Minha bisavó era galega e eu não sabia…



Muitos acham que a maior ligação parental é do filho com a mãe, ou do neto com a vó, mas poucos sabem que quanto maior a distância entre gerações, mais profundo são os vínculos porque são laços que atravessam a eternidade. No meu caso, primogênita tanto do lado paterno, quanto do materno, a minha afeição mais genuína e pura não era com minhas avós, mas com as minhas bisavós. Eu fui privilegiada, tive o colo de duas delas em importante e diferente momentos da minha vida.
Mas é a minha bisavó Dolores ou Francisca, que morava na Vila Ramos, que detinha os maiores mistérios!
Dona Dolores vinha do outro lado do oceano, de um outro tempo, apresentava um rosto brando, olhos serenos que detinha uma luz própria, difícil de decifrar. Sua presença além mar, sua figura calma e seu semblante eram de um espírito soberano e puro, no qual convergiam a fé e o amor. Era a mãe de todo um bairro, de uma cidade, a avó de dezenas de crianças e não apenas a minha. Benzedeira de crianças por mais de 70 anos, trazia inscrito em si-mesma um conhecimento ancestral feminino das ervas medicinais, sem nunca ter aprendido a leitura e a escrita. Suas mãos carregava uma grande enciclopédia farmacológica e a distribuía gratuitamente sem nenhuma intenção que não fosse o amor ao próximo. Algo que sempre admirei; o quanto ela fazia o bem para todos sem nenhuma distinção e sem esperar nada em troca, nem ao menos um obrigado. Às vezes, as pessoas batiam em seu portão e ela da janela dizia apenas: entrem! E nem os seus nomes falavam.

Algo que sempre admirei; o quanto ela fazia o bem para todos sem nenhuma distinção e sem esperar nada em troca, nem ao menos um obrigado. Às vezes, as pessoas batiam em seu portão e ela da janela dizia apenas: entrem! E nem os seus nomes falavam.

Presente até hoje em nossas vidas, Francisca Gomes, mais conhecida por Dolores nasceu em Huercal de Almería, Espanha e veio para o Brasil ainda pequena com seus pais e seus irmãos. Seu pai era agricultor e viu na grande corrente migratória do início do século XX para a América do Sul, uma oportunidade de trabalho. Li uma dissertação de Mestrado, que dizia que os fazendeiros brasileiros faziam altas propagandas em Andaluzia em busca de mão de obra. Propagandas enganosas que ludibriavam famílias inteiras com falsas promessas. Os fazendeiros inclusive custeavam toda a viagem dos andaluzes e de seus familiares. Foi preciso intervenção política da própria Espanha para que se parasse com essas propagandas apelativas que levavam os andaluzes a sonhar com um caminho de prosperidade que não existia. O que eles viriam fazer aqui era simplesmente substituir a mão de obra escrava na lida do café.
Meu tataravô e minha tataravó vieram nessa corrente já com destino certo: uma fazenda de café na cidade de Ribeirão Bonito e com eles, seus 4 filhos, e um deles era minha bisa Francisca. O que permaneceria uma dúvida para a família e para minha vó, era a sua verdadeira idade, já que não fora batizada no tempo certo. Contava que chegara aqui com 3 anos em 1910 e que talvez sua idade oscilasse em uma diferença de 3 ou 4 anos. Recentemente, descobri que minha bisavó viera bem mais velha para o Brasil, pois encontrei o registro de entrada de sua família no Museu do Imigrante em São Paulo. Ela chegou aqui com 9 a 12 anos, em 1909, o que explicaria suas lembranças tão vivas de Almeria, das ruas, da igreja, do mar que não saía de seus olhos, e da fazenda de café em que não só foi morar, mas trabalhar na colheita do produto agrícola mais famoso do Brasil.

Meu tataravô e minha tataravó vieram nessa corrente já com destino certo: uma fazenda de café na cidade de Ribeirão Bonito e com eles, seus 4 filhos, e um deles era minha bisa Francisca. O que permaneceria uma dúvida para a família e para minha vó, era a sua verdadeira idade, já que não fora batizada no tempo certo.

Posteriormente, minha bisavó casou-se com Arthur Morelato, este filho de italianos e teve o meu avô paterno que mais do que avô, fez papel de pai e mãe de seus netos. Ela não só teve meu avô, como mais 8 filhos. Seu maior orgulho era contar sua larga descendência em um caderninho, pedia para que se ali escrevesse o nome de todos, de cada um que nascesse; filhos, netos, bisnetos e tataranetos.
Aliás, uma das cenas marcantes que vivi na minha infância, foi o seu suposto aniversário de 80 anos ( que na verdade deveria ser de 88 a 90). Se fez uma grande festa no bairro em que morávamos, com gente da cidade toda. E o impressionante aconteceu na igreja do bairro: todos os seus descendentes em uma fila imensa para abraçá-la e presenteá-la, enquanto ela estava sentada na frente do altar como uma rainha. Ali, eu conheci primos que nunca tinha visto.

Aliás, uma das cenas marcantes que vivi na minha infância, foi o seu suposto aniversário de 80 anos ( que na verdade deveria ser de 88 a 90). Se fez uma grande festa no bairro em que morávamos, com gente da cidade toda. E o impressionante aconteceu na igreja do bairro: todos os seus descendentes em uma fila imensa para abraçá-la e presenteá-la, enquanto ela estava sentada na frente do altar como uma rainha. Ali, eu conheci primos que nunca tinha visto.

Seu nome de batismo era Francisca, mas o nome pelo qual todo mundo a conhecia era Dolores. Dizia que este fora o apelido (cognome) que sua madrinha lhe pôs ainda pequena vivendo na Espanha. Mal sabia a sua madrinha que seu destino estava traçado: Dolores surgiu neste planeta com a missão de curar as dores, fosse física ou espiritual. Sem precisar dizer em que momento começou a benzer, era devota de Nossa Senhora, mãe dos seres humanos, tal como ela se tornou mãe de toda uma cidade. Não foram poucas as histórias de cura de desenganados, de ressurgimento de vidas pequeninas quase por um fio. Há inclusive uma história, de uma criança de uma cidade próxima, a qual os médicos liberaram-a para morrer em casa. Seus pais não desistiram e a levaram para Dona Dolores. Resultado: essa criança posteriormente levou o seu neto para ser benzido também pelas mãos da mesma mulher que o salvou.
E assim Dona Dolores perpassou gerações com seu canto de reza, com o poder de suas mãos em postura santa para a dignidade do próximo, seu copo com água benta que colocava embaixo de sua santa, suas ervas mágicas e suas receitas de profunda libertação e cura. Os anos no final de sua vida já não se contavam mais, porque tinham dormido nas ondas daquele mar distante. Benzia até por telefone e através das roupas de meninos e meninas, levadas pelas suas mães, quando estes estavam impossibilitados, ou pela distância, ou por uma internação em um hospital, de estarem em sua presença. Só de impor suas mãos, ela conseguia fazer o diagnóstico mais preciso do que muitos médicos.E todo dia, às 18 horas, minha bisavó rezava o seu rosário religiosamente.
Ela amava que eu lesse meus poemas em voz alta. A felicidade que ela demonstrava quando eu declamava meus escritos me comove até hoje só de lembrar. Dona Dolores não detinha a cultura letrada, mas detinha o conhecimento transcendental da vida. Por isso ela se orgulhava de maneira humilde com a possibilidade de ter uma bisneta que almejava ser escritora. Vó Dolores ouvia minha declamação como se fosse uma oração, sonora e mágica.
Outra cumplicidade que criamos: quando eu chegava da escola à tarde ela me dava dois reais para que eu comprasse um doce brasileiro chamado pé de moleque e o levasse para ela escondido. É que ela tinha diabetes e não poderia comer doces! Parecia aquela cumplicidade fora da lei de quem faz algo por debaixo dos panos; eu comprava o pé de moleque e lhe entregava na sala de benzimento, enquanto ela escondia em um guarda-roupas antigo no meio de suas coisas, longe dos olhos de sua filha.
Contudo, eu coloquei o título dessa crônica de: a minha bisavó era galega e eu não sabia… Pois é, acreditávamos que sua família era toda andaluza pela origem do seu nascimento, mas pouco conhecíamos de seus pais. Apenas que o nome do seu pai era Pedro Gomes e de sua mãe, Polônia Garcia. Porém, no registro de entrada de sua família ao Brasil me deparei com outro sobrenome (apelido). além do Gomes. Meu tataravô na verdade era Gomes Miras e seu pai se chamava: Juan Gomes Miras. Fui procurar registro desses dois nomes em sites de genealogia e encontrei dois Juans Gomes Miras, mas só um teria casado em Huercal, próximo do que seria o nascimento do meu tataravô. Este teria nascido em Corunha, Galiza. Pedro Gomes Miras também teria nascido em Corunha, bem como sua suposta mãe, Josefa Mendez. Josefa é o nome da irmã da minha bisavó, algo bem recorrente antigamente: dar o nome da avó e do avô para os netos. O casamento em Huercal pode ter acontecido posteriormente com os filhos um pouco grandes e depois da saída da Galiza. Algo também normal para famílias mais pobres e de camponeses. Ainda fica o mistério porque seus avós saíram da Galiza no final do século XIX.

Pedro Gomes Miras também teria nascido em Corunha, bem como sua suposta mãe, Josefa Mendez. Josefa é o nome da irmã da minha bisavó, algo bem recorrente antigamente: dar o nome da avó e do avô para os netos. O casamento em Huercal pode ter acontecido posteriormente com os filhos um pouco grandes e depois da saída da Galiza. Algo também normal para famílias mais pobres e de camponeses. Ainda fica o mistério porque seus avós saíram da Galiza no final do século XIX.

Minha bisavó ter sua origem na Galiza explica o grande fascínio que a pátria da Língua Portuguesa gera em mim. Talvez porque a Galiza seja a avó do Brasil, tal qual Dona Dolores foi a minha. Vó Dolores, tão galega quanto brasileira, tinha um papagaio de estimação que viveu 40 anos com ela e só se foi porque não aguentou ficar sozinho. Enquanto eu, tão brasileira quanto galega, perpétuo essa busca estranha pelas minhas origens.
Pouco antes de falecer, minha avó duas vezes contara toda a sua vida. É que eu estava elaborando um trabalho para a escola sobre imigração e pensei em usar esse momento para lhe prestar uma homenagem. E todos os dias, depois da aula, eu ia à sua casa tomar nota de sua trajetória. Ela chegou a me mostrar um véu preto, usado em missas, que guardava de sua mãe, era essa a sua grande relíquia. Um véu que viajou dois séculos, um oceano, dois países e que foi a última vestimenta da minha bisavó em seu velório. Algumas semanas antes, porém, eu preparava essa homenagem para esse trabalho escolar, quando lembrei de ir tirar uma foto dela para colocar no meu cartaz. Algo me soprou em meus ouvidos; vá lá tirar uma foto com a vó Dolores! Eu fui, era um sábado. Na segunda-feira de manhã, eu já mandei revelar a foto, enquanto terminava o cartaz. À noite, fui mostrar para ela como o trabalho ficara. Esse foi o nosso último encontro, a última vez que vi seus olhos que me mostravam o mar. Na quarta-feira, minha vó Dolores partiu sem nenhuma dor para mais uma viagem, só que agora teria o azul do céu. Na semana seguinte, eu apresentava o meu trabalho com lágrimas nos olhos e com um novo poema que eu lembro dizia:

Dolores, com dor, com flores, coroada pelo sol. Sua vida era eternidade infinita.

Você partia leve e simples para fincar a ausência do sagrado e do espírito em nossos corações. Saudades.

Adrienne Kátia Savazoni Morelato
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