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Uma proposta de futuro para o galego

C. V. Padín – A língua galega é o cerne da nossa identidade como povo e da idiossincrasia que nos faz únicos no mundo e faz que ainda possamos achegar obras de singular beleza desde o nosso génio criador.

A língua que foi lavrada polo nosso povo em mais de mil anos é um património que resulta imprescindível defender e fomentar, polo que desde os poderes públicos, e sem imposições –como foi a do castelhano na Galiza- o direito a viver plenamente em galego deve ser garantido. Os que não querem uma Galiza forte e identificada consigo própria sabem bem isto.

A história da língua galega do Minho para o Norte tem sido uma história complicada e cheia de dificuldades e os grupos sociais e políticos que nunca questionaram a proibição da nossa língua e a imposição do castelhano ao 100% sem reservar qualquer espaço para a nossa língua no ensino, na administração e na igreja, etc são os que agora, perante tímidas tentativas por ir conseguindo a normalização do galego e quotas do 50% no ensino não universitário, começam a falar em imposição do galego. E eu pergunto-me: É possível impor o galego na Galiza? Não é um absurdo?

Estes grupos, não contentes com isso, têm a pouca vergonha de protestar contra essa tímida presença do galego em aras duma pretensa defesa da liberdade. Como é possível que grupos conservadores e autoritários que nunca defenderam nenhum tipo de liberdade na nossa sociedade, não só linguística… Como os principais adetos do regime franquista, com uma genealogia claramente antidemocrática e antiliberal, hoje presente em amplos setores do conservador e centralista Partido Popular, venhem agora a se autoproclamarem defensores da liberdade para esmagar a nossa língua?

Eu acredito que esses grupos têm um objectivo ideológico claro consistente na homogeneização  linguística e cultural do Estado espanhol, e para a consecução desse objectivo a pervivência da língua galega é um obstáculo. Não é a liberdade o que preocupa a estes grupos. O que estes grupos procuram é o direito a não ter na Galiza nenhum tipo de contato com a língua galega. Não defendem o seu direito a desenvolverem a sua vida em castelhano, direito sobejamente garantido na prática, senão que pretendem que os que falamos galego continuemos a ter sérias dificuldades para desenvolvermos a nossa vida, na nossa terra, na nossa língua e a isto eles é o que lhe chamam liberdade. O que realmente procuram é que a imposição em contra do galego continue exatamente igual que nos últimos quinhentos anos como se não estivéssemos numa democracia.

Eu considero-me liberal, pelo que este uso falso da palavra liberdade me resulta doloroso. Para mim a liberdade no terreno linguístico consiste em primeiro lugar na liberdade que achega o saber. Há que saber uma língua para depois poder escolher falá-la ou não falá-la. Hoje dá-se um analfabetismo funcional em galego e em inglês de grandíssima parte da juventude urbana galega, enquanto todos são capazes de falar castelhano com fluidez. Esta é a realidade que não preocupa ao Partido Popular em absoluto, que achega ao Partido Popular ao seu objetivo real dum Reino de Espanha homogeneizado linguisticamente e não ao objetivo falso que dizem defender mas que não defendem que é o da liberdade.

Portanto, em primeiro lugar, está a liberdade do saber para poder escolher. Algo que preocuparia a qualquer galego liberal e/ou democrata mas que não preocupa aos senhores do PP. Eu e o meu partido, Converxencia XXI defendemos a necessidade de garantir o conhecimento universal na Galiza do galego, castelhano e inglês mas sem esquecer que o que não sabem hoje muitos jovens galegos das cidades é a nossa língua, além do inglês; em segundo lugar, garantir que seja possível uma escolha real para poder desenvolver a vida em galego na Galiza, algo que hoje não é possível em inúmeros âmbitos, como o da justiça e o mundo da empresa, entre outros, e algo que também não preocupa nem Partido Popular nem Partido Socialista em absoluto.

Na Galiza temos um enorme potencial neste sentido que está a ser dilapidado pelos preconceitos das forças políticas nas que impera a mentalidade provinciana, incapazes de pensar autonomamente no melhor para a Galiza. Graças ao galego-português e ao castelhano podemos intercomunicar-nos perfeitamente com mais de quinhentos milhões de pessoas, mais das que no mundo falam inglês como primeira língua. Isto tem que ser posto em valor nomeadamente com o ensino opcional, por enquanto, em todos os liceus da Galiza da nova norma do Acordo Ortográfico da lusofonia. Isto é graças ao magnífico trabalho dos reintegracionistas galegos que para além recuperam a primogenitura galaica de este mundo mal chamado “lusófono”.

O nosso idioma não é, como afirmam os conservadores castelhanistas, uma barreira para o progresso económico mas uma vantagem comparativa, conceito inventado pelo economista liberal inglês de origem portuguesa David Ricardo e que os pseudo-liberais galegos do PP não parecem conhecer. Essa vantagem comparativa faz-nos diferentes e mais capacitados no nosso contorno ibérico e europeu. Num mundo de economia globalizada como o atual, mercados como o galego, espanhol ou português são unidades menores. O que funcionam são os mercados regionais, no nosso caso o ibérico. Graças à nossa língua temos a oportunidade de ser o único país ibérico capacitado para oferecermos ao mundo, a meio prazo, um mercado laboral qualificado e competente nas duas línguas oficiais dos dous Estados peninsulares: o castelhano e o galego-português. Somos o único território do mundo onde é fácil conseguir num prazo de não muitos anos um domínio universal das duas línguas latinas mais importantes em número de falantes do planeta.

 

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