Em busca do mundo desconhecido

As viagens inusitadas de um estudioso brasileiro curioso



destinosinvisiveis02-910x683Uma canção brasileira diz em seu refrão que “O mundo é pequeno pra caramba“, mas será?

No contexto da canção faz muito sentido, porém, o escritor e viajante Guilherme Canever, prova com suas obras que não é bem assim e ele mostra que é possível fazer uma “Viagem por Países que Não Existem” e que ainda existem muitos “destinos invisíveis” por este Mundo, que se diz globalizado e conectado.

Nesta conversa, abordamos a última obra de Canever, que tem exatamente o título Destinos Invisíveis – uma nova aventura pela África – tentando entender porque alguns países não despertavam atenção nos viajantes. Será que eles não têm atrativos turísticos? E porque será nas escolas não aprendemos nada sobre eles?

Guilherme Canever é formado em Engenharia Florestal, dedica boa parte da sua vida às viagens para lugares nada tradicionais. Nelas ele surpreende-se com a hospitalidade de gente simples, experimenta as mais exóticas comidas, vê paisagens deslumbrantes e coleciona inúmeras histórias, todas registradas no blog saiporai.com

Conheça as aventuras desse verdadeiro explorador de muitos continentes.

Da Engenharia Florestal para Turista Profissional (porque que os destinos escolhidos e a forma de viajar não é para amadores ou turistas de 1 vez por ano), o que motivou a percorrer  18 países do continente africano?  Que como o próprio título do livro sugere, poucos ou nenhum turista vai.

Em 2005, quando viajei para o Tibete, fiquei muito impressionado com as alterações culturais que estavam acontecendo na região. Tudo muito diferente do Tibete imaginário. Isto que a linha de trem ainda nem havia chegado em Lhasa. Passei a prestar mais atenção nisto e notar como o imperialismo e neo-colonialismo estavam afetando os países e culturas.

Em 2009 parti para uma longa viagem pela porção Sul/Leste da África. Foi meu primeiro contato com o continente, e paixão a primeira vista. Depois de viajar por terra da África do Sul até o Djibuti, parti para o Iêmen e depois passei mais de dois anos viajando pela Ásia.

Em certo momento da viagem, sugeri para Bianca, minha esposa, de viajarmos desde o Marrocos e África do Sul. Por diversas questões, acabamos optando por viajar da Turquia até a Índia, via Ásia Central.

O oeste da africano se tornou um sonho, que depois de algumas outras viagens, acabei realizando. 

A África é o continente com o maior numero de países, no entanto praticamente 50% dos turistas vão somente para África do Sul, Marrocos e Egito. Já tinha descobertos vários segredos e me surpreendido com a porção Sul/Leste da África. Desta vez a curiosidade era sobre a África Ocidental. Alguns dos países que visitei recebem menos de 50 mil turistas por ano. Será que eles não têm atrativos turísticos? Porque na escola não nos ensinam as histórias de suas ricas civilizações? Gosto de relatar minhas experiências por lugares que não são muito divulgados. Nem sempre é fácil viajar por alguns destes países, então acho muito mais interessante escrever sobre estes locais do que outros que já tem muita coisa publicada. Não deixa de ser uma divulgação destes países e culturas. Antes de cada capítulo de livro, indico filmes e livros para quem quiser se aprofundar mais. 

Gosto de relatar minhas experiências por lugares que não são muito divulgados. Nem sempre é fácil viajar por alguns destes países, então acho muito mais interessante escrever sobre estes locais do que outros que já tem muita coisa publicada.

A percepção (ou senso comum) é que a África é um enorme país, com culturas e costumes iguais, até homogêneos. Qual foi sua impressão da diversidade cultural, histórica e linguística dos países que visitou?

É muito comum criarmos um estereótipos quando não conhecemos algo. Como comentei anteriormente, a África é o continente com maior numero de países e com mais de 1 bilhão de habitantes. O que o Lesoto tem a ver com a Argélia? Nada, seria a mesma coisa que comparar Islândia com a Bósnia só por estarem no continente Europeu. Já estive em 36 países africanos e não canso de me surpreender.

Os países africanos, com exceção de Libéria e Etiópia, se tornaram independentes nos últimos 60 anos e tiveram as fronteiras determinadas pelos seus colonizadores. Isto fez com que, de uma maneira geral, a variedade cultural dentro dos países seja incrivelmente grande. As fronteiras não seguiram o padrão de Estados-Nação como foi na Europa no passado. Diversos povos, dezenas de línguas e culturas passaram a fazer parte do mesmo país. São centenas, milhares de micro-nações, muitas delas com seu chefe local atuando fortemente, mesmo com um Estado maior que teoricamente detêm o poder político.

Para o padrão europeu, a Espanha é um país com grande variedade linguística-cultural, com Galiza, Catalunha, País Basco, Castilha e suas sub-divisões. A Nigéria, para citar um exemplo africano, possui mais de 500 línguas locais.

Para o padrão europeu, a Espanha é um país com grande variedade linguística-cultural, com Galiza, Catalunha, País Basco, Castilha e suas sub-divisões. A Nigéria, para citar um exemplo africano, possui mais de 500 línguas locais.

Em 2016, você lançou o sugestivo título “Uma viagem pelos países que não existem”. O atual Destinos Invisíveis – uma nova aventura pela África“, podemos dizer que será um volume 2 dos Países que não existem ou é muito diferente (na proposta e concepção)?

O conceito é bem diferente, mas ambos fogem de destinos do turismo tradicional.

No Países que não existem, relatei minhas viagens por países de facto independentes, porem com reconhecimento internacional limitado.  Ele aborda fortemente a questão geopolítica por serem Estados não membros das Nações Unidas. Falo das questões culturais, mas a história e geopolítica acabam sendo um pouco mais o centro dos relatos.

No Países que não existem, relatei minhas viagens por países de facto independentes, porem com reconhecimento internacional limitado.  Ele aborda fortemente a questão geopolítica por serem Estados não membros das Nações Unidas. Falo das questões culturais, mas a história e geopolítica acabam sendo um pouco mais o centro dos relatos.

No Destinos Invisíveis, são países membros da ONU, mas mesmo assim pouco lembrados para o turismo e até mesmo livros de história. A proposta não deixa de ser parecida, ambos são títulos bastante provocativos. Será que os países não existem? Por que estes destinos são “invisíveis” para o turismo?

Algum dos países visitados falavam a Língua Portuguesa? Havia conhecimento da cultura brasileira ou lusitana?

Visitei Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde. Muito legal pois a comunicação facilita bastante e é possível se aprofundar bastante nas conversas.

No Brasil, apesar de ainda existirem línguas indígenas, todo mundo fala o português como primeira língua. Já no Moçambique, as línguas locais estão muito mais presentes, principalmente no interior. Mesmo assim me perguntavam sobre novelas brasileiras que estavam assistindo e queriam saber sobre os capítulos seguintes.

Já em Cabo verde e Guiné Bissau se desenvolveu bem o Crioulo (Kriol), muito falado alem(ou junto) do português. Me perguntavam bastante sobre musicas brasileiras.

Todos os três têm um vinculo forte com Portugal até hoje. Autores e livros portugueses são referencia e muito lidos.

Portugal foi o primeiro país europeu a chegar em diversos lugares da costa africana. É fácil de encontrar referencias à língua portuguesa em diversos nomes de cidades e até fortes abandonados. Mas algo que me chamou muito atenção foram as famílias de escravizados libertos que retornaram para Benim, Togo e Gana.

Eles mantiveram seus nomes portugueses, e levaram de volta para a África uma cultura luso-brasileira. São os Agudás, Tabom e Amarôs, que até hoje continuam com seus sobrenomes Souza, Marques, Pereira (…) e cultura bem diferente das dos povos que permaneceram nestes países.

CONHEÇA GUILHERME CANEVER

O autor é brasileiro, casado, pai do Gabriel, 4 anos e Teresa, 1 ano.

Ele traz na genética o gosto pela viagem e pelos livros. Desde que nasceu, foi estimulado pela curiosidade e pela descoberta em uma família de viajantes. Seu primeiro livro foi De Cape Town a Muscat: Uma Aventura pela África. Depois lançou De Istambul a Nova Délhi, Uma Aventura pela Rota da Seda. O terceiro livro, chamado Uma Viagem pelos Países que Não Existem, teve sua tiragem rapidamente esgotada e transformou Guilherme em uma das principais fontes de referência sobre países não reconhecidos pela ONU.

José Carlos da Silva

Desde 2008, José Carlos da Silva é correspondente do PGL no Brasil. Residente em Campinas (São Paulo), é produtor cultural e periodista. Como produtor cultural trabalha pela difusão da cultura caipira, que tem na viola de 10 cordas, sua maior expressão.

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