despavilai-vous



* Texto publicado no Novas da Galiza, 167, maio, 2018.

 

Caio na conta de que estou a abandonar os espaços mistos de participação num pinga-pinga constante: a associação, o coletivo, o sindicato, todos. Não despertei um dia e decidi abandonar, não, o que chegou foi a consciência do feito. Para as leigas, desde o feminismo denominamos mistos os espaços que partilhamos mulheres e homens.

Retiro-me perante a clara evidência, percebida no quotidiano, de que de espaços mistos, nada. Mintira! Em realidade são construções masculinas, edificadas a imagem e semelhança dos senhores, nas que somos consentidas as mulheres mentes não pretendamos mudar as coisas. Entanto aceitemos maneiras, modos, liderados, estruturas. Poucos são os espaços realmente mistos que conheço, pensados para acolher-nos a todas. Um deles é Implicadas, ONGD que presido e que, casualmente, aos homens não vos interessa. Minoria de sóciOs e ausência total de activistOs.

Em vários desses espaços de que fago parte (culturais, desportivos, vizinhais, sindicais) o conflito, sempre interior, chegou quando exerci, falei, atuei, como feminista. O conflito ou o incomodo. O mal-estar. O sentir-me ex-cêntrica.

Duas são as rebeldias não consentidas.

Uma, sermos autónomas com respeito ao padrinho. Sempre passamos a porta, a prova, avalizadas por um pigmalião interno que devemos seguir, cegas. Fomos escolhidas com um objetivo e não devemos sair dele. Quase sempre o objetivo o mesmo: dar carimbo de igualdade de gênero a entidades que não cumprem os mínimos. Quando salta à vista? Quando decidimos falar alto e sem permissão. Cuidado de termos voz própria!

A segunda, tirar de agenda feminista, sejam os cuidados, as quotas, as violências. Em especial as violências. Aparece aí o deítico: aqui e/ou agora não toca. Nunca toca. O nosso aqui nunca é o da entidade e o nosso agora sempre é futuro indefinido. Como se aqui e agora não fôssemos a metade da população.

E uma exigência, acompanhando: aprende-me. Explica-me. Dá-me mastigadinha a teoria feminista para eu não passar trabalhos. Que eu sou feministo, mas não cai na conta disso. Ilumina-me.

despavilai

E sinto que me vou indo. Esgotada. Incorporo-me a espaços só nossos. Nos que não tenho que explicar-me nem justificar-me. Onde encontro pessoas que falam desde os meus mesmos “aquis” e “agoras”. Onde não tenho que pedir permissão para opinar e recebo diálogo, nunca silêncios. E onde a minha criatividade cresce exponencialmente.

Tenho-me por mulher valiosa. E partilho espaços com mulheres mui valiosas. Vós sóis quem nos perdeis.

Homens. Despavilai!

Repensai o vosso mundo. Reconstrui as vossas masculinidades. Mas fazei-o vós. É o vosso trabalho. O vosso esforço. É possível que penseis que não precisais, que o vosso mundo está bem assim. É provável.

Mas a nossa força é imparável. Bem a mostramos o 8 de março. É provável que fiqueis amarradinhos ao século XX entanto nós avançamos, unidas e felizes, polas grandes avenidas do século XXI. Vós vereis.

PS: nunca participei em coletivos de direita.

Susana Sánchez Arins

Susana Sánchez Arins

nascim em 1974 a atender de esguelho se do sul vinha uma aireja purificadora para o norte. nada. isso condiciou-me o olhar poético, ainda que fui lenta no amassado e cozimento da minha voz. publiquei quatro obras, [de]construçom, aquiltadas, a noiva e o navio e seique, ademais de textos voandeiros em coletâneas e revistas. ponho escola en cúntis e activismo feminista na Plataforma de Crítica Literaria A Sega.
Susana Sánchez Arins

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