AS AULAS NO CINEMA

Os 7 saberes necessários à educação do futuro, segundo Edgar Morin



 

Edgar Morin 1

Com o presente capítulo inicio uma série de seis dedicados a grandes educadores, psicopedagogos e sociólogos da educação. No verão de 2013, em “As Aulas no Cinema”, tiveram importante espaço, por próprios merecimentos, educadores destacados como Froebel, Steiner, Dewey, Claparède, Piaget, Wallon, Vygotsky, Freinet e os pedagogos brasileiros da Escola Nova. Reservei para o presente verão de 2014 capítulos da minha série para Edgar Morin, Howard Gardner, Tagore, J. B. de La Salle, B. F. Skinner e Carl Rogers, sobre os quais irei falando cada semana até o mês de setembro próximo.

O grande educador e pensador Edgar Morin, pseudónimo de Edgar Nahoum, nasceu em Paris a 8 de julho de 1921 e, felizmente, ainda vive. Destacou também como antropólogo, sociólogo e filósofo. É um judeu de origem sefardita. Foi pesquisador emérito do CNRS. Formado em Direito, História e Geografia, realizou assim mesmo estudos em Filosofia, Sociologia e Epistemologia. É autor de mais de trinta livros, entre os que destacam: O método (6 volumes), Introdução ao pensamento complexo, Ciência com consciência e Os sete saberes necessários para a educação do futuro.

Durante a Segunda Guerra Mundial, participou da Resistência Francesa. Hoje está considerado como um dos principais pensadores contemporâneos e um dos principais teóricos da complexidade. Filho único de uma família judia sefardita, seu pai, Vidal Nahoum, era um comerciante originário de Salonica. Sua mãe, Luna Beressi, faleceu quando ele tinha 10 anos. Ateu declarado, descreve-se como um “neo-marrano”. Em 1942, obteve a licenciatura em direito e em história e geografia. Em 1941, adere ao Partido Comunista, «num momento em que se sentia, pela primeira vez, que uma força poderia resistir à Alemanha nazista». Entre 1942 e 1944, participou da Resistência, como tenente das forças combatentes francesas, adotando o codinome Morin, que conservaria dali em diante. Durante a Liberação, é transferido para a Alemanha ocupada, como adido ao Estado Maior do Primeiro Exército Francês na Alemanha, em 1945, e, em 1946, como chefe do departamento de propaganda do governo militar francês. A partir de 1949, distancia-se do Partido Comunista, do qual será excluído em 1951, por suas posições antiestalinistas. Aconselhado por Georges Friedmann, que conheceu durante a ocupação alemã, e com o apoio de Maurice Merleau-Ponty, de Vladimir Jankélévitch e de Pierre George, entra para o CNRS em 1950. Em 1955, coordena um comitê contra a guerra da Argélia e defende particularmente Messali Hadj, pioneiro da luta anticolonial e um dos próceres da independência da Argélia. Em 1960, funda, na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), o Centro de estudos de comunicação de massa (CECMAS), com Georges Friedmann e Roland Barthes, com a intenção de adotar uma abordagem transdisciplinar do tema, e cria a revista Communications. Morin é também fundador da revista Arguments (1957-1963). Nomeado diretor de pesquisa do CNRS em 1970, será também, entre 1973 e 1989, um dos diretores do Centro de Estudos Transdisciplinares da EHESS, sucessor do CECMAS.

Em 4 de junho de 2002, Edgar Morin publicou no jornal Le Monde, com Sami Naïr, professor da Universidade de Paris VIII e ex-membro do Parlamento Europeu, e Danièle Sallenave, jornalista e ex-professora da Universidade de Paris X – Nanterre, um artigo intitulado “Israël-Palestine: le cancer” (“Israel-Palestina: o câncer”). Segundo o artigo, “o câncer israelo-palestino formou-se, alimentando-se, por um lado, da angústia histórica de um povo perseguido no passado e de sua insegurança geográfica; por outro, da infelicidade de um povo perseguido no seu presente e privado de direitos políticos”. O artigo critica o unilateralismo da visão israelense. “É a consciência de ter sido vítima que permite a Israel tornar-se opressor do povo palestino. A Shoah, que singulariza o destino vitimário judeu e banaliza todos os outros (do Gulag, dos ciganos, dos africanos escravizados, dos índios das Américas), torna-se a legitimação de um colonialismo, de um apartheid e de uma guetificação para os palestinos. Acrescenta que “os judeus de Israel, descendentes das vítimas de um apartheid denominado ghetto, guetificam os palestinos. Os judeus que foram humilhados, desprezados, perseguidos, humilham, desprezam e perseguem os palestinos. Os judeus, que foram vítimas de uma ordem impiedosa, impõem sua ordem impiedosa aos palestinos. Os judeus, vítimas da desumanidade, mostram uma terrível desumanidade.” Este artigo valeu aos seus autores um processo por difamação racial e apologia de atos de terrorismo movido pela Associação França-Israel. O processo provocou protestos, inclusive de outras entidades judaicas. Afinal, o filósofo acabou sendo inocentado pela Corte de Cassação, a mais alta instância judiciária francesa. Muito surpreende este pensar de Morin, num momento que volta a ser de grande atualidade o conflito palestiniano-israeliano.

A principal obra de Edgar Morin é a constituída por seis volumes, La Méthode (O Método). Foi escrita durante três décadas e meia. Trata-se de uma das maiores obras de epistemologia disponível. Morin inicia os primeiros escritos desta obra em 1973, com a publicação do livro O Paradigma Perdido: a Natureza Humana, uma transformação epistemológica por questionar o fechamento ideológico e paradigmático das ciências, além de apresentar uma alternativa à conceção de “paradigma” encontrada em Thomas Kuhn. Seu primeiro livro traduzido para o português é O cinema ou o homem imaginário, em 1958.

De Morin o que mais nos interessa é a sua original teoria sobre o que denominou Os sete saberes necessários, que logo foi um seu livro em que afirma que diante dos problemas complexos que as sociedades contemporâneas hoje enfrentam, apenas estudos de caráter inter-poli-transdisciplinar poderiam resultar em análises satisfatórias de tais complexidades. Por isto chega a dizer: “Afinal, de que serviriam todos os saberes parciais senão para formar uma configuração que responda a nossas expectativas, nossos desejos, nossas interrogações cognitivas?” Com este seu livro Os sete saberes necessários à educação do futuro, Morin apresenta o que ele mesmo chama de inspirações para o educador ou os saberes necessários a uma boa prática educacional.

Em 2006, a produtora brasileira Atta Mídia e Educação, em colaboração com a Paulus Editora, sob a direção de Edgard de Assis Carvalho, realizou um interessante documentário dedicado a Edgar Morin, que serve de apoio aos comentários meus do presente capítulo, com que inicio a série dedicada a grandes educadores.

FICHA TÉCNICA DO FILME-DOCUMENTÁRIO:

Título original: Edgar Morin.

Produtora: Atta Mídia e Educação (Brasil, 2006, 55 min., a cores, documentário).

Editora: Paulus Editora. Coleção: Grandes Educadores.

Roteiro e Apresentação: Edgard de Assis Carvalho. É professor titular de Antropologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, pós-doutor pela École des Hautes Études en Sciences Sociales da França e Coordenador do Núcleo de Estudos da Complexidade, entre outros importantes méritos.

Argumento: Edgar Morin, um dos maiores intelectuais da atualidade, é um crítico da fragmentação do conhecimento. Propõe o desenvolvimento do pensamento complexo, uma reforma do pensamento por meio do ensino transdisciplinar, capaz de formar cidadãos planetários, solidários e éticos, aptos a enfrentar os desafios dos tempos atuais. Este DVD apresenta os principais conceitos presentes no pensamento de Morin. Segundo Edgard de Assis Carvalho, “a educação do futuro exige um esforço transdisciplinar que seja capaz de rejuntar ciências e humanidades (…) precisamos enfrentar os paradoxos que o desenvolvimento tecnoeconómico trouxe consigo, globalizando de um lado e excluindo do outro”. Na fita aparece também opinando o próprio Morin acerca das suas ideias educativas.

Conteúdos do Documentário: Biografia de E. Morin. Reorganizações genéticas. Pensamento complexo. Operadores da complexidade. Totalidade. Razão, racionalidade, racionalismo e racionalização. Tetragrama organizacional. A reforma do pensamento. Transdisciplinaridade. Os sete saberes necessários à educação do futuro. A escola.

OS SABERES QUE CONDICIONAM O ENSINO DO FUTURO:

O número 7 teve sempre um senso redondo e de perfeição: os 7 dias de cada uma das fases luares, os 7 dias da semana, as 7 maravilhas do mundo, as 7 colinas de Roma, os 7 tonos da escala musical, o candelabro judeu das 7 lâmpadas, os 7 olhos de Javeh que dominam toda a terra, e até os 7 anõezinhos do famoso conto Branca de Neve. O pensador galo Edgar Morin escolheu também o número 7 para condensar o que ele acredita que hão ser os saberes importantes e necessários a ter em conta no ensino do futuro. A sua proposta é o resultado de uma sua investigação que lhe encarregou fazer no seu momento a Unesco. Sobre o tema de um futuro viável para a educação do mundo. O pensador galo opina acertadamente que não se pode desenvolver uma autêntica educação se está não se apoia na justiça, na democracia verdadeira, na igualdade e na harmonia com o entorno. Para levar um modelo assim à prática Morin pensa, e eu comparto plenamente seu pensamento, que sete hão ser os saberes necessários à educação do futuro, que já tinham que ser do presente, e que a seguir resenho:

Edgar Morin esquema 7 saberes01.-Um conhecimento capaz de criticar o próprio conhecimento: As cegueiras do conhecimento são o erro e a ilusão. Cada pessoa está condicionada pelo seu próprio mundo emotivo, pelas suas perceções da realidade, pelo seu mundo cultural e por influências sociológicas. As teorias científicas não estão para sempre imunizadas contra o erro. Resulta difícil entender que tenhamos uma educação que visa transmitir conhecimentos e seja cega quanto ao que é o próprio conhecimento humano. Sem aprofundar sobre os seus dispositivos, enfermidades, dificuldades, tendências ao erro e à ilusão, e não se preocupe em fazer conhecer o que “é conhecer”. Temos, por tanto, que introduzir e desenvolver na educação o estudo das características cerebrais, mentais, culturais dos conhecimentos humanos, de seus processos e modalidades, das disposições tanto psíquicas quanto culturais que o conduzem ao erro ou à ilusão.

2.-Discernir as informações chave, tendo claros os princípios do conhecimento pertinente: Os estudantes têm que saber escolher os pontos clave dentro da abundância atual de informação. É preciso escolher o prioritário e analisar os contextos dos problemas e das informações. O que antigamente, utilizando uma bela metáfora, entendíamos como “saber tirar o grau da palha”. Existe um problema capital, sempre ignorado, que é o da necessidade de promover o conhecimento capaz de apreender problemas globais e fundamentais para neles inserir os conhecimentos parciais ou locais. A supremacia do conhecimento, fragmentado de acordo com as disciplinas, impede frequentemente de operar o vínculo entre as partes e a totalidade, e deve ser substituída por um modo de conhecimento capaz de apreender os objetos em seu contexto, sua complexidade e seu conjunto. É necessário desenvolver a aptidão natural do espírito humano para situar todas essas informações em um contexto e um conjunto. É preciso ensinar os métodos que permitam estabelecer as relações mútuas e as influências recíprocas entre as partes e o todo em um mundo complexo. O que pode fazer-se baseando-se sempre no método científico de pesquisa, nas relações causa-efeito e no uso nas aulas do método didático integral da globalização e interdisciplinar.

3.-Ensinar a condição humana: Reconhecer a nossa humanidade comum em que vivemos. E, ao mesmo tempo, a diversidade da nossa condição humana. A humanidade é uma e diversa. Compreender que o “humano” é sempre físico, biológico, psicológico, social e cultural, e essa unidade complexa da natureza humana é totalmente “desintegrada”, não entendida, porque foi artificialmente dividida ou desligada, na educação atual, pelas várias disciplinas. Tomando isto como base, devem levar-se os estudantes a compreender a unidade e a complexidade do ser humano. Utilizando a Didática interdisciplinar.

4.-Ensinar a identidade terrena: A revolução tecnológica permitiu voltar a unir o que antes sempre esteve disperso. A pátria comum é a Terra, por isso temos que lograr um sentimento de pertença à mesma, embora existam diferenças essenciais. É necessário ensinar aos jovens alunos a história da era planetária, iniciada com as navegações portuguesas, seguidas das castelhanas, francesas, inglesas e holandesas, que puseram em comunicação todos os continentes a partir do século XVI. Para o bem e para o mal, o mundo interligou-se. A problemática atual é planetária, porque todos os seres humanos têm problemas e um destino comum.

5.-Enfrentar as incertezas: O século XX derrubou a preditividade do futuro. Caíram impérios que pensavam perpetuar-se. A educação deve ir já unida à incerteza e às reações e ações impredizíveis. Temos que ensinar aos estudantes a estratégia que leve a pensar o imprevisto, pensar a incerteza, intervir no futuro através do presente, com as informações obtidas no tempo e a tempo. É preciso aprender a navegar um oceano de incertezas. O futuro é aberto e incerto, mas temos dados para, pelo menos, tentar minorar as dificuldades.

6.-Ensinar a compreensão: Devemos melhorar a nossa compreensão dos demais, o respeito pelas ideias dos outros e os seus modelos de vida, sempre e quando não atentem contra a dignidade humana. Há que entender os outros códigos éticos, os ritos e costumes. Não marcar ninguém com uma etiqueta. Evitar o egoísmo e o etnocentrismo. Caraterístico este das ditaduras, o nazismo, o estalinismo e o fascismo. Compreender que a compreensão é meio e fim da comunicação humana mas, infelizmente, a educação para a compreensão não se faz em quase que nenhum lugar. Precisamos de compreensão mútua. Precisamos de estudar a incompreensão, o racismo, a xenofobia, o dogmatismo. Para isso temos que desenvolver em todas as aulas e estabelecimentos de ensino de todos os níveis a “Educação para a Paz e a Não Violência”. Como faziam Tagore e Gandhi.

7.-A ética do género humano: Ensinar a verdadeira democracia é um dever ético. Mas também necessita diversidade e antagonismos: a democracia não consiste numa ditadura da maioria. À que soem tender os governos que conseguem nas eleições maiorias absolutas. Os nossos estudantes têm que compreender a natureza “trinitária” do ser humano: indivíduo-sociedade-espécie. A ética indivíduo-espécie consiste no controlo da sociedade pelo indivíduo e do indivíduo pela sociedade, por meio de uma democracia autêntica. A ética indivíduo-espécie implica, no presente século, a construção e efetivação da cidadania terrestre ou planetária.

TEMAS PARA REFLETIR E ELABORAR:

Depois de olhar o documentário, organizar um debate-papo ou tertúlia, sobre os diferentes aspetos que sobre a figura de Edgar Morin aparecem no mesmo, assim como as opiniões que ele manifesta de viva voz. Refletir sobre o seu pensamento educativo e comentar, dando alternativas concretas, sobre como se poderia pôr em prática hoje nas nossas escolas uma didática prática para desenvolver entre os estudantes os 7 saberes necessários na sociedade e mundo atuais do século XXI.

Elaborar uma monografia, procurando informações em livros e na internet, sobre Edgar Morin e o seu pensamento educativo, incluindo na mesma as experiências práticas de escolas que hoje funcionam em diferentes países que desenvolvem modelos didáticos que, em grande parte, tratam de pôr em prática as propostas do pensador galo. Com fotos, textos, cartazes, retalhos de imprensa e materiais elaborados, poderia organizar-se nas escolas exposições sobre a sua figura e o seu pensamento pedagógico, incluindo as suas obras mais importantes.

Tomando como base o livro de Morin Os sete saberes para a educação do futuro,organizar um “Livro fórum” para comenta-lo e debater sobre as palavras, ideias educativas e propostas práticas que o pedagogo e pensador galo faz no mesmo.

Esboçar um projeto de atividades didáticas a desenvolver nas salas de aulas e estabelecimentos de ensino dos diferentes níveis educativos, que tenha presente a proposta de Morin dos 7 saberes a conseguir nos nossos estudantes. Poderia tomar-se como base do mesmo o que Draper Kauffman entende pela importância de lograr entre os estudantes, durante a sua escolaridade obrigatória, habilidades e técnicas básicas como: habilidade para conseguir acesso à informação com as antigas e novas técnicas, habilidade para razoar com claridade, habilidade para comunicar com eficácia, habilidade para compreender o entorno, habilidade para compreender a sociedade e habilidade para conseguir o desenvolvimento pessoal.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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