As pegadas da comunidade galega em Lisboa



Às 16h30 do sábado passado, dia 14, um grupo de 60 pessoas convocado pelo Movimento Aú deu início a um percurso pedestre pelo centro de Lisboa para falar da história da comunidade galega nesta cidade.

 

A subir e a descer as típicas costas alfacinhas, explicaram como a presença da Galiza é fundamental para entender a evolução da capital portuguesa “já desde o século XII e com uma força especial no XVIII e na primeira metade do XIX, quando 20% da população lisboeta chegou a ser diretamente galega; nesses momentos, se a comunidade galega parasse a sua atividade, Lisboa pararia”.


Alberte Campos e Carlos Callón foram os representantes do Movimento Aú que guiaram o percurso. No início, explicaram a razão do nome do coletivo e todas as pessoas participantes rodearam as bocas com as suas mãos para exclamarem um sonoro “Aúuu!”. Em especial entre 1700 e 1850, 3.000 galegos encarregavam-se de levar a água pelas casas em Lisboa. Quando chegavam a uma rua gritavam: “Auuuuuga fresquinha! Auga! Aúuuuuu!”, de maneira que este último grito se terminou por converter em um distintivo.

 

No itinerário, detiveram-se a falar também da importância da emigração galega no mundo da restauração. “Podemo-lo ver na história de muitos restaurantes e bares, mas também em elementos tão emblemáticos como a ginjinha, que é considerada a bebida mais típica de Lisboa, mas que foi criação de um galego: Francisco Espiñeira Couziño”, assinala Alberte Campos. “Há, aliás, restaurantes de galegos que foram chave para alguns movimentos fundamentais da literatura portuguesa, como o antigo Irmãos Unidos do Rossio, onde nasceu a revista Orpheu dirigida por Fernando Pessoa”, explica Callón. “Um dos fundadores desta publicação, e familiar dos donos do restaurante, foi o poeta galego-português Alfredo Guisado, que dedicou alguns dos seus textos ao artista e líder político galego Daniel Castelao, colaborou com o agrarismo e com o nacionalismo galego e tentou criar um Banco Galiza-Portugal”, observa.


As pessoas que participaram no percurso também repetiram a coro as primeiras palavras que, segundo as crónicas, disse Fernando I, o último rei comum galego-português, no momento em que foi recebido com grande apoio popular na cidade da Corunha. Este monarca está enterrado no Convento do Carmo.
No percurso falou-se também de uma grande dama do teatro português, Manuela Rey, nada em Mondonhedo; de como Celeste Caeiro -filha de um casal galego- foi a que distribuiu as primeiras flores que acabaram por designar a Revolução dos Cravos; dos nomes de ruas que foram distintivos da comunidade galega e muito mais. Como concluiu Alberte Campos, “mulheres e homens da Galiza tiveram um papel destacado em todos os grandes momentos da História de Portugal e da História de Lisboa”.


O Movimento Aú deu início neste ano 2022, após a recuperação no passado 15 de janeiro da festa tradicional galega de Amaro Navegante, na freguesia de Santo Amaro, que levava 111 anos sem se celebrar. O coletivo quer agradecer o assessoramento de pessoas que achegaram informação para a elaboração deste percurso e para as suas atividade de recuperação da memória galega em Lisboa, em especial a Isaac Lourido, Carme Saborido, Xurxo Souto, Gabriel André e Elias Torres.


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