AS AULAS NO CINEMA

Ajudar os deficientes visuais, com o filme ‘Simitrio’



O dia 15 de Outubro é o Dia Internacional da Bengala Branca, símbolo de independência, liberdade e confiança das pessoas cegas. Estabelecido pela Federação Internacional de Cegos, em 1970, este dia tem como objetivo reconhecer a independência das pessoas cegas e a sua plena participação na sociedade, pois a sua utilização permite ao deficiente visual movimentar-se livremente. A conhecida bengala branca é utilizada por deficientes visuais em muitos países. A sua história começou em 1921 quando James Biggs, fotógrafo de Bristol, Inglaterra, ficou cego depois de um acidente. Por se incomodar com a quantidade de trânsito que havia perto da sua casa, ele pintou a sua bengala de branco para ficar mais visível. Hoje a Bengala Branca é amplamente aceite como “símbolo da cegueira” e vários países têm regras distintas relacionadas ao que constitui uma “bengala para cego”.

Segurança, autoconfiança, independência devem ser naturalmente proporcionadas aos indivíduos cegos treinados, pelo seu instrumento básico de locomoção: a bengala. A literatura histórica sobre as pessoas cegas informa-nos sobre gravuras muito antigas de homens cegos empunhando bastões ou acompanhados de cães. As irregularidades dos caminhos e estradas constituíam-se em obstáculos quase intransponíveis para a locomoção de indivíduos cegos de modo independente. Os deficientes visuais valiam-se, normalmente, de guias videntes. Limitavam-se a viver em ambientes restritos e exercer atividades em regime sedentário. A criação de escolas para cegos, iniciada por Valentin Haüy em 1784, a invenção do Sistema Braille por Louis Braille em 1825, o exercício de diversificadas atividades profissionais desde então, demandavam soluções práticas para minimizar as grandes dificuldades de locomoção dos deficientes visuais. Datam da primeira metade do século XX as primeiras iniciativas concretas e a aplicação de recursos materiais efetivos que passaram a garantir a locomoção independente das pessoas cegas. A primeira providência no sentido de serem usadas bengalas brancas com extremidade inferior vermelha, para identificar o seu portador, suscitar eventuais ajudas pelos pedestres videntes e alertar os condutores de veículos, foi de George Benham, presidente do Clube dos Liões do estado de Illinois (USA), em 1930. O norte-americano, Dr. Richard Hoover (1915-1986), professor especializado no ensino de cegos, engajado na reabilitação de militares deficientes na década de 1940, desenvolveu técnicas específicas de locomoção e criou um modelo padronizado de bengala longa, hoje universalmente adotados.

O Dia Internacional da Bengala Branca de Segurança foi instituído em 1970, tal como antes citei, sob iniciativa da Federação Internacional dos Cegos, em Paris. Diversos países hoje comemoram este dia como meio de divulgar o alcance das conquistas das pessoas cegas no exercício de seu direito de transitar nos lugares públicos, nos locais de lazer e na locomoção para os ambientes de trabalho de forma independente. Alguns desses países adotaram legislação especial sobre a matéria. O americano Dr. Ten Broek, cego desde tenra idade, brilhante professor universitário, elaborou um modelo de lei sobre a Bengala Branca, que em seu primeiro artigo estabelece: “É política deste País estimular e capacitar os cegos, os deficientes da visão e os deficientes físicos a participar plenamente da vida social e econômica do Estado e serem aproveitados em atividades remuneradas”.

Resulta muito importante sensibilizar todos os cidadãos sobre a problemática dos deficientes visuais, e a sua integração na sociedade, o qual nos remete a várias considerações sobre as razões de comemorarmos o dia 15 de outubro a cada ano: A garantia do direito dos invisuais de ir e vir, a preservação da sua privacidade, a condição de executarem tarefas com autonomia, a possibilidade do cumprimento de compromissos sociais e profissionais, a indispensável segurança no caminhar e a preservação da sua integridade física. Um dos temas mais importantes é a educação e a escolarização das crianças com deficiências visuais. O método de ensino mais conhecido para ensinar as crianças invisuais a ler é o criado pelo francês Braille. O sistema Braille é um processo de escrita e leitura baseado em 64 símbolos em relevo, resultantes da combinação de até seis pontos dispostos em duas colunas de três pontos cada. Pode-se fazer a representação tanto de letras, como algarismos e sinais de pontuação. Ele é utilizado por pessoas cegas ou com baixa visão, e a leitura é feita da esquerda para a direita, ao toque de uma ou duas mãos ao mesmo tempo. O código foi criado pelo francês Louis Braille (1809 – 1852), que perdeu a visão aos 3 anos e criou o sistema aos 16. Ele teve o olho perfurado por uma ferramenta na oficina do pai, que trabalhava com couro. Após o incidente, o menino teve uma infeção grave, resultando em cegueira nos dous olhos. O código Braille não foi a primeira iniciativa que permitia a leitura por cegos. Havia métodos com inscrições em alto-relevo, normalmente feitas por letras costuradas em papel, que eram muito grandes e pouco práticas. Quatro anos antes de criar o seu método, Louis Braille teve contacto com um capitão da artilharia francesa que havia desenvolvido um sistema de escrita noturna, para facilitar a comunicação secreta entre soldados, já utilizando pontos em relevo. Braille simplificou esse trabalho e o aprimorou, permitindo que o sistema fosse também utilizado para números e símbolos musicais. A falta de informação é ainda o principal problema para o uso do método. Muitos professores acham que é simples ensinar o Braille a um aluno cego. No entanto, a alfabetização com esse sistema tem suas especificidades, e o professor, para realizar essa tarefa com êxito, tem de buscar ajuda em especialistas.

Escolhi, para o meu comentário e para sensibilizar sobre tão importante tema, um filme em que o que tem deficiências visuais é o professor, em vez dos estudantes. Que aliás é um professor rural modelar.

FICHA TÉCNICA DO FILME:

  • Capa do DVD do filme

    Capa do DVD do filme

    Título original: Simitrio.

  • Diretor: Emílio Gómez Muriel (México, 1960, 90 min., a cores).
  • Roteiro: Jesús Cárdenas, Juan de la Cabada e E.Gómez Muriel, segundo o conto de Tomás Córdova.
  • Música: Gustavo César Carrión. Fotografia: Jack Draper.
  • Produtora: Producciones Corsa S.A.
  • Atores:José Elias Moreno (O professor D. Cipriano), Javier Tejada (Luís Ángel), Carlos López Moctezuma (D. Fermín), Roberto Álvarez, Felipe Lara, Rodolfo Landa filho, Ramiro Barroso, Carlos Huerta e Francisco Curiel (os seis como estudantes), Mª Teresa Rivas (Victória Cortés), Emma Roldán (Catalina), José Loza (António), Amado Zumaya (Carlos), Manuel Vergara “Manver” (Pedro), Pepe Hernández (Adalberto), Julio Alemán (Fernando), Irma Dorantes (Margarita), Roberto G. Rivera (Capião), Enrique Lucero (Pai de Simítrio), Ada Carrasco (Mãe de Simítrio), Armando Gutiérrez (Sr. Governador) e Armando Velasco (Sr. Diretor).
  • Prémio: Pérola do Cantábrico à melhor longa-metragem de fala hispana no Festival de Donostia de 1960.
  • Nota: Resumo de 24 min., em Youtube
  • Argumento: D.Cipriano é um velho e quase cego professor rural, com caráter forte, mas com um coração grande, que tem de lidar com uma equipa de estudantes dificilmente corrigíveis e malfeitores. Um dia, um deles, Simítrio, deve deixar a aldeia de emergência com os seus pais e não lhe dá tempo de avisar a escola, de modo que os pais de Simtrio encarregam a um aluno companheiro, Luís Ángel, que avise o professor D. Cipriano. Claro que ninguém o faz, e os alunos são responsáveis por jogar com o seu professor mil e uma brincadeiras e travessuras, em nome de Simítrio, aproveitando-se de que o seu professor é velho, humilde e míope. Mas que tem uma grande vocação, e ademais entregou a sua vida ao ensino numa aldeia rural afastada da cidade. A sua capacidade como professor põe-se à prova por um aluno chamado Simítrio, que na realidade são todos os seus alunos, pregando-lhe partidas, aproveitando a sua bondade, inocência e vidência muito limitada. D. Cipriano, magistralmente interpretado, destaca pelo seu grande compromisso com a infância e a comunidade, as altas expetativas que gera com os seus alunos e o grande apreço que lhe tem o povo em geral.

 

UM ESTUPENDO PROFESSOR COM DEFICIÊNCIA VISUAL:

Composição com quatro fotogramas do filme

Composição com quatro fotogramas do filme

O filme Simítrio desenvolve-se numa aldeia onde a educação naquela altura era dividida entre escolas para rapazes e escolas para meninas. O professor da escola de rapazes é uma pessoa já velha que desgraçadamente está a perder a vista, pelo que é alvo perfeito para as partidas dos seus alunos. Ao início da fita vemos como os pais do rapaz chamado Simítrio, que o tinham inscrito antes nesta escola, solicitam aos seus companheiros que lhe comentem ao professor que o seu filho não pode iniciar a escola, pois tem que partir com eles para outro lugar onde o pai arranjou um trabalho. Mas os companheiros escolares não comentam nada ao professor sobre a ausência do Simítrio, e assim poderão pregar-lhe partidas ao seu professor e culpar o Simítrio. O professor encomenda aos escolares mais velhos para realizar algumas atividades em que ele tem algumas dificuldades, enquanto os mesmos alunos se fazem passar pelo Simítrio para pregar-lhe partidas ao seu professor sem que este saiba quem é na realidade e não serem castigados. Ao mesmo tempo uma inspetora de ensino da cidade quer fazer uma inspeção da escola, mas ninguém na aldeia lhe permite realizá-la, por medo a que despeçam D. Cipriano do seu trabalho de professor rural. Com cada travessura o professor tentava que o Simítrio mudasse de comportamento, e foi-se afeiçoando a ele. Quando chega o momento de contar ao professor a verdade, os alunos comentam que o Simítrio teve de ir embora, pelo que, muito triste pela notícia, o professor decide que nesse dia não há aulas. Entretanto, na aldeia tinha lugar uma espécie de revolta dos vizinhos contra a inspetora. Quando esta se deu conta do motivo de tudo, retirou-se e concedeu a D. Cipriano um reconhecimento pelo seu labor. Então o aluno Luís Ángel vai à casa do professor e conta-lhe a verdade real de tudo. O professor não se incomoda, senão que ainda se aproxima mais dele, tomando-o mais como amigo que como aluno seu. E este aluno, o mais inteligente e nobre de todos (que mesmo inventava travessuras curiosas, encobrindo-se atrás do Simítrio), acaba por ser o guia do professor quase invisual, enquanto este jura que vai fazer dele um homem de bem. Certamente, o melhor reconhecimento para um professor é o amor dos seus alunos mais que outra cousa, e ademais este professor ganhou também a estima e respeito de toda a aldeia, onde cada vizinho daria a vida por ele.

D. Cipriano é um modelo de professor vocacional, totalmente entregue ao seu ofício, sempre com um sorriso e uma bondade e paciência intermináveis. Que ademais soube ganhar a estima dos cidadãos da aldeia onde ensina. Ao início, um narrador comenta que este professor é tão bom que as crianças saem sabendo mais que seus pais. A vestimenta do professor lembra a clássica que os professores costumavam usar naquela altura, um fato que mostrava uma boa apresentação. Depois de entrar na sala de aula, o professor faz a chamada, e é quando nomeia os de novo ingresso, entre eles o Simítrio. Luís Ángel reponde na vez dele, e o professor dá por certo que o Simítrio exista e esteja a frequentar a escola. Na seguinte cena, aparece D. Fermín, primeiro vereador da aldeia, rifando à sua filha Catalina porque não quer que tenha relações com um humilde rapaz da aldeia chamado Fernando. Após esta cena, aparece a sua criada e diz ao patrão que uma senhora bem vestida, chamada Victoria Cortés, espera por ele. O realizador, para nos meter no ambiente, com sensibilidade inicia a fita com belas imagens dos vales rurais mexicanos, semeados de fazendas e povoados tão pequenos que não poderiam suster uma escola. Por esta razão o Estado mexicano estabeleceu estrategicamente uma escola rural neste lugar tão retirado.

A personagem fundamental do filme é o Simítrio, aluno inventado pelo grupo de alunos, utilizando a sua ausência, para fazê-lo protagonista de todas as travessuras que o grupo inteiro realiza, aproveitando a grande deficiência visual de D. Cipriano. As travessuras têm engenho e requerem certas habilidades para as levar a efeito. Mas em nenhum momento se deixa de lado o trabalho escolar que o professor encomenda que seja realizado. Inclusive a obediência e grande respeito ao professor está acima de tudo, chamando a atenção a solidariedade e o trabalho em equipa dos alunos, feito de maneira extracurricular, para aquele tempo em que a educação era individualizada e individual. No filme existe um aluno que representa o coletivo, como um seu líder, o qual o professor reconhece como talentoso e genial pelas suas travessuras, e chega a considerar que ajudá-lo é para ele, o professor, muito importante. Tanto, que só pensa em como influir para que termine sendo um homem de proveito dentro da sociedade. Mesmo pensa nisto andando do caminho da escola para casa, fazendo projetos a longo prazo para influir nele positivamente. O que o faz também um professor inovador, pois respeita os alunos criativos e com talento, embora fossem trastes na sua conduta e comportamento. O que não era nada habitual nas escolas da época. E um professor adiantado aos tempos, ao desenvolver nos seus alunos as inteligências múltiplas dos mesmos, tendo em conta as aprendizagens apreciativas e variadas, ao realizar atividades musicais e artísticas e passeios recreativos. Que se completavam com as atividades espontâneas dos mesmos alunos, na organização de travessuras em trabalho colaborativo. Com a sua atitude e atuação, o professor irradiava luz tanto dentro da sala de aula como fora da escola, já que no povo nunca deixava de ser também professor dos adultos e conselheiro das famílias. E assim a sua autoridade era natural, sem ter que impor nada. Infelizmente, este tipo de professores na atualidade, com ambientes e circunstância muito diferentes, são “ave rara”. E mesmo, por desgraça, de forma imoral e injusta, existe uma subvalorização social do seu importante trabalho, entre os cidadãos.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Depois de ver este belo filme mexicano, utilizando a técnica de dinâmica de grupos do “cinema-fórum”, debater sobre os aspetos fílmicos do mesmo, o roteiro e a linguagem cinematográfica utilizada pelo diretor, os planos, os “travellings”, os “flashbacks”, os movimentos de câmara de rotação e deslocamento, a montagem e a trilha sonora e outros recursos fílmicos que aparecem na fita. Também sobre a psicologia e as atitudes das diferentes personagens que aparecem no mesmo, especialmente as dos estudantes, a do professor e as dos vizinhos da aldeia onde se encontra a escola rural.

Realizar uma monografia sobre o Sistema Braille para ensinar a ler e escrever às crianças invisuais. Para elaborá-la pode consultar-se a Internet e também livros e revistas. Com o material recolhido, seria igualmente interessante organizar nos estabelecimentos de ensino uma amostra ou exposição, ilustrada com fotos, frases, textos e aforismos.

Para sensibilizar os estudantes sobre as necessidades vitais dos invisuais, e celebrar o Dia da Bengala Branca, seria bonito levar aos estabelecimentos de ensino pessoas invisuais, que para andar pelas ruas das cidades têm que levar uma bengala, ou ir acompanhados de guias. Utilizando a técnica de dinâmica de grupos do “Semáforo” ou “Entrevista pública”, os escolares poderiam perguntar a estas pessoas sobre as suas necessidades mais importantes na sua vida. Poderia convidar-se também representantes da ONCE, para conhecer as atividades que realizam a favor dos invisuais e conhecer o papel que, desde há muitos anos, desenvolve esta instituição.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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