PGL – Jordi Ballera publicou no verão um artigo intitulado Por que falar galego?, do qual falámos no Portal. Nele dava alguns argumentos para responder a esta pergunta tão comum no nosso país e cuja formulação, em si, é um sintoma de que algo não está a correr bem. O autor foi contatado polo PGL e acedeu amavelmente a responder as nossas perguntas.
PGL: Jordi Ballera é diretor de Edelman Madrid. Que peso têm as línguas numa empresa como a que dirige?
Jordi Ballera: Edelman tem em todo o mundo uma política corporativa que visa potenciar a diversidade dos seus recursos humanos. Em Espanha trabalham desde norte-americanos a alemães, passando por suíços, suecos, galegos ou catalães. Isto permite-nos ter uma equipa de profissionais que reflete a configuração real do mundo; um mundo plural, rico e diverso. A empresa não pode dar as costas às mudanças culturais e sociais que nos rodeiam, e a diversidade interna permite-nos adaptar-nos melhor e mais rapidamente à diversidade externa.
Por outro lado, ter profissionais que falem diferentes línguas facilita a sua capacidade de interlocução com os clientes e meios de comunicação, tanto a nível internacional como local.
Além disso não deve ser esquecido que cada língua tem umas particularidades específicas quando se trata da hora de descrever o mundo e isso significa uma grande riqueza. Ter equipas de executivos que falem línguas diferentes, que pensem em línguas diferentes pensam e que sentam em diferentes línguas, torna-nos mais criativos e, portanto, mais competitivos.
Finalmente, e isto é muito importante, aceitar e reconhecer a diversidade é em si próprio um valor, demonstra tolerância, aceitação da diferença, abertura… e este valor torna as empresas muito melhores. A diversidade interna tem muitas vantagens sobre os modelos mais uniformes, fechados ou culturalmente autárquicos.
PGL: As empresas galegas estão a olhar para o Brasil?
JB: O Brasil é uma grande oportunidade para empresas de todo o mundo, e especialmente para as empresas galegas e portuguesas pela sua proximidade cultural. Galiza e Portugal podem configurar uma mega-região muito competitiva e com enormes sinergias chamada a desempenhar com o Brasil o mesmo papel que o Reino Unido tem desempenhado tradicionalmente com os Estados Unidos. A língua funciona como uma ponte cultural e constrói um universo comum que facilita a confiança mútua.
A língua galega é parte do capital social da Galiza e é um ativo fundamental que convém aproveitar em termos económicos e comerciais. Os empresários e diretivos brasileiros agradecem poder falar com empresários e diretivos estrangeiros na sua própria língua, em português, e isto é uma vantagem para os galego-falantes que têm mais facilidade para aprendê-lo. Para um empresário brasileiro, que um empresário espanhol fale português não é apenas um sinal de respeito, mas uma prova de querer ficar nesse país por muitos anos e de ter planos de longo prazo no Brasil.
PGL: Em 2014 o Brasil organizará o Mundial de Futebol e em 2016 as Olimpíadas. Nesses três anos a presença do Brasil e da sua língua será marcante?
JB: Não há dúvida de que a Taça do Mundo e as Olimpíadas representam enormes benefícios económicos para o país anfitrião. Em termos de promoção do país anfitrião, em termos de investimentos estrangeiros e em termos de mobilização de recursos internos. Ao mesmo tempo permitem que o país organizador mostre ao mundo sua capacidade de planear, gerenciar e executar uns projetos tão extraordinariamente complexos. Ter sucesso na organização destes eventos posiciona e reforça a marca país do estado organizador. Não há outro evento mais potente para definir e melhorar a marca país. Neste senso, acredito que qualquer programa abrangente de promoção e divulgação destes dois macro-eventos deveria-se acompanhar de outros programas destinados a promover diferentes elementos culturais do país em lugar de enriquecer, matizar ou completar a marca país que o Brasil propõe ao mundo. A língua é um desses elementos culturais, e veículo principal na manifestação das expressões culturais como o cinema, a literatura ou a música.
Barcelona 92 foi um sucesso a este respeito. Um sucesso na afirmação da existência de uma comunidade linguística e na reivindicação do papel central da língua catalã na identidade nacional da Catalunha. O Brasil tem uma grande oportunidade para aproveitar esses eventos desportivos para mostrar ao mundo a fortaleza do português, uma língua falada por mais de 240 milhões de pessoas e que, embora não disputa a hegemonia do inglês, sim que é fundamental aprender e conhecer para relacionar-se com a lusofonia no âmbito social, cultural e económico.
PGL: Como podemos os cidadãos e as cidadãs galegas aproveitar esta oportunidade? Que temos a ganhar?
JB: O Brasil é a sétima potência económica mundial. Portanto, acho que podemos ver o Brasil como um enorme mercado para as empresas galegas, em setores nos quais a Galiza tem uma vasta experiência como o pesqueiro, o florestal, o têxtil, o automóvel, a construção ou o design. Mas também é um agente exportador de primeira ordem. E tanto a Galiza como Portugal podem funcionar como porta de entrada do Brasil para a Europa. Também não devemos esquecer o dinamismo inovador do Brasil e isso faz dele um excelente parceiro para as empresas galegas na hora de intercambiar conhecimentos e tecnologias para desenvolver projetos conjuntos. Não se esqueça que o Brasil representa os 60% dos investimentos em I+D em em toda América Central e do Sul.
Contudo diria que uma Galiza isolada, ou mesmo debilmente integrada com outras regiões, não tem agora a massa crítica necessária para ser um parceiro relevante para o Brasil. É fundamental que a Galiza se incorpore a mega-regiões que o tornem mais forte. Portugal é o mercado perfeito para configurar uma grande região no corredor atlântico e estabelecer relações sólidas e duradouras com o Brasil.
PGL: Em breve começará o ano escolar. Atualmente não existem vagas de Língua Portuguesa no ensino educativo galego e nas aulas de Língua Galega não existe uma unidade dedicada a Língua Portuguesa e a Lusofonia. Parece que a administração galega não é capaz de ver a oportunidade. Como se poderia explicar?
JB: Não só não se potencia a aprendizagem do português na Galiza, nem sequer se promove a aprendizagem do galego. Quanto ao português, acho que de um ponto de vista comercial e estratégico tem todo o sentido do mundo fomentar o seu conhecimento e aprendizagem. Se concordarmos nisso, veríamos o melhor modelo para incorporá-lo ao sistema educativo. Para alguns, esta incorporação seria semelhante à do inglês, entendendo o português como língua estrangeira. Para outros, produzir-se-ia percebendo o português como língua própria de um território comum que estaria integrado, principalmente, pela Galiza, Portugal e o Brasil.
Independentemente do modelo de incorporação do português ao sistema educativo galego, não há dúvida de que teria grandes vantagens em termos de capacitação dos estudantes galegos ao dotá-los de uma vantagem competitiva muito relevante e cada vez mais apreciada como é a língua portuguesa.
PGL: Que passos se deveriam dar para tornar a Galiza o único país do mundo com o português e o castelhano, as duas línguas latinas mais faladas, sejam línguas oficiais?
JB: Eu não tenho certeza de que exista uma demanda social para tornar o português uma língua oficial na Galiza. Se houver essa demanda seria conveniente escutá-la. Se não houvesse, mas achamos que é bom promovê-la, seria interessante incentivar um debate sobre esta questão. Mas são questões muito sensíveis. A questão da língua é um assunto a ser tratado com muito cuidado e muito respeito. Penso na Catalunha e o País Valenciano, que é um caso que tem algumas semelhanças.
Eu não tenho nenhuma dúvida de que um bom entendimento entre a Catalunha e o País Valenciano é essencial para o progresso na cooperação económica e potenciar o arco mediterrâneo. Para isso existem duas vias. Uma via é a integração, o que alguns podem chamar Països Catalans [Países Catalães]; outra via é a colaboração entre as duas comunidades. Eu inclino-me pelo segundo modelo que se baseia na autonomia das duas comunidades mantendo sua própria identidade, incluindo a linguística.
Há argumentos sólidos para suster que catalão e valenciano são a mesma língua, mas entendo que um valenciano não goste que se chame catalão à língua que fala na sua comunidade. Do que se trata é de que nos entendamos e de que possamos colaborar potenciando as nossas relações e fortalecendo a região. Não creio que hoje seja oportuno esbater as fronteiras identitárias entre as duas comunidades e tentar construir uma identidade comum, se não houver sensibilidade social para apontar nessa direção. Parece-me que o mesmo ocorre na Galiza com a lusofonia.
+ Ligações relacionadas:
- Jordi Ballera em Linked IN e 123people
- Edelman
- O galego, «nexo de uniom com umha das economias mais potentes do mundo» [PGL, 28/07/2011]
- Para que ‘falar galego’? [Artigo em Xornal, 08/07/2011]
