Natalia Cea Rodríguez é docente, sociolinguista e militante de base do movimento social em defesa da língua.
Tem publicado estudos como De medrar a tecer redes desde a língua ou Os limites do debate sobre o ensino cooperativo na Galiza: a Escola Semente na perspetiva do próprio alunado.
Atualmente, está a investigar sobre a transiçom ao instituto desde a escolarizaçom prévia na Rede de Escolas de Ensino Galego Semente, com umha visom crítica para a revisom da situaçom de emergência linguística atual.
Coordenadora do Guia sociolinguístico para famílias, elaborado por um grupo de especialistas em língua e pessoas colaboradoras da Semente, que se vai apresentar o próximo 9 de agosto no Festival Lingua Moza no Vicedo, Natalia explica-nos algumhas das chaves fundamentais para a transmissom do idioma.
No Festival Lingua Moza, no Teatro das Cortes, no Vicedo, vai lançar-se umha publicaçom especialmente pensada para facilitar a transmissom intergeracional. Que é este “Guia sociolinguístico para famílias”?
Sim, no marco do festival Lingua Moza, apresentamos publicamente o Guia Sociolinguístico para famílias. Esta é umha ferramenta pensada para acompanhar na criança em língua galega que já tivo umha primeira versom em 2011 com o nascimento da primeira Semente.
Nesta nova ediçom, tratamos de atualizar e ampliar aquele documento, recolher experiências, reflexons e recursos que ajudem a fazer da transmissom intergeracional um processo consciente, sustido e afetivo. O Guia está concebido como um apoio prático, mas também como um espaço de reconhecimento para aquelas pessoas que, no âmbito familiar, estám a fazer um labor essencial na revitalizaçom da língua. Pois é muito importante que a casa seja um lugar seguro onde ser, onde medrar, onde falar.
Cada vez dou com mais pessoal que se atopa com o sofrimento linguístico das crianças, da rapazada, no momento em que perdem a língua (de jeito obrigado, muitas vezes violento) na escola ou instituto. Entom, este Guia renovado também surge da necessidade de orientar um bocadinho aquelas famílias e pessoal que nom sabe como gerir essa dor, a incomodidade, o pesimismo crescente. Surge da necessidade de infundir optimismo, força, vontade. Da necessidade de tecer rede, de tecer rede desde a língua.
Antes de ler este Guia há que ter umha cousa clara —e apropriarei-me, mais umha vez, da frase do meu bem querido amigo Miguel R. Carnota— frase que nom paro de repetir em cada ato, entrevista ou comunicaçom que fago… e é que o futuro nasce cada dia e os processos som reversíveis, o caso é querer.
Estás a investigar a Escola Semente como experiência de revitalizaçom da língua. Como está a desenvolver-se esta pesquisa e que destacas deste projeto educativo infantil?
Exato, estou a doutorar-me e decidim centrar a investigaçom da minha tese na construçom da identidade linguística e cultural na adolescência. É umha pesquisa cento por cento qualitativa, através de entrevistas e grupos de discussom, principalmente a adolescentes que passaram as etapas de educaçom infantil e primaria na Escola Semente, mas também às famílias e pessoal docente que as acompanhou. A ideia é compreender como viveram desde a infância o processo de socializaçom linguística num contexto de imersom total em língua galega e quais foram os efeitos dessa experiência a longo prazo, nom tanto a nível de competência mas de atitudes, segurança e sentido de pertença.
Os moços e moças entrevistadas estám, no momento das entrevistas, na transiçom da Semente aos institutos públicos, institutos maioritariamente espanhol-falantes. Estou interessada nessa mudança, em como mantenhen ou reformulam a sua relaçom com a língua fora do espaço seguro (elas mesmas o definem assim) que é a Semente, como gerem a pressom social e como constroem a sua identidade no dia a dia.
Da minha ótica, e resumindo muito, o que mais destaco da experiência de Semente é precisamente a aposta por criar um ecossistema linguístico coerente e afetivo, onde a língua nom se impom, senom que se vive com naturalidade e orgulho. Acho que som estas as palavras para entender a essência do projeto, o natural, a estima.
A escola combina imersom linguística com pedagogias transformadoras, fomentando também a consciência crítica e a autoestima linguística desde mui cedo. Esta base tem um impacto mui profundo, mesmo quando as alunas saem desse contexto e tenhem que navegar em ambientes menos favoráveis.
A escola combina imersom linguística com pedagogias transformadoras, fomentando também a consciência crítica e a autoestima linguística desde mui cedo. Esta base tem um impacto mui profundo, mesmo quando as alunas saem desse contexto e tenhem que navegar em ambientes menos favoráveis.
Ao mesmo tempo, estou a identificar novos desafios: por exemplo, como dar continuidade a esse trabalho de base além da escola e como acompanhar melhor as famílias nesse processo. Por isto também surge a necessidade de elaborar ferramentas como o Guia, que ajudem a estender este modelo de cuidado e compromisso linguístico para além do âmbito escolar.
E qual é a importáncia de falarmos umha língua com dimensom internacional na educaçom -na escola, na casa, na rua…- dumha criança? Quais som as oportunidades mais práticas e quotidianas de ter como referente o português para transmitir o galego às crianças?
Falar umha língua com dimensom internacional como o galego-português abre portas culturais, educativas e comunicativas que vam muito mais longe do local. Para as crianças, viver a língua como parte dum mundo amplo e diverso contribui a fortalecer a sua autoestima linguística.
Do ponto de vista pedagógico, é fundamental que a língua nom seja apresentada como algo isolado ou limitado, mas como parte dumha rede de comunicaçom e cultura inesgotável. Na prática, isto pode materializar-se através do acesso a contidos em português (livros, música, audiovisuais), de intercâmbios escolares ou familiares, e também de políticas ativas que reconheçam e impulsem a sua dimensom internacional. Para as famílias que educam em galego, o português pode ser um aliado, um reforço e um espelho onde ver a nossa língua com mais projeçom, e isto nunca é incompatível com a valoraçom e conservaçom das nossas variáveis e especificaçons como galegas.
Que destacarias deste Guia? Se tivesses que resumi-los, quais som os fatores chave para conseguirmos transmitir o idioma?

O Guía nasce da experiência acumulada nas Escolas Semente e das vozes de famílias comprometidas com a transmissom da língua. O que mais destacaria eu é que oferece apoio sem juízo, orientaçom sem imposiçom. Acho que os fatores chave se resumem em quatro eixos: compromisso, continuidade, contorno e cuidado.
É dizer, assumir a responsabilidade da transmissom como um ato consciente (compromisso); manter a língua de maneira sustida no tempo, mesmo quando aparecem dificuldades (continuidade); procurar espaços de socializaçom e relaçom onde a língua se veja reforçada (contorno); e fazer todo isto desde o afeito, o respeito e a confiança (cuidado). A língua nom se transmite só com normas, transmite-se através do vínculo, do exemplo e da vivência.
Por que se lança este Guia no Festival Lingua Moza? Que tem de especial esta festa?
Escolhemos o Festival Lingua Moza porque representa moitas das claves que pretendemos transmitir com o Guia: esse compromisso, que há presente e há futuro. O Lingua Moza é umha festa onde a língua se celebra na base, na comunidade, no amor. E isso encaixa perfeitamente com a mensagem do Guia, que nom vai de normativas nem de imposiçons, mas de afeto, de acompanhamento e de aposta pola língua como um projeto de vida partilhado. Ademais, o Festival tem um simbolismo especial por ser um espaço que reúne diferentes geraçons arredor da língua. Apresentar o Guia aqui é, de algumha maneira, celebrar essa continuidade geracional que queremos cultivar.
O Guia vai estar disponível nas redes?
Sim, estará disponível em formato digital para descarga livre dias depois da sua apresentaçom no Vicedo. Também em versom impressa para distribuçom em espaços comunitários, nas nossas escolas, centros sociais, etc. Disto iremos informando em redes (@sementegz).
A nossa intençom é que seja um recurso aberto, acessível e útil para qualquer pessoa que esteja a pensar em como criar e acompanhar na nossa língua, ou que já o esteja fazendo e precise de apoio ou inspiraçom. E de força e ânimo, claro, que em muitas ocasiões nom sobra…
Queres comentar-nos algo mais?
Gostaria de acrescentar que a transmissom da língua nom é umha questom individual nem unicamente familiar ou escolar: é umha responsabilidade coletiva que implica também às instituçons, os meios de comunicaçom, os espaços educativos e de ócio… enfim, a toda a sociedade.
Na Semente levamos anos a demonstrar que é possível educar em língua galega com coerência, qualidade e compromisso. Mas, para que isso se estenda e se consolide, é fundamental que existam redes de apoio, políticas linguísticas valentes e ferramentas como este Guia, que acompanhem e contagiem força às famílias e pessoal que quer, simplesmente, viver na nossa língua.
