PGL – A entrevista que Alonso Vidal fizo a Ana Miranda, eurodeputada do BNG, publicada no número 79 do Novas da Galiza, continua a espertar grande interesse. Na publicaçom, recolhem-se as palavras da política galega, que analisa os resultados das passadas eleiçons ao parlamento europeu e fala a respeito do trabalho e objectivos que tem por diante e, ainda, da unidade lingüística galego-portuguesa.
As declaraçons que ponhem fim à entrevista, em que Miranda afirma que os galegos tenhem já umha língua reconhecida em Bruxelas fôrom muito comentadas na internet galega. A eurodeputada, que reclama que o galego seja oficial também na norma oficialista, reconhece que o nosso idioma já é oficial na Europa por ser a língua oficial de um país membro, Portugal. Miranda fala ainda da possibilidade de que num futuro se decida mudar a norma. Polo seu interesse, oferecemos a seguir a entrevista na íntegra:
Alonso Vidal – Neste tempo de certa disputa e debate interno no BNG, a tua eleição como cabeça de cartaz para Europa foi uma das poucas coisas aceites por todos os sectores. Como avalias pessoalmente esta unanimidade?
Ana Miranda – A proposta saiu da militância de base, e isso para mim foi o mais importante. Decidi com grande optimismo que devia aceitar o repto por toda a minha experiência acumulada em Bruxelas. Sinto-me orgulhosa de ter aglutinado os sentires internos com quase unanimidade, porque sou fundamentalmente uma pessoa de consenso e de construir pontes. Além disso, é a primeira vez que o BNG apresenta uma mulher de cabeça de lista às europeias. E vou aproveitá-lo realizando iniciativas com uma dimensão feminista e com visão de género nos debates e emendas sobre as políticas europeias.
A campanha foi muito dura, bipolarizada nos partidos estatais, com profunda discriminação por parte de alguns meios, e também, devo reconhecer, com alguns erros de comunicação pela nossa parte, mas que não fizeram decair o nosso entusiasmo nem o trabalho da candidatura. Percorremos o país inteiro, e isso foi o mais gratificante: ter um contacto tão directo com toda a gente do país e os seus sectores produtivos. Eu não sou uma tecnocrata como pensava alguma gente. A política não só é a que se faz estando nos governos; é muito importante o trabalho de base permanente, porque os governos mudam, mas a gente militante e a relação com as bases sociais tem de ser o objectivo de uma organização transformadora, nacionalista e de esquerda como considero que deve ser o BNG. Mesmo que contemos com pouco tempo de mandato oficial, vamos trabalhar intensamente para defender os interesses galegos e da nossa população. E digo mais, estou muito orgulhosa de ser a futura eurodeputada do BNG, porque isto vai garantir que a Galiza venha a estar presente.
Mas os resultados nom foram bons…
Estas eleições realizaram-se num contexto de apatia e no pior dos cenários para um BNG que precisa de fazer muitas mudanças internas e modificar condutas para a sociedade com urgência, de maneira que não avalio os maus resultados em relação com as europeias nem com a candidatura senão com erros do passado e com uma dinâmica de declínio que devemos reparar, tomando decisões firmes para voltar a ter força na sociedade galega. Há muito trabalho por diante.
Mudaram de sócios para ressituar-se no espaço natural do BNG?
Com certeza. Sentimo-nos cómodos nesta coligação, no sentido do soberanismo e dos princípios e valores da esquerda. No meu caso, que simpatizo e compartilho os postulados do independentismo, ainda mais cómoda, e sei que vamos trabalhar muito bem com estes novos sócios. Isso não impede continuar a ter boas relações com o PNV por questões de soberanismo e também, sobretudo, porque no Parlamento Europeu há que tecer alianças soberanistas.
Em que período e por quanto tempo vai ser parlamentar?
Distribuir-se-á o tempo de ocupaçom do mandato em proporção aos votos obtidos; portanto, eu serei parlamentar por um ano e quatro meses. Eu já estou a representar o BNG na coligação, a trabalhar desde já com o eurodeputado de ERC Oriol Junqueras. Aproveitarei o Verão na Galiza para manter múltiplos encontros e planificar um programa de trabalho para 2009-2013. Não vou trabalhar só no tempo de duração oficial do meu mandato.
Mas o Parlamento europeu nom é um pouco “de cartão”…
O Parlamento Europeu deve ter mais peso político, por ser a única instituiçom realmente legítima democraticamente. É muito decisivo, mas é bem certo que depois destas eleições há uma direitização muito forte. Convém estarmos alerta e tecermos alianças de esquerda dentro do mesmo, em especial nas temáticas sociais, dos direitos e liberdades. Houve avisos muito reveladores destas tendências neoliberais tanto em relatórios económicos como de liberdades, como por exemplo a directiva de retorno dos e das imigrantes. Temos que parar decisões que vão contra as maiorias sociais e trabalhadoras europeias.
Que pode fazer o nacionalismo galego frente a esta Europa do capital para além de se manifestar eurocéptico?
Apresentar propostas, alternativas perante a crise económica, financeira, ecológica e energética que estamos a viver. Com certeza, essas iniciativas vão fazer-se via parlamentar, através da denúncia política neste parlamento. Não se deve depreciar o trabalho que possa fazer uma única pessoa, porque aqui estamos muitos que pensamos diferente e podemos construir alianças políticas fortes para combater o dumping social e económico que está a fomentar a Europa do capital. Se não houver alternativas, haverá que construí-las; não podemos é resignar-nos.
Na declaração de Edimburgo, a ALE (da qual forma parte o BNG) pede a rededefiniçom das fronteiras internas da U.E. e aposta-se na independência na Europa. Vai pedir clara e directamente no Parlamento europeu que se reconheça o direito de autodeterminação para a Galiza?
Falamos da defensa dos sectores produtivos, da crise, dada a situação actual e a necessidade de respostas de que precisam estes sectores, mas também se falou da defesa da Galiza como nação no mundo, do reconhecimento político institucional da Galiza na União Europeia como nação sem Estado. Evidentemente, pedirei o reconhecimento do direito de autodeterminação para a Galiza, no processo de alargamento interno da União Europeia, nas minhas intervenções nos Plenários do Parlamento Europeu e em todos os assuntos que defenda nas comissões das quais seja membro.
Se a nossa língua já está reconhecida nessa instância (e mesmo foi utilizada antes polo BNG) não é uma incoerência que estejam reclamar o seu reconhecimento? Ou a intenção é que se reconheçam inclusive os diferentes sotaques de uma mesma língua?
O anterior deputado usou o galego na versão portuguesa, que é a que está reconhecida como língua de um Estado membro, e a que podemos usar para sermos interpretados correctamente. A versão galega não seria reconhecida pelos intérpretes. Nesse sentido, estamos comparativamente melhor que os catalães ou bascos, que não tenham uma língua de seu já reconhecida em Bruxelas e Estrasburgo. Reitero o compromisso total para usar o galego nas intervenções nas sessões plenares do Parlamento europeu, mas o que o BNG exige, para além disso, é que seja reconhecido o galego com a norma galega reconhecida na Galiza. Outro tema é que se decida mudar a norma na Galiza, mas remeto-me à norma vigente hoje em dia. De qualquer modo, de uma maneira ou de outra, vou falar galego no Parlamento europeu. E aproveitar para defender nossa língua e o direito a viver e expressar-nos nela, para tentar desmascarar a estratégia do PP com as políticas de agressividade que estão a fomentar neste novo governo com traços absolutistas.
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