EMARANHAR PAISAGENS

A Epistemologia do Norte de Boaventura de Sousa Santos na Corunha



O célebre sociólogo Boaventura de Sousa Santos, do Centro de Estudos Sociais de Coimbra, vem à Universidade da Corunha falar das Epistemologias do Sul e o futuro da universidade, com motivo do 25 aniversário da fundação da UDC. É um importante ato convidado pola universidade, com os poucos fundos que nos restam e que a atual Reitoria procura distribuir com siso, sobretudo para que o capital do Norte não possa botar mais pessoal trabalhador. Dentro dumas semanas virá, dentro da mesma série de palestras, por exemplo, outro célebre varão intelectual e mediático, Vicenç Navarro.

Assisto a conferência de Boaventura de Sousa Santos à distância, no computador, em streaming vivo de vídeo polo canal de televisão da universidade www.udctv.es .  O orador é apresentado em galego polo decano da Faculdade de Sociologia, Antón Álvarez Sousa. Há aplausos. Boaventura começa a falar em português, em transparente português, para explicar que a seguir vai mudar para “o seu portunhol” porque, na sua experiência, o português é fácil de ler, mas para os debates científicos não é tão fácil. Então, muda para o seu excelente espanhol, introduz o tema, e faz a pergunta que o assalta, sobre a qual dissertará, e que nos convoca (a mim, polo menos, fortemente): se la universidad tiene futuro.

Compreendo imediatamente que não. Que quando o Sul fala a linguagem do Norte, nada que signifique remotamente “universidade” tal como a concebeu o nosso ideal adolescente tem porvir. É a conferência mais curta e efetiva que tenho assistido na minha vida, um verdadeiro autocolante. Qualquer cousa que continuasse a dizer o sociólogo do Norte, para quem Portugal e a Galiza são um necessário Sul sem língua (entendamos: o seu necessário Sul, não um sul imanente), seria redundante. Asseguro sem vaidade que a partir da exibição do seu habitus, Boaventura de Sousa Santos não me ensinaria nada sobre o Norte e o Sul. Só se compreende a língua do poder, sempre. É a que paga o ordenado e as despesas, materiais e simbólicas. É a que impede conhecer a geometria social da terra que se visita em generoso convite. É a epistemologia do Norte que cega qualquer epistemologia. O célebre sociológo do Norte Boaventura de Sousa Santos nunca dará conta como, se o compreendemos quando nos explicava em português por que não falaria português, não o compreenderíamos em português quando nos explicasse o que são o Sul e o Norte e as suas visões do mundo.

Desligo o vídeo do computador. Na sala de conferências, sei de quem fez exatamente o mesmo nessa altura: desligar e ir embora pola porta. É professora de língua e de literatura.

Epistemologia do Norte: na véspera da Revolução dos Cravos, Arriba España.

Celso Álvarez Caccamo

Celso Álvarez Caccamo

Natural de Vigo (1958), é professor de Linguística na Universidade da Corunha desde 1991.

Na UdC.
Em Academia.edu
Em Blogaliza
Celso Álvarez Caccamo

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  • Ernesto V. Souza

    Eu também teria saido pela porta… que cretino…

  • Mário J. Herrero Valeiro

    Magnífico texto. Estes grandes progressistas continuam sem perceber nada. Sim, um cretino. Um cretino internacionalista. Um cretino nacionalista.

  • Joám Lopes Facal

    Talvez o comportamento do prezado sociólogo progressista seja um mais um sintoma da tendência à subordinaçom ao fascínio pola cultura espanhola da que adoece a intelectualidade portuguesa do que um traço da personalidade própria do ilustre sociólogo.
    Talvez devamos compreender a angústia do “labirinto da saudade” que a cultura portuguesa experimenta como sentimento de insignificáncia. Nom é descortesia pola cultura galega (esse ponto cego da cultura portuguesa), é tributo imerecido perante o moinho de vento hispano que a portuguesia letrada interpreta como gigante.

    • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

      Não me convence essa cativaria numa pessoa notável, embora portuguesa.
      Opino que essa pessoa amostra pouco apreço ou interesse no que pode acontecer na SOCIEDADE GALEGA. Ou dito por outras palavras: é sociólogo que não se interessa por uma secção ou conjunto da Humanidade que, aliás, lhe teria de ser próxima e não só na língua.
      (Tive apenas um leve contato com a pessoa Boaventura em Coimbra. Alguém lhe oferecia alguma publicação em galego e não vi… fiquei com a impressão de o senhor sociólogo mostrar estranha altanaria e nula curiosidade… Estranho essa atitude num sociólogo e ainda mais num sociólogo interessado por isso do norte face ao sul…

      • Joám Lopes Facal

        António, nom nego tal actitude, mas suspeito que é produto de um problema mal resolto e característico da intelectualidade portuguesa que tende a desconsiderar a sua própria raíz histórica na medida em que desafia os preconceitos adquiridos de naçom imaculada concebida sem pecado original e se prolonga nos próprios filhos julgados espúrios ou renegados.
        A doença parece profunda e tem certa similitude com o castelhanismo essencialista e ahistórico da geraçom do 98 espanhola. Pura couraça defensiva. As feridas no narcisismo colectivo nom som de fácil cura.

        • Marcelo Lima

          Li em algum lugar que Saramago achava que Portugal e a Espanha poderiam se unir politicamente no futuro. Acho que Joan Lopes Facal tem razão: há um problema mal resolvido que reflete uma ideologia ou, mais propriamente, uma ferida histórica profunda do ex-império e que permeia não só a intelectualidade.

  • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

    Opino que, depois do jacobinismo rampante desde 1789 e anos anteriores, ficou claro:
    1.- Que as fronteiras são sagradas, como se todas tivessem anjos com espadas de fogo para que ninguém as ultrapasse.
    2.- Que as línguas, apesar de o “Rapport Grégoire” dizer do francês que teria de ser universalizado, são, se forem oficiais-escritas (e portanto oralizáveis), particulares e particularizantes; todas. Ao caso tem o Aracil um artigo esclarecedor sobre o francês “universal em “Dir la realitat”: “Tres vides perpendiculars: Rivaroli, Cloots, Grégoire”.
    3.- Que os “notáveis” do mundo já estão unidos e bem unidos.
    4.- Talvez como corolário… Que o reino bubónico, bem levado com a república portuguesa no seio da des-união anti-europeia, triunfou com a sua política de bilinguismo unilateral (mais referências necessárias ao Aracil!), portanto desequilibrado. O Boaventura parece conhece bem a “ventura” (Carvalho disse “fortuna”) do “galego”, conhecimento que não o desculpa: já não é o “seu” português… ou talvez seja, mas no reino bubónico a competência dos súbditos espaÑoles é deficiente, porque apenas podem oficialmente conhecê-lo como sublíngua, quer dizer, como dialeto… suboficial; portanto são incapazes de perceberem o que lhes for transmitido no português oficial no outro lado da fronteira, da raia…
    5.- Talvez como corolário: O Boaventura teve a bem perdoar a vida aos galegos assistentes ao não exprimir-se, por exemplo, em inglês…
    6.- Conclusão: não é de fiar o sociólogo que recusa entender como é que funcionam as pessoas falantes… Poucos sociólogos se preocupam com esse funcionamento, ainda que eles necessitadamente utilizem alguma língua que gentes diversas falam…

  • Celso Alvarez Cáccamo

    Obrigado polos comentários. Foi realmente uma deceção, tinha expetativas de escutar uma voz importante. Ao parecer, no colóquio o conferencista respondeu também em espanhol as perguntas e comentários do público, que foram todas em galego exceto uma em espanhol. Além da própria ideologia linguística de B. de Sousa, acho que se deu também o erro (ou falta de interesse) por parte dos contatos na UDC que trouxeram o convidado em “instrui-lo” sobre a questão linguística (isto é, cultural, isto é, identitária).

    Para as pessoas céticas (colegas meus e minhas, também) que, dalguma maneira, justificam a escolha do sociólogo por razões de “compreensão”, convido a escutar (mesmo brevemente) o seu incompreensível linguajar nesta entrevista de Galicia Cero TV : http://galizaanocero.tv/entrevistas/boaventura-de-sousa , esta sim em português, claro, porque foi realizada em Coimbra, noutra Nação, não na Nación. Bom, acho que é em português porque não compreendi nada.

    O que está em jogo é o significado da própria noção (e fenómeno) da “compreensão” do discurso, e do discurso científico especificamente. Por exemplo: se a “transparência” na “compreensão” é o critério, por que se impõe o inglês como língua científica para milhares de pessoas que pouco o compreendem, e devem fazer esforços para chegar a dizer que já o compreendem? É a intercompreensão apenas uma questão de compatibilidades semânticas, ou não haverá por acaso (e deveria haver) um necessário componente de intercompreensão ideológica, e política, central no campo académico, sobretudo no subcampo “progressista”? É nesta dimensão de elaborarmos formas de intercompreensão a várias bandas (faixa atlântica, faixa central, faixa mediterrânea) que se sustenta(va)m os projetos políticos pan-iberistas, na mais direta tradição progressista desde a década de 1930, não é? E é, com efeito, essa universidade imaginada então (gratuita, democrática, nacional, inserida na sociedade, não na empresa capitalista) que está perdida, ou, antes, que nunca chegou a efetivar-se.

    Como dizedes, alguma intelectualidade portuguesa confunde, confunde sombras com figuras, e confunde âmbitos. A projeção e importância do trabalho de Boaventura de Sousa na Latinoamérica, por exemplo, e o seu diálogo com ela, é indubitável. Mas isto não justifica tratar a Galiza na mesma lengua colonial que o sociólogo utilizaria no Equador, por exemplo, como se a Galiza não tivesse a sua própria tribo. Boaventura enganou-se de língua colonial: o português que sem dúvida ele utiliza no Brasil deveria ser suficiente. Eu reclamo o direito de ser colonizado na minha própria língua.

    • Joám Lopes Facal

      Nom se pode exprimir com mais exactidom, Celso. Sobreabunda o conhecimento técnico parcial, escasseia a compreensom da circunstáncia identitária; pura matéria sociológica, por sinal. Mal de alturas ou défice formativo?

      • Vítor Garabana

        Joám, podo dar testemunho de que é mesmo assim. Eu trabalho num ambiente de engenheiros e contabilistas espanhóis (alguns galegos também há, mas em geral nom se diferenciam muito) e qualquer conversa que vá para além de volts, bits e euros é desencorajadora. Os conhecimentos de história, sociedades e identidades nacionais, língua, etc. som de “kit de sobrevivência” mínimo e com grandes erros, adquirido na escola espanhola. Podes imaginar o resumo: os visigodos, Don Pelayo e império de Castela com destino a Deus; dizerem-che que o galego, catalám e euskera som línguas mortas ou -os mais sabichosos- que som dialetos que provenhem do castelhano antigo. Mas pessoas como estas nom só votam, algumhas também podem chegar aos conselhos de administraçom de grandes empresas, a tomar decisons de grande impato económico e social, a influir nos políticos estatais ou, por exemplo, chegar a ser comisárias europeias.

        • Joám Lopes Facal

          Vitor, sou engenheiro industrial e economista. Conheço as tribos.

    • Ernesto V. Souza

      Bom acho que na nojenta, espanholista, pailaroca e refratária Universidade da Crunha o nível de cretinismo, covardia, mediocridade, lambecuismo entre a massa de professorado, alunado e pas… é muito superior ao de qualquer Palestrante… mesmo num caso de cretinismo letrado como o presente…

      • Ernesto V. Souza

        E o pior que dentro do nojento sistema universitário espanhol… As universidades galegas nao sao a excepção que deveriam ser… Em que foram degenerando? E dentro delas a da Crunha… Que diferente e de como se iniciou… Nao. O problema nao e o palestrante… Pobre imbecil… Bufão a soldada do amo que pague….o problema e o sistema universitário… Ama de cria do caciquismo e de modelos lamentáveis de consumismo e submissão …

  • ranhadoiro

    O Boaventura é um desses fâmulos, poderia ser faxineiro também porque é progressista, e bem realizado que andaria no papel num fogar do norte, com a cerveja norteña (http://www.cervejastore.com.br/cerveja-nortena-960ml-p6224/) de esse fogar, ela grande e popular nesse território do norte que é Uruguai e de aí o nome.
    Ele apanhou isso de tratar das relações norte sul, em realidade o que faz é parabenizar o que ele chama norte e o seu sucesso -que é inabalável (o seu sucesso como sociólogo, é acreditar nisso e apresentar essas relações ossificadas-,
    Porém esse norte nada a ver tem com a geografia, ainda que ele acredite por não tomar norteñae o, vai tu saber?.
    Os do mais ao norte da Europa são os lapões, mas seguro que não fala deles. Pois ele chama norte -estrela polar da sua sociologia alimentícia- “os que manobram com os seus dinheiros e o capital que não é seu e que pode estar ao sul, ao norte, ao leste, ou no farwest, e isso de manobrar com o capital dos outros é o que este agudo sociólogo chama norte, e claro esses que manobram recompensam-no com férias, palestras pagas, e publicidade de que é bom e ele sabe de que fala.
    E para eles saber é igual a que gostam de ti os que usufruem o capital dele e dos outros, incluídos os conimbragos -incluso os detentores de audis.
    Boaventura és uma vergonha, vai ranhá-la ou como diria Rimbaud merde

    Aqui tendes uma analise da Epistemologias do Sul, do nosso fámulo, por um brasileiro. Fazendo isso lia-se um pouco, mas dá para entender que epistemologicamente não entenda.o fámulo, o que é a Galiza, para o nosso autor convidado pela U.CRunha, o da Galiza é abissal e ele sempre nada e guarda a roupa e isso do abissal deixa-lho ao Jacques Cousteau que infelizmente já foi embora

    https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/PF/article/viewFile/3749/3357

  • ranhadoiro

    O Boaventura é um desses fâmulos, poderia ser faxineiro também porque é progressista, e bem realizado que andaria no papel num fogar do norte, com a cerveja norteña (http://www.cervejastore.com.br… de esse fogar, ela grande e popular nesse território do norte que é Uruguai e de aí o nome.
    Ele apanhou isso de tratar das relações norte sul, em realidade o que faz é parabenizar o que ele chama norte e o seu sucesso -que é inabalável (o seu sucesso como sociólogo, é acreditar nisso e apresentar essas relações ossificadas-,
    Porém esse norte nada a ver tem com a geografia, ainda que ele acredite por não tomar norteña ou vai tu saber?.
    Os do mais ao norte da Europa são os lapões, mas seguro que não fala deles. Pois ele chama norte -estrela polar da sua sociologia alimentícia- “os que manobram com os seus dinheiros e o capital que não é seu e que pode estar ao sul, ao norte, ao leste, ou no farwest, e isso de manobrar com o capital dos outros é o que este agudo sociólogo chama norte, e claro esses que manobram recompensam-no com férias, palestras pagas, e publicidade de que é bom e ele sabe de que fala.
    E para eles saber é igual a que gostam de ti os que usufruem o capital dele e dos outros, incluído o dos conimbragos -incluso os detentores de audis.
    Boaventura és uma vergonha, vai ranhá-la ou como diria Rimbaud merde

    Aqui tendes uma analise da Epistemologias do Sul, do nosso fámulo, por um brasileiro. Fazendo isso lia-se um pouco, mas dá para entender que epistemologicamente não entenda.o fámulo, o que é a Galiza, para o nosso autor convidado pela U.CRunha, o da Galiza é abissal e ele sempre nada e guarda a roupa e isso do abissal deixa-lho ao Jacques Cousteau que infelizmente já foi embora

    https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/PF/article/viewFile/3749/3357

  • Marcos Celeiro

    Excelente artigo. Direitinho no alvo: «Só se compreende a língua do poder, sempre. É a que paga o ordenado e as
    despesas, materiais e simbólicas. É a que impede conhecer a geometria
    social da terra que se visita em generoso convite. É a epistemologia do
    Norte que cega qualquer epistemologia.»

  • Venâncio

    Pois é, senhoras, senhores. Andou uma pessoa, anos e anos, mostrando-vos, rogando-vos por favor que vísseis, que Portugal não é, nunca foi, esse lugar idílico onde pondes os vossos sonhos e anseios, e vos dispensa de investir, sim investir, na Galiza… e eis que os factos vos fazem acordar. Antes assim. Não consegui eu, consegui-o a realidade.

    Boaventura não foi o primeiro, não será o último. Saramago recusou-se a falar português no Pen Club galego, não obstante os rogos (sei-o de primeira mão) para que o fizesse. Ministros portugueses, como o construtor Mário Lino, exprimem-se em espanhol. O académico Casteleiro, grande apóstolo da «Lusofonia», convidado da «AGLP», apelou em Ourense a um entendimento planetário entre o português e… o espanhol.

    Eles não sabem que o galego existe. Para eles, ‘Galiza’ é uma designação geográfica. Menos ainda sabem que, mesmo que o português nunca tivesse existido, o galego existiria… já que estava feito quando um Portugal surgiu.

    Em suma: quando a vossa mensagem para o exterior for de galegos, do galego e da Galiza, aí sim, as coisas poderão começar a mudar na maneira portuguesa de entender-vos, e de se entenderem a si mesmos.

    • Ernesto V. Souza

      Fernando… Os néscios convidam néscios e depois vão jantar juntos… Celso e um marciano, uma casualidade nessa universidade…o Mario Herrero, o Gil, o Lagares, o Corredoira… Tantos outros nao foram “convidados” a fazer parte da nobre instituição… Essa e a universidade do Freixeiro Mato que e intimo amigo e co-militante do atual reitor e do decano… Dos organizadores… Garanto-lhe que de ser eu o responsavel do ato ou de contratar a Saramago… Falavam português ou nao se lhes pagava… Ou nao falavam…

      A nos nao nos perca o respeito e deixe de nos tratar por parvos…

      • Venâncio

        Caro Ernesto,

        Por falar em parvoíces: eu prometo aqui dar uma volta de joelhos ao Obradoiro quando vós deixardes de chamar «português» ao galego.

        • Ernesto V. Souza

          Pois é um final alternativo a Divinas Palavras… talvez escreva uma obra de Teatro e meta aí uma cena tremenda dessas.

          Do resto, acho que não há parvoice. É bem simples o que digo. A responsabilidade do palestrante falar em castelhano e de quem o leva.

          Cada quem contrata os palhaços que lhe peta, seja para falar no Pene Clube ou no Claustro da Universifeira, só tem de indicar no contrato da gira: “Pague-se X € por uma (ou N…) palestra em língua portuguesa”.

          É claro?

          • Venâncio

            Claríssimo.

          • Ernesto V. Souza

            Mas ambas as cousas, são, da minha perspectiva bem boas, não são?

          • Venâncio

            Quais coisas, Ernesto? Eu não quero acreditar que defendes aquilo que parece defenderes.

          • Ernesto V. Souza

            Se eu defendesse aquilo que você não quer acreditar que eu defendo seria bem difícil nos entender.

          • Venâncio

            Acredito que sim, Ernesto. E por isso prefiro pensar que ironizavas ao sugerir serem «boas» as tais estranhas coisas…

          • Ernesto V. Souza

            não queda outra… mas é que é realmente relativo… contempladas em perspectiva cousas que no seu dia pareciam absurdas… e outras que já foram claras, prudentes, pragmáticas e nada cómicas…

          • Venâncio

            Eu sei, a História já deu muitas voltas. Mas nunca deveríamos fazer chantagem com ela. «Ai, pensas que estou errado? Pois volta cá daqui a cem anos!» É uma chantagem muito barata.

            Tudo o que parece hoje claro é que declarar «português» o galego é um mau serviço à Galiza e até ao nosso idioma. Eu explico.

            Primeiro, a questão ideológica. Eu sei que, ao declarardes tal coisa, vos move uma vontade heróica de humilhar Madrid, de fazê-la beijar o pó. Qual seja o cenário linguístico que perseguis para a Galiza (proclamar o português língua oficial?), nunca o esclarecestes. Também nunca esclarecestes que tipo de convivência deveria haver entre português e espanhol nesse hipotético cenário. Mas qualquer linguista sabe explicar-vos como acabaria o filme… Só que a vossa preocupação não é linguística no futuro, é ideológica agora.

            Depois, então, a questão linguística. O português pode ser duma imensa utilidade para o galego, desde que esse trabalho seja feito por linguistas, e não por ideólogos. Um idioma é uma maquinaria de alta precisão, que não se compadece com voluntarismos.

            Pois bem, é-nos clara a estratégia reintegracionista da AGAL: uma ortografia tendencialmente portuguesa, numa gramática e num léxico galegos. Essa estratégia permite um aproveitamento lúcido e dinâmico de quanto ‘galego’ se conservou no português.

            Mas qual a estratégia lusista, eis o segredo dos deuses. Um chip implantado em crâneos galegos? De momento, tudo o que pode extrapolar-se é a eternização duma elite luso-escrevente, pairando quilómetros acima dos galegos, e da realidade.

          • Ângelo Cristóvão

            O senhor Venâncio anda bastante errado e desinformado. Já demonstrou inúmeras vezes que não tem interesse em perceber nem dialogar, só em convencer-nos da maldade intrínseca dos lusistas. Vá com Deus ou com quem quiser. Há uma diferença entre falar e dizer, como há entre mirar e ver.

            Enquanto repete os memos preconceitos sobre o reintegracionismo “bom” e “mau”, há cousas que fucionam porque os seus “desvairados lusistas” as fazem fucionar, e às quais adere mesmo o governo galego. À sua maneira, claro. Como os atos e inauguração da Casa da Língua Comum, o passado dia 25 de abril. Em breve poderemos dispor dos vídeos.

            O Sr. Boaventura de Sousa Santos, na sua atitude em relação à Galiza, é exemplo de um tipo de inteletual relativamente abundante em Portugal. Não sabemos se é mais ou memos representativo em termos estatísticos, mas é claro que há outros como ele. Nada novo. Já o sabíamos. Até agora podia coincidir bastante com a posição tradicional do Estado português, mais concretamente do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Talvez agora já não seja tão coincidente. Estamos num tempo novo. Eu não dedicaria muito tempo a convencê-lo, porque poderia acontecer que o próprio desenvolvimento dos factos o deixassem fora de jogo.

            Parabéns ao amigo Celso por dar-nos a conhecer este episódio. Demonstra-se que um cientista social da qualidade do Boaventura de Sousa Santos também pode estar enganado.

          • Venâncio

            Ângelo,

            Talvez venha escapando um pormenor, que te faria perceber mais exactamente a minha posição. Eu sou linguista. Deu-me para isto, há destes azares, e talvez fosse mais feliz como homem de negócios.

            É com o limitado olhar do linguista que eu sigo o que se passa na Galiza. E aquilo que vejo passar-se causa-me alguma inquietação. Não sou o primeiro português a inquietar-me, mas hás-de conceder que também não há muita observação cá deste lado.

            Aí acima, escreveu o estimado Ernesto o seguinte, a propósito da universidade da Corunha: «Essa é a universidade do Freixeiro Mato que e íntimo amigo e co-militante do atual reitor e do decano…»

            Pois bem: talvez seja picantíssima a invectiva, mas o que não sofre dúvida, a meu ver, é ser Freixeiro Mato, desde há muito, o maior (talvez o único) gramático reintegracionista galego. Passo a explicar.

            Do ponto de vista estritamente linguístico, o reintegracionismo agálico conta com um magnífico lexicógrafo (Estraviz), com um excelente lexicólogo (Garrido), com óptimos pedagogos e divulgadores (Fagim, Corredoira, Maurício Castro, Maragoto, etc.). Mas o seu último gramático, isto é, alguém que investiga e expõe o funcionamento do idioma, foi Carvalho Calero. Hoje, o único galego que faz essa tarefa, duma perspectiva reintegracionista, é o Freixeiro.

            Isso pode não ter grande importância para ti, Ângelo, mas eu sinto-me na obrigação de to dizer. O abandono gradual da Norma Agal deve-se a que não dispondes de quem vos possa guiar nesse terreno. O vosso refúgio no português é, pois, consequência directa dessa incapacidade de continuar a definir uma norma galega do nosso idioma. (Ah, e não me venhas com o «Léxico da Galiza» da tua agremiação, pois sabes que quem o usa são os “isolacionistas”. Por favor, acaba de vez com essas mentiras no estrangeiro, porque mentir é muito feio).

            Repito o que escrevi acima: só podereis ser respeitados se vos derdes ao respeito. A vossa teima em rasurar, naquilo que escreveis, qualquer marca (qualquer nódoa…) galega é uma atitude ridícula. Os brasileiros não no fazem, os portugueses não no fazem, porque haveríeis vós de fazê-lo? Vê-se (um linguista vê) a ginástica que fazeis para obter um português neutro, muito ‘soft’, muito a sobrevoar o oceano. Como profissional interessa-me o observá-lo. Mas é pura tragédia se mais galegos vos imitarem.

          • Ernesto V. Souza

            Fernando, dea-me o ordenado e o trabalho de Freixeiro e eu dou-lhe num ano uma puta gramática em 5 uma história da língua em 10 uma da literatura….

          • Venâncio

            Ernesto,

            Ignoro as razões dessa tua raiva contra o Freixeiro. Posso garantir-te que há gente na Agal que tem por ele um profundo apreço.

            De resto, isso não me admira. Ele muito cedo se declarou reintegracionista, e há nisso não só alguma ousadia, mas também uma tremenda eloquência. Ele escreve em ortografia oficialista? Pois escreve. Mas exactamente só os fetichistas ortográficos (que os há em todos os vossos bandos) acharão que jeitinho e xeitiño pertencem a línguas diferentes.

            Os da Corunha, com Freixeiro à frente, estão em luta aberta com Os de Santiago. Enfrentam-se duas concepções da norma: simplificando, a ‘culta’ e a ‘popular’. É um debate com interesse, e poderia interessar-vos também. Além disso, Freixeiro não tem, no oficialismo, o reconhecimento que de há muito merece. Outro motivo para o trazerdes debaixo de olho.

            Não te vou maçar. Mas outros poderiam tirar proveito de Lingua de calidade (2009), de Estilística da lingua galega (2013) e, claro, da magnífica Gramática da lingua galega (4 vols., 1998-2003).

            Não sei quanto ele ganha. Mas, vendo a qualidade do seu intenso trabalho, suspeito de que merece cada cêntimo.

          • Ernesto V. Souza

            Eu? eu não tenho nada contra o Freixeiro… apenas estava a contextalizar…

            Não nos entendemos… mas é irrelevante… cada um suponho faz o que pode. O mesmo que Freixeiro e os seus amigos.

            Saúde e boa noite.

          • Ernesto V. Souza

            Veremos…

  • Celso Alvarez Cáccamo

    1) Agradeço de novo os comentários, mas não os sigo todos porque o tema derivou. Não alimentem o troll.

    2) Em duas ocasiões convidei à UDC duas pessoas (um professor, uma professora) do Brasil, ambxs professorxs nos EUA. Deram as suas conferências em português (sobre Linguística, não sobre “língua(s)”). Sei de professores/as de Portugal (e não na área de Línguas ou Linguística) que também falaram em português. De maneira que qualquer generalização sobre a conduta dXs intelectuais portuguesXs não se sustém. Temos é um caso específico, que sim que achei importante comentar, para situá-lo e enquadrá-lo como o signo que é, não como o que não é. E acho que neste caso falhou um labor “pedagógico” por parte de alguém. A UDC tem um compromisso estatutário com o idioma. Nos seus 25 anos, deveria ser muito mais.

    3) Implicação: há uma grande dificuldade em certos âmbitos das ciências sociais (por não falar das técnicas) para compreender a relevância da língua. Dirá-se que é que imperam as ideologias linguísticas do español e do English, e é parcialmente certo. Mas é também resultado de uma incapacidade da (socio)linguística e da humanística em geral para fazer ver o seu discurso num campo científico-universitário estruturado sobre lógicas (económicas) muito duras, nas quais as humanidades vão a reboque, querendo emulá-las, mas sempre resultando ser a parente pobre.

    4) Por isso, precisamente por isso, no campo da língua vemos como “vitória” o simples facto de que uma pessoa de Portugal se exprima na Galiza na sua própria língua!, na nossa língua, à margem do que esteja a dizer: porque somos incapazes de convencer xs nossxs próprixs colegas de que o que diz essa pessoa não significa o mesmo em línguas diferentes. Assim que, enquanto nas ciências físicas e sociais se focam (mais) no “conteúdo”, nós, no nosso precário programa ativista, focamo-nos na forma, que é uma forma… de conteúdo, que só nós vemos.

    5) Como se quebram estas lógicas? Precisa-se dum outro programa, para nada ligado ao demagógico e divisor falso-debate sobre a tática adequada para enquadrarmos o galego como português. Primeiro: (a) Não são primeiramente xs portuguesxs que precisam saber que a nossa língua é o português: somos nós mesmxs, para podermos incutir depois no exterior o necessário enquadramento. E, sobretudo, (b) não são as lógicas das formas do valor que nos vão levar aonde queremos. Não me interessa em absoluto uma universidade como a atual, mas simplesmente na qual Boaventura, ou Zutranx, falassem exclusivamente português conosco. A questão dupla é, por que o fariam?, para que o fariam? Porque para promover uma língua como signo de emancipação humana há lógicas provadamente inservíveis, narrativas estéreis embora grandiosas.

    • Ângelo Cristóvão

      Celso, temos visto como a formação e a compreensão dos fenómenos sociolinguísticos, nos professores universitários de Portugal é bastante reduzida. Refiro-me às faculdades de letras. Estão em contato com estudantes de diversos países de língua oficial portuguesa, mas não conseguem ver o que outros identificam no primeiro minuto de conversação. Por comparação, o conhecimento dos professores e mesmo dos estudantes galegos é muito maior.
      Dizia Lluís Aracil que ele começou a interessar-se na sociolinguística quando observou uma mãe falando em catalão com a sua amiga, e em castelhano com o filho. Em grande medida os galegos tivemos de fazer o esforço de entender os fenómenos que observávamos no nosso entorno, a nível social e pessoal. Isto levou-nos a leituras de diversas disciplinas. Da filologia à linguística e à sociologia, passando pola análise do discurso. Precisávamos entender o que estava a acontecer com o galego, por que estava numa situação tão deplorável. E indo dos factos às teorias, e destas aos modelos, chegamos a algumas conclusões publicadas em diversas revistas e livros. Uma delas é que a língua é um assunto demasiado sério para ser deixado nas mãos dos linguístas, sozinhos.

      Penso que não se tem dado suficiente valor ao esforço de autores como Celso Álvarez Cáccamo, Mário Herrero e António Gil, por citar três que participam neste espaço. Ou simplesmente não se conhece a sua obra, que transcende o “facto diferencial galego”.

      • Venâncio

        «A língua é um assunto demasiado sério para ser deixado nas mãos dos linguístas, sozinhos», escreves. É verdade. Aí está o disparatado e inútil Acordo Ortográfico para demonstrá-lo. Mas as coisas não correm melhor quando os activistas são deixados à solta. E creio que é, grandemente, o vosso caso actual.

        Os activistas são, linguisticamente, amadores. Falam da língua, mas não sabem do que estão a falar. É pois natural produzirem enormidades. Na realidade, os activistas reproduzem, por vezes com mais eficácia até, a retórica dos Estados. Não são críticos, nem saberiam por que lado começar a sê-lo.

        Qualquer linguista te explicaria (se contigo falasse, e se interessasse pelo teu problema) que o português não é solução para o galego. É uma ajuda imensa, mas não é solução. O galego só vencerá pelas próprias forças. Até porque tem forças tremendas. Mas não as explorais (no duplo sentido da palavra), e julgo mesmo que nem vos preocupe. A visão tunelar, a fuga em frente que o português representa, elas vo-lo impedem.

        *

        E já que estamos à conversa, uma questão que há muito me intriga: a do cenário linguístico que pretendeis para a Galiza. Já era tempo de desvendardes alguma coisa. Pode supor-se que tendes planos para o português, mas exactamente por isso eles interessariam directamente aos seus utentes. Resta-nos a fantasia.

        Imaginemos, pois, uma Galiza em que são línguas oficiais o português e o espanhol. Jamais os dois se encontraram em tal companhia. Mas há precedentes que permitem alguma informação.

        Em Portugal, durante quase três séculos (1450-1730), o castelhano foi língua de cultura, e linguisticamente língua-tecto. Isso enriqueceu o português? Sem dúvida. Mas enriqueceu-o… de castelhano. Ao mesmo tempo foi-o empobrecendo de galego, com um desbaste sistemático de propriedades únicas do nosso idioma. O processo foi travado, ainda salvámos muito galego, mas graças a circunstâncias todas exteriores à língua, todas portanto casuais.

        Agora atentemos no seguinte: tudo isso se deu num contexto de independência política (se excluirmos um período de sessenta anos, 1580-1640, mas mesmo aí não houve nenhuma intromissão linguística dos Áustrias). Ora bem, se em cirunstâncias em princípio favoráveis se deram tão profundos processos com o português, que aconteceria, na Galiza, sob a constante pressão política, social e cultural do espanhol?

        Eu posso descrever-te um cenário muito fiável de como o português, dentro de duas gerações, acabaria trucidado e irreconhecível. Posso. Mas não o faço aqui. Uma coisa é certa: os futuros linguistas históricos lamberiam os beiços, publicariam estudos palpitantes, e agradeceriam aos céus terem gerado, algures no início deste século, uma tão iluminada plêiade de activistas.

        • Venâncio

          Atenção: sou 100% a favor do ensino do português na Galiza. Ele terá imediatos frutos na qualidade do galego e trará facilidade e estímulo de contactos com o exterior.

          O cenário que acima descrevi é o duma sociedade galega bilingue de espanhol e português. O desastre está servido.

          • Ernesto V. Souza

            Ha, Ha… uma sociedade galego bilingue espanhol português… há ha…

            Troll não… desconhecedor absoluto da sociedade galega.

            O futuro 25, 30 anos… é inapelavelmente o monolinguismo castelhano, com uma variação entre o dialectal de castelhano da Galiza em retrocesso e o castelhano imitativo do espanhol.

            E uma minoria, na margem cultural, adorando simbolicamente o vernáculo regional e dentro dele uma minoria ainda talvez refugiada ou emigrada em diferente gradação de conhecimento no português.

          • Venâncio

            Reajo abaixo.

    • Venâncio

      Celso,

      1. Se, há 40 anos, a palavra “troll” tivesse entre nós algum significado, era assim que alguns galegos teriam chamado a Manuel Rodrigues Lapa. Honra-me esse predecessor.

      2. Anotar que a conversa «derivou» é demagógico. É da dinâmica destas conversas o derivarem.

      3. Este é um espaço aberto. Tenho o direito de entrar, como tu terias num espaço português. O que nos falta é intercâmbio. O que te falta a ti é contacto connosco.

      4. Ontem logo cedo, coloquei esta página do PGL no meu Facebook. Não me posso queixar de leituras e comentários.

    • Ernesto V. Souza

      Pois efetivamente e culpa da UdC… Ai nao e que sejam 25 anos perdidos… E que e um espaco… O conjunto… Nao apenas com isto de grande retrocesso… Acho que ainda nao se avaliou a fins dos 90 a desfeita que foi – mesmo no que afetou aos contrarios – o meilanismo.

    • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

      Vale mais este comentário que todo o que se escreveu até agora, incluído o artigo. Desculpa a rispidez e a intromissão.

  • http://miromoman.wordpress.com/ Miro Moman

    Estudei 3 anos na Universidade da Corunha e na altura estava sob o controlo quase absoluto do Opus Dei e o nível, salvo honrosas excepções, era péssimo. Espero que tenham mudado as cousas…

    A minha primeira aula foi com a Vice-Reitora de Investigação. Chegou, estranhou-se de que houvesse uma maioria tão grande de raparigas porque já se sabe que “la ciencia es cosa de hombres” e aos dez minutos liscou que tinha o chofer a esperar fora no carro oficial.

    Então, o raro não é conseguirem que os portugueses falem espanhol, isso é fácil, o raro é não obrigá-los a declarar que Portugal é uma aberração histórica antes de cada palestra…

    • Celso Alvarez Cáccamo

      Essa era a UDC da Opus Dei que sofremos [email protected], sim. Aquele reitor, José Luis Meilán Gil, fora posto a dedo por Fraga Iribarne. Era o período de crescimento inicial da UDC. Meilán, como bom opusino (assim funciona a seita) criou uma rede clientelar que o mantivo no cargo anos (não lembro quantos). Por fim perdeu umas eleições, ou não pôde apresentar-se de novo (não lembro!), e a Opus perdeu o controlo.

      Não, felizmente estamos a falar duma UDC diferente. Apesar de quaisquer críticas à instituição, isso é evidente. O reitor é Xosé Luis Armesto, politicamente nas antípodes da direita opusina. É do BNG. Da sua gestão, e da sua equipa, eu destacaria, perante as políticas de “austeridade” impostas pola Xunta (as universidades estão amarradas de pés e mãos), o esforço genuíno que a reitoria da UDC está a fazer para priorizar o pessoal e para manter todo o quadro laboral (o funcionariado já está garantido, claro). De facto, frente a outras universidades, a UDC não fez despedimentos maciços. Trata-se de sobrevivência ano após ano, em condições de precariedade em muitos casos, e de crescimento praticamente zero, mas a gente está a manter os seus postos de trabalho. Nas condições de asfíxia económica atual, isso é quase uma proeza.

      Essa é uma questão. A do tema do textinho, é outra. Ignoro como funcionou o convite, as intermediações. Afinal, a decisão de falar numa língua e não a outra foi de Boaventura.

      • Ernesto V. Souza

        Eu de destacar destacaria o enchufismo e nepotismo… Por igual que com o opus… Só que para outros…

        • Celso Alvarez Cáccamo

          Para nada. Comparar o variável grau de endogamia de qualquer universidade do sistema espanhol com o nepotismo e caciquismo da perniciosa seita da Opus Dei é uma simplificação injusta. Esse tipo de afirmações efetistas só serve para lhe fazer um grande favor à direita ladroa e esquilmadora que okupa as instituições, e a uma ideologia “apolítica”, caldo de cultivo dos fascismos, de que “todos são iguais”.

          • Ernesto V. Souza

            Pois discordo completamente… ter uma carne de certo partido ou de certo sindicato, ou certas palavras na boca ajuda muito nessa universidade, tanto ou mais que ser do OPUS… depende das especialidades… e neste caso sim : São iguais…

          • Ernesto V. Souza

            E o que é pior são iguais de ineficazes também… tanto na defesa do público como na Construção de uma verdadeira Universidade, de uma língua, de um espaço de pensamento…

          • Ernesto V. Souza

            E mais uma cousa… eu não digo que seja igual. O que digo é que a Universidade da Crunha que eu conheci, a possível e a que foi depois, uma vez Meilán corrompeu até a oposição… que já depois se perdeu completamente… os Armestos e cia também, no debacle de imbecilidade, de nepotismo e de cretinismo que fodeu o conjunto ou a totalidade da Universidade espanhola e a deixou completamente eivada e a mercé de toda esta nova onda de imbecilidade burocrática e falsa medições de eficácia que a levam a nenhures ou a perpetuar a miséria… uma miséria que a deixa como casa de repouso de mediocridades, de seres de pensamento inofensivo e parentes parvos da classe dominante…

          • Celso Alvarez Cáccamo

            Eu sugiro que talvez és tu que devesses aclarar-te em opinar se a Opus Dei “é igual” (as tuas palavras) ou não que a atual equipa de governo da UDC. Se a tua opinião é Sim, discordo profundissimamente.

            O assunto seria distinguir entre a cleptocracia nepotista e as propriedades estruturais e composição do campo académico em todo o sistema universitário espanhol.

            Levo 23 anos na UDC. Acho que não sou suspeito de ter recebido qualquer prebenda das diversas reitorias. Estou em condições de criticar quem for polo que for: não tenho nada a “perder” nem a ganhar. E discordo profundamente de equações efetistas que não conduzem a compreender o que está a acontecer. Por isso, reitero simultaneamente a minha crítica ao que aconteceu com o “caso linguístico” de Boaventura de Sousa Santos, e a minha perceção positiva do labor da equipa de governo da UDC, por procurar priorizar (precisamente) os postos de trabalho por cima das faramalhas da “competitividade”.

          • Ernesto V. Souza

            Caro Celso, eu não estou a brigar contigo. Tenho-te por rara avis nessa universidade… na Universidade espanhola da Galiza. É mais lembro perfeitamente quando e como apareceste lá. Eu era aluno. Um acaso num momento de acaso. Não tens nada a ver nem com os da seita, nem com os da máfia, nem com os listos que pelo meio sabem fazer carreira.

            Do resto “igual” não será. Mas o mesmo sim. A mim o bipartido não me demonstrou nada que não soubesse, já o vira antes: CACIQUISMO, partidismo, seitarismo… imbecilidade… e pelo que eu sei e lembro do senhor Armesto …

            Quanto aos postos de trabalho… eu não os defendo, nem falo nisso… nem com competitividades nem sem elas… o problema é de estruturas e modelos não de “postos” de trabalho. Pessoalmente considero que sobram Universidades, titulações, edifícios…

            Do senhor Boaventura… que queres… um cretino. Os cretinos escolhem cretinos e gostam de convidar mais cretinos… pues con su pan se lo coman…

          • Ernesto V. Souza

            Bom… pensando melhor eu que caralho sei de nada… e menos dessa universidade onde não piso há 15 anos… apago todos os comentários… a respeito… saúde…

    • ranhadoiro

      os portugueses ainda não descobriram que em castela/espanha, nada do que dizerem em castelhano tem interesse. O único que é valorado é o facto de eles, o fazerem em castelhano.
      E que ao fazerem isso, descobrem que se acresce o seu valor para o castelhano/espanhol; mas não entendem que isso é paralelo ao mesmo processo que se dá com aqueles que se integram na Umma, para os muçulmanos. Isso não faz valorar o seu pensamento “anterior”
      Logo surpreendem-se que a pesar de usarem o castelhano, não figuram nos índices bibliográficos de aqueles que os parabenizam.

  • Venâncio

    Ernesto,

    Escreves acima que o meu cenário duma Galiza «bilingue de espanhol e português» se deve a que sou «desconhecedor absoluto da sociedade galega».

    Eu tenho em grande estima a tua percepção e as muito estimulantes intuições que lanças. Mas isso, vejo, não te liberta dalguma leviandade. Eu tão-só imagino um cenário que, tudo o indica, adeja nas vossas cabeças, mas que estranhamente nunca assumis.

    Sejamos sérios. Quando se cria um agrupamento denominado «Academia Galega da Língua Portuguesa» não é certamente sem um desígnio, sem uma visão de futuro. (Ou sim, mas eu não vos creria perversos a esse ponto). Quando se afirma existir algo como um «Português da Galiza», não é certamente ‒ ou não é só ‒ para causar pesadelos à Meseta. Concedamos, portanto, que, tal como o Reintegracionismo, também o Lusismo alimentará um desígnio, um projecto, uma visão de futuro.

    Ora bem, como não sois propriamente modestos, esse desígnio há-de ter alguma substância, há-de haver na vossa mente alguns amanhãs que cantam. E eles não cantarão se não houver uma ruptura com o actual estado de coisas, estas águas mornas e pouco sadias duma oficialidade de duas «lenguas españolas». Mais: se vós não perseguísseis essa ruptura, ninguém vos tomaria a sério.

    O problema é que nunca revelastes o que ides exactamente fazer com a «Língua Portuguesa» na Galiza. Eu sei: o segredo é a alma do negócio. Mas, caramba, a informação do público também.

    Agora, se me dizes que essa suposta visão de futuro é uma miragem, dada a realidade da «sociedade galega», eu pergunto-me que diabo andais vós exactamente a fazer, com todo esse alarde institucional, essa linguagem tão “respeitável”, essa sugestão de que o Mundo se prepare, pois inda não viu do que sois capazes.

    • Ernesto V. Souza

      Bom eu não imagino o mundo nesses parámetros seus. Há um projeto, a gente trabalha nele… e já se verá onde é que chega… a mim avonda-me…

    • Ernesto V. Souza

      Fernando, como lhe digo a Celso aí arriba… apago os mais dos meus comentários… provavelmente não são mais que teimas absurdas minhas… e não merecem a pena .

      • Venâncio

        Ernesto, eu sou contra o apagar de comentários, a não ser que sejam ofensivos, caluniosos ou invencivelmente prejudiciais para o próprio. Vê: o Velho PGL continua acessível, e foi uma felicidade ter-se conservado o primeiro debate que houve na Internet entre galegos e portugueses em 1998-2001. Nunca saberemos quanta utilidade pode ter, no futuro, um simples remoque teu… Mas não vou ensinar o padre-nosso a um historiador. 😉

        • Ernesto V. Souza

          Eu acho que eram ofensivos, cruéis, impertinentes, desnecessários e também que não contribuiam ao debate. Bem apagados estão.

          Eu não sou historiador. Insisto. Cada dia acredito menos e menos na história e nos historiadores. O mesmo que na linguística e na gramática.

          Não vejo mais utilidade nem vou perder mais tempo nessas cousas. Há gente de sobra metida nessas leias.

          Atualmente estou apenas interessado na prática e na criação literária de uma neolíngua portuguesa-crioula na Galiza, onde pudesse entrar toda a tradição clássica, fragmentar, enxebre, hiperenxebre, popular e castelhanizada do galego.

          Saúde

  • Ernesto V. Souza

    Olha Celso… talvez é que não compreendeste algum cousa bem… http://www.terraetempo.gal/artigo.php?artigo=3835&seccion=4

    • Celso Alvarez Cáccamo

      Obrigado, Ernesto. O texto não me diz nada novo, a sério. Para ver o que diz Boaventura, prefiro vê-lo em Sebastião Salgado (se não viste o enorme documentário O sal da Terra, e queres, diz-me e digo-che como). De resto, Santos fala do que se tem chamado sociologicamente ressentimento: os ex-dominados que depois dominam, os ex-colonizados que depois colonizam. O auto-ódio, que sim que existe. Abraço, meu.

      • Ernesto V. Souza

        Nao me entendes o sarcasmo. A mim o texto nao me diria nada…e menos depois de ler o teu texto… O engracado e que esta publicado em Terra e tempo… Uma ironia do destino… Suponho…

        • Celso Alvarez Cáccamo

          Entendim, entendim, meu. Só que queria continuar a dizer cousas 😉 . Abraço.

          • Ernesto V. Souza

            ok…bem dito… devias comentar no Terra e tempo… 😉

      • ranhadoiro

        Adorei o Sal da Terra, mas aí está Sebastião Salgado, a sua mulher o seu filho, o seu pai, O planeta terra, o Instituto terra na fazenda dele e antes do seu pai, o realizador… Mas não esta o Boaventura e o seu norte sul, ainda que se apanhar isso com alfinetes e tenha algum paralelismo

    • Galician
    • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

      É o original do artigo publicado dias antes em castelhano:
      http://blogs.publico.es/espejos-extranos/?doing_wp_cron=1430816672.4211349487304687500000

      • Ernesto V. Souza

        Por isso… quem os entenda que os compre…

        • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

          Eu não compro nada, mas vou entendendo algo. O Boaventura leva anos relacionando-se com espanhóis decentes, que dizem aprender muito dele e sim que o colocam nas suas bibliografias e mesmo o tratam de mestre. De facto, é um tipo interessante na teoria política internacional, especialmente nas relações Norte-Sul. A interação tem provocado pensamento inteligente nestes espanhóis, o qual é de agradecer. Isso não tira que o Boaventura tenha os mesmos preconceitos e o mesmo desconhecimento que qualquer português nacionalisto, ou que qualquer espanhol ídem. Se ademais temos em conta que se relaciona mais com madrilenos que com galegos, as contas dão. É o seu contexto. O que aconteceu na Crunha, ainda que não gostemos, foi por muitos motivos e nenhum deles inclui que o Boaventura seja um cretino.

          • Ernesto V. Souza

            ok… daquela sou eu o cretino…

          • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

            Mais bem penso que desde o próprio artigo, tudo isto tem sido uma grande cretinice. Troll incluído. Não te preocupes, é compreensível que nos enfademos quando escutamos um português falar castelhano numa palestra galega. O que há é que ver as causas, fazer um bom diagnóstico da situação e comprovar o que é que estamos a fazer para que isso não aconteça. Se calhar é que não fazemos grande cousa, a começar pelos próprios professores da UDC.