PGL – Ângelo Pineda, 29 anos, licenciado em Sociologia pola UdC e colaborador do Portal Galego da Língua com a coluna ‘Hostilidade avançada’. Actualmente trabalha numha fundaçom em Terrassa (Países Cataláns) de assessor laboral para pessoas com deficiência e de técnico de igualdade, com a firmeza em mente de poder estabelecer-se definitivamente na Galiza.
Sócio da AGAL desde setembro de 2007, está envolvido em projectos de todo tipo e ainda tira tempo para a investigação. É possível que em breve vejamos um trabalho seu de pós-graduado em catalám sobre o conflito linguístico existente no nosso País.
Esta foi a conversa que tivemos com ele:
PGL – Caro, os leitores do PGL conhecem-te polos teus artigos na coluna Hostilidade avançada mas, para saber-mos mais do Ângelo Pineda, podes falar-nos um pouco de ti?
 – Bem, não há muito que contar! Tenho 29 anos e moro na Catalunha desde há 3, onde exerci de sociólogo em âmbitos como a análise da comunicação política, a igualdade e a atenção a coletivos em situação de vulnerabilidade social. Gosto muito da minha ocupação.
Antes, na Galiza, tinha feito um pouco de tudo em condições de trabalho não demasiado dignas… Agora não é que esteja para soltar foguetes, mas vivo de modo mais folgado de empregos que se ajustam dalguma maneira à minha formação.
Além disso, sou um saco de inquedanças, que vão da política até o cinema. Embora goste e admire muitas coisas da Catalunha, confio em estabelecer-me definitivamente na Galiza. É duro viver sem radónio (risos).
PGL – Que te levou a aderir à estratégia galego-luso-brasileira?
 – Suspeito que tive menos preconceitos com o assunto do que muita gente devido a um fator: passei muitos anos fora do País. De facto, nasci numa vila andaluza e a minha identificação com a Galiza veio por via familiar. O caso é que as minhas circunstâncias permitiram-me ver com certa objetividade a questão.
Quando em 1996 entrei em contacto com a argumentação do reintegracionismo graças ao Língua Nacional, vi que era uma posição lógica e aderi quase imediatamente.
PGL – Que visom tinhas da AGAL, que te motivou a te associares e que esperas da associaçom?
 – Devo reconhecer que a visão que tinha da Agal não era demasiado positiva. Dalguma maneira pensava que era um coletivo que em grande medida pecava dum “elitismo ilustrado” bastante desalentador.
A minha opinião foi mudando quando conheci sócios e sócias que não encaixavam com a imagem que me tinha formado. O proselitismo paciente dalgum deles acabou por convencer-me.
As minhas expectativas a respeito da Agal são muito básicas: trabalhar para socializar o projeto reintegracionista de maneira séria e integradora. Se faz (fazemos) isso, eu contente.
PGL – Na tua experiência como galego na Catalunha, o galego tivo algumha utilidade para ti?
 – Teve. O galego valeu-me para aprender catalão de maneira muito mais rápida, o qual valoriza-se muito numa sociedade preocupada pela promoção da sua língua.
Por outro lado, nalgum processo de seleção de pessoal têm considerado a minha capacidade para entender e comunicar-me com pessoas lusófonas como um valor acrescentado à minha candidatura para uma vaga de trabalho.
PGL – Lá na Catalunha participas no Espaço Galego, conta-nos mais
 – O Espaço Galego dos Países Catalães nasceu há 5 anos num contexto concreto de crescente associativismo das pessoas migradas na Catalunha e de mudanças políticas na Galiza. Então, as motivações do pessoal que nos reunimos para “montar algo” eram muito diversas e por vezes não foi fácil conciliá-las.
Algumas pessoas queriam restabelecer ligações de tipo cultural com o País, outras ressuscitar a experiência da Plataforma Nunca Mais da Catalunha; parte do pessoal queria coordenar a atividade das diferentes associações galegas na altura, outros realizar ativismo pelos direitos da Catalunha e da Galiza…
Todos e todas nós tínhamos em comum um descontentamento com os organismos que oficial ou oficiosamente exerciam a representação da Galiza no Principado. Desde então, aconteceram muitas coisas e o Espaço virou em mais um membro do novo tecido associativo galego na Catalunha.
Eu acho que contribuímos com um matiz necessário nesse tecido. Somos a parte mais crítica ou “politizada”, por dizê-lo dalgum modo, e penso que estamos fazendo um trabalho modesto mas interessante. Atualmente, estamos desenvolvendo uma série de projetos que com certeza acordarão curiosidade.
PGL – Algumhas sugestons para quando visitemos a Catalunha?
 – Falta-me muito por conhecer do Principado, mas do que visitei estes anos: se gostardes da natureza, fazei uma excursão pela zona vulcânica da Garrotxa ou subi ao cume de Santa Maria dels Àngels.
Vilas com encanto também há muitas na região norte-oriental: Santa Pau, Girona, Castellfullit de la Roca, Verges, Setcases, Peratallada, Ripoll, Camprodon… Muito linda a zona velha de Sitges, é muito recomendável ir durante o festival de cinema.
Para divertir-se à noite, a zona do centro de Sabadell é ótima. E no que se refere à cultura tradicional… qualquer coisa: quines, diables, castells, ball de bastons, calçotades…
PGL – De onde vem o teu interesse pola sociologia?
 – O meu interesse pela sociologia… vem de Fraga (risos). Dalguma maneira é assim, queria ter elementos para conhecer uma sociedade (a minha) que me desconcertava em muitos aspetos. Comprovei que não era o único que tinha esta motivação…
Desgraçadamente, a Universidade da Corunha é um exemplo de organismo colonial: o ensino que se ministrava estava absolutamente de costas viradas à realidade do País e se, no meu caso, a sociologia era algo vocacional, não posso dizer o mesmo da maioria do professorado que nos tocou.
Recentemente recuperei o meu interesse pela disciplina. Não foi só por motivos profissionais. Preocupa-me certo estado de popularização e de tolerância a respeito de ideias retrógradas sob verniz liberal.
Acho que até certo ponto, esta banalização da reação é responsabilidade de equipas de comunicação que situam em lugares privilegiados indivíduos especialistas em não se sabe bem o quê, e que ademais contam com o silêncio ou a cumplicidade dos principais partidos políticos espanhóis e das elites económicas.
A sociologia, o conhecimento científico da sociedade, é o melhor contraveneno ideológico para este “fascismo light” que nos custará caro se não pormos remédio.
PGL – Tenho entendido que fizeste umha investigação de pós-graduado em catalão sobre o recente conflito linguístico na Galiza. Podes adiantar-nos algo?
 – Fiz. A investigação era parte do curso de pós-graduação em Conflito e Violência Social, na Universidade de Barcelona, e a escolha do tema tem a ver com a preocupação que comentei antes e do qual acontecimentos recentes são uma boa expressão.
Como na Galiza “não há conflito linguístico” a UdC não considerou formar-nos em Sociolinguística, pelo que foquei a questão desde uma perspetiva puramente sociológica.
Interessou-me mostrar como os discursos sobre a língua tinham uma coerência com discursos sobre outras questões (económicas e políticas). Centrei-me nos argumentos falazes (erros de lógica) das colunas de opinião dum diário cuyo nombre no quiero acordarme para mostrar como funciona a propaganda.
Sobre a sua efetividade, dei algum toque sobre como a metaideologia conservadora afeta discursos pretensamente galeguistas… Em definitivo, foi um trabalho muito duro que obteve uma alta valorização.
Estou pensando em rescrevê-lo e alongá-lo tematicamente para um público galego e procurar edição. A versão original catalã era excessivamente pedagógica, já que as questões relativas a Galiza são tão exóticas na Catalunha como a situação política do Nepal.
PGL – Tanto no tratamento da investigação como no dos artigos que escreves, adverte-se uma carga política considerável…
 – É evidente que na minha produção há uma importante intencionalidade política. Não o nego. Procuro ser consciente deste limite na hora de realizar um trabalho objetivo. Ora bem: posso ser objetivo, mas não neutral. Ninguém pode.
Há quase 15 anos que participo em maior ou menor grau da esquerda independentista e isso tem-se que notar. Aliás, é bom que se note. Sob o meu ponto de vista, não é compreensível que grande parte do nacionalismo galego dinamite as suas exigências pondo como escusa a consciência política do povo. Posso entender que por pragmatismo ou por pedagogia se rebaixe o tom das reivindicações, mas não os próprios objetivos. Sem eles, de nada serve a Galiza o seu nacionalismo.
Eu comecei como ativista por causas um tanto românticas, mas hoje acho que é uma necessidade que na Galiza se fale de maneira aberta e natural de independência.
Se continuarmos de apoucados, se persistirmos em fazer-nos de resignados como o Balbino de Neira Vilas, estaremos empecilhando as possibilidades do País.
Conhecendo Ângelo Pineda
- Um sítio web: Um que está pronto a nascer e que se for como me comentam os seus promotores, será de obrigada visita http://www.diarioliberdade.org/
- Um invento: A imprensa.
- Umha música: A change is gonna come, de Sam Cooke. É a cançãozinha que põem nos filmes sempre que matam Malcolm X.
- Um livro: Todos os da série Os caminhos da liberdade, de Jean-Paul Sartre.
- Um facto histórico: A revolução dos cravos de Portugal.
- Um prato na mesa: croquetes.
- Um desporto: futsal feminino (temos seleção e somos sub-campeãs de Europa e do Mundo).
- Um filme: Um bom do que gosto: Prima della revoluzione de Bertolluci. Um mau do que gosto: The Football Factory.
- Umha maravilha: O Seixo Branco, pela zona de Mera.
- Além de galego: curioso.

