Antonio María de la Iglesia nasceu um 13 de janeiro de 1822 em Compostela no seio de uma família de origem burguesa. De ideias liberais moderadas, o seu pensamento acabaria evoluindo ao federalismo e ao regionalismo. Foi uma peça chave no ressurgimento literário e, no entanto, aínda é pouco conhecido dentro da história do galeguismo, ensombrado por outras figuras da época como Rosalía, Pondal ou Curros. O seu periodo de formação e percurso vital passou sucessivamente por Madrid, Compostela e Corunha, cidade, esta última, na que morreria em 1892, un ano depois da fundação do regionalismo galego. Foi talvez a experiência madrilena e a distância com a terra, junto com o contato com outros galegos na capital do Estado, o que tenha feito despertar a sua consciência galeguista.
Em Compostela, Antonio de la Iglesia formou parte da segunda geração provincialista e integrou-se no Liceo de la Juventud de Santiago. Os membros da sua geração, jovens universitários, rebeldes românticos, viam na educação e na cultura os caminhos para revitalizar a imagem que, da Galiza e do galego se tinha além do Padornelo. Descobriram a Galiza e começaram reivindicar a sua língua, a interessar-se pelo seu passado, a procurar as origens da nação nos celtas ou nos suevos, em definitiva, tomaram consciência da sua própria identidade e elaboraram todo um repertório para a construção da nação galega. Um repertório que passava por escrever poesía na língua vernácula, por elaborar dicionários, antologias e gramáticas, por desenvolver a disciplina arqueológica, por levantar monumentos ou por criar um relato mítico da nação. O seu veículo de expressão e modo de intervenção pública seria a imprensa e as revistas literárias. O próprio Antonio e o seu irmão Francisco foram os fundadores de uma delas, a corunhesa Galicia,revista universal de este reino (1860-1865), na que publicaria trabalhos literários e históricos.
Em Compostela, Antonio de la Iglesia formou parte da segunda geração provincialista e integrou-se no Liceo de la Juventud de Santiago. Os membros da sua geração, jovens universitários, rebeldes românticos, viam na educação e na cultura os caminhos para revitalizar a imagem que, da Galiza e do galego se tinha além do Padornelo.
Instalado na Corunha, De la Iglesia foi um dos organizadores dos primeiros Jogos Florais em 1861,uns Jogos considerados fundacionais da literatura galega contemporânea e que seguiam o modelo dos Jocs Florais que se celebraram na Catalunha em 1859. Neles, Antonio de la Iglesia defendeu que o galego era falado em “su actual uso con ligeras variantes por más de once millones de personas”, para afinal assinalar “Muchos desdeñan las cantigas de Alfonso o Sabio porque jamás han leído los poemas de este afamado rey”. Como observamos, segundo Antonio de la Iglesia o galego falava-se na atualidade não só na Galiza, mas também em Portugal e nos países de língua portuguesa e a seguir, lamentava o escasso conhecimento das cantigas alfonsinas, composições que demonstravam a origem comum do galego e do português. Um ano mais tarde, o 1 de abril de 1862, insistiu no mesmo argumento assinalando, com maior ênfase: “La lengua de Portugal es nuestra lengua”. Foi num artigo intitulado “Portugal” publicado no número sete da revista Galicia que dirigia com o seu irmão. Nesta ocasião, De la Iglesia apresentava uma poesia portuguesa e indicava seguidamente que, no caso de querer traduzí-la para o galego, as mudanças seriam poucas, havendo apenas “una variación de dialecto, mucho menor que la que media entre una producción andaluza traducida al castellano ó vice-versa”. Nesse artigo voltava a aparecer Alfonso X o Sabio, por meio da reprodução de uma das suas cantigas.
Mas Antonio de la Iglesia não fora o único que, naquela época, defendera a existência de uma identidade comum entre o galego e o português. Em 1863, o mesmo ano da aparição de Cantares Gallegos de Rosalía de Castro, José López de la Vega, poeta e colaborador de revistas portuguesas e brasileiras afirmava que: “la analogía que hay entre el idioma portugués y el gallego, nos hacen creer que es fácil unir ambos y formar un lenguaje rico y sonoro, que pueda rivalizar en expresión y dulzura con el italiano y en fecundidad con el germánico”.
A partir de 1868, o pensamento de Antonio de la Iglesia evoluiu no sentido dum federalismo aberto à integração com Portugal. Mas Portugal e o português já eram um referente de emulação para aqueles exiliados românticos, ativistas e homens de acção que, como Romero Ortiz, Antolín Faraldo ou Francisco Añón tiveram que fugir ao pais vizinho depois do fracasso do levantamento de 1846. Uma mostra desse interesse foi a publicação em 1869 do livro “La literatura portuguesa en el siglo XIX”, onde o seu autor, RomeroOrtiz, assinalava:
“A pesar de lo abandonado que está el dialeto gallego es todavía grande su semejanza con la lengua portuguesa. D. Alberto Camino publicó en El Porvenir de Galicia, revista literaria que hemos dado a luz a principios de 1846, (…) una composición titulada o Desconsolo (…). Esta composición escrita en gallego puro, comienza así: D’esta fontinha à beira froleada/ sentado á sombra de um chorom estou/doido o peito á alma esconsolada/ triste morrendo pouco a pouco vou/ etc. Esta redondilla es perfectamente portuguesa, si se exceptúa el adjetivo esconsolada, que tampoco se puede utilizar en gallego sino como una licencia poética. La misma identidad de los dos dialectos se encuentra en los versos numerosos del Dr. Vicente Turnés y en las sátiras del infortunado A. Benito Fandiño”.
Note-se como o modus operandi de Romero Ortíz era o mesmo que, com anterioridade, utilizaram Antonio de la Iglesia ou Jose López de la Vega, ou seja, empregar os poemas dos seus companheiros de geração para demonstrar a existência de uma identidade comum entre a língua galega e a portuguesa. Mas para além desta defesa da unidade lingüística, Antonio de la Iglesia também contribuiu à difusão e conhecimento dos cancioneiros medievais, peças fundamentais na explosão dos debates ortográficos nas revistas literárias do Regionalismo. Foi através da publicação em 1886 de El idioma gallego: su antigüedad y vida, livro produto de seu interesse por Portugal e dos contatos repetidos que Antonio de la Iglesia manteve com Teófilo Braga entre 1885 e 1886. De facto, em El idioma gallego, Antonio incluiu composições tomadas do Cancioneiro da Vaticana publicado em 1878 pelo intelectual português. Quando a professora Pilar Vázquez Cuesta quis escrever sobre a relação entre os galegos e Portugal, teve que fazer referência a este mesmo livro e as palavras do seu autor. Vejamos:
“Aún hoy se habla el idioma galaico no sólo en el país ya mermado de las dos Galicias Lucense y Bracarense sinó en parte de sus dominios que abrazaron a la inmortal Numancia(…) Háblalo por precisión el Portugal que es raza, sangre y reconquista nuestra y con él sus extendidas posesiones de África, Asia y Oceanía y ese vasto y riquísimo imperio del Brasil en la Meridional América; (…) Nos quedamos cortos al decir que todavía el idioma gallego es pura y directamente hablado por quince millones de habitantes diseminados por todo el globo y, más o menos, estudiado y conocido por otros veinte y tantos millones más”.

El idioma gallego: su antigüedad y vida recebeu fortes críticas das elites políticas espanholas, entre eles, Emilio Castelar, preocupados perante o aumento do discurso lusófilo. Dois anos mais tarde da aparição de El idioma gallego, Antonio de la Iglesia publicava o poema “Ortografia Gallega”. Nele assinalava como o galego tinha pais nobres e séculos de antiguidade, nascendo antes do que a língua de Castela. E acaba recomendando aos bons literatos o estudo e prática etimológicas e a olharem para os poetas e escritores de Portugal, pois empregam a mesma língua.
Em opinião do historiador Ramón Villares, em Antonio de la Iglesia temos a um representante das elites culturais do provincialismo que, utilizou a agitação cultural para forjar uma ideia da Galiza como sujeito cultural e político, alternativo (ou no seu caso, complementar), ao processo de nacionalização espanhol. Para Saurín de la Iglesia, autora da biografía dos três irmãos, Antonio de la Iglesia foi, simplesmente, o autêntico configurador do concepto de Galiza como nação cultural.
O seu decissivo trabalho em diferentes âmbitos e a publicação e difussão dos cancioneiros medievais, situam a Antonio de la Iglesia como um dos mais importantes vultos da história do galeguismo, mas também, e como procuramos demostrar no presente artigo, num lugar destacado na História do Reintegracionismo.
