Por Rudesindo Soutelo
Quando uma criança aprende uma palavra nova, pega nela e repete-a a torto e a direito durante horas, dias ou mesmo semanas até apreender-lhe a sonoridade e sugar-lhe os significados. Vai juntar a nova palavra com qualquer outra, ainda que não faça sentido; vai dispor e combinar as suas partes dum modo diferente; vai traçar geometrias no seu imaginário; vai estruturar frases e pensamentos; vai arquitectar ideias; vai construir e desconstruir sucessivas histórias para edificar as emoções da sua fantasia. No fim de contas, o que a criança está a fazer com a nova palavra é, simplesmente, formar a sua singular personalidade.
Acontece o mesmo ao pintor que pega numa ideia -pode ser um motivo, uma cor, uma forma, uma paisagem, uma luz, um simples traço geométrico- e durante meses vai explorá-la numa série mais ou menos longa de quadros até esgotar todas as possibilidades expressivas da mesma.
Também o escritor passa meses ou mesmo anos com uma ideia e à volta da qual faz emergir todo um mundo que raramente se esgota numa única obra, pois com novas roupas essa ideia transita por obras sucessivas.
O compositor não é alheio a esse proceder que se revela natural desde a infância e com um simples motivo sonoro -tímbrico, rítmico, melódico ou harmónico, mesmo que seja extramusical- pode criar uma vasta obra em dimensões formais, espaciais ou temporais. Pegar num motivo sonoro e fazer o percurso da criança com a palavra é altamente criativo pois o que na realidade está a fazer quando repete a palavra, em múltiplos contextos diferentes, é induzir as conexões neuronais no seu cérebro para gerar processos mentais.
O cérebro é o suporte físico da mente mas possuir uma massa cinzenta perfeita não garante a inteligência nem a mera existência de pensamentos. É preciso educar o cérebro para que a simples activação de neurónios, a circulação de neurotransmissores ou a coordenação das suas diferentes partes se transforme na faculdade de pensar ou num acto de inteligência. É assim que as crianças forjam a sua individualidade e, se essa educação for permanente, ultrapassando a infância, o pensamento que nasce nesse cérebro também pode levar a criar obras de arte transcendentes, quer dizer, perduráveis e significativas.
Para os moradores das margens de um rio é natural que este seja o seu principal motivo de inspiração ou palavra mágica para comunicarem os neurónios com o mundo. O rio Minho não é excepção e todos os que nos olhamos no seu demorado espelho sentimo-nos parte do mesmo mundo.
No passado ano de 2008 a palavra que eu, como uma criança, repeti a torto e a direito durante meses foi a do pai Minho e assim ficou plasmado em duas partituras que considero essenciais no meu catálogo criativo. Ambas as obras unem, activam e coordenam o cérebro colectivo, regado pelo rio Minho, para desenvolvermos essa consciência minhota. Tui e Monção foram os pontos de partida para traçar a geometria musical que estrutura o discurso sonoro e há símbolos que transitam de uma obra para a outra no espaço e no tempo da palavra Minho. Deu-la-deu -a heroína que libertou Monção do cerco castelhano- e Cabo Fradera -o barco patrulheiro ícone do Minho navegável- compartem esse mesmo imaginário colectivo.
A primeira dessas obras intitula-se “Minho azul, um passeio no Cabo Fradera” para Banda Sinfónica, e está dedicada a José Luís Garcia Amador, Comandante Naval do Minho, por ser pessoa sensível que aprecia a música erudita. Nesta obra o rio é um privilegiado ouvinte de músicas que lhe chegam de uma e outra beira como missangas dum colar sonoro. Um dos pontos culminantes da obra alcança-se na simultaneidade de uma Treboada ou Zé-pereira, segundo a denominação ao Norte ou Sul do Minho, com o Hino da guerra contra o invasor francês, quando galegos e portugueses lutaram pela primeira vez no mesmo lado. (Lembremos que o acontecimento que desencadeia a primeira insurreição declarada contra Napoleão em Portugal ocorre na tarde do dia 6 de Junho de 1808, quando o general Belestá, no comando das tropas galegas, prende no Porto o general francês Quesnel, que fora nomeado corregedor-mor da cidade por Junot). O clímax final da obra pode, muito bem, definir-se como “hinótico” pois das margens chega alternadamente o som dos seus respectivos Hinos e após um diálogo reintegrador, produz-se o abraço final. A estreia de “Minho azul, um passeio no Cabo Fradera”, pela Banda da Escola Naval de Marim, está agendada para 20 de Abril de 2009 em Tui.

O simbolismo sonoro desses dois momentos referidos, com outra roupagem, transita para a segunda obra e anuncia o triunfo no seu último andamento. “Deu-la-deu”, uma Suite para Guitarra, foi estreada em Compostela no dia 6 de Outubro de 2008, com motivo da Sessão inaugural da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) porque esta Academia surge como uma nova Deu-la-deu que procura o triunfo incruento da estratégia e desde o mais alto da fortaleza da língua a AGLP lança os pães ao inimigo. Talvez ele também desista e finalmente (tirando do repetido fio das palavras de Manuel Murguia -historiador e marido de Rosalia Castro- no discurso dos Jogos Florais de Tui de 1891) possamos abraçarmo-nos na língua que temos em comum com Portugal.
A qualidade do nosso cérebro, segundo recentes investigações de neurocientistas cognitivos, tem muito a ver com as músicas que ouvimos habitualmente pois quanto mais complexa é essa música, mais poderosa será a rede que urde o cérebro. E a experiência criativa do compositor, para gerar processos mentais, é trasladável aos intérpretes e ouvintes atentos. Basta que estes repitam a audição, como a criança repete a palavra, um suficiente número de vezes e assim dar tempo ao cérebro de activar, conectar e coordenar os neurónios. É aí que podem surgir as ideias, o pensamento, a inteligência, e então experimentemos o “sentimento oceânico”, que Sigmund Freud definiu em “O Mal Estar na Civilização” como: a sensação de estabelecer um vínculo indissolúvel, de ser um com o mundo exterior, de formar parte de um todo. Isso é o que faz a criança quando pega numa palavra nova. Isso foi o que eu fiz neste artigo seguindo a lógica instintiva da criança.

© 2009 by Rudesindo Soutelo
Nota: (Artigo solicitado pela Câmara Municipal de Tui para o Programa de festas de 2009). A Estreia de “Minho azul” está agendada para 20 de Abril de 2009 no Teatro Municipal de Tui pelas 18h30.
