A mudança que queremos ver



texto extraído de Praza

“Temos de nos tornar na mudança que queremos ver”. Assim falava Gandhi e isso é que visa conseguir o curso de verão da USC Galego, porta aberta para o mundo 2. No ano passado, na primeira edição organizámos foros diversos: da política institucional às empresas, do ensino às editoras ou às televisões para debatermos sobre a questão da língua. A consequência foi um “sim” praticamente unânime ao ensino do português na Galiza. A única voz que mostrou reticências não procedia nem dos partidos políticos nem da filologia. Era o editor Francisco Castro que, gentil e generosamente, acudiu à nossa convocatória para lá expressar as suas reservas. Agradeci imenso que aceitasse o convite porque era o início dum diálogo. Agora, quase um ano depois, reitera essas reservas por escrito. O assunto é complicado. Se o parlamento galego aprovou por unanimidade a lei Paz Andrade, surgida duma iniciativa popular, e um movimento social está a pressionar para o seu obrigado cumprimento, é desolador que uma editora histórica levante a voz na contra. Quando pensávamos estar a assistir a um desses momentos históricos em que é obrigado declarar “mudam os tempos, mudam as vontades”, observamos que alguns protagonistas dos debates não querem que as vontades mudem.

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O galego está a morrer. Essa é uma verdade incontroversa. Nesse contexto, uma parte de ativismo em defesa da língua pretende inverter o processo de substituição usando armas historicamente conhecidas. A origem comum de galego e de português e a vizinhança real de ambos os povos podem servir para internacionalizar o galego. Reconhecê-lo como uma variedade no conjunto da lusofonia pode restituir a autoestima [email protected] falantes e, como contribuirá para a sua qualidade, até deter o processo fortíssimo de hibridação com o castelhano. O ativismo que defende este posicionamento sofreu e sofre Apartheid. Boa parte da sociedade galega, escrevendo em qualquer normativa, detesta essa exclusão. Nas elites, qualquer coisa começou a mudar, visto que o presidente da RAG ou o diretor de Galaxia não falam já do reintegracionismo como uma ameaça e reconhecem em atos públicos a necessidade de aprendermos português na escola. Nos movimentos sociais, alguns sugerem um binormativismo. A Academia Galega da Língua Portuguesa, na sua condição de parceira local da Cátedra Unesco de Multilinguismo tem começado os encontros entre pessoas comprometidas com a língua com o objetivo de idealizarmos a sociedade galega de 2030 ou 2040; trata-se duma política de mediação linguística complexa e profunda. Seria possível, por exemplo, imaginar a reticência de quem escreve em galego ILGA e manteve hostilidade durante décadas para o grupo lusista. Mas seria possível igualmente, imaginar a tensão criada entre a comunidade que usa o galego internacional porque muitas pessoas não aceitaríamos um modelo à norueguesa que fosse entendido como escrever numa norma regional dentro da casa e na norma comum lá fora. Finalmente, temos necessidade de criar foros de debate honesto com compromissos que impulsionem a entrada da Galiza na CPLP.

Não quero introduzir mais polémicas. Obviamente, não coincido com quem pensa que os debates universitários são peregrinos ou especulativos, convicta como sou de que o futuro está nas mãos das pessoas que encontro cada dia nas aulas e de que o pensamento é a chave para a ação. Mas escuto com prazer que a lusofonia é o caminho. Obviamente, não coincido com que um grupo deitado nas bermas do poder tenha que ceder em nada; bastaria com que da posição do poder tolerassem a grafia que foi dissidente todos estes anos.

Temos de nos tornar na mudança que queremos ver, dizia Gandhi, com uma extraordinária habilidade estratégica. Em Rianjo, na última semana de junho, um grupo de jovens da Galiza assistirá a um curso de verão. Numa vila marinheira que conserva uma identidade imensa e uma fala local bastante hibridada, mas cheia de orgulho, vamos reunir-nos. Não falaremos de ortografia. Daremos por visto esse capítulo e iremos reunir-nos para debater temas de atualidade (como a eutanásia ou as novas masculinidades), ou expressões culturais e artísticas contemporâneas que são a alma destes povos, galego e português, tradicionalmente obrigados a viver de costas viradas, embora sempre tenham podido compreender-se tão bem. O mais emocionante será a prova empírica. Porque as portas do auditório de Rianjo estão abertas à vila. E poderemos medir se as pessoas não alfabetizadas em galego, ou alfabetizadas no modelo ILGA têm realmente problemas com o padrão português e, se os tiverem, onde estão e quais são; poderemos tornar-nos na mudança que queremos ver.


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  • Ernesto V. Souza

    Muito interessante. Quem nos dera ver mudar os tempos… e as vontades 😉