A irracionalidade do racional

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Por Rudesindo Soutelo (*)

A procura de alimento pode ser o que estimule a imaginação de certos animais para auxiliar-se de ferramentas, mas há alguns que até parecem atingir formas de expressão ‘artística’. Talvez devêssemos pensar que os humanos não são os únicos animais inteligentes. Na internet, abundam testemunhos de chimpanzés pintores, orquestras de elefantes, passarinhos da família Ptilonorhynchidae a decorar exaustivamente o seu imenso ninho, e corvos habilidosos que aperfeiçoam utensílios. Tudo isso, quando é feito pelo animal humano, pode, mesmo, ser classificado de artístico mas a arte, apesar dos esforços do pós-modernismo para esvaziá-la de conteúdo, é algo mais do que um cálculo de resultados, precisa de uma vontade de transcender, uma intenção de criar algo que reclame o nosso interesse depois de acabado. Theodor W. Adorno diz na Teoria Estética que não é obra de arte aquela que se apresenta “sem resíduo à reflexão e ao pensamento”1.

O pós-modernismo pretendeu apagar as metanarrativas –discursos dominantes que permeiam a sociedade– impondo uma globalização neoliberal que possibilitasse a supressão dos estados em favor do fundamentalismo capitalista. Nessa vontade uniformizadora, não admira que, em 1993, Vitaly Komar e Alexander Melamid –artistas judeus formados no realismo socialista soviético e já, na altura, residentes na Usamérica– convenceram o Nation Institute a subsidiar o People’s Choice. Foi um projeto megalómano para analisar as preferências artísticas de perto de dois mil milhões de pessoas, um terço da humanidade, em que o objetivo era encontrar a ‘arte universal’, global, mas os resultados do projeto, divulgados no livro Painting by Numbers, não passam, precisamente, disso, números e estatísticas que nada nos dizem sobre a universalidade da arte2. Um grande fiasco.

Todos os quadros utilizados na investigação foram pintados pelos dois promotores do projeto e, segundo o estudo, os quadros mais votados eram aqueles que mais lembravam as imagens de calendário. Isso levou Ellen Dissanayake a publicar um interessante artigo sob o título Komar and Melamid Discover Pleistoceno Taste3 onde pela primeira vez se estabelece uma ligação entre a atração inata por certos tipos de paisagens e a herança do pleistoceno, quando a cultura humana começou a emergir. O evolucionismo de Darwin entrou assim nos domínios estéticos da arte.

Por outra parte a psicologia vinha investigando, desde os anos 70, as preferências paisagísticas dos humanos. Os trabalhos experimentais realizados pelo casal Stephen & Rachel Kaplan já permitiram definir quatro variáveis preditoras: Coerência – Complexidade – Legibilidade – Mistério4. Se extrapolamos isso para todo o tipo de comunicação ativa, observamos que a coerência é fundamental para perceber a estrutura, o contexto e o espaço. Um certo grau de complexidade, de riqueza de elementos, é necessário para evitar o aborrecimento. A legibilidade é a clareza para reconhecer as partes do discurso. Por último, mas de vital importância, está o encorajamento para a descoberta, o aspeto de futuro, o mistério que mexe com a imaginação humana. São quatro parâmetros básicos que determinam as preferências visuais e também as auditivas –a música– e em geral todo o tipo de perceção ativa. Coerência, complexidade, legibilidade e mistério seriam, pois, as quatro incógnitas a resolver pelo artista em todo o processo criador.

O simplismo das musiquetas que por toda parte profanam a nossa privacidade sonora parece estar mais perto do pleistoceno do que das variáveis preditoras definidas pelos Kaplan. O totalitarismo amável da estética de calendário, a ‘arte sem sonho’5 imposta pela indústria cultural, rende muito bons benefícios ao capitalismo global e ainda contribui para adormecer a imaginação e condição humana, que sempre foi uma fonte de conflitos.

Mas o projeto People’s Choice, de Komar e Malemid, também indagou, por meio da estatística, qual seria a música universal. O resultado não revelou coisa alguma de interesse, para além dos números. Apenas como curiosidade perversa e pedra de escândalo, cabe referir que esses números situam as músicas que utilizam acordeões, gaitas de fole ou crianças, no topo das músicas mundialmente mais repelentes. Adorno sabiamente concluía: “É com horror que o sensório percebe a irracionalidade do racional”6.

 

(*) da Academia Galega da Língua Portuguesa. Compositor e Mestre em Educação Artística.


Notas:

1 Adorno, T. W. (2008). Teoria Estética. (A. Morão, Trad.) Lisboa: Edições 70, p. 188.

2 Wypijewski, J. A. (1997). Painting by Numbers: Komar and Melamid’s Scientific Guide to Art. Nova Iorque: Farrar, Straus & Giroux.

3 Dissanayake, E. (October de 1998). Komar and Melamid Discover Pleistocene Taste. Philosophy and Literature, 22, 2, 486-496.

4 Kaplan, R., & Kaplan, S. (1989). The Experience of Nature – A Psychological Perspective. Cambridge: Cambridge University Press, p. 221.

5 Adorno, T. W. (2010). Indústria cultural e sociedade. (J. M. Almeida, Ed.) São Paulo: Paz e Terra, p. 14.

6 Adorno, T. W. (2008), op. cit. p. 484.

 

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