Carlos Taibo – Sei que, há uns meses, umas declarações minhas produziram uma disputa relativa a uma questão tão castigada como é a relativa à burguesia nacional na Galiza. Sublinho que nessas declarações não formulei juízo nenhum sobre a história do país.
Não tenho dúvidas, em qualquer caso, no que atinge ao facto de que a ausência duma burguesia nacional na Galiza tem sido fonte principal dalguns dos nossos problemas de hoje. Tal é o caso, nomeadamente, dos que se referem à língua e, de maneira mais geral, à frágil autoestima que mostram muitos dos nossos concidadãos.
Mesmo assim, devo sublinhar qual era o sentido de fundo da minha consideração, que fazia referência, sem mais, a realidades contemporâneas. O que afirmei então, e repito agora, é que estamos na obrigação de lembrar que a ausência duma burguesia nacional na Galiza não deixou de ter alguma consequência saudável, na forma, por cima de tudo, duma possibilidade real de assentar um discurso nacionalista que, de base popular e colocação claramente na esquerda, deveria ter as suas vantagens. Nao há mal que por bem não chegue…
Num debate paralelo, estou na obrigação de sinalar que me produzem fascínio aqueles que agora mesmo, e no nosso país, andam desesperados na procura da burguesia nacional que falta. Nalguns casos semelhante linha de conduta bebe, bem é certo, duma vontade expressa de dar satisfacção ao esquema que Marx enunciou no que diz respeito ao desenvolvimento das sociedades. Para quem abraçam esta opinião, não tem sentido lutar por uma futura sociedade socialista se antes não se desenvolveram as forças produtivas em clave capitalista, algo que demandaria por necessidade da presença duma burguesia, nacional ou alheia. Sem vontade nenhuma de discutir a idoneidade do esquema que o Marx maduro desenhou, e que ele mesmo se encarregou de revisar nos anos finais da sua vida, devemos nos perguntar se hoje, com o que está a acontecer no planeta, a nossa tarefa principal deve consistir em trabalhar para construír, por fim, uma burguesia nacional ou temos, pelo contrário, retos mais urgentes. Esqueço formular a resposta porque parece evidente.
Bem é certo que na discussão que me ocupa há outro horizonte não precisamente marginal. E é que um tem direito a afirmar que uma das explicações que permitem compreender a teima que alguns seguem a mostrar no que se refire a construcção dessa burguesia nacional própria pouco mais há que interesses pessoais ben singelos de identificar. Não será que muitos dos valedores da burguesia que não existe estão a trabalhar para devir eles mesmos , desde os edifícios de São Caetano, o alicerce dessa clase inexistente?
