Neo-Trans-Pós-Modernismo. Uma lógica confusa

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Por Rudesindo Soutelo

Prelúdio

A felicidade fragmentária que vendem os anúncios do ultra-consumismo pós-moderno entrou em crise, passou de moda, irrita. Mas o estupor dos publicistas impregnou uma grande parte da sociedade, de modo que continuará a marcar as grandes linhas de pensamento da cultura ocidental durante décadas.

O modernismo europeu ultrapassou a tradição criando uma nova realidade que repensou a existência –Gaudí inclinou a verticalidade; Pessoa desarticulou a rima; Schönberg enterrou a tonalidade; Kandinsky desvelou a abstração da natureza– mas o pós-modernismo instaurou a intranscendência, o hedonismo narcisista, a lassidão mental, o egocentrismo, o desencanto e perda da perspetiva, a vivência do imediato, a imaturidade e o individualismo insolidário que só se identifica em ‘tribos’.

As origens do Modernismo situam-se no niilismo filosófico de Nietzsche que com a morte de Deus obrigava a reinventar o ser humano. Diante da quebra de valores que representou a Primeira Guerra Mundial, um grupo de artistas refugiados na Suíça criou um movimento radical, que o acaso denominou “dada”, contra tudo aquilo que até então era válido –“Nel dadaismo si pone per la prima volta esplicitamente un problema di grande rilievo per la estetica contemporanea, il concetto di ‘contemplazione estetica’ … gli aspetti più scandalosi del dadaismo … contribuiscono in modo decisivo a mettere in crisi proprio questo aspetto della coscienza estetica otto-novecentesca” (Vattimo, 2008, pp. 67-68)– e aquela revolução fragmentária –auto dissolvida por volta de 1922– foi a semente que a Segunda Guerra Mundial fez germinar e transformou em maquinaria desideologizadora. “Delírio da extinção, amável irrelevância, feliz substituição das catedrais pelas grandes superfícies” (Rodríguez Magda, 2004, p. 23)

O pós-modernismo foi o sonho do grande império, a ditadura do efémero, da estetização da propaganda, da inexistência do ser. Mas também da fragmentação do saber em pílulas douradas e fáceis de engolir. A transmissão de conhecimento deixou de ser um objetivo do ensino para ser substituído por experiências e sensibilidades em constante mutação. O mundo deixou de ser ‘factum’ para converter-se em ‘fictum’, simulacro. (Rodríguez Magda, 2004, p. 22).

Destruição da aura

“O efeito Hiroxima”, um artigo do filósofo português Eduardo Lourenço publicado o dia 13 de agosto de 1995 no Jornal Público e incluído no livro ‘O Esplendor do Caos’ (Lourenço, 2007, pp. 95-102), esclarece a “boa consciência” que caracteriza a cultura usamericana e o sentimento de povo eleito que lhe evita a inquietude, angústia ou escrúpulos quando instituído em nação guia deita sobre Hiroxima e Nagasáqui “o fogo do inferno” –como Einstein, seu ‘pai’ legítimo, o denominou. Aquele apocalíptico genocídio foi designado como “histórico” e pensado como o “tempo de Deus” enquanto que Auschwitz pertence por definição à culminância perversa e tenebrosa da barbárie pré-histórica. O dia 6 de agosto de 1945, Usamérica inaugurou solenemente, talvez sem o saber, uma nova era, a era pós-moderna ou da hegemonia mundial usamericana.

O cogumelo de Hiroxima acabou por cobrir quase todo o planeta e sumiu o mundo no pensamento débil do pós-modernismo, com perda do passado e do futuro. Essa radiação de anti-modernismo trocou a ação de pensar pelo culto ao corpo e à tecnologia, renunciando às utopias e ao progresso. Diluiu as ideologias e acabou com a auto superação e o esforço. A verdade passou a ditar-se desde os meios de massas e dos gabinetes de marketing, onde se instalou o poder real.

John Cage recicla o dadaísmo e leva o absurdo musical à sua última consequência escrevendo uma obra onde cada um dos três andamentos tem por única grafia a palavra latina “tacet”, um termo musical que indica uma pausa prolongada. O autor declarou que o seu propósito era mudar a perceção dos ouvintes, não para compreenderem, tão-só para estarem atentos. A obra intitula-se 4’ 33”, por ser essa a duração da primeira interpretação realizada em Nova Iorque o dia 29 de agosto de 1952 pelo pianista David Tudor, e converteu-se num ícone do pós-modernismo usamericano. Mas chegado a esse limite abismal da música alegadamente erudita, só cabia o silêncio absoluto ou o retorno ao mundo dos sons. Então começaram com a universal “culturização” de todas as músicas na linha do que Eduardo Lourenço interpreta como ‘feérie’ cultural permanente, puramente decorativa e fantasmagórica (Lourenço, 2007, p. 124).

Batalha do “formal”

No III volume de ‘Ditos e Escritos’ de Michel Focault inclui-se um diálogo com o compositor francês Pierre Boulez sobre “A música contemporânea e o público” publicada em 1983, onde o autor do ‘Marteau sans maître’ diz: “Será que falar das músicas e alardear um ecumenismo eclético resolve o problema? Parece que, pelo contrário, se o escamoteia… Todas as músicas são boas, todas as músicas são agradáveis. Ah! O pluralismo, nada se compara a ele como remédio para a incompreensão. … Tudo vai bem, nada vai mal; não há valores, mas há prazer”. E ainda acrescenta que “o ecumenismo das músicas é uma estética de supermercado, uma demagogia … para camuflar a miséria dos seus compromissos” (Foucault, 2006, p. 393).

A industrialização da música inicia nos sessenta a mundialização mas Focault considera que muitos dos elementos destinados a dar acesso à música acabam precisamente empobrecendo a relação que se tem com ela e assim as leis do mercado terminam por estabelecer os limites de uma capacidade ‘bem definida’ de audição e delimitam cada vez mais um esquema de escuta. Isto está de acordo com a teoria da “destruição da aura” e as mudanças nas condições de produção que preconizava Walter Benjamin no ensaio de 1936 ‘A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica’ (Benjamin, 1992).

O antimodernismo usamericano não foi plenamente aceite na Europa onde o pensamento nunca foi banido –tão-só abrandado– e Focault, que considera Boulez como o sucessor de Shönberg e Webern, num artigo de 1982 intitulado “Pierre Boulez, a Tela Atravessada” esclarece: “Na época em que nos ensinavam os privilégios dos sentidos, do vivido, do carnal, da experiência originária, dos conteúdos subjetivos ou das significações sociais, encontrar Boulez e a música era ver o século XX sob um ângulo que não era familiar: o de uma longa batalha em torno do “formal”; era reconhecer como na Rússia, na Alemanha, na Áustria, na Europa Central, através da música, da pintura, da arquitetura ou da filosofia, da linguística e da mitologia, o trabalho do formal tinha desafiado os velhos problemas e subvertido as maneiras de pensar” (Foucault, 2006, p. 388).

Noutro artigo publicado no Corriere dela Sera, o dia 30 de Setembro de 1980, com o título “L’imaginazione dell’ottocento”, Focault afirma que Boulez é “o herdeiro mais rigoroso e mais criativo da Escola de Viena, um dos mais notáveis representantes da grande corrente formalista que atravessou e renovou toda a arte do século XX (e não somente na música)” (Foucault, 2006, p. 382). Este trabalho do formal faz-nos lembrar a Proposição 3 do ‘Tratado Lógico Filosófico’ de Ludwig Wittgenstein publicado em 1922 e que resume a essência da tradição cultural europeia: “A imagem lógica dos factos é o pensamento” (Wittgenstein, 2008, p. 38) ou, desde outro ângulo, “Pensar o mundo é fazê-lo com categorias filosóficas” (Rodríguez Magda, 2004, p. 22).

Ritualidade

Recuperar uma certa transcendência e ética do modernismo, ainda que assumindo as críticas do pós-modernismo, estava a tornar-se uma necessidade e a queda do Muro de Berlim afiança essa vontade de transformação. A filósofa espanhola Rosa María Rodríguez Magda, desde o ano 1987, vem propondo em diversas publicações a palavra “transmodernidade” para designar essa mudança de paradigma, pois as conotações do prefixo “trans” –transmissibilidade, transculturalidade, transnacionalidade, transpolítica, transexualidade, transgénico, transvanguarda– sugerem transformação, dinamismo, atravessamento de algo num médio diferente; esse algo que vai “através de”, não se estanca, mas parece atingir um estádio posterior que comporta a noção de transcendência. (Rodríguez Magda, 2004, p. 16). Para isso, o indivíduo precisa de retomar a origem ancestral dos mitos e recriar a ritualidade, na qual é oficiante ao mesmo tempo que criador e depositário do segredo da ausência. (p. 21).

A fragmentação e multiplicação pós-moderna, com a asseveração de já não ser possíveis as metanarrativas, por meio da revolução virtual da sociedade da informação, possibilitaram uma nova e Grande Metanarrativa: a Globalização. (Rodríguez Magda, 2004, p. 28). Mas a filósofa da transmodernidade convida-nos para uma revisão daqueles discursos dos anos sessenta e setenta que hoje exercem como novo catecismo da vacuidade. A crítica à ‘auctoritas’, no seu momento necessária, hoje legitima a falta de critérios de valor. A denúncia da autoria converteu-se na coartada do plágio. O rechaço do cânone dá crédito à literatura e à música lixo. A exibição de particularismos pretensamente universais favorece o localismo grosseiro e o fanatismo racial. A luta contra os privilégios agora anima a ditadura do igualitarismo e da mediocridade. (p. 51). Mas ainda é necessário chamar a atenção para a gíria politicamente correta e o messianismo New Age e pseudo-histórico manipulador de massas. A transmodernidade não é uma ONG, é um lugar onde todos temos de brigar. (p. 16).

Pensamento único

O pensamento forte do modernismo aspirava a transformar a realidade (Tese). O pensamento débil do pós-modernismo negava e desagregava a realidade (Antítese). A transmodernidade integra a realidade com a negação da realidade num espaço virtual interativo (Síntese) (Rodríguez Magda, 2004, p. 35). Mas a esta tríada Realidade-Simulacro-Virtualidade corresponde outra, Razão-Deconstrução-Pensamento único, que arrepia ainda mais por carecer de alternativa e gera uma transcultura do desarraigo global. O ícone da economia e cultura da transmodernidade é hoje, sem dúvida, a Google, um quase monopólio que controla e filtra a maior fonte de informação da rede global mas, longe de ser uma empresa horizontal e transparente –baste lembrar o pacto celebrado com o governo chinês para censurar conteúdos naquele país ou o obscurantismo sobre os algoritmos que utiliza para priorizar e categorizar a informação–, é uma estrutura vertical típica das multinacionais da economia da pós-modernidade.

Assim como Hiroxima significou uma mudança de paradigma, outro acontecimento apocalíptico, o dia 11 de setembro de 2001, marcou uma nova forma de pensar o mundo. Outras potências emergentes –nomeadamente Brasil, China, Índia e Angola mas não só– começam a ocupar espaços relevantes que descentralizam o poder global. Com a crise global estamos ultrapassando o paradigma da transmodernidade, caminhando para um novo pensamento forte de neomodernidade múltipla, no sentido que Jürgen Habermas lhe atribui no ‘Discurso Filosófico da Modernidade’ como uma existência livre de dominações (Habermas, 2008).

Para além disto, o desafio de pensar, a urgência de atuar, continuam pendentes. (Rodríguez Magda, 2004, p. 46). O século passado apresenta-se-nos, ainda hoje, com uma lógica confusa; não só na política ou na economia, mas sobretudo nas ideias e nas artes, onde a felicidade fragmentária que ainda vendem os anúncios do ultra consumismo pós-moderno entrou em crise, passou de moda, irrita, mesmo aos mais intranscendentes. Mas o estupor do marketing é tão radioativo que atingiu até os tecidos sociais mais profundos. O antídoto da cultura já não faz efeito porque o pós-modernismo rebaixou-a tanto que se confunde mesmo com a incultura.

Para assimilar e preencher aquele enorme vazio deixado pela ‘morte de Deus’, o modernismo tinha ao seu dispor uma alta cultura bem treinada na “forma”. Para remediar o vazio absoluto deixado pelo pós-modernismo não há contingentes intelectuais suficientes, com treino do “formal”, que repensem a humanidade tão rápido como os publicistas a desconstruem. O transmodernismo criou algumas condições para isso, como a sociedade organizada em redes de comunicação global, que a pouco e pouco pode gerar um novo e plural pensamento forte, base para um neomodernismo. Mas é urgente pensar se queremos ser nós a reinventar-nos ou –parafraseando a Miguel de Unamuno– aceitamos ‘que inventem eles, e nós aproveitar-nos-emos das suas invenções’[1].

Obras Citadas

  • Benjamin, W. (1992). A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica (1936-1939). In Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política (M. L. Moita, Trad., pp. 71-113). Lisboa: Relógio D’Água.
  • Foucault, M. (2006). Ditos e Escritos – Estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema (2ª ed., Vol. III). (M. B. Motta, Ed., & I. A. Barbosa, Trad.) Rio de Janeiro, Brasil: Forense Universitária.
  • Habermas, J. (2008). El discurso filosófico de la modernidad. Madrid: Katz Editores.
  • Lourenço, E. (2007). O Esplendor do Caos (5ª ed.). Lisboa: Gradiva.
  • Office of the US Trade Representatives. (2009). 2008 Special 301 Report. (2009, Ed.) Obtido em 29 de agosto de 2009, de Executive Office of the President: https://pgl.gal/wp-content/uploads/2010/10/asset_upload_file553_14869-d03.pdf
  • OMPI. (2009). El Sistema Internacional de Patentes. Obtido em 29 de agosto de 2009, de Reseña Anual del PCT: Evolución y resultados en 2008
  • Rodríguez Magda, R. M. (2004). Transmodernidad (1ª ed.). Rubí (Barcelona): Anthropos.
  • Unamuno, M. (2006). In A. Chagaceda Toledano, Miguel de Unamuno, estudios sobre su obra. Salamanca: Universidad de Salamanca.
  • Vattimo, G. (2008). Opere complete (2ª ed., Vols. I. Ermenéutica, 2). Roma: Meltemi.
  • Wittgenstein, L. (2008). Tratado Lógico-Filosófico * Investigações Filosóficas (4ª ed.). (M. S.Lourenço, Trad.) Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

 

NOTAS A RODAPÉ

[1] Numa disputa sobre a europeização ou africanização da península ibérica, Miguel de Unamuno envia no dia 30 de maio de 1906 uma carta a José Ortega y Gasset onde escreve: «Inventen, pués, ellos y nosotros nos aprovecharemos de sus invenciones. […] La luz eléctrica alumbra aquí tan bien como allí donde se inventó» (Unamuno, 2006, p. 219). Este paradoxo, tão arraigado no nacionalismo espanhol, teve graves consequências no desenvolvimento económico da Espanha e o Informe Anual de 2008 da OMPI sobre o registo internacional de patentes confirma que as invenções espanholas não chegaram ao 0,6% mundial, muito longe do 11,3% da Alemanha ou mesmo do 4,2% da França (OMPI, 2009), países com os que frequentemente quer comparar-se. Também pode explicar o duvidoso mérito de no ano 2008 a Espanha ser incluída na Watch List pelo excessivo número de delitos contra a propriedade intelectual. (Office of the US Trade Representatives, 2009)

 

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