Contra a obriga de ser desejada



Por trás do ato de depilação aparentemente insignificante, esconde-se o sistema heteropatriarcal que, com o seu cariz racista, perpetua a pressão estética baseada numa ficção.

Amar o nosso corpo tal como é. Não importa termos lido completamente A mística da feminidade de Friedan nem todas as críticas e contribuições ao redor dos mitos da beleza que o seguiram. A realidade é que é muito mais singelo lê-lo e compreendê-lo do que fazê-lo e senti-lo. A depilação é só um exemplo das múltiplas ações que temos interiorizadas a tal ponto que deixar que apareça o pelo por todas as nossas pernas ainda pode sugerir o fracasso daquela “feminidade” que a sociedade espera de nós. Porque termos pelo nas pernas, na pube ou nos sovacos ainda se relaciona com a sujidade.

Portanto, para evitarmos conflitos e mesmo agressões verbais ou físicas, desde pequenas aprendemos a nos adaptar. Assim, ajustamo-nos ao sistema e mercamos um pacote de cera.

A contrapelo é um ensaio que aborda os motivos pelos quais recorremos à depilação e também todos os efeitos e implicações que isto tem em nós, dos afetos à autoestima e à submissão a um sistema heteropatriarcal que continua a nos castigar se a nossa aparência não corresponder com os padrões de beleza brancos.

A contrapelo é um ensaio que aborda os motivos pelos quais recorremos à depilação e também todos os efeitos e implicações que isto tem em nós, dos afetos à autoestima e à submissão a um sistema heteropatriarcal que continua a nos castigar se a nossa aparência não corresponder com os padrões de beleza brancos.

A autora, Bel Olid (Mataró, 1977), é escritora, tradutora e professora do departamento de Filologia Catalã da Universidade Autónoma de Barcelona. Em 2009 recebeu o premio Qwerty pelo melhor livro do ano com Crida ben fort, Estela, uma obra sobre o abuso sexual infantil. No ano seguinte, ganhou o célebre galardão Documenta 2010 pela sua primeira novela Una terra solitària. Foi presidenta da Associació d’Escriptors en Llengua Catalana (AELC).  A sua obra literária inclui de literatura infantil até ensaio feminista, como Feminismo de bolso: kit de supervivência, Fodemos? e A contrapelo. Este último foi traduzido para o galego por María Alonso Seisdedos para Edições Embora.

Bel Olid refresca o já tão empregado “o pessoal é político” ao falar daquilo que está por trás da aparentemente livre e trivial escolha de nos depilarmos ou não. A autora faz com que repensemos sobre esse ato quotidiano, mesmo se, tal como ela, deixámos de nos depilar há algum tempo.

Dizer que a depilação é uma decisão pessoal, que o fazemos livremente e que nisso não se tem de meter ninguém, pode dar-nos uma certa sensação de liberdade, mas estamos a nos enganar. Seria uma decisão pessoal sem maior transcendência se as consequências que implica depilar-se e não se depilar fossem equivalentes. Quando depilar-se tem prêmio social (que bonita estás!) e não se depilar atrai o castigo (que nojo!), a decisão deixa de ser inocente e passa a ser política” 

Nesse sentido, A contrapelo converte-se num ensaio sobre as condições que limitam as mulheres em termos de representação pública. Tal como sinalara Mary Beard no seu ensaio Mulheres e poder, Bel Olid descreve a exigência de reproduzir estereótipos de género de uma “feminidade” heteropatriarcal no momento de ocupar espaços de poder.

No ano 2000, Marjane Satrapi conseguiu concretizar com algumas vinhetas o processo em que as mulheres recuamos de diferentes interesses e projetos pessoais, por mor da pressão estética. Mesmo noutro contexto social e histórico e mais de vinte anos depois, Olid retoma o problema e expressa no seu ensaio que “Não é só a reprodução banal de estereótipos de género; é também o recordatório constante de que o primeiro que as deve preocupar é a olhada alheia sobre o seu corpo”, descrevendo assim como o sistema heteropatriarcal continua a exercer o controlo sobre a vida das mulheres.

A autora catalã também cavila sobre os efeitos da pressão estética na autoestima e no amor próprio. Ao estarem as mulheres, desde pequenas, expostas à “ditadura do controlo social do seu corpo”, costuma-se criar um distanciamento da própria corporalidade que muitas vezes deriva numa rejeição do corpo. Mas uma das grandes preocupações de Bel Olid é o jeito como essa “ditadura” estética da “feminidade” passa de ser uma norma a ter a categoria de produto da natureza.

Assim que se mostra o corpo, devem desaparecer os pelos, pelo risco de que a gente ache que uma não é ‘mulher mulher’ ou ‘boa mulher’. O mais fascinante de todo este mecanismo é que um artefacto social (a depilação) se considere mostra de feminidade inata.

Por outro lado, um dos grandes pontos deste breve ensaio é o facto de Bel Olid, enquanto mulher cisgénero branca europeia, não esquecer o lugar de privilégio do que está a falar. Assim, mesmo que não aprofunda no tema, abre a porta e menciona como é que certas decisões, neste caso a depilação, revelam que não todas as mulheres podemos exercer a nossa liberdade no espaço público do mesmo jeito, pois nem todas gozamos dos mesmos direitos efetivos. Para as mulheres racializadas, assim como para as mulheres trans, dissentir de uma expressão de género normativa implica sentir medo perante o risco de agressões físicas ou verbais.

As mulheres cis podemos dar-nos ao luxo de renunciar à depilação porque não precisamos dela como prova de uma suposta feminidade intrínseca; ao contrário, as mulheres trans expõem-se a um questionamento constante sobre o seu género.

As mulheres cis podemos dar-nos ao luxo de renunciar à depilação porque não precisamos dela como prova de uma suposta feminidade intrínseca; ao contrário, as mulheres trans expõem-se a um questionamento constante sobre o seu género.

Como devolver o gozo, então? Alguma vez poderemos celebrar o nosso corpo tal qual sem nenhum determinante? Bel Olid demonstra o arraigado que está o problema na sociedade, mas também assome a possibilidade de uma mudança. Ao escrever que o desejo é uma cousa que se pode aprender e que, por tanto, muda através do tempo, dos territórios e das culturas, deixa aberta a porta para pensarmos no futuro e na nossa capacidade de trabalhar nele. De supetão, as estruturas que pareciam inamovíveis e que por essa mesma razão nos desarmaram e imobilizaram tantas vezes, mostram as suas gretas. Por conseguinte, Olid convida-nos a passar de objetos de desejo a sujeitos políticos e, no caminho, trocarmos a obriga de ser desejadas pela vontade de o fazermos.

As normas parecem-nos inflexíveis enquanto as padecemos (ou gozamos, consoante o lado do que nos encontremos), mas na realidade mudam continuamente. Se em vez de nos aferrarmos às normas restritivas da nossa geração, nos atrevemos a transgredi-las, abrimos caminho (…)

A contrapelo é uma breve, mas grande análise que abre várias linhas de debate. O seu carácter didático é ideal para começar a ler pensamento feminista e a agudeza da autora, assim como o seu senso do humor, convida as pessoas que estão há algum tempo envolvidas no feminismo a refletir sobre outras arestas de um tema conhecido.

Sem dúvida, Edições Embora dá um contributo significativo para o sistema literário galego com este título de atualidade feminista.

[Este artigo foi publicado originariamente no Salto Galiza]

Sara Guerrero
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