Será que vou velho

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Aos meus 50 tacos (nada diz melhor 50 anos que 50 tacos), não me apetece nada andar a discutir por questões de norma linguística. Sou o fantasma do jovem que fum, a quem apaixonava um bom debate normativo, e que desfrutava a recompilar e refutar argumentos. Será porque vou velho. Será que estou cansado. Será que atingi a perfeição argumental: deixar que passe a discussão e continuar a pensar o mesmo. Será que sou um frouxo. Ou será que aqueles argumentos recompilados estão, melhor ou pior, integrados na minha vida, constituindo simplesmente quem eu sou. E já está: não tenho que justificar a minha própria existência.

Mas dizia Hegel (disque), que quando uma consciência está embebida numa outra, e aspira a ser reconhecida por ela, isso é desejo. E esta ideia, que constitui provavelmente o pior slogan de perfume jamais escrito, levava o pensador a dizer que o desejo é o motor da história e da cultura. Já sei que Marx dizia outra cousa. Mas o que interessa é que ser visto parece ser um desejo tão natural que até houvo um filósofo importante que pensou que eram basicamente o mesmo.

Na minha vida, tenho tido bastante sorte. Quando escrevi o meu primeiro livro, houvo quem se preocupou de que se publicasse. No segundo, houvo uma editora (Através) disposta a levá-lo às livrarias, depois de um processo de valorização. E no terceiro, dérom-se uma série de casualidades que acabárom com o meu livro publicado por Xerais: que o Concelho de Bueu decidisse aceitar explicitamente textos em galego reintegrado no XXVIII Prémio de Poesia Johan Carballeira; que o júri escolhesse o meu livro entre muitos como o ganhador; e que houvesse um acordo prévio para o ganhador ser publicado por essa editora.

Ganhei por um triz. Justo depois de mim, Xerais pediu ao concelho de Bueu fechar a porta a livros em reintegrado no Johan Carballeira, e o concelho aceitou. Dim-me pessoas qualificadas que na maioria de certames atuais não há problemas com isso, e que, desde que estejam em galego, todos os textos são aceites. Não tenho porque duvidá-lo. Mas ninguém pode negar que existem alguns em que estamos banidos nas próprias bases. E ninguém poderá negar o que acontece agora no Johan Carballeira, para o qual “en língua galega” já significa “com enhe”.

O meu livro, Réquiem, foi considerado especialmente adequado para o certame, uma vez que reivindica a figura de assassinados pola repressão franquista, igual que o próprio Johan Carballeira. De facto, soube recentemente que dois deles, Narciso Suárez Lojo e José Besada Nieto, foram inclusive fuzilados com ele, no mesmo dia e lugar. E apesar disso, agora o meu livro já não poderia ser adequado, porque está escrito em reintegrado. E ainda há uma ironia maior: o próprio Johan Carballeira deixou escrito que advogava pola unificación da lingua galega na grafía sobre bases etimolóxicas. Quer dizer: ele próprio não seria adequado.

Nos certames literários, nos currículos educativos, nas reedições de livros, no reparto dos subsídios públicos… existe quem se esforce para que o reintegracionismo nunca seja visto. Ninguém nos tira o direito de existir, é claro, mas de portas para dentro. Nas nossas casas podemos fazer o que quisermos, desde que não nos vejam as crianças, suponho. E não há nada contra nós. Se alguns até são os nossos amigos!

Eu tive muita sorte. Ganhei um certame de prestígio, e o meu livro foi publicado por uma das maiores editoras do país. E também não quero ser desagradecido. O Concelho de Bueu deu-me a oportunidade, e o comportamento de Xerais comigo tem sido excelente. Inclusive no primeiro lançamento, o diretor da editora, Fran Alonso, fijo uma impressionante recensão sobre o meu livro, que ainda me emociono a lembrar. É tudo absurdo. Talvez seja por isso que dói tanto. Ou então é que vou velho.

Máis de Uxio Outeiro