Por Miguel R. Penas
Tenho a casa cheia de jornais com o cabeçalho cor-de-laranja que falam do passado. Do que já foi. Papéis escritos para ser lidos —’como todos’, digo eu—, mas estes estám escritos dum jeito especial. Redigidos desde a incerteza de nom conhecer realmente quem será, ou melhor dito quem foi, o seu destinatário. Textos trabalhados sem saber se chegariam a aportar ou se naufragariam no mar do esquecimento. Para onde vam as notícias escritas que nunca fôrom ou serám lidas?
Por que molestárom tanto essas palavras que ninguém lia? Por que continuavam a imprimir-se todos os dias? Para quê?
A história do último dos caídos em combate —que combate? quem combate?— é especialmente complexa. Demasiado poliédrica como diria o colunista de página completa dos domingos. Especial. Um produto mimado polos seus operários e desprezado polos seus diretivos. Que mundo de loucos! Onde se viu cousa tal? Umha morte anunciada há dous anos e quatro meses. Mas é difícil acreditar, sobretudo quando o doutor diz que restam uns meses, talvez anos com um pouco de sorte. Todos nos aferramos a crer que sempre pode durar um pouco mais. Mas quando o diagnóstico é certo, o fim sempre chega.
Dizem que nasceu financiado para frear a enésima tentativa duns de criarem um jornal em galego. Dizem que, ademais, fôrom uns empresários da capital os que se adiantárom a outros do norte à hora de levarem para a frente umha iniciativa como esta. Se isto foi assim, desconheço por quê este projeto foi quem de travar ambas iniciativas. Talvez porque do que se diz ao que realmente acontece é habitual que exista umha ampla distáncia.
Anos depois, e talvez prevendo as mudanças que vinham, este congelador de palavras tornou-se um moderno frigorífico que já nom gelava mas continuava a inundar com um seu frio suave. Mudárom os tempos -cousa breve- e foi o momento de comprovar se o produto fresco poderia ter mais saída que os congelados. Os operários -neste caso operárias na sua abrumadora maioria- reformárom a linda geladeira para torná-la um modesto, mas formoso e acolhedor, refúgio da produçom do país, na língua do país. Sem pretensões mas com umha dignidade infinitamente superior que a dos supermercados da palavra existentes ao seu redor.
Mágoa que em realidade nunca lhes fosse concedida a visibilidade.
Mulheres e (poucos) homens que fôrom chorados por quem nunca os comprou ou mesmo os chegava a desprezar como se dum produto de segunda se tratasse. “Está bem mas…” sempre há um ‘mas’. Trabalhadoras sem recompensa, condenadas, habitantes do corredor da morte, de cor-de-laranja como nos filmes norte-americanos. Condenadas injustamente por crimes que nom tinham cometido. Por trabalhar com a palavra sem temor.
Umha história impossível que acabou como sempre acabam estas histórias. Cabeça servida em bandeja de prata ao homem poderoso, que todo pode fazer, por cúmplices que sempre agírom desde a covardia e a falta de ambiçom. Cúmplices de matar o seu próprio filho. GH.
