Sobre o método: o que fazer? (I)



Twirl, cuja inteligência era lúcida, observou que o Congresso pressupunha um problema de natureza filosófica. Planear uma assembleia representando todos os homens seria como fixar o número exacto dos arquétipos platónicos, um enigma que tem intrigado os pensadores durante séculos. Ele sugeriu que, sem ir mais longe, Alexander Glencoe poderia representar os proprietários das terras, mas também os Orientais e também os grandes precursores e também os homens de barba vermelha e os que estão sentados numa poltrona. Nora Erfjord era norueguesa. Representaria ela as secretárias, as mulheres norueguesas, ou simplesmente todas as mulheres bonitas? Seria um engenheiro suficiente para representar todos os engenheiros, mesmo os da Nova Zelândia?

(do conto El Congreso, Jorge Luis Borges, de El libro de arena)

quase cristal Madrasa

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De uma forma mais aterrada, a questão do método pode ser visualizada nas situações quotidianas da nossa existência. Da mesma forma que os conhecimentos matemáticos básicos nos permitem resolver situações da nossa vida material, organizando e desenvolvendo a vida humana nas suas áreas mais simples: construção, contabilidade, distribuição, organização, gestão, etc.; assim também os conhecimentos filosóficos no seu sentido sapiencial, no sentido que temos vindo a desenvolver aqui, se aplicam às situações mais simples e ordinárias da nossa vida. Claro que, tal como acontece com a matemática, tem dimensões que vão muito além destes usos, mas precisamos de começar desde o princípio (aqui é necessário especificar: se enviar um whatsapp supõe um desenvolvimento do conhecimento científico de uma sofisticação muito elevada, com implicações do conhecimento da física quântica, podemos dizer que a outra perspetiva é o conhecimento sofisticado que refina o tempo, o lugar e a gente em cada interação comunicativa, dotando esta interação de uma energia específica). A questão é que a autoconsciência e tudo o que ela implica é algo que está presente em praticamente todas as interações enquanto seres humanos (e não apenas entre seres humanos). Continuando com o exemplo anterior, podemos dizer que se pode enviar um whatsapp de muitas maneiras. Se o conhecimento técnico que nos permite enviar um whatsapp é avassalador, não menos é o que rege o facto de podermos dotar a mensagem de conteúdo e consciência. O momento de enviar uma mensagem, o conteúdo, o tipo de resposta, o tempo que passa entre uma mensagem e outra implica uma interação entre mentes que depende do grau de autoconsciência. Deste conhecimento (ou falta dele) pode depender o aumento da tensão (ou o acordo) que pode levar a um conflito familiar ou o desencadeamento de uma série de circunstâncias infelizes que levam a um acidente ou a um conflito mundial, ou a combinação virtuosa que evita uma guerra. Dei o exemplo da tecnologia moderna porque ela continua algo que sempre existiu em várias formas de comunicação e que envolve a base do que aqui se quer dizer: o facto de as relações humanas envolverem a transmissão de energia que serve para destruir, cuidar ou construir as nossas relações e o nosso ambiente. Um trabalho no campo do auto-conhecimento supõe não só conhecer as nossas limitações e condicionamentos mas também descobrir e desenvolver o potencial construtivo para as nossas relações e ambiente.

Um trabalho no campo do auto-conhecimento supõe não só conhecer as nossas limitações e condicionamentos mas também descobrir e desenvolver o potencial construtivo para as nossas relações e ambiente.

Naturalmente, o conhecimento desta perspetiva modifica a visão convencional da ciência moderna e, além disso, permite-nos compreender um nível subtil de acção que se desenvolve no decurso da existência permeando todas as atividades humanas. Mas vamos a um exemplo simples. Vamos supor um encontro entre pessoas que vão lidar com um assunto de ciência, história, filosofia ou, simplesmente, assuntos profissionais. Para este efeito, serão reunidos num congresso durante três dias. Participam cerca de vinte oradores e conferencistas. Mais de duas centenas de participantes. Podemos ver através deste evento habitual a imensa gradação e quantidade de relações envolvidas: a preparação do encontro com a sua logística e organização, a interação entre os organizadores e os oradores, entre os próprios organizadores, as intenções e perspetivas de cada participante, o contexto e o lugar escolhido (um hotel na cidade ou um lugar na periferia rodeado de jardins, a universidade, etc., etc.). Se olharmos para ela podemos ver como esta atividade humana está envolvida numa multiplicidade de relações que envolvem as pessoas diretamente envolvidas e outras indiretamente (pessoal de serviço, visitantes ocasionais, empresas adjacentes na cidade onde os participantes do congresso param, etc.). Se analisarmos isto da perspetiva das intenções que se configuram meses antes da simples celebração do encontro veremos que se trata de uma massa de enormes fluxos de energia. Mas as cousas tornam-se mais complicadas se aprofundarmos nas intenções mais ocultas dos participantes e da sua consciência das mesmas.

Visto de fora, seria algo como um encontro para esclarecer questões relacionadas com a formação profissional e/ou científica dos participantes, mas a intra-história pode descobrir, como num filme, diferentes posições e situações entre os participantes: desde o homem ou mulher que encontra uma boa oportunidade para conhecer outras pessoas (talvez um novo amor) até ao jovem, recentemente formado, que leva muito a sério os temas discutidos e apresenta a sua própria comunicação com a intenção de discutir seriamente certas questões que considera centrais. No meio há muitas pessoas que estão ansiosas por se encontrarem com velhos conhecidos com os quais podem socializar ou sair para beber um copo à noite. Há também aqueles que devem manter uma certa imagem entre os seus empregados ou colegas na universidade, desenvolvendo um papel público que mantenha a sua reputação e a forma como outros os veem. Há também as múltiplas expectativas de muitas pessoas que querem aprender sinceramente sobre os temas abordados ou que querem fazer um lugar para si na sua empresa ou no seu campo de estudo. A propósito, há também algumas pessoas que estiveram envolvidas numa controvérsia durante anos que quase se tornou pessoal. Claro que muitas cousas podem vir à luz nos momentos informais dos intervalos, almoços ou jantares que podem ter lugar entre os círculos do congresso: cousas sobre a vida privada das pessoas, atitudes pessoais, mexericos pequenos ou grandes, julgamentos sobre a aparência física, vestuário, atitude, etc.

Claro que muitas cousas podem vir à luz nos momentos informais dos intervalos, almoços ou jantares que podem ter lugar entre os círculos do congresso: cousas sobre a vida privada das pessoas, atitudes pessoais, mexericos pequenos ou grandes, julgamentos sobre a aparência física, vestuário, atitude, etc.

Tudo isto nem sempre é comentado com os outros, mas faz parte da apreciação contínua dos olhares e observações que se movem num mundo extraordinariamente atento ao movimento superficial das imagens, ou se preferir, das aparências. O estado interno das situações, a vertente subjacentemente emocional, a apreciação do que é certo ou errado depende quase inteiramente das expectativas, preconceitos e intenções não reconhecidas pelas pessoas envolvidas. A perspetiva do auto-conhecimento permite identificar uma ordem de acontecimentos que normalmente não são contemplados ou perante os quais existe um acordo tácito de não os tocar ou falar sobre eles. Este segundo aspeto faz parte de uma atitude que poderia ser resumida na frase: as cousas são assim e sempre foram assim, não há nada que poda ser feito, por isso para de pôr o dedo na chaga de algo insolúvel. Parece que tal questionamento é uma tentativa de evitar alcançar os objetivos da vida comum, mas, claro, são apenas crenças que não nos temos demorado a examinar. Dizer que um congresso sobre atividades profissionais envolve 90% das situações que têm a ver com a procura de um parceiro, a afirmação de uma certa reputação, a justificação de uma atividade empresarial ou universitária, o desenvolvimento de méritos para aumentar o poder e a influência, a auto-afirmação do ego, propaganda, proselitismo de algum tipo, entretenimento, turismo, etc., é como deixar em evidência algo que a consciência moral não aceita facilmente. É ótimo para todos nós dissimular e o que dizes não é algo novo, podem dizer-te, afinal todos nós o observamos de alguma forma, mas torná-lo explícito é ser suspeito de um desajustado ou de uma pessoa que não sabe como estar no mundo. E, claro, haverá sempre o homem de negócios experiente que vê em tudo isto a ocasião para “negócios”, ou melhor, as condições para o seu negócio. Mas é claro que este convencionalismo não deve ser questionado onde opera, mas aqui é convocado para compreender como as situações do mundo ordinário e as suas ações são completamente confusas do ponto de vista dos próprios sujeitos participantes: competitividade, ciúme, inveja, desejo de atenção ou necessidade de dar atenção, projeções sobre outros das nossas expectativas ou desejos, vaidade, a necessidade de dar uma imagem, sedução através da imagem, ou simplesmente, a necessidade de integração num grupo, em suma, todos os mecanismos que derivam ou procedem de formas que tocam o que poderíamos chamar o “verniz do mundo”. Tudo isto dentro de uma realidade de formas que torna este procedimento tolerável e mesmo legítimo, mas que supõe um desperdício de vida e de experiência essencial para o desenvolvimento da vida humana. Claro que é a base da ineficiência e da frustração na raiz das instituições, porque é dado como certo que educar é esconder esta evidência, não prestar atenção a ela e começar a usar todo o combustível emocional derivado desta inconsciência, com todos os truques relevantes, para alcançar resultados palpáveis. Assim, se a ambição excessiva, a competitividade, a insensibilidade, o perfeccionismo obsessivo, o complexo de culpa ou os ciúmes forem úteis para certos resultados de “aprendizagem”, serão utilizados apesar de produzirem efeitos que inibem ou bloqueiam o potencial da pessoa como um todo. Assim, certas atitudes que correspondem a uma ignorância básica, passam por métodos louváveis porque foi alcançado um objetivo prático (no melhor dos casos). A questão é: está alguém consciente do que foi assim evitado ou tornado impossível? Não só não se acredita que nada tenha sido perdido, mas também que “não há tempo” para questões morais ou éticas. E aqui está a armadilha porque estas não são apenas questões morais ou éticas, mas de um pragmatismo mais amplo. Evidentemente, há toda uma série de questões que não foram levantadas e que não querem ser levantadas. Não é, pois, surpreendente que existam magníficos profissionais que nada sabem sobre si próprios e que, no final, podem ver o profissionalismo do seu trabalho minado por pontos de teimosia e cegueira, bloqueando o seu próprio desenvolvimento profissional e/ou pessoal. A pessoa tem sido explorada num sistema que não tem em conta a sua totalidade. Isto pode levar à teimosia, ao trabalho intensivo que mascara uma depressão, ou simplesmente à obstinação, voluntarismo ou “moralismo” que está subjacente à frustração e a uma luita exaustiva. Uma duplicidade que leva a vida a uma crise (no melhor dos casos) ou a uma corrida sem fim, mesmo disfarçada de “sucesso”, mas na maioria dos casos há apenas uma sobrevivência mais ou menos acomodatícia.

Mas a questão relevante aqui, como o outro lado da moeda, é que por baixo e dentro destas atitudes que constituem o “verniz do mundo”, está o fluxo da vida. O que na expressão de Spinoza chamaríamos o “conatus”, ou seja, o desejo essencial de crescer e desenvolver-se, não só de perseverar no ser, mas de aumentar o seu poder, a sua virtude e a sua felicidade.

José António Lozano Garcia

José António Lozano Garcia

Nasceu na cidade da Corunha em 1967. É professor de Filosofia no ensino secundário. Foi finalista em 1988 do Prémio de poesia Nacional O Facho. Em 1989 publicou no livro coletivo Fogo Cruzado (AGAL) o relato O pêndulo sob o pseudónimo Jorge Mário Novais. Em 1993 foi prémio ex-aequo junto a Xavier Alcalá no certame de narrações breves Manuel Murguia de Arteijo pelo seu relato Retrato antigo:pinturas e superfícies. No mesmo certame recebeu em 2016 o 3º prémio pelo relato A Aranha de Sidney . Publicou em 2002 no livro comemorativo dos 10 anos do prémio Manuel Murguia o relato Porco Transgénico.
Em 1995 publicou Nocturnos indígenas na obra coletiva 7 Poetas com o grupo Hedral, do que formou parte.
Em Fevereiro de 2020 publicou Obscura Anatólia na editora Urutau, o seu primeiro poemário a título individual.
No âmbito da filosofia tem várias publicações em Portugal e na Galiza sobre o filósofo portuense José Marinho. Especialmente interessado pelas vias iniciáticas da Tradição primordial está a dirigir a sua criação atual na interação de filosofia, poesia, teatro e música para resgatar a conexão originária e viva da arte na sua função espiritual e sapiencial. Tenta ligar-se a um pensamento libertário que integre as sabedorias ancestrais e originárias da raça humana.
É colaborador da revista digital Palavra Comum onde tem publicado ensaio, poesia e narrativa.
José António Lozano Garcia

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