As lições de colonialidade de Fernando Venâncio



Há já alguns dias recebi em Lisboa a visita de duas amigas da Galiza. Aproveitando o bom – e pouco – tempo fomos até um dos muitos museus da cidade, onde pudemos assistir a uma exposição interativa. Ali, umas jovens estagiárias explicaram-nos as “provas” de que consistia um dos conjuntos artísticos e desafiaram-nos para selecionarmos duas que, com a sua ajuda, ficariam resolvidas. Numa sala imensamente branca, lá estávamos nós, quatro jovens galegas e portuguesas, a tentar fazer sentido da exposição, mas também de nós próprias. Na última parte da visita, tivemos que escrever num papel algumas perguntas existenciais, de acordo com o carácter filosófico de uma das provas. Porém, as únicas dúvidas que se abriram vinham introduzidas por palavras – palavras que, aliás, seriam perfeitamente comuns para uma pessoa galega: rematar, medrar, atopar… De repente, o castelo comunicativo que vínhamos construindo pareceu cair perante os olhos de desânimo de todas as partes. O amigo reintegrata, anfitrião chatíssimo sempre às voltas com a unidade linguística de galego e português, lá estava a trasladar aquelas frases como se de cadáveres de tratasse, como se de um intérprete de línguas estrangeiras se tratasse.

Mas a verdade é teimosa! Os atos individuais são uma parte muito pequena dos projetos de resistência e de justiça social. Quando xs interlocutorxs galegxs tiverem oportunidade de acesso a um ensino regrado e público do português, quando xs interlocutorxs dos países de língua portuguesa tiverem mais conhecimento da variedade galega, estes desencontros linguísticos aparentemente ínfimos cobrarão uma outra dimensão. Ou isso penso eu, ingénuo e convicto de mim, a acreditar em que a língua que falo e a cultura em que participo têm ainda a possibilidade simples e seca da existência. A naturalização das diferenças faz parte do processo de descolonização da Lusofonia, em que a Galiza está chamada a participar da sua posição estratégica, especialmente frente a Portugal.

Quando xs interlocutorxs galegxs tiverem oportunidade de acesso a um ensino regrado e público do português, quando xs interlocutorxs dos países de língua portuguesa tiverem mais conhecimento da variedade galega, estes desencontros linguísticos aparentemente ínfimos cobrarão uma outra dimensão.

venancioNo entanto, o quê diria Fernando Venâncio, autor do recentemente famoso Assim nasceu uma língua. Sobre as origens do Português (Guerra & Paz, Lisboa, 2020) Que as pessoas que defendemos o reintegracionismo só aceitamos a existência de uma norma para o português, nomeadamente a do português-padrão do eixo Coimbra-Lisboa. E, claro, que o nosso “projeto” pretende erradicar as palavras e entidades patrimoniais do galego para desgaleguizar a língua que falamos e escrevemos. Ah, senhores a explicar-nos cousas e cousitas; a dar-nos lições de como devemos falar, orientar os nossos projetos políticos e filosóficos, relacionar-nos, até existir… ou deixar de existir!

Vejamos rapidamente os motivos pelos quais o professor Fernando Venâncio decide dedicar a metade de um livro de mais de 300 páginas a atacar o reintegracionismo galego, em que participou no passado. Assim, poderemos melhor compreender por que esse tal livro foi abraçado por elites linguístico-culturais ligadas ao oficialismo galego, incluindo “tradução” (?) para o galego ILG/RAG na editora Galáxia e publicitação rápida e voraz na comunicação social e até no ensino, ainda quando se desconsidera nele toda a sociolinguística contemporânea.

Vejamos rapidamente os motivos pelos quais o professor Fernando Venâncio decide dedicar a metade de um livro de mais de 300 páginas a atacar o reintegracionismo galego, em que participou no passado. Assim, poderemos melhor compreender por que esse tal livro foi abraçado por elites linguístico-culturais ligadas ao oficialismo galego, incluindo “tradução” (?) para o galego ILG/RAG na editora Galáxia e publicitação rápida e voraz na comunicação social e até no ensino, ainda quando se desconsidera nele toda a sociolinguística contemporânea.

Em primeiro lugar, destaca-se o suposto carácter técnico e puramente científico da obra, por palavras do autor, que logo na página 19 começa a especular com o que denomina “reintegracionistas radicais da Galiza” (e sabemos o uso maleável e ideologicamente carregado do adjetivo ‘radical’). Os seguintes excertos dão conta dessa natureza pretensamente “positivista” e “científica”, na área estrita da linguística geral e da história da língua. Num estilo diferente, aplico metodicamente a dúvida e, portanto, respondo com algumas considerações e, sobretudo, perguntas.

Só que o movimento reintegracionista é conduzido, não por linguistas, mas por abnegados activistas. Por isso, nunca esse movimento desenhou um futuro linguístico numa Galiza real, a dum bilinguismo galego e espanhol, com um predomínio esmagador da língua do Estado. Os amadores de linguística que propõem a introdução dum padrão português na Galiza estão longe de imaginar a gigantesca envergadura que tal operação tomaria. Isto, se ela fosse desejável e, para começar, se fosse viável.

Quanto a isto, quanto à viabilidade do projecto, podemos ser breves. Antes ainda de poder tornar-se língua social dos galegos, o português ter-se-ia esvaído, literalmente trucidado pelo espanhol.” (p. 205)

– A maior parte do movimento reintegracionista é composta por filólogxs e, até, alguns desses “amadores da linguística” são doutorxs, professorxs em diversos níveis de ensino, formadorxs de professorado, etc. Mas se assim não fosse, nada de mau aconteceria.

– Pode sustentar-se uma oposição binária entre “linguista” e “ativista”, especialmente quando a tua língua é uma língua menorizada e atacada? O próprio Fernando Venâncio parece apagar essa distinção de forma prática e obstinada ao longo das páginas do seu livro.

– Não existe uma condução do movimento: funciona de forma descentralizada por meio de organizações e assembleias.

– Qual é o problema em que ativistas se situem à frente de movimentos sociais? Acaso não acontece noutro tipo de iniciativas?

– A viabilidade do projeto do galego oficial na Galiza de hoje não parece ser posta em causa. Quando uma pessoa galega lê “literalmente trucidado pelo espanhol” pensa antes no português do que na variedade galega, no aqui e agora da Galiza atual?

Não se dão os reintegracionistas conta deste descaminho? Não, porque a verdade é que o reintegracionismo galego nunca perseguiu, e provavelmente nunca pretendeu perseguir, um projecto linguístico. É um movimento de activistas ideológicos, para quem o idioma é um pretexto, uma estratégia, não um objecto de conhecimento.” (pp. 220-221)

– O que antes era inviável por ter como consequência a contaminação do português [qual português?], agora torna-se um projeto sem quaisquer finalidades de carácter linguístico, conformado somente por “activistas ideológicos” [existem activistas não ideológicos?].

– No regime de expropriação e discriminação linguísticas que sofremos as pessoas galegas, que tipo de implicações tem acusar-nos de que o idioma seja para nós “um pretexto”?

– É para o senhor Fernando Venâncio a sua língua, o português [que não quer de maneira nenhuma ver contaminado pelo galego, e pelxs galegxs!], um mero objeto de conhecimento? A tão honrada e citada “disciplina linguística” ensina-nos que os papéis das línguas são múltiplos e mutáveis: de meio de expressão e comunicação a instrumento de poder, de sistema de representação do mundo a dotação genética passível de performance e uso estratégico, etc.

Mas aqui trata-se de instalar um bilinguismo social. E o raciocínio sensato é este: se utentes que sabemos movidos por um ideal (um ideal respeitável, que até motivou dramas pessoais) desfiguram assim a língua que dizem estimar acima de todas, que sucederia no emprego de português pelos restantes galegos, gente séria e boa cidadã, mas também só isso? Não tenhamos dúvidas: iríamos assistir a uma desintegração do português em formas e dimensão hoje impossíveis de imaginar.

Um aspecto importantíssimo tem, mais uma vez, de ser vincado: nada disto tem que ver com o galego. Os desfiguradores agem como falantes nativos do espanhol, por mais que metam ao barulho a defesa do galego.” (p. 225)

– Para quem se deixar levar por essa formulação hipotética: o bilinguismo social já está de facto instalado na Galiza. Uma vez que o livro está pensado para um público português, faz sentido ponderar o efeito de afirmações como “iríamos assistir a uma desintegração do português em formas e dimensão hoje impossíveis de imaginar”, que pretendem mobilizar o medo ao tempo que ativam identificações nacionais sólidas (nós portugueses vs. eles espanhóis). Afinal, é esse o ponto central do posicionamento de Venâncio: o medo ao modo em que xs falantes galegos “do comum” iriam desfigurar o – seu – português.

Afinal, é esse o ponto central do posicionamento de Venâncio: o medo ao modo em que xs falantes galegos “do comum” iriam desfigurar o – seu – português.

– O que antes era apocalíptico agora passa a ser um “ideal respeitável”. E a expulsão das pessoas reintegracionistas de foros culturais, certames literários ou postos de trabalho é caracterizado como “dramas pessoais”. Nesta falsa e constante contraposição entre ciência/objetividade e amor/emocionalidade, chegamos a ver uma cosmovisão colonial na linha do Fraguismo e do “sentidiño” inoculado como única política dos afetos possível pelos poderes institucionais. Frente aos que estimamos a língua “acima de todas”, estaria a “gente séria e boa cidadã, mas também só isso” que representaria o conjunto das massas sociais galegas. Esse processo de psicologização do setor reintegracionista, arrinconado como minoria a perseguir, sem ligações reais – ou realistas – com a sociedade e o seu bom funcionamento, representa um autêntico passo discursivo colonial. Igualmente, reproduz um exercício de infantilização da sociedade civil galega a que, por outro lado, já estamos habituadxs.

E a expulsão das pessoas reintegracionistas de foros culturais, certames literários ou postos de trabalho é caracterizado como “dramas pessoais”.

– Contrariamente, e de repente, já nada tem a ver com o galego. Movemo-nos para o outro lado do tabuleiro e passamos a cair na outra categoria discreta desenhada pelo professor Venâncio, a dos “falantes nativos do espanhol”. E aqui importa a palavra “nativo” porque a autenticidade é uma peça central do processo de deslegitimação discursiva, no marco de uma tipologia de falantes e atores culturais em modo de compartimentos estancos. O que provavelmente desconheça o autor é que é essa mesma lógica que faz com que muitxs neofalantes se tornem reintegracionistas. Claro que, estxs novxs falantes entrariam também, provavelmente, na gaveta dos “desfiguradores” (para não esquecermos, lembra-nos de novo, mais à frente, a nossa responsabilidade no campo semântico da desfiguração: “Isto permite-nos perceber muito melhor o desfiguramento a que o português seria submetido, às mãos destes seus amantes” [p. 233]). De novo, pergunto: qual português?

Resultado: a carência dum linguista de profissão vem permitindo o predomínio, no seio do reintegracionismo, duma linguística ideológica e militante, vulnerável a todos os oportunismos. É oportunista o investimento nessa entidade inexistente, o português-padrão, é oportunista a negação de diferentes normas no português, é oportunista a afirmação duma unidade da língua com o português sem o mínimo esforço de comprovação. (…)

Enfim, e contra tudo quanto pudesse esperar-se, o reintegracionismo acaba actuando hoje, ideológica e linguisticamente, como suplementar factor espanholizante duma Galiza já saturada de espanholismo.” (pp. 238-239)

– Por simples curiosidade: qual é esse Pai-salvador no oficialismo linguístico? E, no reintegracionismo, não será Carvalho Calero esse “linguista de profissão” de que fala Venâncio? Ou será que a falta de estruturas hierárquicas e perfeitamente direcionadas do topo para a base se tem mostrado como uma das principais virtudes do projeto reintegracionista, que tem sabido ser transversal e ampliar a sua base social, apesar dos erros?

– Reconheçamos por um momento que o português-padrão não existe em absoluto: porque é que dedica tantos esforços, então, para o atacar e tentar desmontar, ao mesmo tempo que para o defender da contaminação? O português cujo emprego pelxs galegxs tanto temor causa no autor, que tipo de português seria? Por última vez: qual português é o constantemente supracitado português que ocupa o livro? E, noutro sentido, onde é que está essa tal comprovação da des-unidade da língua com o português entre estas páginas e excertos? A “linguística ideológica e militante” do professor Venâncio leva as costuras à vista.

– Mudemos a frase “como suplementar factor espanholizante duma Galiza já saturada de espanholismo” por “como factor espanholizante [galeguizante?] de um Portugal saturado de nacionalismo linguístico” e entenderemos os temores que vertebram o livro.

Fica assim, selado o fracasso da experimentação lusista. Como bons aprendizes de feiticeiro, os reintegracionistas radicais andaram a divertir-se com um brinquedo que lhes explodiu nas mãos. Não foi por falta de aviso.” (p. 242)

– Simplesmente: quais as razões para esta afirmação? Em que momento o desejo pessoal, embrulhado em linguagem bélica, se converte em facto? Não, senhor Fernando Venâncio, o reintegracionismo está, de facto, no seu melhor momento. Alguns dados diversos, sem qualquer arrumação: entrada de organismos galegos na CPLP, introdução progressiva do português no ensino e Lei Paz-Andrade, diversificação identitária nxs integrantes de organizações reintegracionistas (género, sexualidade, idade, etc.), simpatia por parte das faixas populacionais mais jovens, parcerias com outros ativismos e entidades, autocrítica incessante… Havia montes de pontos fracos contra os quais direcionar críticas, construtivas ou mesmo destrutivas, e o autor desta obra decide obviá-los. Alguns deles, como o ainda excessivo mascunilismo do movimento, entendo que não entrem no marco argumentativo de Fernando Venâncio, quem defende um positivismo purista e de acima para abaixo.

Não, senhor Fernando Venâncio, o reintegracionismo está, de facto, no seu melhor momento. Alguns dados diversos, sem qualquer arrumação: entrada de organismos galegos na CPLP, introdução progressiva do português no ensino e Lei Paz-Andrade, diversificação identitária nxs integrantes de organizações reintegracionistas (género, sexualidade, idade, etc.), simpatia por parte das faixas populacionais mais jovens, parcerias com outros ativismos e entidades, autocrítica incessante…

Um último fragmento pode dar conta do nível de inconsistência do discurso do professor. Nele fala acerca dos livros sobre erros frequentes no português e critica as bases que, afinal, sustentam o seu ataque ao reintegracionismo galego:

Aos olhos destes novos normativistas, tudo quanto, no idioma, não for lógico, racional, arrumadinho, feito a régua e esquadro, é banido como incorrecto, impróprio, condenável. O velho mantra «A língua está enferma» motiva-os, a todos, na nobre missão de nos desmoralizarem.” (p. 267)

Havia montes de pontos fracos contra os quais direcionar críticas, construtivas ou mesmo destrutivas, e o autor desta obra decide obviá-los. Alguns deles, como o ainda excessivo mascunilismo do movimento, entendo que não entrem no marco argumentativo de Fernando Venâncio, quem defende um positivismo purista e de acima para abaixo.

Frente a essa nobre missão de nos desmoralizar – claramente traumática – e até eliminar como movimento social, linguístico, cultural, político, etc., resistimos com paciência, trabalho, (auto)crítica e imaginação política. Há quem procure os caminhos mais ignotos e diversos, quem suborne grafias a preço de público. Eu continuo a defender a sobrevivência da minha língua, cujo sentido de ser consigo demonstrar facilmente, junto das outras variedades desta língua que no mundo se chama português, e sem precisar de envolver-me em argumentações filológicas para tentar justificar pontos de vista políticos. As minhas amigas, ao voltarem de Lisboa, começaram ou estão prontas a começar aulas de português. As estagiárias do museu ficaram a saber um par de palavrinhas galegas, para quando receberem mais visitantes da Galiza. E a vida, que não é mais do que um contínuo processo de desfiguração, segue o seu rumo.

Daniel Amarelo


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