Ópio para o povo – O som do eterno

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Por Rudesindo Soutelo

Acaso a música religiosa de Mozart não é, como a religião em si, ópio para o povo? Quem faz esta pergunta é um teólogo católico, Professor Doutor na Universidade alemã de Tubinga, Hans Küng, num ensaio intitulado ‘Mozart: Spuren der Transzendenz’ (Mozart: Vestígios da Transcendência) que escreveu com motivo do bicentenário do compositor salzburguês e que está incluído no seu livro Música e Religião1.

“A música e a religião”, diz Hans Küng, “são fenómenos universais da humanidade, no sentido tanto diacrónico –ao longo da história– como sincrónico –através dos continentes”. E, como tais fenómenos universais, são altamente complexos e com patrões humanos ambivalentes. A religião pode difundir humanidade mas também justificar a inumanidade, assim como a música é utilizada tanto para o bem como para o mal. Hans Küng refere como a música deu expressão a sentimentos nobilíssimos, a belezas indescritíveis e de felicidade sublime. Mas com a música também se encaminharam os passos de milhões de pessoas face à guerra e à morte. Não admira, pois, que desde sempre os humanos diferenciem entre músicas que falam com a voz dos deuses e aquelas outras que falam com a dos demónios; ou também, que algumas pessoas religiosas a considerem uma forma de puríssima espiritualidade enquanto outras, pela mesma razão, tenham a música como a mais detestável forma de sensualidade2.

Essa ambivalência referida por Küng remete-nos para a parte mais profunda da psique humana, a que rege as emoções primárias do ‘eros’ e o ‘thanatos’ (o amor e o horror).

Refletindo sobre as emoções no processo criativo, num artigo publicado em 2007, sustento que os compositores somos ‘Manipuladores de emoções’ e concluo que “A componente emocional não deve ser um elemento construtivo, mas antes o resultado duma construção tecnicamente perfeita onde a imprevisível luta intrínseca da obra desencadeie vida emocional própria e diferenciada em cada um dos indivíduos que se relacionam com ela”. Essa ‘imprevisível luta intrínseca’ é o que diferencia a obra de arte da obra medíocre. No citado artigo defino a originalidade como ‘o fator de imprevisibilidade ou grau de acontecimentos inesperados que estão presentes na lógica da comunicação, o qual desencadeia as emoções profundas.’ Também defino o conceito de mediocridade como ‘a reiteração banal do discurso previsível na procura de suscitar a mesma sensação quando se dá o mesmo estímulo’. A originalidade é criativa e diversa. A mediocridade é global, alienadora e destrutiva3.

Martin Heideger, em A origem da obra de arte, afirma: “O artista é a origem da obra. A obra é a origem do artista. Nenhum é sem o outro. E, todavia, nenhum dos dois se sustenta isoladamente”4.

“Será o amor uma arte?” –pergunta o psicanalista Erich Fromm no início de A arte de amar– “Se o for, então exige conhecimento e esforço. Ou será o amor uma sensação agradável, que por acaso experimentamos, algo que ‘nos acontece’ se tivermos sorte?”5. Os compositores fazemos a mesma pergunta com as emoções e quando assumimos a primeira premissa o resultado pode ser uma obra de arte, embora não há dúvida que a maioria das pessoas acredita na segunda, uma questão de sorte. A teoria dos afetos musicais, ou da caracterização psicológica das personagens, inicia-se no Renascimento e acompanha toda a música erudita da era moderna. Esta expressão ‘onírica’ da música não acontece por acaso e aí reside o que Hans Küng descreve como o “imenso poder transformador da música, apto para sublimar e metamorfosear quase qualquer experiência”6.

Duas obras minhas com títulos que envolvem emoções do mundo onírico vêm esclarecer isto. ‘Feitiço’ é um trio para violino, violeta e violoncelo construído sobre quatro notas, as quatro notas mais emblemáticas da história da música ocidental, as notas que conformam o nome de BACH (Si bemol, Lá, Dó, Si). Essas quatro notas elaboradas rigorosamente numa textura contrapontística de tensão crescente suscitam uma emoção que nos abre a uma perceção diferente. O feitiço pode ser Bach mas o ouvinte não tem porque saber qual o material sonoro utilizado. O feitiço é um estado emocional abstrato que cada ouvinte vivencia de um modo diferenciado. A segunda obra, para violeta, violoncelo e contrabaixo, intitula-se ‘Arela’ que no português da Galiza quer dizer ‘ânsia’ e está organizada a partir de uma escala para-tonal –além, acima ou à volta da tonalidade– que gera uma inquietação, ânsia ou anelo que só se acalma no final em forma de Coral. Aí é que podemos aplicar as palavras de Hans Küng, “onde a música combina a sua energia com a da religião num mesmo sentido e face à uma mesma meta”7.

Estas obras foram escritas nos anos 70 mas só neste ano de 2009 é que puderam ser estreadas8. Não foi a criatividade emocional o que as manteve vivas, antes bem o conceito de transcendência, o rigor construtivo e a “imprevisível luta intrínseca” como treino do ‘formal’. Convém dizer aqui que são das primeiras obras que escrevo após o período de pós-modernista militante com o grupo Letrinae Musica. Na altura, a trans-modernidade9 ainda não fora batizada e a maior parte daquelas obras teve de acomodar-se nas gavetas.

A utilização industrial e fragmentária das emoções, sentimentos, crenças ou conhecimento, reduzida ao ato do consumo, sem qualquer perspetiva de passado nem futuro, transforma a visão mágica do mundo –que Jean-Paul Sartre desenvolve no Esboço para uma teoria das emoções10 num simples ópio para o povo.

Mozart transcende as categorias musicais. A música tem um hálito divino. “Em determinados momentos é dado ao ser humano abrir-se, e abrir-se tanto que chegue a perceber no som infinitamente belo o som do eterno”11.

© 2009 by Rudesindo Soutelo | (http://www.soutelo.eu) (Vila Praia de Âncora: 5-XI-2009)

Notas:

1. Küng, H. (2008). Música y Religión. Mozart – Wagner – Bruckner. (J. D. Robles, Trad.) Madrid: Editorial Trotta, p. 22.

2. Ibid., 15.

3. Soutelo, R. (14 de Junho de 2007). Manipuladores de Emoções. A nossa terra, nº 1274 .

4. Heideger, M. (2008). A origem da obra de arte (2ª ed.). (M. C. Costa, Trad.) Lisboa: Edições 70, p.11.

5. Fromm, E. (2007). A arte de amar (2ª ed.). (J. M. Neves, Trad.) Cascais: Pergaminho, p.11.

6. Küng, H. op. cit., p. 19.

7. Ibid.

8. Estreadas o dia 24 de Abril de 2009 no Centro Galego da Arte Contemporânea (CGAC) de Santiago de Compostela pelo Grupo Dhamar.

9. Rodríguez Magda, R. M. (2004). Transmodernidad. Rubí (Barcelona): Anthropos.

10. Sartre, J.-P. (2006). Esboço para uma teoria das emoções. Porto Alegre, Brasil: L&PM.

11. Küng, H. op. cit., p. 19.

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