AS AULAS NO CINEMA

Um centro tutelar de acolhimento de menores, no filme ‘Forte Apache’



Continuando a temática iniciada no meu depoimento anterior, esta vez os meus comentários dirigem-se aos centros tutelares atuais de acolhimento de menores, em contraposição aos reformatórios e orfanatos de ontem. Estes, com os seus imensos dormitórios comuns, regimes de fome e castigos baixo a chuva, já não existem na atualidade, pelo menos nos Estados que respeitam a legislação internacional e os Direitos das Crianças. O seu lugar está ocupado hoje pelos chamados centros tutelares de menores, sujeitos à Administração do Estado, com suficientes equipamentos e instalações, normativas aprovadas pelos ministérios correspondentes e com um seguimento adequado por parte da administração pública. Os educadores, ao contrário que os vigiantes de outras épocas, cuidam da educação das crianças e adolescentes, garantem os direitos dos menores e asseguram um entorno que deve facilitar a completa incorporação à sociedade dos internos.

Em 2006 o diretor catalão Jaume Mateu Adrover realizou um muito interessante filme, sob o título de “Forte Apache”, no que se tratam os problemas de um destes centros tutelados. Com um tono muito próximo ao documentário, às vezes com a câmara na mão, depois de ter-se documentado exaustivamente sobre os problemas dos tutores dos centros de acolhida, desmoralizados pela falta de recursos e com bastante desmotivação, roda um filme no que não oculta realidades tão duras como a drogadicção e a delinquência, mas amostra também coisas positivas em quanto à reinserção de rapazes marginais com atitudes e aptidões para converter-se em cidadãos respeitáveis. Converte-se assim este filme, no que esta vez me apoio para os meus comentários, numa fita sobre segundas oportunidades e a capacidade para manter a esperança quando tudo parece perdido. E quando falo de semelhante tema, vem sempre à minha memória o excelente labor que neste campo desenvolveram grandes educadores, como o Padre Flanagan na sua “Boy´s Town” da cidade americana de Omaha, no estado de Nebraska, que ainda funciona hoje, à qual dediquei um capítulo da minha série. Assim mesmo o Padre Américo na sua “Casa do Gaiato” da localidade portuguesa de Paços de Sousa, perto da cidade de Porto, e que também funciona ainda hoje, ademais com outras muitas delegações no resto de Portugal e nos países africanos de língua oficial portuguesa. Sem que me esqueça tão-pouco do Padre Silva na sua “Bemposta-Cidade dos Rapazes” de Ourense, com delegações noutros lugares, infelizmente fechada na atualidade. A minha tese de licenciatura, precisamente, esteve dedicada a esta instituição singular e serviu de base documental para muitas teses posteriores, mesmo na Alemanha e no Japão. Por isto, enche-me de alegria encontrar, de vez em quando, pelas ruas de Ourense, pessoas que estiveram na Bemposta, e que foram recuperadas positivamente para serem pessoas dignas na nossa sociedade. Mesmo orgulha-me muito ter tido como alunos de magistério na Escola Normal a jovens bemposteiros que terminaram por ser mais tarde excelentes mestres. E algum deles na própria Bemposta por vários anos.

FICHA TÉCNICA DO FILME:

  • Título original: Fuerte Apache (Forte Apache / Fort Apache).
  • Diretor: Jaume Mateu Adrover (Espanha, 2006, 97 min., a cores).
  • Roteiro: J. Mateu Adrover. Música: Óscar Maceda. Fotografia: Pancho Alcaine.
  • Montagem: Eloy González e Goyo Villasevil.
  • Produtoras: Mediapro e Alta Producción.
  • Atores: Juan Diego (Toni Darder), Lolita Flores (Carmen), Pep Tosar (Miguel Ángel Ros), Jordi Rico (David Fernández), Marta Marco (Lidia Adell), Pau Derqui (Ramón Cases), Hamza El Hilali (Tarik), Eric Álvarez (Lucho), Yorel Campos (Chicharra), José Tejera (Kevin), David López (Santos), Jordi Rovira, Soufianne Ouaarab e Abdelatif Hwidar (como outros internos).
  • Nota: A fita pode ser olhada no Youtube.
  • Argumento: Toni Darder trabalha como educador num centro tutelar de menores. Restam-lhe uns poucos anos para reformar-se e sente sobre suas costas a pesada carga do insucesso. Perdeu a esperança no que faz e no seu próprio destino, e ainda assim, arrastado pela inércia e dando o melhor de si próprio, continua na brecha trabalhando com uns rapazes cujas circunstâncias parecem todas a mesma. Uma manhã a polícia chega ao centro com Tarik, um órfão marroquino, espelido e apacível, cujo sonho é conseguir papéis e ir à universidade. A chegada do rapaz há supor uma lufada de ar fresco na existência de Darder, quem volta a confiar na esperança de melhora dos jovens. Esta segunda oportunidade de Tarik mudar-á o destino de Darder. Apesar da situação difícil de um centro de menores, está realizado com muito realismo e avoga por retomar à família a responsabilidade como célula de uma sociedade que necessita formar-se para dar resposta aos problemas sociais do menor. Forte Apache é uma história de segundas oportunidades, de manter a esperança quando já não parece haver motivos para elo e o último comboio faz já tempo que abandonou a estação.
  • Prémio: No festival CineEspanha de Toulouse recebeu o Prémio da Audiência.
  • O Diretor: Licenciado em jornalismo formou-se como cineasta no American Film Institute de Los Ángeles, onde trabalhou como operador em projetos protagonizados, entre outros, por Mel Gibson e Tim Roth. Trabalhou como realizador e roteirista em programas de TVE, Antena3 e TV3, ademais de como repórter gráfico para a imprensa em conflitos internacionais. Embora, foi o mundo do guião o que mais atraiu o seu interesse durante os últimos anos. Em 2006 teve com o filme Forte Apache a sua primeira experiência no cinema.

UM CENTRO DE ACOLHIMENTO DE MENORES NA ATUALIDADE:

Forte Apache 1A ação do filme decorre na sequência de um centro tutelar de menores, que leva o nome de Can Jordà, que, embora não exista com esse nome, é um centro real. O realizador intenta retratar esse mundo, com a problemática dos seus educadores e a de uma Administração desbordada pela falta de recursos. O centro em que se desenvolve a ação está inspirado num centro existente, e boa parte dos acontecimentos e anedotas que se contam partem de uma situação o de um facto real. O filme respeita esse contexto, sem propôr mensagens nem fazer sermões, mas tão-pouco banalizando ou desfigurando a realidade que o inspira. Embora não estamos perante um documentário, mas de um filme de ficção, e como tal aspira a contar uma história com dimensões próprias, independentes do quadro em que esta ocorre. Uma história que pretende emocionar, fazer rir e comover. Desenvolve-se em três entornos diferenciados: o centro tutelar de menores, o bairro da Barceloneta e o que poderíamos chamar a cidade inóspita, como são algumas partes da Ciutat Vella (Cidade Velha) e da periferia de Barcelona.

Can Jordà acolhe uns quarenta rapazes. É um centro aberto, pelo que não existem barreiras físicas que impeçam os internos abandonar o lugar se nisso se empenham. Alguém que o visitar por primeira vez poderia pensar que se trata de uma formosa casa de estilo colonial, rodeada de campo, com o seu ginásio, o seu banheiro ao ar livre e a sua pequena quinta. Mas, não é assim. Paradoxalmente, enquanto as circunstâncias dos centros melhoraram, a realidade da população interna endureceu-se notavelmente. Os conflitos de uma sociedade põem-se de especial manifesto nos seus elos mais fracos, e problemas como a droga, a violência doméstica, o desarraigo social ou os enfrontamentos raciais têm fiel reflexo na bagagem pessoal destes rapazes. Em Can Jordà concentram-se boa parte dos casos mais conflitivos do sistema, e a totalidade de seus internos têm causas abertas com a Justiça. As substituições e a interinidade, especialmente entre tutores e mestres, estão à ordem do dia. A depressão e o estresse são as principais causas das baixas entre o pessoal fixo.

CAMPO DE TRABALHO PARA OS/AS EDUCADORES/AS SOCIAIS:

Um real decreto publicado no BOE do primeiro de outubro de 1991 estabeleceu o título da diplomatura de educação social. Desde outubro de 1994 existem estes estudos nas universidades da Galiza. No ano 1997 terminaram a diplomatura os primeiros estudantes de educação social. Infelizmente, ao melhor por novidosa, é esta uma titulação pouco conhecida entre a cidadania. E menos conhecida é ainda a sua funcionalidade e o seu campo de trabalho. Um dos aspetos pendentes da mesma é fazer-se visível e demonstrar a sua necessidade na sociedade atual e em muitos dos seus contextos. Uma necessidade muito evidente na sociedade atual, que perdeu a maioria dos valores humanos. Embora pouco conhecida, já bastantes titulados estão a trabalhar como educadores/as sociais. Nomeadamente nos contextos da chamada terceira idade. Na Catalunha, como passa com muitas alternativas positivas, muito antes de criar-se o título oficial, a universidade já tinha um título próprio de educação social. E também o seu colégio profissional. Dadas as circunstâncias e os múltiplos problemas sociais que existem na nossa sociedade, este tipo de profissionais fão-se cada vez mais necessários. A sociedade atual deveria sensibilizar-se para apoiar a criação de postos de trabalho para estes titulados, a maioria ademais jovens. Tema prioritário, antes que muitos outros que às vezes, equivocadamente, apoiamos, e que não são nem urgentes nem necessários. Para exercer esta profissão, fazem falta pessoas com muitas qualidades humanas. Com dinamismo e alegria. Com valores humanos, como solidariedade, ética, compreensão, respeito e tolerância, amantes da vida e da natureza, criatividade, intuição, capacidade para refletir, saber somar e não restar, ter humor e capacidade diretiva e, especialmente, respeitar e querer ajudar aos demais. Sabendo escutar e não impondo nem ideias nem atitudes. Ao mesmo tempo estas pessoas hão de ter um domínio de competências básicas para o seu exercício profissional. Entre as que destacam o saber desenhar planos e programas de intervenção sócio-educativa em diferentes contextos. Saber pesquisar sobre necessidade e demandas. Compreender a psicologia das pessoas, saber planejar e avaliar. Ter um caixão de estratégias para solucionar os diferentes dilemas que vão surgindo durante o seu trabalho. Saber aceder aos diferentes recursos, dominar as novas tecnologias, conhecer a metodologia das dinâmicas de grupos e saber idiomas. Tudo, a poder ser, adornado de originalidade, criatividade, alegria e muitas arrobas de paciência.

Múltiplos são os contextos da atuação destes profissionais. Em primeiro lugar com a infância, dinamizando ludotecas ou brinquedotecas, apoiando as crianças desvalidas, marginadas pela sua etnia, a sua procedência social , ou por ser filhos de imigrantes. Pensamos que é muito urgente estabelecer uma praça de educador/a social por cada dez unidades dos centros educativos. E que, naqueles de jornada única, sejam estes profissionais os que dinamizem as atividades circum-escolares em horário de tarde. Em segundo lugar, um campo de trabalho importante é o da juventude. Dinamizando casas da juventude e clubes juvenis, organizando atividades de tempo de lazer positivas, que paliem o botelhão. Desenvolvendo habilidades sociais a ajudando à inserção laboral de inadaptados e marginados. Na terceira idade, trabalhando em centros de dia e em residências de pessoas maiores, onde são muito necessários. Outros contextos não menos importantes são os de educadores de rua e de bairro, intervir na educação preventiva com menores, contra a violéncia em centros e nas pandilhas, contra a violéncia de gênero, hoje verdadeira lacra, contra o consumismo, a drogadição, o alcolismo, a prostituição, a marginalidade, os crimens contra a natureza, os grupos neo-nazis, as máfias… Para isso devem ajudar a favorecer uma cultura de paz, a ecologia, a interculturalidade e o respeito entre todos os seres humanos. Qué importante é o trabalho destes profissionais! E, no momento que vivimos, quánta falta nos fazem os/as educadores/as sociais!

O labor prioritário dos educadores sociais é a educação preventiva. Essa tão valiosa e que, infelizmente, tão pouca importância lhe damos. E assim nos vai. O seu campo de trabalho é a educação informal, para mim muito mais importante que a formal. Como também o era para esse grande pedagogo que foi Cossio. E para Don Bosco, os Padres Flanagan e Américo e Tagore, como comentei antes. Quando os cidadãos sejam conscientes, depois de refletir bem, que o tempo de ócio ou lazer é importante na vida das pessoas, que desde crianças há que despertar nas mesmas afiçoes positivas (amor pela leitura, pela música, pelo teatro, por escrever, por brincar adequadamente, por comunicar-se com os outros, sendo solidários, pela paz e a não violência, pelo respeito ao entorno e aos maiores, pelos direitos humanos…), então, e só então, hão de ver o fundamental que é o labor e cometido dos que estudam para serem educadores sociais. E reclamarãm a sua presença em muitos lugares, com um salário digno e um trabalho não temporário. Especialmente, em centros de acolhimento de menores ou reforma. E com inmigrantes, para ajudá-los a encontrar emprego, para a sua formação, inclusivê a lingüística, para lograr a sua integração em todos os âmbitos sociais, e prever assim que não surjam diferentes problemas, de violência, marginalidade, racismo e outros. Também são muito importantes os educadores sociais na educação permanente de adultos.

Eu orgulho-me de ter sido professor nesta carreira desde o primeiro ano no que se implantou em Ourense, durante 16 anos do meu labor docente universitário. E orgulho-me porque considero estes estudos como muito importantes, merecedores de maior consideração entre todos nós e a nível da cidadania. Ao longo de todos estes anos e cursos passaram pelas minhas aulas infinidade de alunos e alunas com verdadeiros valores, de solidariedade, alegria, desejos de ajudar aos demais, altruísmo, amor à vida, aprécio pela paz, amor à natureza… Porque é esta uma carreira na que é fundamental ter vocação e ter dinamismo e liderazgo. Ao largo dos anos mesmo teve algumas promoções fantásticas, às que felicitei e lhes dei a saber que fora para mim grandioso e emocionante te-los como alunos. Pela sua bondade, generosidade e alegria. Uns para trabalhar com crianças, outros com jovens, outros com maiores e outros com grupos marginados pela sociedade em centros de acolhimento para crianças e jovens. Segundo os seus gostos e preferências. Por isso, qué importante seria que toda a nossa sociedade fosse consciente de que necessitamos vitalmente a presença dos educadores sociais em muitos lugares! Tanto como a boa água de maio. E não a saraiva.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Utilizando a técnica do Cinemaforum, podemos analisar o filme do realizador Adrover, desde o ponto de vista formal (linguagem fílmica, planos, planos-contra plano, movimentos de câmara, etc.) e de fundo (mensagem que intenta transmitir e atitudes que manifestam as diferentes personagens do mesmo, especialmente a do educador principal e alguns dos adolescentes acolhidos).

Convidar ao diretor ou diretora do centro de acolhimento de menores da localidade, que pode vir acompanhado de algum educador e de algum menor, para que visitem o nosso centro educativo e ministrem uma palestra, na qual alunos e docentes ao final possam realizar perguntas.

Elaborar uma monografia, com desenhos, fotos e textos, sobre os sistemas de acolhimento de crianças e adolescentes em diversos países do mundo, e pelo menos um por cada continente. Dita monografia pode incorporar modelos de centros de acolhimento em funcionamento em diversos lugares, que realizam um trabalho modelar neste campo, e podem servir de guia para outros centros. Para elaborar este trabalho pode consultar-se a internet (em Portugal e Brasil existem diversos centros modelo, dos quais se pode obter informação). Com o material recolhido e elaborado pode organizar-se ademais uma amostra-exposição.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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