Bernardo Couto Castillo: L’enfant terrible da literatura de horror



Não são poucos os críticos literários que, do alto de suas cátedras de ouro e marfim, incrustadas de suntuosos diamantes, torcem os excelsos narizes, sempre empinados, com o desprezo que lhes é natural, ao gênero fantástico. Evitam Allan Pöe e tremem de repulsa à simples menção do nome “Lovecraft”. Afinal, não perdem tempo com quinquilharias abjetas, herança funesta de um alemão ensandecido chamado Hoffmann.

Théophile Gautier, um grande mestre da literatura fantástica, dizia, com razão, que não há gênero inferior, senão escritores inábeis. Apesar disto, não se perdoam escritores habilíssimos — como Balzac ou Eça — quando, estorvando inutilmente a genialidade que Deus lhes concedeu, compõem obras tão vis e decadentes quanto O Elixir da Longa Vida ou O Defunto.bernardo-couto-castillo

Não duvido que muitos desses literatos impolutos, inexpugnáveis bastiões da arte pura e verdadeira, não raras vezes desçam do áureo pedestal e, furtivamente, obedecendo a uma compulsão insana — comparável à do assassino de que logo falarei —, devorem com avidez um romance de Júlio Verne, Conan Doyle ou Stephen King. Mas o fazem às escondidas, com o coração aos pulos, como uma criança temerosa de ser apanhada em plena travessura noturna.

Eu conheci um assim. Era um daqueles cuja erudição caberia muito bem na célebre tirada do Abade Prévost. Não seria necessário que um autor compreendesse aquilo que escrevera, pois o meu bom crítico literário se encarregaria, prontamente, de explicar-lhe o que estava escrito.

Talvez por simples descuido, ou pela confiança de que nada lhe sucederia, o afamado professor, que raras vezes aparecia no Shopping Iguatemi, mantinha aberto, sobre a mesa, um volume de contos de Ray Bradbury e parecia lê-lo com bastante gosto.

Ao me ver, tomou um susto daqueles.

Quem quer bem criticar, tem de ler de tudo. Do divino ao medíocre — disse-me ele, olhando com desprezo o livro que tinha na mão, como a se desculpar — ou justificar-se — por se dar à sôfrega leitura de uma quinquilharia abjeta (esta expressão, que volto a empregar, não é minha; devo-a ao impoluto crítico de que cuidamos, já falecido).

Aproveitei a breve ida do crítico ao toalete para dar no livro uma espiadela indiscreta, da qual não me arrependo. Afinal, o exemplar de “Uma Sombra Passou por aqui” (“The Illustrated Man”) fora negligentemente deixado, semiaberto, sobre a mesa. Verifiquei que a brochura, de tão amarrotada — faltava-lhe um naco da contracapa — já havia sido lida e compulsada repetidas vezes. Vi, também, que várias páginas estavam sublinhadas e rabiscadas. No rodapé, liam-se referências elogiosas, escritas a lápis e caneta, a uma ou outra passagem “surpreendente!” ou “brilhante!”.

Da mesma folha de papel onde acabara de prolatar uma sentença condenatória de adultério, um ilibado juiz — conta-nos Montaigne — extraiu um pedaço para enviar um bilhetinho indecoroso à esposa de um colega magistrado.

À conduta de meu crítico literário e à postura do juiz de Montaigne corresponde apenas um nome: hipocrisia.

Há quem, não satisfeito em sacrificar aquilo que realmente ama, esforça-se em elogiar o que abomina. E o faz, com renúncia aos ditames de sua própria natureza e aos apelos de seu coração, por puro medo de uma censura intelectual.

A um crítico literário intolerante nada é mais pavoroso do que uma reprimenda de um par seu, sobretudo se vinda de uma deidade na arte de criticar. No universo da crítica elevada e circunspecta, em cujos meandros não é dado ao pobre mortal penetrar, mantém-se, sempre viva, hachurada no espectro ideológico, uma faixa à qual convergem e se consolidam os pensamentos uniformes. Diante desse fóssil sacrossanto, desse formidável bezerro de ouro puro, todos devem curvar-se num humilde gesto de absoluta submissão. Lá, no Olimpo, voos altos e rasantes, que transbordem a faixa espectral, jamais são tolerados, e uma nota dissonante pode significar uma proscrição eterna. Sacrificam-se, pois, os tão íntimos e espontâneos pensamentos e se tolhem as tão frescas impressões pessoais em prol de uma uniformidade artificialmente forjada em sucessivas camadas homogêneas de ferro glacial, insistentemente martelado, malhado e amolgado, até que a farsa ecoe tão autêntica e maravilhosa quanto a mais cristalina verdade interior.

Não foi à toa, sobretudo no século XX, que o apelo à autoridade (magister dixit), paulatina e pacientemente convertido no triunfante apelo à popularidade (vox populis, vox dei), erigiu à categoria de gênio pintores que definitivamente não sabiam pintar e escritores que mal sabiam escrever. E eles estão tão nus quanto o rei de Hans Christian Andersen. Basta olhar ou ler. Mas… quem se atreve a dizê-lo? A elevação da mediocridade a patamares tão sublimes produziu, em seu rastro, o colateral efeito de mergulhar numa penumbra profunda, num ostracismo do qual é quase impossível escapar, os que, de fato, sabiam destramente pintar ou escrever. E esta é a verdadeira tragédia, o subproduto hediondo da hipocrisia.

Frisei o advérbio “quase” — este portador de glórias ou infortúnios, conforme o verbo que modifica e a expectativa de quem o emprega — por uma boa razão.

Não se resgatam talentos sepultados com a mesma facilidade com que se lhes são exumados os ossos ressequidos. Mas, ainda assim, o imponderável acontece.

Tratado com insolente desprezo pelos críticos literários de sua época, Bernardo Couto Castillo (1878 – 1901) teria permanecido na obscuridade sem fim se não fosse um tardio resgate impulsionado por escritores de gerações posteriores. Sim, escritores, seus iguais. A estes seguiram-se — nessa ordem — pesquisadores, editores e, finalmente, críticos modernos. Somente em tempos recentes, o enfant terrible logrou merecer estudos à altura de seu tão precoce quanto imenso talento. Antes disto, distinguiam-no não pela arte crua e visceral — então considerada imperfeita, rude e imatura —, mas por sua breve vida de estroinices e transgressões desenfreadas.

Sinto-me honrado por ser um dos primeiros — senão o primeiro — tradutor de Couto Castillo ao português. E o que traduzi dou com imenso prazer ao público galego.

Mergulhando magistral e profundamente na mente doentia de um homicida — um protótipo de um serial killer da moderna literatura de suspense —, o jovem Bernardo, seguindo as sendas do horror psicológico de Allan Pöe, desbravou, no breve conto “Assassino?”, como um visionário, o caminho por onde, nos séculos XX e XXI, transitariam autores de magníficos thrillers, a exemplo de Robert Bloch, Thomas Harris e Tess Gerritsen:

ASSASSINO?

Silvestre Abad, assassino, contava a seus amigos algumas de suas proezas. Seus olhos injetados assumiam diversas expressões, de acordo com a narrativa. Eis o que ele, com voz agitada, dizia:

Somente uma vez, uma única vez, senti prazer em matar. E aconteceu tão rápido, tão brevemente, que às vezes acho que foi um sonho.

Eu era, então, muito jovem e nunca havia matado. Há dias que eu vagava em busca de trabalho, mendigando um pedaço de pão, arrastando-me, molhado de chuva, tostado pelo Sol, morto de fadiga e trazendo na alma uma destas raivas que inspiram tentações de destroçar tudo quanto se vê e esfaquear todos quanto passam. Caminhava pensando em toda negrura de minha sorte, no miserável que eu era. Feio, de uma fealdade horripilante. Desde menino, os homens apontavam para mim, rindo, e, para assustar as crianças, ameaçavam-nas com a minha presença. Uma mulher? Ignoro o que possa ser. Nem por dinheiro me quiseram. Eu lhes causo asco, provoco-lhes repugnância e, em todos os lugares, as mulheres me rechaçam.

Naquele dia, já era tarde. O campo se estendia ao meu redor: grande, imenso, cheio de árvores, de plantas e de espigas, exuberante de vida, proclamando a abundância e a riqueza. E eu morria de fome.

Não recordo o que aconteceu depois, nem para onde fui. Sim, creio que andei muito e parei, muito cansado, em uma rua da vila onde todos dormiam. Era uma rua estreita, silenciosa e iluminada pelo lampião pendente de um fio. Eu me sentia cansado, muito cansado e com fome. Aproximei-me do lampião, esperando o primeiro transeunte para assassiná-lo, para roubá-lo e comer alguma coisa.

Ninguém passava. Tudo estava em silêncio e eu não tinha forças para dar um passo. Apoiado na parede, contemplava a chama movediça do lampião e, para mim mesmo, murmurava maldições. Os outros tinham casa, comida boa, calor nas noites frias. Tinham família, esposa, filhos. Eu não comia há três dias, não tinha no mundo mãe, irmãos ou amigos. Ao entrar nos lugarejos, os cães se lançavam contra mim para morder-me e as crianças fugiam quando me viam. A mim faltava-me tudo, eu nunca conhecera um prazer, e minhas mãos nunca tinham tocado um objeto bonito.

Chegou a mim, não sei de onde, uma música que se escutava com recolhimento, tal como eu ouvia, quando era menino, durante o pouco tempo em que tive mãe, o órgão da igreja quando se elevava a hóstia. Eu escutava, escutava deliciado… Pensem: deve ser tão lindo ter nas noites uma mulher que faça música, enquanto se descansa numa boa poltrona ao abrigo do frio! E eu continuava escutando e pensava em mil coisas, esquecendo a fome e os desejos criminosos.

Uma porta se abriu. Vi avançar um pequeno vulto que, quando se aproximou de mim, nele reconheci uma menininha. Levava nas mãos um cesto e avançava lentamente, sem medo e, inocentemente, sem qualquer noção do perigo.

A luz do lampião incidia sobre o seu pequeno, muito branco, muito suave e muito fino pescoço. Eu nunca tivera em minhas mãos um destes pequerruchos que fazem a delícia dos outros, dos afortunados, dos bem-aventurados deste mundo.

Meus pés me conduziram a ela institivamente. Virei o rosto para a criança e quis sorrir; mas, quando eu sorrio, o que resulta é um gesto que mais ainda repugnante torna a minha fealdade. Compreendi isto, mas, apesar de meus esforços, não consegui afastar-me. Sentia o desejo de tocá-la, de sentir o contato de seus bracinhos, de tê-la em minhas mãos por um momento, como se fosse minha. Levantei-a em meus braços. Ela quis gritar, mas o espanto impediu o seu grito. Trouxe-a para perto do lampião. Como era linda! Como era branca, branca como a luz, como as flores. Tinha os cabelos dourados e deixava adivinhar um sorriso, como dever ser o dos anjos. Em seu terror, era bela, e seus olhos grandes, muito abertos, miravam-me assustados. Depois, levei-a aos meus lábios, mas as pontas crispadas e sujas de minhas barbas machucaram o seu rosto. Então, ela gritou, enquanto golpeava o meu ventre com seus pés.

Eu ia deixá-la, deixá-la, ficando triste como nunca!

Jamais poderia acariciar uma criança. Ia deixá-la, mas a luz do lampião incidiu em cheio sobre o seu pescoço macio e fino. Experimentei, então, o afã de estreitá-la, de tocá-la e sentir mais uma vez o contato de sua suavíssima pele. Desde então, tenho sentido muitos desejos, mil vezes tenho querido apoderar-me de alguma coisa; mas nunca a tentação foi tão forte, tão imperiosa, tão irresistível quanto naquele dia. Não conseguindo dominar-me, cedi e a acariciei, sentindo um estranho prazer ao passar, várias vezes, minha mão áspera e calosa por seu pescoço liso como uma luva. Ela estava muda de pavor. Seus olhinhos se abriam cada vez mais, cresciam, e me olhavam aterrorizados. Mas eu não podia, era-me impossível decidir por deixá-la, então continuava a passar minha mão sobre a sua pele. Depois, apertei um pouco, não procurando machucar, mas apenas experimentar em meus dedos a morna maciez que nunca havia sentido. Apertava e afrouxava, sentindo um inefável prazer.

A música cessou. Ouvi o ruído de uma porta se abrindo e tive medo — ou melhor, senti ter que deixar a menininha. Aquele pequeno pescoço branco! Aquela suavidade sob meus dedos. Aquele prazer! Ter de deixá-los para fugir, para continuar a caminhada, o mendigar e nada receber… Mas, ao mesmo tempo, continuava apertando, continuava apertando, continuava apertando a pele e sentindo contra o meu peito os arrebatados golpes de seu coração… Os passos se aproximavam. Estavam prestes a surpreender-me, a me encarcerarem para sempre em uma prisão sem que eu pudesse voltar a sentir aquele gozo! Minha mão não mais se recrearia ao contato de um corpo suave e macio.

Continuei a pressionar com ansiedade, querendo, ao comprimir pela última vez, obter toda a delícia que pudesse sentir apertando… Senti seus músculos, uma calosidade e, como os passos já estavam muito perto de mim, apertei com todas as minhas forças, desejando sentir sua última palpitação, seu último estremecimento, desejando arrancar-lhe tantos outros tremores de que dela poderia desfrutar, enquanto nunca, nunca poderia sequer acariciá-la.

E senti este último estremecimento. Senti que o frêmito percorreu todo o seu corpo, ao passo em que o seu coração parava de bater. O pescoço parecia um trapo. Esfriou… Uma mão me agarrou. Mas eu, com um golpe seco, a repeli, desvencilhando-me para lançar fora a menina e fugir.

Ainda hoje sinto prazer quando sonho e creio que estou a apertar, a comprimir-afrouxar. Esta foi a única delícia de minha vida! Quando vejo uma criança, sinto o impulso de arrojar-me sobre ela e de roubá-la para levá-la sempre comigo; e apertar o seu pescoço, afundar nele os meus dedos. Sim — continuou, enquanto levava um copo aos lábios — , foi uma grande delícia… Apertar! Afundar os dedos! Sentir aquela maciez estremecer. Agitar-se em estremecimentos tão pequenos como o corpo imóvel e os dedos apertando sempre, sempre!

Por volta dos 18 anos, Couto Castillo publicou seu único livro de contos, Asfódelos. É nele que se engasta a narrativa que acabamos de ler. Aproximadamente outras 60 saíram em revistas e jornais mexicanos. É uma obra extensa para um escritor que, como um bom decadentista e amante dos paraísos artificiais, era dado aos excessos dos narcóticos e do álcool, e que morreu solitário, mal saído da adolescência, num manicômio da Cidade do México.

Contava apenas 22 anos de idade.

Paulo Soriano

Paulo Soriano

Natural de Itabuna, Estado da Bahia, Brasil, é tradutor e contista amador. Reside em Salvador/BA, onde exerce a advocacia pública. Na Galiza, organizou as seguintes antologias: Mestres do Terror (Santiago de Compostela, 2010) e A Voz dos Mundos (Compostela, 2015), esta última em colaboração com o ensaísta Valentim Fagim. Mantém na internet o sítio Contos de Terror (http://www.contosdeterror.site) e Litteratus (https://www.litteratus.site/). É editor de Edições Virtuais TRUMVITATUS (http://triumviratus.weebly.com/).
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