Carta aberta ao reintegracionismo de Rafael Ferro



Esta carta aberta foi-nos remetida na sequência do debate mantido no jornal El Correo Gallego polo autor da mesma e por Maria Pilar Garcia Negro, nomeadamente polos numerosos comentários que suscitou nas redes sociais o primeiro artigo de Rafael S. Ferro Vázquez, escrito em castelhano. Os links aos três artigos publicados por agora som os seguintes:

El gallego normativo, un producto de difícil venta (Rafael S. Ferro Vázquez)

O galego, ao lixo? (Pilar García Negro)

O debate do galego: matar ao mensaxeiro (Rafael S. Ferro Vázquez)

CARTA ABERTA AO REINTEGRACIONISMO

 

Caros amigos e amigas do reintegracionismo,

Muito obrigado a todos polo interesse no meu artigo titulado “El Gallego normativo, un producto de difícil venta” publicado en El Correo Gallego no dia 20 de Maio e também polos seus comentários em redes, tanto polos mais benevolentes como pelos mais críticos. Gostaria especialmente de expressar os meus parabéns a Eduardo Maragoto polo trabalho que está a realizar na presidência da AGAL e polos seus instrutivos vídeos no Youtube. Por várias razões acho que é um trabalho que vai ser importante na evoluçom do reintegracionismo dos próximos anos.

Além de cumprimentá-los e agradecer o seu interesse, estou escrevendo esta carta para fazer duas contribuições, sempre com o maior respeito por todas as opiniões:

Sinto-me muito feliz por conhecer e usar o castelhano, umha língua de imensa riqueza que também sinto como própria. No entanto, o facto de usá-la nesse meu artigo antes referido nom é acidental:

Acredito que o sucesso deste movimento vai residir na transversalidade e na inclusom de agentes de diferentes pensamentos: progressistas, conservadores, nacionalistas galegos, centralistas espanholistas, direita, esquerda… e que todos percebemos o reintegracionismo como viável e benéfico para a Galiza, independentemente da nossa ideologia. Romper com a abordagem clássica, uma fonte de preconceito, foi uma das razões da atençom que este artigo produziu em diferentes grupos. Temos que estar cientes de que existe atualmente uma lagoa no desenvolvimento desse movimento, que é precisamente o facto de muitas pessoas estarem completamente desconectadas devido ao desconhecimento ou à distância política. É necessário quebrar essas barreiras e preconceitos, embora, é claro, sem contrariar as várias associações e grupos atuais, alguns dos quais são promotores e garantidores, e serám, sem dúvida, os protagonistas de garantir a sua saúde nos próximos anos.

Como refleti no meu artigo, acho que os regulamentos atuais da Real Academia Galega consagram a castelhanizaçom do galego e, com a desculpa de nom reescrever a história, continuam a manter letras, palavras e construções impróprias do nosso idioma. Entendo esse ponto de vista, mas sem a intençom de corrigir erros do passado, os nossos autores do “Rexurdimento” liderados por Rosalía de Castro e Eduardo Pondal nom teriam retomado a escrita de nossa língua após três séculos de ausência, nem tampouco o galego teria sido retomado no ensino nos anos 80, após o regime do General Franco.

No entanto, nom devemos esquecer que atualmente existem milhares de galegos, organizações e instituições que usam / usamos o galego normativo (ou similar) e nom mudarão a sua maneira de se comunicar de forma traumática. Por isso, falando do ponto de vista social, qualquer possibilidade de transiçom para o galego reintegrado no ensino e na administraçom, sempre passará por moderaçom, comunicaçom, diálogo e, sobretudo, binormativismo integrador. A intençom de forçar uma rotura certamente seria um motivo de fracasso.

Obrigado a todos e todas vós!

RAFAEL S. FERRO VÁZQUEZ


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  • Ernesto Vazquez Souza

    Que fedor intenso a podre, a décadas passadas sem fruto nem governo…

    Esse é o debate, hoje? alucino.

    Para que perdeu tanto pessoal 20, 30 anos no reintegracionismo… para que a gente como Garcia Negro, dominando ainda o panorama no nacionalismo, venha com palavras de ordem que já eram retrógradas nos anos 80?

    Para que venham castelhano escreventes a nos explicar que é o reintegracionismo ou que detergente limpa melhor?

    Que grande labor está a fazer a AGAL hoje… como foi que voltamos aos 80? a querer disputar como meta final as carronhas da morta cultura galega, os restos baixo a mesa do banquete dos palhaços governantes?

    u-lo reintegracionismo das grandes navegações cosmopolitas, o que era uma impugnação total, um reset, um sistema paralelo e alternativo… ?

  • Cornucopio

    Acho que o debate é radicalmente errado. Os problemas da lingua galega son outros e non teñen a ver coa ortografía.
    Estes son cantos de serea que pretenden desviar a atención da realidade sociolingüística.
    O primeiro artigo do xornalista está inzado dos típicos prexuízos sobre o galego: identificación co rural, miseria, atraso e incultura; galego de laboratorio fronte ao da rúa e dificuldade de comunicación interzonal.
    No segundo acusa a Pilar García Negro de isolacionista (!) e de ser culpábel da perda de falantes. É sabido que foi a Directora Xeral de Política Lingüística todos estes anos, claro.
    Mais o curioso é que boa parte do reintegracionismo (non todo) secunde estes artigos de forma acrítica. Dá que pensar que o autor comezase publicando en castellano, e eu pregúntome que hai organizado dende o poder para desviar a atención, para tentar que nos centremos en debates estériles.
    E repito: os problemas do galego e dos seus utentes residen na negación dos dereitos dos falantes. Cómpre gañarmos o futuro do galego usándoo cada día e estendéndoo a todos os ámbitos, sen exclusión.
    Sexamos coherentes na nosa práctica cotiá, usemos a ortografía que usemos.

    • João Lousada

      Compreendo perfeitamente o teu ponto de vista, mas não concordo com a problemática que formulas.

      Há pessoas que empregam o galego já que é a sua língua materna (cada vez menos, infelizmente), outras por uma questão ideológica, uma inquietude cultural, ou por várias destas razões ao mesmo tempo… Rafael Ferro só parece importar-se com a sua “utilidade”, polo acesso que oferece ao mundo lusófono; pois que seja bem vindo! Se toda a gente que tem preconceitos sobre o galego pensasse da mesma forma, a situação da nossa língua seria muito diferente.

      Para o galego, a sua “proximidade” (que muitos consideram identidade) com uma língua internacional como o português é uma evidente vantagem. Não imagino os defensores tanto do catalão quanto do euscara a deixar de explorar essa via se estivessem no nosso caso. Claro que era melhor ter um país com uma maioria ciente do valor cultural e político de possuir uma língua própria, mas não podemos aguardar por isso, nem desprezar ou suspeitar de quem mostra qualquer interesse polo galego; não a caminho de aonde parece que vamos.

      Finalmente, partilho a ideia de sermos coerentes, com independência da ortografia que usarmos, e é para isso que necessitamos do binormativismo.

    • João Lousada

      Quando ouço alguém dizer que “o galego não vale para nada”, acredito que no seu caso é verdade, porque costuma ser o argumento de uma pessoa com nulas inquietudes intelectuais, com uma ideia frívola do que é o prestígio social e com uns referentes culturais de reality show. Para ela, com efeito, a língua galega é um incómodo, como o seria o castelhano se vivesse nos EUA. Contudo, penso que lhe devemos dar a oportunidade de cultivar uma língua que é tanto sua como nossa; mormente, tendo em conta que cada vez são mais as que opinam assim. Daí a importância de insistir no argumento da “utilidade”, que só o reintegracionismo pode dar. Eis o sentido do artigo do senhor Ferro Vázquez, em minha opinião. De facto, estou certo de que, se em vez de pertencer ao mundo lusófono, o galego figesse parte do anglófono, não precisaríamos de nenhum esforço.
      Eu acho que a AGAL tem razão, mas também sei que isso não é suficiente. Não dão medalhas por ter razão, nem por estar convencido se chega a nenhuma parte. O discurso da utilidade, desnecessário para quem tem um mínimo de sensibilidade cultural ou de consciência política, torna-se imprescindível noutros cenários. E o binormativismo, que para alguma gente que leva muito tempo no reintegracionismo pode parecer um travão, não deixa de ser na realidade um atalho.

  • Celso Alvarez Cáccamo

    Hipócrita. Não mereces mais resposta.

  • Ângelo Cristóvão

    Quando o autor diz, finalizando: “A intençom de forçar uma rotura certamente seria um motivo de fracasso” refere-se a que?
    Só quem está na posse do poder ou com capacidade para influir decisivamente, pode provocar uma ruptura. Não é o caso do reintegracionismo organizado, como toda a gente sabe. O exemplo mais claro e recente de ruptura do campo cultural galego é o do Decreto Filgueira de 1983, impondo as “Normas Ortográficas e Morfolóxicas do Idioma Galego”. Ruptura insistente e persistente, para tentar aniquilar socialmente a quem não comungava do dogma oficial. Por certo, o jornal El Correo Gallego foi campeão da exclusão das “heteografías lusistas”, como dizia o Sr. Ferro Ruibal. A mim aconteceu-me mesmo quando publicamos nesse jornal compostelano a esquela do falecimento de minha mãe, em 1992. Não respeitaram nem a vontade dos defuntos. Liguei para pedir explicações, por terem mudado o texto que a família tinha enviado, e a resposta foi uma burla e uma falta de respeito.

    Então, a ruptura provocada polos isolacionistas, foi um fracasso? Acha que os promotores do isolacionismo deveriam assumir algum tipo de responsabilidade polas políticas desenvolvidas durante os últimos 30 anos, ou é “água passada” e temos que começar de novo?

  • Elsa Quintas

    Se ben Maria Pilar García Negro sabe defenderse perfeitamente soa, quero expor aquí que foi ela quen, como deputada do BNG, redixiu na primavera de 1990 unha iniciativa no Parlamento “para a eliminación das restricións legais que, dende 1982, impoñen como único galego permitido (nas axudas ou subvencións a editoriais, libros de texto, traducións, iniciativas culturais ou pedagóxicas, teatro, premios literarios…) a variante escrita definida como oficial, con grave proscrición doutras formas ou variantes que, tanto na literatura como na escrita en galego en xeral, existen e son incuestionabelmente tamén galego”.

    Alén desa iniciativa parlamentar, absolutamente definitoria, a coherencia da Sra. García Negro na súa obra e nos seus posicionamentos desmontan a acusación de “isolacionista” que realiza o autor deste artigo.
    Recoméndolle a este que lea o artigo dedicado a D. Ricardo Carvalho Calero e publicado en “A Nosa Cultura” núm. 13 de A Nosa Terra, marzo de 1991. Igual se sorprende e todo.

    Esta señora escribiu, en defensa das distintas ortografías, aludindo a unha bancada do Partido Popular non distinta á actual que destilaba: “Desprezo das variantes alternativas; ignoráncia sobre solucións do próprio galego histórico; espírito policial a persecución e enterramento do discrepante; soberba intelectual na imposición por decreto dunhas formas, sen diálogo nen debate posíbel; puro capricho, en ocasións; desafecto, en suma, polo próprio galego, que non merece nestas prácticas o respeito por aquilo que saia do estreito rego admitido… Algo de todo isto hai, e coido que é preciso chamar a atención máis unha vez, non por defensa a ultranza de nengunha outra opción, senón porque os efeitos, deste espírito sobre o noso idioma están a ser, ao meu ver, inteiramente lesivos. Debilitan-no, no canto de fortaleceren-no; crian aínda máis falsa conciéncia (ninguén cre que “sabe” galego); concentran a enerxia non na extensión do uso social do idioma, senón no seu control e peneira.”

    Que lonxe fica 1991, mais que actuais as súas palabras en defensa da liberdade de escolla ortográfica para un momento no que se está a opinar sobre binormativismo.

    • Miro Moman

      Os políticos, atendendo aos cálculos eleitorais ou, neste caso, à disciplina partidária, o mesmo podem dizer uma cousa que a contrária ou agacharem-se atrás duma calculada ambiguidade.

      No caso da missiva na folha paroquial, a senhora Garcia Negro, vaiam por diante a minha admiração e respeito, mas, a vaquinha pelo que vale, aproveita para mandar recado do politburo: “O vos dejáis de flirtear con el Feijóo o vos vais quedar sin subvenciones cuando llegue el tripartido”.

      Duas cousinhas: Primeira, os reintgratas já demostraram que podem criar e construir sem subsídios. Se os houver, bem-vindos forem, se não, tant pis… Segunda, feliz ou infelizmente, o proverbial sentidinho galego há continuar a tornar a hipótese dum eventual tripartido da espanholada da Junta ainda durante um bom bocado. Assim que temos Feijóo “galegocomanós” para rato. Mais vale levar-se bem…

      Finalmente ao Bloco o reintegracionismo produz-lhe uma grande irritação e incomodidade, embora digam o contrário. De facto, o Bloco tem reprimido e discriminado o reintegracinismo como quem mais. E, por favor, não me façam falar… O Bloco não quer língua. Para eles a língua é simplesmente um pretexto político. Ao Bloco avonda-lhe que a Constituição Espanhola outorgue ao dialeto regional falado na Galiza o status de língua. Por outras palavras, que o castrapo tenha “carné” espanhol de língua ainda que não o seja.

      Assim sendo, escusamos “gherrear”…

      Esclareço, para o momento no que cheguem as purgas, os gulags, a reeducação e as mil primaveras culturais mais, que as minhas opiniões são exclusiva responsabilidade minha e que não tenho desde há muitos anos qualquer vinculação com a AGAL nem nenhuma outra associação ou organização da Galiza. Seja como for, a minha intenção é retonar ao exílio em breve. Já vou velho para suportar o apartheid…

    • Eduardo Maragoto

      Como já expliquei no Facebook em relaçom a outro contributo de Marcos Maceira no mesmo sentido, “a simpatia com o reintegracionismo de Pilar Garcia Negro está fora de toda a dúvida, e é muito o que este movimento deve a Pilar [a começar, mas nom só, polas iniciativas que menciona a Elsa]. De facto, ainda hoje, se perguntássemos a qualquer galego alheio a estes debates que é “falar em reintegrado”, penso que se lembraria, antes que em qualquer outra cousa, do falar cuidado de Pilar Garcia Negro.
      Ora bem, nos dous artigos cruzados por Garcia Negro e Ferro Vázquez há alguns excessos dialéticos que som normais nestes debates, sempre carregados de paixom, e eu prefiro reparar mais no choque de ideias que no choque de autores. Pois bem, penso que nestes artigos há duas ideias que, parecendo contraditórias, devem encontrar a forma de se ensamblar para fazer avançar este nosso galego. Por um lado, Ferro Vázquez fai-nos ver como também há galegos, em princípio alheios à causa galeguista, que veem com preocupaçom que esmoreça o galego (que também é um património dos galegos que falam castelhano) e reclamam passos mais decididos em direçom ao reintegracionismo. Por outro lado, Garcia Negro fai-nos ver como o manejo deste ideário, que costuma usar argumentos económicos ou demográficos, pode ser entendido como umha desvalorizaçom da nossa tradiçom cultural. Dar resposta a ambas as preocupações, reunindo-as na mesma mesa de trabalho, é umha das futuras missões do binormativismo”.

      • Miro Moman

        Isso é porque o Bloco nao percebe qual é a nossa tradicao cultural, que é transoceánica desde a pré-historia até que os castelhanos curtam o tráfico internacional desde os portos galegos.

      • Celso Alvarez Cáccamo

        Defender para o galego a norma cultura portuguesa num artigo escrito em espanhol é bosta de vaca. O autor não só está a dizer (no reacionário El Correo Gallego, nada menos) que “a norma RAG não vale”: está a dizer que vale mais “chegar”, num artiguinho, aos linguófobos espanholistas que veriam de bom grao a conversão do galego num simples monicreque cultural escrito.

        Há verdadeira letromania num setor do mais recente reintegracionismo. Há gente que está a converter o potencial integrador e transformador do galego num horroroso fetiche, até ao ponto de não distinguir já entre amigxs e inimigxs. O redutivismo nas análises é pavoroso, e até se retuiteiam bobagens que diz o linguicida Feijóo só porque menciona a “lusofonia”, e “o galego no mundo” ou caralhadas assim.

        Com as minhas diferenças com Pilar García Negro sobre a análise da situação sociolinguística galega, não compreendo como há gente que se pode alinhar mais com o sr. Rafael Ferro Vázquez que com ela, sob tópicos (incomprováveis) sobre “a UPG” e o seu “anti-lusismo” e parvadas assim (que eu saiba, Néstor Rego é UPG e escreve como lhe sai dos ç e dos nh).

        O artigo do senhor Ferro nem merecia resposta. Pilar cometeu o erro de responder. De novo, os linguófobos ganham a partida discursiva pré-eleitoral, impondo quadros falsos. Para “quebrar as barreiras” e reduzir as “distâncias” entre grupos potencialmente defesores do reintegracionismo, o senhor Ferro utilizou o castelhano, mais “neutral”, claro, contribuindo assim para consagrar a ideia (linguicida) de que as cousas importantes (el gayego, el coronavirus) merecem ser tratadas em espanhol, de maneira mais clara e mais inclusiva. Velho truque podre, de servis ou vencidxs.

        Na Galiza, o reintegracionismo só se defende escrevendo em normas reintegracionistas e falando-o com aproximação a essas normas. Noutros países, as táticas podem ser outras. Mas, aqui, o uso do espanhol, bilinguistamente, para conciliar e cooptar espanhol-falantes denota derrota, da qual a proposta binormativista é antesala.

        • Ernesto Vazquez Souza

          Tudo de acordo, claro…

          Mas… Só uma dúvida… acho que Garcia Negro não responde ao artigo do vendedor de detergentes esse… O que faz é arremeter contra que o reintegracionismo possa chegar a fazer parte do discurso de certo espanholismo (que justifica a liquidação do galego língua nacional, mas abre a possibilidade ao uso do português língua comercial) até porque ela enxerga, acho, com boa cabeça política, que o capital social e simbólico do reintegracionismo pode se terminar escapando da ortodoxia do nacionalismo galego… ?

          • Celso Alvarez Cáccamo

            Caro, isto que dizes é do mais lúcido que lim nos últimos 100 anos:

            “(que justifica a liquidação do galego língua nacional, mas abre a possibilidade ao uso do português língua comercial) até porque ela enxerga, acho, com boa cabeça política, que o capital social e simbólico do reintegracionismo pode se terminar escapando da ortodoxia do nacionalismo galego… ?”

            E é que uma visão mercantilista da língua pode levar onde dizes, sim (“português língua comercial”). Eu não diria tanto impedir essa escapada da “ortodoxia do nacionalismo galego” (porque no reintegracionismo há muito pós-nacionalista, isto é, soberanismo/independentismo cívico não nacionalista) quanto impedir o esfarelamento do bloco de progresso para a hegemonia gramsciana, para aquilo que há anos chamamos a “hegemonia social do galego”.

            É obrigação da vanguarda manter esse bloco unido e controlado, claro. Mas não se deveria preocupar muito, porque na verdade a teórica conversão de capitais linguísticos simbólicos económicos sociais não funciona na Galiza. Nunca funcionou, apesar de que fundamentou, falaciosamente, muitas análises (as minhas incluídas).

            Por outras palavras: se um setor do reintegracionismo é cooptado para esse trânsito galego língua nacional ==> português língua comercial não será por qualquer venda de capitais: será porque gostam mais do espanhol como língua verdadeira.

            Quando não há mobilidade nem movimentação não há ganhos nem perdas, apenas mudanças de posição. Só uma viragem descapitalizadora da língua representaria a revolução que precisamos. É esse o bloco a construir, não o dos “capitais”.

      • João Lousada

        Bom, a mim surpreendeu-me a reação de Garcia Negro, se calhar porque só fiquei com três ideias básicas do primeiro artigo de Ferro Vázquez: a língua galega está em perigo, merece ser salvada e estamos na hora do reintegracionismo, pois as estratégias anteriores fracassaram. Ora bem, é lógico que uma pessoa com a trajetória e os conhecimentos da professora Garcia reparasse nas contradições do texto e quigesse retorquir os seus argumentos; com os quais eu também não estou de acordo na forma, apenas com as conclusões que já mencionei.
        Como di o Eduardo, há muitos motivos para defender o galego. Um deles consiste em que a nossa língua constitui um elemento distintivo de uma sociedade com uma história e cultura próprias; porém, não pode ser o único, nem sequer o mais importante. Antes disso, o galego é a língua com que milhares de pessoas falam, pensam e sonham. Já só por este motivo, e sobretudo por ele, é que o galego merece um respeito. Se esquecemos isto, se também renunciamos a atrair para a causa a gente que na atualidade tem prejuízos ou carece de informação, se polo contrario a vemos como inimiga, o futuro da língua estará perdido.

  • Ernesto Vazquez Souza

    A direção atual da AGAL deveria re-considerar seriamente a lameira onde se está metendo.

    Se a estratégia atual não implica o incremento notável de associados e de recursos deveria perceber que está volvendo a debates e discursos que já eram obsoletos nos anos 80 e que são paralisantes para um reintegracionismo de grandes navegações cosmopolitas e fazem perigar o interesse de uma parte da militância.

    Nos últimos 20 anos boa parte do reintegracionismo deixou de questionar e criticar o modelo institucionalista, e trabalhou para criar um sistema alternativo: informativo, editorial, associativo, social e referencial. Procuravamos um RESET, uma impugnação total que permitiu ir criando uma proposta independente e em paralelo. Um discurso livre de todas estas rémoras e gentes que só servem para volver à fantasia de que se pode compartilhar as migalhas da mesa dos poderosos, com o resto dos bufões ou desputar a carronha da cultura e a língua galega…

    A mim estes debates parecem-me como abrir a porta de uma casa velha e abandonada há décadas…

    Saúde

    • Miro Moman

      Discrepo, caro Ernesto.

      Desde fora, acho que a AGAL está a fazer um magnífico trabalho. Como evidência o facto deste debate estar a se produzir em castelhano numa folha paroquial do PPdG.

      Os tempos estão a mudar, eu achei que tu percebias isso. Cumpre apanhá-los pelas rédeas e sabê-los cavalgar. Com sentidinho. Como galegos.

      Como mostram os exemplos do feminismo e do ecologismo, a única vitória possível é a transversalidade. Os puros estão na missa.

      Do nacionalismo paifoco galego com a sua psicologia castelhana não podemos esperar nada. Nem no tema da língua, nem na economia, nem no progresso. Nada. Estão condenados à irrelevância mais provinciana.

      Cumpre construir pontes de interlocução direta com quem realmente importa.

      Abraço,

      Miro

      • Ernesto Vazquez Souza

        bem… sendo assim, eu estarei errado e provavelmente a não perceber corretamente estes tempos novos.

        Suponho que vou velho e simplesmente há que saber ir indo quando toca e deixar espaço… apertas fortes

        • Miro Moman

          Para mais, eu não vejo contradição entre as duas estratégias. São perfeitamente complementares. De facto, pode ser precisamente essa capacidade de trabalho que tem mostrado o reintegracionismo ao criar projetos construtivos à margem das instituições a que confere ao movimento um prestígio e uma credibilidade que antes não tinha, virando assim um interlocutor solvente.

          Isso não exclui a diplomacia.

          Como dizem em Rússia: Reza a Deus se quiseres mas não deixes de vogar.

          • Ernesto Vazquez Souza

            ahhhh… Bem elucidativo o que dizes… acho que ando muito espesso ultimamente… até esqueço que eu sou mais de máquinas e por vezes não percebo bem o que fazem na Ponte… 😉

            saúde

          • Miro Moman

            Temos que entender como funcionam os sistemas políticos (de direitas ou de esquerdas, tanto faz). Enquanto puderem, eles vão-te ignorar. Quando isto já não for possível vão-te escarnecer e marginar. Mas se continuas a trabalhar e tes suceso malgré tout, por vezes o que vão fazer é tentar endocitar-te. Não faz mal. É a vida mesmo a fazer o seu trabalho. A evolução. O que há que tentar é que seja para bem. Um passo mais na direção correta e não uma neutralização.

  • Ernesto Vazquez Souza

    Uma Minoria Galega de Língua Portuguesa… 😉

    • Miro Moman

      Não galega, uma minoria portuguesa na Espanha. Seria a última estratégia. Deixar atrás o identitarismo galego e sairmos pela tangente.

      • Ernesto Vazquez Souza

        daquela talvez devíamos ter ido antes além e montado uma Academia Espanhola da Língua Portuguesa… evitávamos problemas… e até nos entendiam mais…

        • Miro Moman

          Olha os húngaros na Eslováquia, por exemplo, têm as suas escolas, universidades, meios de comunicação, etc. E ninguém lhes pode tocar um cabelo.

          Eu desde há um par de anos, quando não tenho tempo ou vontade de dar explicações, já digo que sou português. Ou espanhol de língua portuguesa. Isso entende-o mundo todo. Podem-me surpreender, mas percebem. Se não, há que andar as voltas…

          • Venâncio

            Olá, compatriota.

            Eu não me rio de ti. Mas não ponho as mãos no fogo pelos outros. Em galegos, já viram tudo, diriam eles. Estão muito enganados.

          • Miro Moman

            Caro Fernando, eu pessoalmente nunca esperei nada das instituições portuguesas. É claro que para Portugal as relações diplomáticas e económicas com a Espanha são bem mais importantes do que a Galiza. Isto é perfeitamente lógico e compreensível e é assim que tem de ser. Portugal nunca vai ajudar e poderia até pôr atrancos. Não faz mal, até porque, assim agindo, ele está a garantir a sua irrelevância no contexto internacional.

            Chegado o caso, a MEPE (Minoria Étnica Portuguesa na Espanha) seria uma estratégia de sobrevivência desesperada mas potencialmente viável. O que o senhor tem de entender é que, se é de sobrevivência do que estamos a falar, os galegos não somos desmoralizáveis.

          • Venâncio

            Caro Miro,

            Há muitos muitos anos, quando as galinhas tinham dentes (não sei se as crianças galegas também ouvem isto), eu escrevia aqui no PGL isto:

            Quanto mais vos parecerdes a nós, tanto menos intreressantes sereis.

            Eu imagino que isso não vos importe. Que os portugueses reparem, ou não, na existência dum reintegracionismo galego. Penso, mesmo, que passarão a reparar menos.

            Digo isto porque certo artigo recentemente publicado aqui no PGL, e reproduzido num jornal português, não usa, nas suas 4000 palavras de texto líquido, uma única vez as palavras «reintegracionismo» ou «reintegracionista». De resto, já o anterior presidente da AGLP, falando, há anos, a um importante audiência em Lisboa, não no fizera também.

            Interessante fenómeno, esse, de os reintegracionistas, em Portugal (e até na Galiza) terem passado a esconder-se.

            Por isso, repito: quanto mais quiserdes parecer-vos com os portugueses, menos lhes interessareis.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Pois, Miro, a lógica é assim… quem andou pelo mundo … sabe disso…

          • Luis Trigo

            Peço desculpa Miro, será mesmo possível fazer a comparação da situação dos húngaros na Eslováquia ou até na Roménia, com uma língua e identidade completamente diferentes – nem sequer aparentada? Como é que se faz esse processo institucionalmente? Como se faz a discriminação dos portugueses em relação aos galegos espanhóis ou anti-portugueses?

          • Miro Moman

            Caro Luis, acho que não devemos cair na armadilha do identitarismo, que não faz qualquer sentido. O que cumpre fazer na minha opinião é empregarmos as convenções pré-existentes no nosso benefício. Se calhar o mês vindouro encontro tempo para escrever um artigo sobre o tema. Se não, tanto faz, esquecei.

          • Luis Trigo

            Caro Miro, não percebo do que se está a falar então. Vamos chamar-lhe cultura? Etnia?Com que objectivo se empregam convenções pré existentes e o que define o nosso benefício? Uma identidade? Uma ideologia? Uma convenção pré existente? O martelo que conheço? Não haverá outras convenções menos tortuosas para atingir os nossos benefícios? Até acho que as minhas primeiras perguntas eram mais simples, mas há sempre uma maneira de não responder.

          • Miro Moman

            Caro Luis. Nao estou a fugir do debate. Será um prazer debater contigo mas temo que vás ter que ter paciência. Amanha parto numa viagem longa e excitante e estou com os preparativos. Quando voltar em Julho vou ter três projetos entre as maos. Entao, quando puder escrevo um artigo e debatemos.

            Por que um artigo? Porque para uma interpretacao cabal do que quero dizer vou ter que fornecer muito contexto. Vou ter que explicar como, em vinte anos e através de dez países, cheguei de onde estava (que imagino que é onde estais muitos de vós) aonde estou.

            Nao é uma questao frívola.

          • Luis Trigo

            Agradeço Miro, mas tendo em conta essas convenções e o contexto da Eslováquia, não seria conceptualmente mais simples e sem necessidade de grande contexto invocar a auto-determinação dos povos. Considere-se até que o checo está mais próximo do eslovaco. Boa viagem!

          • Miro Moman

            O que eu vou propor nem é para agora nem é incompatível com outras opções.

            Mas, com uma massa crítica muito mais pequena, pode-se alcançar muito mais.

          • Venâncio

            Caro Luís Trigo,

            Suponho que quando um galego chega ao ponto de afirmar o que o Miro Moman fez

            «a MEPE (Minoria Étnica Portuguesa na Espanha) seria uma estratégia de sobrevivência desesperada mas potencialmente viável»,

            mesmo como puro “exercício mental”, as coisas estão mesmo muito pretas.

            Acontece que a idealização de Portugal (e do português) estão ancoradas no verdadeiro cerne do Reintegracionismo galego. Mesmo de reintegracionistas críticos, como são alguns amigos meus.

            O Reintegracionismo galego criou uma realidade paralela em que vem vivendo desde há décadas, e onde me parece que vão viver ainda por mais algumas.

            Entre esse Portugal imaginado e o nosso país, não há pontos de contacto (afora os de gente excepcional, como Carlos Quiroga e o grupo Galabra).

            Eu lamento essa situação, e dei, no passado, aqui, algumas sugestões, lembrando a importância de criar contactos no terreno da ‘opinião’ (jornalística e outra), certamente o mais aberto a isso. Não teve sequência.

            Abraço.

          • Luis Trigo

            Caro Venâncio,
            Haja paciência e discernimento para perceber que a paciência é finita.

            Eu acho que alguma idealização é normal, mas a verdade é que uma das melhores coisas de ser português é não precisar de idealizar e nem ter como obrigação aturar os que idealizam. Até porque invocar a condição de ser português serviu até bem recentemente para promover a aceitação de algumas grandes malfeitorias do pessoal amigo das off-shores – e então se formos para outros tempos…
            Um amigo reintegracionista dizia-me que é demasiada conversa sem rumo que afasta as mulheres destes debates – a partir de algum tempo nem os homens aguentam. Quando é para fazer actividades, as mulheres sempre aparecem – uma solução para incluir as galegas e portuguesas. Que se façam coisas e que se consigam fazer…
            Um abraço

          • Venâncio

            Caro Luís,

            Vendo bem, também nós, portugueses, idealizamos. No atinente à língua (desculpe este meu vezo já irremediável), achamo-nos os seus criadores e não entendemos o que tenham os galegos a ver com ela.

            Infelizmente, existe um sector reintegracionista (o tal da ruptura, de que fala Rafael Ferro no artigo, e o Ângelo Cristóvão faz-se de desentendido…) que anda confirmando os portugueses nesse mito. Não têm coragem de confrontar os portugueses com ele. E preferem humilhar a Galiza e os galegos.

            É a tal idealização. Nos portugueses não se bate nem com uma flor.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Meu caro Fernando… se não se fia de Elias Torres… podemos afirmar seguindo as teses de Villares, Vazquez Cuesta, Xabier Castro, Nuñez Seixas e Beramendi e até os trabalhos de Insua sobre Vilar Ponte…

            que essa idealização de Portugal (e do português) estariam ancoradas no verdadeiro cerne do nacionalismo galego das Irmandades e já mesmo estariam no regionalismo de base Murguiana…

            E serão idealismos teóricos, diálogos assimetricos e Portugal um “referente de reintegración” em oposição a o “referente de negación” que seria Castela ou como assegura Vazquez Cuesta um as na maga (o perigo português…)

            … mas estar, está aí, ab ovo… omnipresentes em Murguia, Vilar Ponte, Risco, Castelao… e ate com a mesma piada de se o rei de Castela não nos val… iremos o de Portugal

            Vai uma pequena bibliografia:

            BERAMENDI, Justo G.: “Estructura ideolóxica básica do nacionalismo galego no primeiro tercio do século XX”, em O Pensamento galego na historia : (aproximación crítica) / coord: X.L. Barreiro Barreiro; G. Pereira… [et al.], Santiago de Compostela : Universidade, Servicio de Publicacións e Intercambio Científico, 1990, p.. 261-268.

            CASTRO, X. (3.5.9-3. Celtismo, Atlantismo e Pangaleguismo em O galeguismo na encrucillada republicana (Vol. I), Ourense 1985, cito por: 2004, Editorial: eDixital http://ir.gl/8e6c25)

            INSUA, E. :Antón e Ramón Villar Ponte: unha irmandade alén
            do sangue, Compostela . CRP VII, 2004, p.63 e ss.

            NUÑEZ SEIXAS, X. M: “Iberia Reborn : Portugal through the Lens of catalan and galician nationalism (1850-1950)” em
            Iberian modalities : a relational approach to the study of culture In the Iberian Peninsula / edited by Joan Ramón Resina, Liverpool : Liverpool University Press, 2012, p. 83-98 (em destaque p.88 e ss)

            NÚÑEZ SEIXAS, X.M.: “Portugal e o galeguismo ata 1936 : algunhas consideracións históricas”Grial: revista galega de cultura, Nº. 113, 1992, págs. 61-77

            VÁZQUEZ CUESTA, Pilar : “A pantasma do iberismo no

            Portugal do século XIX” em Homenaxe ó profesor Constantino García / coord. por Mercedes Brea López , Francisco Fernández Rei; Constantino García (hom.), Vol. 2, 1991, págs. 619-628,

            VÁZQUEZ CUESTA, Pilar : “Portugal-Galicia,

            Galicia-Portugal: un diálogo asimétrico” em Colóquio: Letras, Nº. 137-138, 1995, págs. 5-21.

            VÁZQUEZ CUESTA, Pilar : “El “peligro portugués” como arma dialéctica” em España-Portugal: estudios de historia contemporánea / coord. por Hipólito de la Torre Gómez , Antonio Pedro Vicente, 1998 , p. 215-222

            VÁZQUEZ CUESTA, Pilar : “Portugal-Galicia, Galicia-Portugal: un diálogo asimétrico” em Colóquio: Letras, Nº. 137-138,

            1995, págs. 5-21

            VILLAR PONTE, A. Proposición lida na Asambleia

            Nazonalista de Lugo) – (A Nosa Terra, nº 78, 15.1.1919;Cito por A. Villar Ponte, Pensamento e Sementeira, EdsGalicia del C. Gallego de B. Aires, 1971, 211-213.

            Villares PAZ Ramon, « O nacionalismo galego no contexto da Grande Guerra: “regaleguizar” e internacionalizar », Ler História, 73 | 2018, 217-240

            VILLARES PAZ, Ramón: “As relacións da Galiza com Portugal na época contemporánea”, Grial, Vigo, nº 81, Tomo XXI, Xullo-Agosto-Setembro de 1984, p. 309-314.

          • Celso Alvarez Cáccamo

            Ernesto, vaia maneira de malgastar a tua erudição.

          • Joám Lopes Facal

            A denominaçom técnica admitida é “comunidades de sentido” (pertença, influência recíproca, integraçom de valores, conexom emocional).
            O reintegracionismo, como o feminismo, o nacionalismo e tantas outros acampamentos sociais som comunidades de sentido.

          • Luis Trigo

            Eu compreendo, Joám, acho que é simples. Não precisa de grandes formulações, nem contextos, nem evasões. Força!

          • Venâncio

            Caro Joám,

            Para inúmeros portugueses, entre eles as elites culturais, a primeira, se não única, “comunidade de sentido” na Península Ibérica é com Espanha.

            Digo-te mais: bastante da “conexão emocional” de portugueses à Galiza tem a ver com esse interessante Reino à nossa porta.

            Moral (triste) da história: quanto mais os reintegracionistas galegos esconderem a Galiza e o galego no trato com Portugal, mais serão apreciados como espanhóis.

            Abraços desconsolados.

            P.S.
            E sabes qual é o desconsolo, Joám? É que eu já disse isso, e já o sublinhei, desde 2004, quando entrei aqui. Para o reintegracionismo rupturista (que já então existia) foi pregação no deserto.

          • Joám Lopes Facal

            Prezado professor e dilecto hóspede de honra da minha morada. “Comunidade de sentido” é um artefacto sociológico para designar esses habitáculos de comunicaçom e valores partilhados que nos identificam; de facto, as quatro notas que eu apontei apressadamente (pertença, influência recíproca, integraçom de valores, conexom emocional) procedem de um celebrado artigo seminal de McMillan e Chavis (1986).
            A minha pertença a essa cápsula social com a qual me identifico, bem que em forma crítica, o reintegracionismo, é com certeza umha comunidade de sentido. A fragilidade actual do meu compromisso com o PGL tem aí também a sua raiz: a debilitaçom do vínculo emocional derivada da reorientaçom cosmopolita e pan-lusista empreendida em 2006.
            A cegueira portuguesa pola realidade e a problemática galega nada tem a ver na minha opiniom com qualquer “comunidade de sentido” e si muito com outra categoria analítica, a da “dissonáncia cognitiva” derivada no caso português da autoconsciência de “hiperidentidade” que adoenta Portugal segundo o preciso diagnóstico de Eduardo Lourenço no seu magnífico “O labirinto da saudade”.
            Portugal, acrescento eu, vivencia a sua identidade com umha certa consciência de minoridade nascida da contenda simbólica com Espanha primeiro e com Brasil depois.
            Que nesta gigantomaquia identitária a Galiza seja um ponto cego nom pode admirar. Galiza como mera província espanhola tanto mais invisível quanto mais parecida a nós; como um antropóide de zoo a um menino observador.
            Afortunadamente, partilhamos um património cultural resistente e operativo, que de nengumha maneira poderám os portugueses encontrar na Extremadura ou em Catalunha ainda que nom saibam reconhecê-lo.
            Com os melhores comprimentos para o douto amigo que desvendou para nós a inabalável raiz galega que sustenta a vigorosa árvore lusitana, quero enviar-lhe desde Compostela esta pequena “explicaçom de voto” como dizimos em gíria parlamentar.

          • Venâncio

            Joám,

            Sim, os teus instrumentos sociológicos explicitam adequadamente essa realidade tão estranha como é a de “comunidades de sentido”. E mostram também quanto a “dissonância cognitiva” portuguesa nos inibe uma visão mais justa da Galiza. Quando um médico faz um diagnóstico, é meio caminho andado.

            A tua bengalinha, a mais jeitosa do Universo inteiro, continua a subir e a descer as colinas de que Mértola é feita.

            Abraços.

            P.S.
            Nós dizemos “declaração de voto”.

          • Venâncio

            Caro Ernesto,

            Completarei com isto a importante bibliografia que expuseste:

            QUIROGA, Carlos, A imagem de Portugal na Galiza, Santiago de Compostela, Através Editora, 2016

            PAZOS-JUSTO, Carlos, A imagem da Galiza em Portugal, Santiago de Compostela, Através Editora, 2016

            TORRES FEIJÓ, Elias, «Portugal nas velas do galeguismo contemporâneo: de Teófilo Braga a Manuel Rodrigues Lapa», in Actas do I Congresso Internacional ‘O Pensamento Luso-Galaico entre 1850 e 2000’, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, pp. 371-402

            TORRES FEIJÓ, Elias, «Relacionamento literário galego-português: legitimação e expansão com Sísifo ao fundo», Suroeste. Relações literárias e artísticas entre Portugal e Espanha (1890-1936), Badajoz, Junta de Extremadura e.a., 2010, pp. 163-187

          • Ernesto Vazquez Souza

            Pois… as de Através e Elias (a última acho não controlo) são da casa… por isso não coloquei… tenho alguma mais… a respeito de Murguia e Braga… mas teria de procurar…

            o que queria destacar é que esse apelo a Portugal, essa idealização de Portugal (profundamente desvalorizada pelos autores que antes indiquei… por muito que a evidenciem uma e outra vez não sabem como a re-colocar no discurso que foram inventando) existe desde a origem e e em paralelo a outras muitas que damos por certas (por mais que sejam igual de tópicas)…

            Do meu ponto de vista e cada vez mais assim o vejo… a história inteira do galego e da língua galega é um conto… um conto absurdo, cheio de preconceitos, pressuposições e maus entendidos, uma fantasia contemporânea idiota, limitada pelas invenções e falta de verdadeira objetividade… nacionalismo pacato puro e duro acanhado pela existência de Espanha e de Portugal…

            Mas a mim tanto me tem já… f oda-se o galego, a Galiza, o portugês, Portugal, Espanha, o reintegracionismo, os linguistas portugueses, galegos, os castelhanos e os cães galegos que engendraram toda a raça…

          • Venâncio

            Meu caro Ernesto,

            O teu tom de profeta vétero-testamentário de radical e universal relativização quadra-te bem, mas não nos leva aonde convinha irmos.

            O galego (digo-o para tua informação 😉 ) é uma língua que se formou no noroeste peninsular por volta do ano 600 d.C., sem a ajuda de ninguém, muito menos de Castela, e também (questão de cronologia…) sem a ajuda de Portugal.

            Dito doutra maneira: mesmo sem Castela, mesmo sem Portugal, o galego, idioma dum povo valente e consciente de si, teria existido até hoje (como de facto fez!).

            Tudo razões para crermos na Galiza e no galego, e para não irdes lamber botas nem a Castela nem a Portugal.

            Abraços.

          • Ernesto Vazquez Souza

            que galego Fernando? o que depois da tomada e consolidação de Lisboa terminou por ser o português?

            o dos nobres galegos, cada um fechado no seu tobo e dono do seu dialeto e que morreu com eles por morte de Rei tanto em Castela como em Portugal?

            o galego do povo, que era outro, talvez mais antigo, mas não literário que não soube o que se fazia em Lisboa nem nas casas com torre e que continuou existindo e degradando-se em castelhano até que no século XVIII um frade bieito decidiu re-inventá-lo?

            o galego que os fidalgos galegos, que já estavam alfabetizados em castelhano, por orgulho nacional decidiram retomar no XIX, seguindo as teses do bieito e em base aos falares do povo, esquecendo o português culto que os seus antergos durante três séculos antes empregaram como alternativo?

            o galego refeito a partir de 1865 na peneira castelhana e na autoridade da RAE pela astucia de Saco e Arce que tanto interessou às instituições espanholas na Galiza?

            O galego do povo mítico conservado que se foi resgatando, e procurando nesses parámetros inventados nos séculos XIX e XX…

            para mim que é um erro total…

          • Venâncio

            Ernesto,

            O galego que os galegos criaram a partir de 600 d.C. desenvolveu-se, e fez-se idioma adulto, disso dando prova nas Cantigas de Santa Maria e nas de escarnho e maldizer (e sabes que os portugueses juram a pés juntos que elas estão escritas em português?). Esse galego, que foi língua de nobres (e não assim tanto de reis), manteve-se vivo e palpitante até 1850 (veja-se o TILGa).

            Uma vez que em Portugal se escreveu mais, e se conservou mais, temos na escrita dos portugueses (e naquilo que os doutrinários portugueses condenaram!) a prova provada da solidez dessa língua antiquíssima, até hoje cultivada com esmero e criatividade.

            É dela que falamos quando dizemos ‘língua galega’. Essa que o primeiro presidente da AGLP afirmou que não existe. Ah, fosse eu galego!

          • Ernesto Vazquez Souza

            já, Fernando… mas a narrativa é uma sucessão de tópicos nacionais…

            As cantigas são galego, como os livros artúricos… e também boa parte do português clássico até fins do XVII… acho que os galegos cultos até hoje entendiamos com mais facilidade… por igual que o castelhano antigo….

            Mas os restos até o seculo XV são língua culta… depois é que se dividem… mas no canto de falarmos de restos de língua popular e restos de língua culta falamos em português (ou portuguesizados) e galegos…

            Por que? em que língua os restos populares se consideram a língua culta?

            E porque temos de considerar que a perspectiva de Sarmiento no XVIII foi o início da restauração e não um descarrilamento que cegou a perspetiva…

            e depois teimar e teimar…

            Tudo está corrompido por formulações contemporâneas e perspectivas nacionais… a nação, o estado…

            Menina e Moça, por exemplo… já que publicado na Itália por judeus, perfeitamente podiamos dizer que não é português, que é galego…. ?

          • Venâncio

            Resposta rápida: “Menina e moça” está escrito em galego.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Efetivamente… acho que qualquer pessoa que pegue sem preconceito…

            Eu sei que nenhum dos dous podemos nestes momentos repensar tanta cousa a pressão do apreendido e de três séculos de narrativa é tremendo…

            mas podemos ir apontando e percebendo, sementando dúvidas… que a pouco que pensemos, que o conto não passa de conto…

            apertas

          • Venâncio

            Certo.

            O “galego” e o “português” são narrativas sobre o galego e sobre o português. São segmentações que operamos numa realidade.

            Mas disso até dizer que o galego não existe…

          • Ernesto Vazquez Souza

            bom… haveria que ver que procura a gente dizer na realidade quando diz cousas destas… 😉

          • Venâncio

            Ernesto,

            No caso do primeiro presidente da tua Academia, tudo indica que, na Academia de Lisboa, quis esconder o galego, tal como escondeu o reintegracionismo. De resto, já antes dissera que “língua galega” era designação inadequada.

            O que procura essa gente? Lamber as botas aos portugueses. É a minha hipótese. Terás outra?

          • Ernesto Vazquez Souza

            Homem… eu fou fé que Martinho Montero Santalha, para além de grande erudito e sabedor de detalhes inacreditáveis, é das pessoas cujo amor e entusiamos por qualquer forma de galego oral, popular, escrito, antigo contagiam… emociona ouvi-lo…

            E sinceramente a sua trajetória pessoal de firmeza, oposição, lealdade à causa reintegracionista e renuncias, mesmo na sua suavidade vaticana externa e diplomacia abaciana, é algo que não tem questão… pode perguntar em qualquer parte da intelectualidade galega com quem tenha trato…

            Eu entendo perfeitamente o sentido das palavras de Martinho e a sua oportunidade nesse cenário, por igual que entendi no seu dia a ABSOLUTA necessidade e oportunidade de fundarmos uma Academia GALEGA da Língua PORTUGUESA.

            A pirueta é – eu sei – complicada, mas os pequenos exércitos irregulares precisam de manobras por vezes extraordinárias e chocantes que os generais ao mando de enormes corpos de Exército não entendam…

          • Venâncio

            Caro Ernesto, posso ser-te sincero?

            Não conhecendo eu o professor Martinho pessoalmente, tenho de partir daquilo que ele mostra. Pois bem, ouvi dele, há anos, uma entrevista na tv galega em que se exprimia num galego deprimente (também na tv galega ouvi entrevista à académica Rousia, com igual deprimente desempenho). Concluo que uma porção de académicos da AGLP simplesmente não tem cuidado com o modo como se exprime… ou não domina o galego o suficiente para falarem espontaneamente num lugar público.

            Mas há mais, e cito do meu último livrinho, acerca do discurso feito por Martinho na Academia das Ciências de Lisboa. Caramba, amigo! Em tal ambiente, e em tal chance, diz-se aquilo que se acha importante seja dito. Eis o que escrevi a esse respeito:

            “Ao português se refere Montero Santalha com as designações de «língua comum», «Português da Galiza», «língua nativa» (dos galegos), «português padrão», «idioma materno». Em contrapartida, aquela que suporíamos língua patrimonial da Galiza aparece, nas seis páginas do Discurso, referida nestes termos: «A Galiza […] fala uma forma de português que os galegos denominamos por vezes ‘galego’ ou mesmo ‘língua galega’ “.

            Isto já não era novo. Como te disse, já antes Martinho tinha chamado inadequada à designação «língua galega».

            A sinceridade é para isto (e excuso os indivíduos, entre os quais tenho amigos): a Academia Galega da Língua Portuguesa (!) é, na sua própria concepção, no seu nome e na sua linguagem, uma çomandita de lambe-botas de Portugal, mas espanhóis até ao tutano na fantasia das línguas imperiais.

            De resto, no nome a AGLP é um decalque das “Academias […] de la Lengua Española”, estrutura inteiramente desconhecida no espaço da língua portuguesa. Até nisso sois espanhóis.

            Em suma, amigo: nos contactos com Portugal, passais a vida pedindo “Desculpem sermos galegos”… e termos esta língua que não é língua, que é, na melhor hipótese, uma “interlíngua” (a última invenção da cobardia galega perante portugueses).

            Um conselho amigo. Acabai depressa com essa palhaçada, mostrai-vos galegos, tende um nadinha de orgulho na vossa língua, que foi durante séculos também a dos portugueses. Não venhais cá confirmar-nos nos nossos piores desvarios históricos.

            E sobretudo: não sejais espanhóis sob a capa de “falantes de português”.

            Abraços.

          • Ernesto Vazquez Souza

            colo a mensagem com uma modificaçao que o censor automático lê p u t a alhures entra em pânico e cega…

            Meu caro Fernando… mas não há nada mais galego que se desculpar por ser galego (ou por qualquer motivo que se considere explique o interlocotor)… e não há nada menos castelhano que se desculpar preventivamente…

            O senhor é português. Não pode pretender que os galegos sejamos galegos ao jeito que os portugueses gostariam que
            fossem os galegos…

            Deixe que nós decidamos até onde temos de acompahar os nossos hóspedes e que cortesias e finezas achamos necessárias em cada caso…

            a questão é antiga, como ilustra aquela anedota na carta de Melchor de Teves, ao Conde de Gondomar, lá nos primeiros do século XVII…

            Ayer trató aquí un caballero al arçovispo de Lisboa […] venía de allá de visitarle y entró a verme […] y venía furioso porque el arçovispo no le avía aconpañado más que asta la
            mitad de la sala. Y deçía con grandíssima cólera y graçia: «¡O, fillo da p u t a !, es miña medida a metade da sua sala, ¡don fillo da p u t a !, un paso avía de dejar de tuda a sala. Polos santos evangelios que si allá vuelbo, que le e de tirar de los cavejones asta que chege á escaleira».

            Esto, señor, es ser portugés. Y así estoy por consultar quál es la medida de mi casa, que tienen talle de hazerme salir asta la plaça. Porque si un arçovispo sale a la escalera, un castellano tiene obligaçión de salir asta mojarse los pies en la mar, y si fuere gallego, no cumple sin nadar y pasar de la vanda de alén. (RB, II/2155,carta 83).

          • Venâncio

            Ernesto,

            Se vos dá prazer mimardes, na vossa intimidade galega, os sonhos imperiais espanhóis, mesmo se à custa duma comunidade (a nossa) alheia a tudo isso, pois bom proveito!

            Se, nisso, vos servis do que há de mais rasteiro na auto-imagem e na história cultural portuguesas, profundamente anti-galegas, quem sou eu para vos negar prazeres perversos!?

            Mas, que venhais a Portugal confirmar os portugueses no que têm de mais detestável na sua imsgem própria e histórica, isso é uma má acção.

            Então, é melhor ficardes em casa, curtindo as vossas seculares frustrações, em que, como dizes, sois muito bons.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Mas Fernando, se não imos a Portugal, como podemos entrar em contacto com Portugal e os portugueses…?

            E se imos… como não imos manifestar-nos… como podemos ou nos aprenderam… pode ser que não saibamos fazer melhor… ou que façamos como espanhóis atrapalhados (uns péssimos espanhóis que irritamos também espanhóis) precisamente por essa falta de conhecimento e de frequentar nesses espaços.

            E os que conhecem e sabem estar no mundo, como podem lá se apresentar como galegos autênticos…? se aprenderam a arte da mímese para saber estar sem ruído.

            O público para além é hostil. Que é o que espera ver entrar pela porta: um rústico engenhoso e de pouco fiar…? um Sancho Pança? um Montenegro valleiclanesco, um fidalgo galego fresquinho postapocalíptico da Idade Média, defensor da tradição, da fé e do rus antigo? um modelo mais novo, passado pela peneira da INLE, no jeito do Adrian Solóvio pedrayano?

            O que vê é o que somos… com as nossas dúvidas, hesitações, ignorância, soberva, desejos e frustrações…

            Pela parte galega há muito de ignorância e o que é pior muito velho preconceito e Portugal está sempre enxergado com desconfianças e lentes de despeito e arrogância do sangue antigo. Não pode ser.

            Simplesmente temos de ir limando essas questões e esses exageros expansivos que atrapalham muito tudo.

            saúde,

          • João Lousada

            Estou a acompanhar este interessante
            diálogo. O doutor Venâncio acha que um sector do reintegracionismo idealiza Portugal,
            não é? Bom, talvez exista um excesso de zelo, uma reviravolta, na hora de combater
            os preconceitos que existem (cada vez
            menos) na Galiza sobre os portugueses. Se a língua nacional de Portugal fosse o
            inglês, o francês ou o alemão, as teses do reintegracionismo há muito tempo que
            teriam triunfado. Estamos a dizer aos galegos: é mesmo bom partilharmos uma
            língua com os portugueses, são mais de 250 milhões de falantes! E mesmo assim
            não conseguimos convencer muitos…

          • Venâncio

            João Lousada,

            Podereis ainda passar vinte, cinquenta, cem anos com essa teima de que o actual galego e o actual português são “o mesmo idioma”. Mas, enquanto não no demonstrardes, nada adiantareis.

            Entretanto, haveria tanto trabalho útil a fazer na demonstração da “proximidade” de galego e português. Com isso se conseguiria tanto e tanto mais… Mas não: estais fixados na visão essencialista (na realidade, pura ideologia) da “identidade” dos dois.

            P.S.
            Dedico os capítulos 8, 9 e 10 de “Assim nasceu uma língua” (50 páginas) a uma comparação linguística de galego e português actuais. E penso ter mostrado que, não obstante a imensa proximidade, é demasiada ousadia afirmar a identidade. Explico porquê.

            Abraços,

          • João Lousada

            Antes de mais, agradeço a tua
            resposta. Do ponto de vista de alguém que não é filólogo nem linguista, a
            diferença entre a mesma língua, próxima ou muito parecida torna-se simplesmente
            uma questão de terminologia. Em todo o caso, a suposta “normalização” do galego
            nega na prática qualquer uma dessas três. Eu conheço os meus compatriotas (nem todos opinam o
            mesmo, claro) e embora seja algo impossível de demonstrar, estou certo de que o
            problema radica na identidade, na proximidade ou na semelhança do galego precisamente com
            o português. Se fosse com o inglês o debate, para eles, acabava já. O que quero
            concluir é que, afinal, os aspectos sociolinguísticos
            são os que se impõem aos puramente etimológicos, históricos, etc.

            Um abraço

          • Venâncio

            Caro João Lousada,

            Para um activista (e o Reintegracionismo galego é um movimento de activistas) basta dispor de uma mensagem ‘forte’. “Galego e Português são a mesma língua”. Ponto final.

            Mas os linguiatas, que são gente de ciência, não se contentam com “mensagens”, fortes ou não. Eles têm um manterial a estudar, a avaliar, a divulgar.

            E repara: do ponto de vista do efeito pretendido, a mensagem da “identidade” de galego e português pode ter, na própria Galiza e em contexto espanhol, alguma relevância.

            O que não entendo é que uma Associaçom Galega da LÍNGUA, ou uma Academia Galega da LÍNGUA Portuguesa, se contentem com o activismo.

            Eu não entendo. Acho que ninguém fora dos vossos círculos entende. Feitas as contas: nunca convencereis ninguém.

            Abraço.

          • João Lousada

            Talvez seja difícil de entender para um português (e para um alemão ou um chinês), mas afinal falar galego torna-se uma pequena heroicidade diária. Estou farto de ir, sei lá, ao oculista e que me olhe como se lhe faltasse ao respeito por lhe falar em galego, ou que decalquem textos do castelhano e digam que isso é galego. Se o galego fosse uma língua isolada como o euscara mereceria a mesma consideração, mas nós temos essa identidade/proximidade/semelhança com o português que podemos explorar. E não se trata apenas de um debate teórico, mas algo que afecta o dia a dia das pessoas.

            Um abraço e, outra vez, obrigado polo teu interesse

          • Venâncio

            Compreendo, João.

            E sei que uma das teses do Reintegracionismo galego é que o português seria proveitoso para a “imagem” do galego na Galiza e em Espanha.

            Só que nunca nenhum reintegracionista explicou como. O que fazeis actualmente é escrever directamente em português, criando uma realidade paralela, cada vez mais longe da realidade que vos cerca, a que não dais importância, porque isso já vos é coisa do passado.

            Seria necessário, indispensável mesmo, desencadear uma grande acção linguística de aproveitamento do português para revitalizar e internacionalizar o galego. Eu indiquei, há 10 anos, publicamente, as grandes linhas do que poderia ser essa acção.

            Mas, como não é de língua que se trata, mas de ideologia, de propaganda, de slogans, ireis continuar ainda por décadas onde estais hoje.

            A culpa, sim a culpa, é desses vossos lunáticos sociolonguistas, que realmente habitam universos paralelos. Podem ler-se como ficção. Deliciosa, de resto.

            Abraço.

          • João Lousada

            O reintegracionismo pode ser mesmo uma religião. Olha, temos uma verdade revelada e uns textos sagrados, a promessa dum céu e a condena dum inferno, santos e hereges, dias de celebração e homilias, demos e sacerdotes, etc. Nisto não é muito diferente a qualquer outro movimento ou ideologia. Mas eu, que sou bastante ateu, não estou na Agal por uma questão dogmática, mas porque conheço dentro dela pessoas comprometidas, trabalhadoras e abertas que pensam sinceramente que contribuem à cultura e língua galegas. Se calhar estamos todos equivocados, não o descarto. Contudo, a proposta do binormativismo incide na minha forma de pensar, que não se centra em tentar convencer os demais, mas que a gente pense por si mesma. Cousa que, na actual situação é impossível porque só existe uma única maneira de pensar a respeito do galego, aliás, fracassada.

            Abraços

          • Venâncio

            Sem brincadeiras: o Reintegracionismo galego apresenta nítidos elementos de religião e mesmo de seita. Isto é claríssimo para quem observa de fora. Os “reflexos condicionados”, visíveis até em gente com responsabilidade, são patentes.

            Eu compreendo, mas não é a situação mais saudável. Basta ver que não existe entre vós nenhuma auto-crítica. Todos os erros são sempre dos outros. Viveis, realmente, num estado de sítio, vendo inimigos em toda a parte.

            E além disso há uma imensa auto-suficiência, como essa (num caso recente aqui no PGL) de “eu escrevo em reintegrado” num texto pejado de fraseologia e semântica espanholas. Puro exibicionismo.

            Quanto ao “binormativismo” podemos ser sucintos: em contraposição à norma-RAG, não existe uma “outra” norma, e sim uma balbúrdia que vai da antiga norma-AGAL até ao lisboetês.

            Abraços.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Nunca… nunca…. é muito dizer… E em qualidade de que diz? de profeta, de bruxo ou de adivinho… porque linguista, académico ou gaiteiro… o que virá é que não sabemos… Já do que há não estamos seguros e do que houve mal enxergamos…

          • Venâncio

            Sim, Ernesto, é na qualidade de bruxo.

            Temos realmente a haver-nos com realidades paralelas, mundos possíveis, essa tralha ideológica.

            Como eu já disse aqui, quando falais de “língua” é sempre doutra coisa que falais.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Fernando, eu admiro a sua imaginação e domínio da língua… mas há anos que começamos nós a falar cá nos cantinhos do PGL e neles correu muita cousa… hoje… o galego já não é o que era, e também não o papel ideia e função que dávamos ao português, o reintegracionismo que é hoje? alguém sabe?, nem o Portugal que conheciam os galegos é o mesmo, nem a Lusofonia, nem a linguística portuguesa e brasileira…?

            Mudou tudo e está a mudar tanto que nada do que sabíamos com certeza é mais… a língua… que língua?… quem sabe já… são fotos velhas das que falamos… num tempo de linguagens e tecnologias… de analise de dados, tendências e interações imediatas… o futuro é mais aberto do que nunca foi e na Galiza impossível de ver para onde vai…

            O reintegracionismo está onde não se contava há 10, 15, 20 anos… os caminhos em diante são inúmeros e o presente, de vertigem, exige novas formulações, novas abordagens e achegas.

          • Venâncio

            Ernesto,

            Existe um livro extraordinário, escrito há 25 anos, “Áreas críticas da língua portuguesa” (eu só posso falar do idioma, pois infelizmente não sou nem neurocientista nem astrofísico, as minhas duas paixões de leigo). E esse livro revela-nos uma coisa não menos extraordinária: é que as questões relativas à língua são muito mais estáveis do que poderíamos supor.

            Pois bem: como o galego é língua de gente e não de anjos, existe nele bastante mais estabilidade do que poderíamos, ou preferiríamos, supor.

            Tu podes dar-te ao (invejável, por Zeus!) prazer de mandar umas bocas, como as que acabas de mandar. Não adiantam, na realidade deste mundo, a ponta dum corno, mas são óptimas para o animar das hostes reintegracionistas.

            Sim, senhores, nada é estável, e nós somos umas amibas nadando numa piscina de probabilidades, mas a caminho da vitória.

            Tiro-te o chapéu, meu.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Que lhe imos fazer… será assim e daquela serei eu que ando perdido… nas minhas

            esqueça, enfim, as minhas tiradas… Nada adianta do que eu digo.

            O reintegracionismo hoje, vai por outras vias, com outros discursos e propostas que eu não entendo nem compartilho… e duvido que a hoste esteja nestes momentos nem a mirar, nem menos a nos ler e ouvir… a mim, desde logo não…

            saúde

          • Venâncio

            Ernesto, uma coisa aprendi nestes quase 20 anos de actividade na Net: existe mais gente a ler-nos do que suporíamos imaginável. Porque é que tão poucos intervêm, nunca o compreendi. São mistérios, e a esses há que respeitá-los. Abraços.

          • José Luís Maceira

            O senhor não tem direito a falar do Prof. Monteiro Santalha daquela maneira tão depreciativa. Está a fotografar-se a si mesmo.

          • Venâncio

            Maceira:

            Eu não “falei do” professor Montero Santalha. Eu citei-o, reproduzi palavras dele.

            E essa de “Está a fotografar-se a si mesmo” é psicologia de cozinha, desculpe.

            Fique bem.

  • Venâncio

    Em português, quando usamos o masculino plural, não excluímos as mulheres.

    Não vou desenterrar toda a questão, mais que sabida, de isso não ser inteiramente justo. Mas o recurso ao feminino plural seria igualmente injusto, decerto para aqueles de nós que nunca fomos sexistas.

    Moral da história: Sim, vale também para as portuguesas.

    N.B.
    Como bom linguista, tomo a sério o que me dizem. Mas o cidadão comum em mim desconfia de que estás simplesmente a desconversar.

  • Venâncio

    Miro,

    Tomando, de novo, à letra o que escreves, direi que há portuguesas e portuguesas.

    E que entre tanto as portuguesas como as portuguesas pode haver, ou não, interesse por galegas e galegas e por galegos e galegos.

    Não sei se me exprimi bem.

    • Miro Moman

      Muito obrigado Fernando! Fico confuso, mas amanhã
      vou experimentar.

      • Venâncio

        Tu confuso? Que direi eu!?

        • Miro Moman

          Pois parabéns! Já és galego!

          • Venâncio

            Amigo,

            Muito a sério: não te passa pela cabeça o que eu faria se fosse galego. Muita coisa não ficava inteira.

            Abraços.