Pires de Lima, importante etnógrafo e filólogo de Portugal



pires-de-lima-fotoO presente artigo está dedicado a outro grande etnógrafo, filólogo e professor de Portugal. De nome completo Augusto César Pires de Lima (1883-1959), nasceu em Santo Tirso, cidade que está geminada com a Celanova ourensana. Este depoimento dedicado a ele faz o número 65 da série que estou escrevendo sobre os grandes vultos da Lusofonia, e o 177 da série de grandes vultos da humanidade iniciada no seu dia com Sócrates, o grande educador grego da antiguidade.

UMA PEQUENA BIOGRAFIA

Augusto César Pires de Lima nasceu em Areias, Santo Tirso a 29 de agosto de 1888, no seio de uma abastada família de lavradores e faleceu em 21 de dezembro de 1959 em Caldas da Saúde. Os familiares eram descendentes por linha feminina de D. Lionel de Lima, 1º visconde de Vila Nova de Cerveira, e da sua mulher Dª Filipa da Cunha. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Foi advogado, professor do ensino liceal e técnico, etnógrafo, filólogo e escritor, quase sempre em simultâneo. Em 1938 foi nomeado presidente da Comissão de Etnografia e História, tendo posteriormente fundado o Museu de Etnografia e História. Foi também um assíduo colaborador de revistas literárias e científicas, do Boletim da Junta do Douro Litoral e do Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto. Do mesmo modo, foi professor liceal, dedicando-se ao ensino e à investigação histórica e etnográfica, campos em que sempre se destacou.

Foi advogado, professor do ensino liceal e técnico, etnógrafo, filólogo e escritor, quase sempre em simultâneo. Em 1938 foi nomeado presidente da Comissão de Etnografia e História, tendo posteriormente fundado o Museu de Etnografia e História. Foi também um assíduo colaborador de revistas literárias e científicas.

Aos 15 anos partiu para Coimbra, cidade onde completou o ensino secundário, inscrevendo-se seguidamente no cursos de Direito da Faculdade de Direito da Universidade da cidade do rio Mondego. Enquanto aluno, coligiu em conjunto com o colega A. Dinis da Fonseca, as lições do Prof. António Henriques da Silva sobre “Sociologia Criminal e Direito Penal: lições ao ano lectivo de 1904-1905”, publicado na Imprensa da Universidade, em Coimbra.
Concluiu a sua formatura em Direito no ano de 1905, mas optou por uma carreira de professor liceal, mantendo a advocacia como ocupação secundária. A sua primeira colocação foi em Vila Real, em cujo Liceu lecionou entre 1906 e 1914. Naquela cidade transmontana, para além da docência liceal, exerceu advocacia e foi ativo na vida social local.

Concluiu a sua formatura em Direito no ano de 1905, mas optou por uma carreira de professor liceal, mantendo a advocacia como ocupação secundária. A sua primeira colocação foi em Vila Real, em cujo Liceu lecionou entre 1906 e 1914. Naquela cidade transmontana, para além da docência liceal, exerceu advocacia e foi ativo na vida social local.

Em 1914 obteve transferência para a cidade do Porto, cidade onde se manteria o resto da sua vida profissional. Foi inicialmente professor do Liceu Central do Porto, transitando seguidamente para o ensino técnico, ao ser colocado na Escola Comercial Oliveira Martins, depois na Escola Comercial de Mouzinho da Silveira, finalmente, na Escola do Infante D. Henrique em Cedofeita de que foi diretor. Para além da sua atividade docente no ensino liceal e técnico, foi professor de Literatura Portuguesa no Centro de Estudos Humanísticos de Porto e manteve intensa atividade de investigação e edição nos campos da literatura, da filologia e da etnografia, obtendo nesta última área particular destaque.
Em colaboração com a Renascença Portuguesa preparou a edição de obras de autores portugueses, entre os quais Gil Vicente, destinadas especificamente ao público escolar. Nessas edições foram incluídas algumas das obras cuja leitura era então requerida nas escolas dos diversos graus de ensino. Também selecionou e editou textos de diversos autores para inclusão nos livros de leitura destinados ao ensino primário, secundário e técnico, sendo autor de várias selectas e antologias, com amplo uso ao tempo. Também se encontra colaboração da sua autoria na revista Prisma (1936-1941).
Contudo, foi no campo da etnografia que Pires de Lima granjeou um lugar de destaque entre a intelectualidade portuguesa da primeira metade do século XX. Essa posição resulta dos seus estudos sobre as tradições e as formas de vida tradicionais da região entre os rios Douro e Minho, com destaque para o estudo da etnografia do Minho.

Contudo, foi no campo da etnografia que Pires de Lima granjeou um lugar de destaque entre a intelectualidade portuguesa da primeira metade do século XX. Essa posição resulta dos seus estudos sobre as tradições e as formas de vida tradicionais da região entre os rios Douro e Minho, com destaque para o estudo da etnografia do Minho.

Com o renascer do regionalismo enquanto movimento cultural, a partir de 1938 passou a colaborar com a Junta de Província do Douro Litoral, que integrou durante quase duas décadas, presidindo à Comissão de Etnografia e História. Nessas funções dirigiu a edição do Boletim Douro Litoral, o periódico da instituição, no qual publicou parte fundamental da sua obra.Também no contexto da sua colaboração com a Junta de Província, liderou a criação e instalação do Museu de Etnografia e História do Douro Litoral, de que foi o primeiro diretor, cargo em que foi sucedido por seu sobrinho Fernando de Castro Pires de Lima.
Deixou uma vasta obra publicada, com mais de uma centena de trabalhos sobre etnografia, filologia e historiografia, a que se juntam cerca de três centenas de artigos sobre temas agrícolas e outros de âmbito regionalista.

Deixou uma vasta obra publicada, com mais de uma centena de trabalhos sobre etnografia, filologia e historiografia, a que se juntam cerca de três centenas de artigos sobre temas agrícolas e outros de âmbito regionalista.

No campo da etnografia, os seus trabalhos incidiram sobre os jogos e canções infantis (1918), as lendas (1919) e as adivinhas (1943). Um dos seus trabalhos mais marcantes foi o estudo do Cancioneiro Popular de Vila Real (1924-1928), socorrendo-se para isso das recolhas de Luís Esteves Aguiar. Também merece destaque o seu estudo das tradições de Santo Tirso, publicado entre 1914 a 1921 na Revista Lusitana, em particular a análise comparada dos costumes e tradições populares, em especial a temática da  medicina popular da região tirsense.
Parte importante da sua obra etnográfica foi reunida na monografia Estudos Etnográficos, Folclóricos e Históricos, publicada em seis volumes entre 1947 a 1951 sob a égide da Junta de Província do Douro Litoral.
Foi Presidente do Futebol Clube do Porto em 1940. De 1943 a 1944 foi Presidente da Federação Portuguesa de Futebol.
pires-de-lima-capa-livro-castro-de-antonio-ferreiraA 2 de março de 1957 foi nomeado Comendador da Ordem da Instrução Pública.
Faleceu nas Caldas da Saúde, um lugar da sua terra natal, no ano de 1959. O seu nome é lembrado como patrono de uma das escolas do Porto, a Escola E B 2, 3 Doutor Augusto César Pires de Lima, em Bonfim.

Nota: Resulta difícil entender que, sendo Pires de Lima um vulto muito importante da nossa cultura lusófona, não existam fotos da sua pessoa, nem frases e textos seus na internet, nem documentários. Para tirar alguma ideia do seu rosto temos que ir à caricatura realizada por Gouveia Portuense. Embora sim existam infinidade de listas da sua produção de livros (com imagens das suas capas) e artigos, produto da sua investigação continuada ao longo dos anos da sua vida.

FICHA DO DOCUMENTÁRIO

– Homenagem póstuma a Augusto César Pires de Lima, etnógrafo, presidida pelo Coronel Arnaldo Schulz, ministro do Interior, no Museu de Etnografia do Douro Litoral (MEDL).
Data: 2 de junho de 1960. Arquivos da RTP.
Resumo do documentário: Arnaldo Schulz e comitiva sobem escadas do museu; presidente da Junta Distrital do Porto a discursar; descerramento de busto do homenageado; discursos do diretor do MEDL, Arnaldo Pinheiro Torres, do vice presidente da Associação de Etnologia de Espanha, de António Pires de Lima, secretário geral do Ministério do Interior e filho do homenageado, e de Arnaldo Schulz.
Ver aqui.

ESCOLMA BIBLIOGRÁFICA DA OBRA DE PIRES DE LIMA

A produção de Pires de Lima, produto das suas pesquisas e estudos, é realmente imensa. Chegou a publicar mais de cem livros na nossa língua e mais de trezentos artigos. Por isto, no presente depoimento fazemos uma simples escolha do por ele publicado.

a.-LIVROS
Jogos e canções infantis. Porto: Livraria Moderna, 1918. Com outra edição em 1943 pela editora Domingos Barreira de Porto. E outra em 1992, pela editora Relógio d´água de Santa Maria da Feira-Porto.pires-de-lima-capa-livro-romanceiro-popular
O livro das adivinhas. Porto: Domingos Barreira, 1943, e outra em 1961. Com outra edição pela mesma editora em 1983, e outras em 1988,1990,1992 e 1994. A editora Notícias de Lisboa fez várias edições deste livro em 1997, 1999 e outras em 2001 e 2002.
Romanceiro popular português: para o povo e para as escolas. 1ª edição em 1949 e outra em Porto: Domingos Barreira, 1984.
Cancioneiro popular de Vila Real. Porto: Maranus, 1928 e Vila Real: Câmara Municipal, 1989. O Grémio Literário Vila-Realense fez uma edição deste livro em 2016.
Topónimos e alcunhas. Santo Tirso, 1955.
O lugar da Torre. Santo Tirso, 1956.
José Leite de Vasconcelos e a paixão de um folclorista. Porto, 1959.
Portugal: leituras históricas. Porto: Edição do autor, 1923.
Relações etnográficas entre Lisboa e Porto. Porto: Impr. Portuguesa, 1947.
Portugal. Porto: Edição do autor, 1924.
As invasões francesas na tradição oral e escrita. Porto: Tip. Sequeira, 1922.
O mar e o sal: esboço etnográfico. 1954.
A poesia religiosa na literatura portuguesa. Porto: Domingos Barreira, 1942.
José de Castro Silva (o Serrinha): um herói do 31 de Janeiro. Santo Tirso, 1921.
Estudos etnográficos, filológicos e históricos. 1945. Com outras edições em 1947, 1948 e 1951 pela Junta da Província do Douro Litoral de Porto.
Naufrágio que passou Jorge de Albuquerque Coelho vindo do Brasil para este reino no ano de 1565. Porto: Domingos Barreira, 1938.
Autobiografia de um monge de S. Bento. Guimarãis, 1934.
O folclore. 1940.
Frei Agostinho da Cruz: mudança de vida. 1940.
A indústria agrícola como elemento da vida da nacionalidade. 1940.
Pão partido em pequeninos para os pequeninos da casa de Deus. Porto: Livraria Simões,1940.
O problema da assistência no Porto. 1942.
O papel do professor da instrução primária. 1942.
O professor Manuel de Almeida: o homem e o mestre. Porto: Caixa Escolar da Escola Comercial de Mouzinho da Silveira, 1942.
Auto de El-Rei Seleluco de Luís de Camões. Porto: Domingos Barreira, 1941.
Poesias selectas de Frei Agostinho da Cruz. Porto: Domingos Barreira, 1941.
O Porto e os seus arredores no cancioneiro popular. Porto: Domingos Barreira, 1941.
Fogo de Santelmo. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1943.
O sinal da cruz de Junot. Coimbra: Editora Coimbra, 1943.
Luís de Camões e as uveiras. 1944.
– Obras selectas de Nicolau Tolentino. Porto: Domingos Barreira, 1944.
A raiva na tradição oral e escrita. 1945.
As lendas: o Santo Preto: processo popular de canonização. 1946.
Revolução. Lisboa: Editora Nacionalista, 1934.
Tradições populares de Santo Tirso. Porto: Tip. Sequeira, 1915, 1917 e 1921.
A obra missionária dos portugueses. 1936.
Notícia sobre alguns médicos portugueses ou que exerceram a sua profissão em Portugal: subsídios para a história da medicina portuguesa. Porto: Lellos, 1913.
A freguesia de S. Tiago de Areias do concelho de Santo Tirso: subsídios para uma monografia. Porto: Junta da Província do Douro Litoral, 1940.
Uma demência precoce não similada. 1934.
As artes e os ofícios nas tradições populares. Edições de Portucale, 1947.
Almeida Garret e as tradições populares: processo de consagrar os homens. 1954.
Duas cartas de Camilo Castelo Branco sobre a “Questão da Sebenta”. Porto: Impr. Portuguesa, 1955.pires-de-lima-capa-livro-das-adivinhas-0
Camilo Castelo Branco. 1952.
A morte nas tradições do nosso país. 1930.
Evocações. Porto: Livraria Moderna, 1920.
Bibliografia do Dr. Augusto César Pires de Lima. Matosinhos: Biblioteca Pública Municipal, 1959.
Evolução da etnografia em Portugal. Ocidente (Revista Portuguesa Mensal), 1956

b.-LIVROS ESCOLARES
É de tudo impossível relacionar todos os livros para uso escolar nas aulas de primário e secundário preparados por Pires de Lima, desde leituras comentadas e antologias literárias, até estudos sobre os mais importantes literatos portugueses, sobre as suas obras, com os seus comentários e notas. Chegou a publicar perto de 140 livros adaptados para ser utilizados como textos escolares e livros de leituras.

c.-LIVROS SOBRE ELE
– TOPA, Francisco (1993): Augusto César Pires de Lima. Um exemplo vivo para o nosso tempo (no vigésimo aniversário da Escola da que é patrono). Porto: Escola Dr. A. C. Pires de Lima. Existe edição desta monografia em PDF, que pode ser consultada entrando aqui.
– GUIMARÃES, Bertino Daciano Rocha da Silva: O professor, filólogo e etnógrafo Dr. Augusto César Pires da Lima. Lisboa, 1960.
– Monografia: In memoriam do Dr. Augusto Pires de Lima. Porto: Porto Editora, 1983.
Nota: Esta produção científica e bibliográfica deve ser acrescentada com a lista dos perto de 300 artigos e depoimentos que publicou em numerosas publicações periódicas, e também os capítulos de obras coletivas em que participou com textos seus, nomeadamente de tipo etnográfico e histórico, além de literário.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Visionamos o documentário referido antes, e depois desenvolvemos um cinemafórum, para analisar o fundo (mensagem) dele, assim como os seus conteúdos.
Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Augusto César Pires de Lima, outro grande etnógrafo de Portugal. Além de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.
Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Livrofórum, em que intervenham alunos e docentes. Das obras de Pires de Lima podemos escolher as seguintes: Jogos e canções infantis (1918), O livro das adivinhas (1943) ou Romanceiro popular português (1949).

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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