniom do assunto. Exceto…

    Exceto essa noçom de galego latente nas pessoas que nom o falam. A cousa mudou muitíssimo nos últimos dez anos. Hoje hai crianças que desconhecem completamente a língua galega e que nom tenhem nengum tipo de referente (familiares mais velhos que a falem, por exemplo). Eis alguns exemplos reais (ou baseados en factos reais) que eu ouço continuamente:

    -¡Mamá, mira! ¡Están hablando en inglés! (estávamos a falar galego)

    -¡No se dice “cadeira”, se dice “silla”! (dixo umha criança ao meu filho)

    -Hablas como mi abuelo (“teu avô é um home sábio”, respondim eu)

    -¿De dónde sois? (“Daqui”, respondêrom meus filhos, lacónicos)

    … e muitas mais.

  • José António Lozano

    Se há algo que não é evidente é essa afirmação. Nem sequer é evidente a continuidade da espécie humana nos próximos 200 anos. Creio que muitas vezes não se tem consciência da gravidade dos problemas aos que nos enfrentamos como raça humana. A esperança é uma cousa, a evidência outra. Que o galego se mantenha como um vestígio , como uma língua suportada por activistas e parte da administração pode ser mas isso não é “estar vivo”. Eu diria: Não é uma evidência que o galego não vai desaparecer”. Isto é mais real.

  • Lamões

    O derrotismo não adianta. Mensagens como a do Nogueira são precisas para manter o espírito e animar outros a se unir.
    Pode estar enganado mas ainda estamos aqui. E vamos seguir a estar durante bastante tempo.
    Que o futuro não pinta bem? Na realidade nunca pintou bem desde que tenho memória. E aqui seguimos.

  • Arturo Novo

    Tristemente, tenho que concordar com o José António Lozano. Uma cousa é entregar-se ao derrotismo (não fazer nada) e outra muito distinta é não querer admitir a realidade. É bem certo que a realidade nunca pintou bem para o galego. Mas também é certo que quando carecia do mais mínimo tipo de reconhecimento legal, a nossa língua era ainda vigorosa. Mas, curiosamente, agora que goza desse mínimo reconhecimento legal, está a piques de desaparecer em combate. Sejamos honestos e sinceros, a nossa língua resistiu, sobre tudo no rural, não pola resistência dos seus falantes, resistiu porque o castelhano ainda não tivera a oportunidade de tapar todos esses espaços onde morava o galego. Ogora a realidade é outra, e o castelhano chega a todas partes. O galego está desprotegido, ou a proteção que tem é tão ridícula que não é digna nem de menção. Nas atuais circunstâncias o galego não é rival para o castelhano. Um anano contra Goliat.
    A única possibilidade de sobrevivência do galego está no reintegracionismo. Condição necessária, mas não suficiente. Sem apoio instituicional e dos poderes económicos nenhuma língua do mundo resiste o passo do tempo. E para mudar a vontade dos segundos, primeiro teriamos que mudar a vontade dos primeiros. E com este esperpento de democracia, a cousa está muito difícil para mudá-lo poder político. E se a isto lhe acrescentamos que o galeguismo dominante tampouco parece querer assumir responsabilidades e abandonar duma punheteira vez essa normativa do dianho, os dias estám contados. Sobre o que fazem os outros, poucas possibilidades temos de incidir, sobre o que fazemos nós, ou os chamados nossos, sim.

  • José António Lozano

    Concordo contigo, Arturo. Parece que querer ver alguns dos problemas com serenidade e realismo é ser “derrotista”. Acontece que eu não sou derrotista. Se o fosse não estaria a escrever aqui nem a partilhar colaborações no PGL ou a publicar na nossa língua. Mas devemos fazer um esforço não só numa direcção “linguística” mas também humana, política e cultural refletindo e agindo com respeito aos problemas que a humanidade sempre considerou essenciais. Até porque a recuperação linguística pode fazer-se desde uma perspetiva que nem mereça a pena. Só temos que ver Israel. Contruir uma visão que leve a vida adiante como um todo e não algo reduzido a pequenos problemas e obcecações que são sintomâticos de uma “morte anunciada”.
    Infelizmente não se pode construir algo positivo e afirmativo desde meras ilusões e propaganda. Se assinalar isto é ser derrotista pois, quiçá, haja que reformular-se valores de fundo. Ainda que pode que para muitos seja pedir demais. Chegado um certo ponto está aquela frase: ” de derrota em derrota até a vitória final”. Quando se trata de questões de fé é melhor dirigi-la com melhor orientação. E se trata de fé, porquê não acreditar em Deus?

  • Lamões

    Não pretendia corregir nem criticar as
    opiniões dos demais. Pedo desculpas se ofendim alguém.
    Estou a comentar a opinião do Camilo Nogueira, o entrevistado. Ele oferece uma opinião otimista: “o galego não vai desparecer”. E o caso é que nós não vamos ver esse desaparecimento nas nossas vidas. De aí que exista a possibilidade de mudar o rumo.
    O Camilo Nogueira sempre foi asertivo e otimista. E não por falha de conhecimento da realidade, pois bem tem batido contra ela. Ele sempre foi furando na direção que lhe interessou para conseguir que o seu discurso seja compartilhado pola sociedade.
    A minha opinião é que o discurso otimista atrai, mobiliza e dá esperanças. Construi um quadro de referência que permite avançar. O discurso pesimista, não.
    A análise tem que ser realista, pesimista se se quer, mas o discurso tem que ser positivo ou não vai conseguir penetrar o quadro de referência hegemónico.
    É neste sentido que gosto muito das ações da AGAL: do optimismo e do desenfado; e do discurso que pretende ir penetrando como as neves furaqueiras.
    Um abraço,

    • José António Lozano

      Caro Lamões, aprecio a Camilo Nogueira como pessoa e como político. E sei que é alguém que ofereceu muitos elementos positivos à Galiza. Entre eles o de estar acima da “personalidade” e ter uma vocação realmente comunitária, não personalista. Quanto amim não me sinto ofendido em modo algum até porque considero que as opiniões diferentes e divergentes são necessárias. Concordo com o diagnóstico da Agal. Eu também gosto da sua atitude e jeito de imbricar diferentes âmbitos. Ora bem, uma cousa não tira a outra. Se o nosso otimismo depende de viver em certa ilusão parece-me fraco. Deveriamos ter uma fonte mais funda de confiança. Continuaremos. Um abraço!

    • Arturo Novo

      Eu para nada me senti ofendido. Não há motivos para isso. Aqui estamos para debater. Debater libremente.