Marco Neves: «Há quem ache que Camões falava e escrevia exactamente como um lisboeta de agora»

16 de junho apresentará 'Doze Segredos da Língua Portuguesa' na Livraria Ciranda/Lilith de Santiago



MARCONEVESValentim Fagim entrevista Marco Neves, tradutor, gestor e docente universitário português. Vive em Lisboa e tem formação na área das línguas e literatura. É autor do livro ‘Doze Segredos da Língua Portuguesa’ (Guerra e Paz Editores). Escreve no blogue Certas Palavras, onde tem abordado frequentemente o galego e a sua relação com o português.

Nos últimos tempos, falou da língua em entrevistas na rádio e na televisão portuguesas.

Em 16 de junho apresentará ‘Doze Segredos da Língua Portuguesa’ na Livraria Lila de LilithCiranda de Santiago

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Vamos começar com uma pergunta que se responde a si própria, embora cada pessoa o faça de uma forma diferente: As línguas são para quê?

Para que serve uma língua… Enfim, há o óbvio: para comunicar e para nos entendermos uns aos outros. Mas às vezes parece que é o contrário: parece que falamos muito e não nos entendemos — mesmo quando falamos a mesma língua. Ou, às vezes, não nos entendemos exactamente porque falamos a mesma língua. Mas isso dava para um livro inteiro… Aliás, para muitos livros.

Vou agora fazer uma comparação que choca algumas pessoas. Às vezes digo que a língua que usamos é como a roupa que vestimos: tem utilidade prática, claro está, mas também serve para outros propósitos — para mostrar aos outros quem somos, para nos expressarmos, para criar qualquer coisa de novo. E também avaliamos os outros, mal ou bem, olhando para a roupa que usam — e para a língua que falam. Tudo isto é perigoso… Mas não podemos fugir a isso.

Por outras palavras: as línguas servem para aproximar, para criar comunidades, mas também para separar. Gosto de sublinhar aquilo que nos aproxima, mas não há volta a dar: o gosto da separação e o calor da tribo anda sempre a palpitar-nos o coração.

Enfim, vou mesmo olhar para o que nos aproxima: a língua aproxima-nos. E a língua até nos permite a nós — um galego e um português — estarmos aqui a conversar. Incrível, não é?

A primeira questão que dá nas vistas a alguém da Galiza que lê o teu livro é, precisamente, a presença da Galiza. Não é habitual, pois não? Gostávamos de  saber a raiz  desse conhecimento, dessa curiosidade que alimenta o cap. 5. O galego é bem capaz de ser o pai da língua portuguesa.

Boa pergunta… Às vezes, é difícil saber a origem duma inclinação pessoal — alguns chamar-lhe-iam «obsessão». Talvez tenha começado do outro lado da Península: quando era adolescente, uma viagem de carro com os meus pais deixou-me atento ao catalão, por ser uma língua que me parecia invisível aos ouvidos dos outros portugueses. Era como se fosse uma língua secreta.

Isso deixou-me equipado — digamos assim — para ouvir as línguas escondidas dentro do nosso país vizinho. A imagem da Espanha monolingue ficou-me completamente estilhaçada. Ora, estando em Portugal, mais tarde ou mais cedo havia de olhar para cima e reparar na Galiza. Ou seja, estranhamente, o catalão destapou-me os ouvidos para melhor ouvir o galego. A Catalunha apresentou-me a esse familiar que os portugueses têm no sótão… Espero que os galegos não se importem com esta história de vos chamar “um parente no sótão”. Enfim, se quiserem, como vingança, digam que eu vivo na cave da Galiza. Não me importo.

Em geral, pode-se afirmar, e tu o afirmas no livro, existir um grande desconhecimento da realidade linguística galega em Portugal. São inércias históricas ou talvez a Galiza não case bem com a construção nacional de Portugal?

Não é que os portugueses não oiçam falar da Galiza: todos nós já olhámos para o mapa e sabemos que há ali qualquer coisa mais a norte. E falamos do galego-português nas aulas de Português (mas fica logo despachado no início do ano e avançamos rapidamente para textos mais próximos) e arrisco-me a dizer que, de todas as comunidades espanholas, a Galiza será aquela que todos os portugueses sabem onde fica. Mas pouco mais sabemos do que isto: faz parte de Espanha… Tem umas parecenças com o Norte… Pouco mais, pouco mais… (Estou a generalizar, claro.)

Quanto à língua, enfim, lá está, a imagem que ainda temos é a de que cada Estado tem uma língua… Por mais que nos digam o contrário, os nossos ouvidos não estão habituados a ouvir outra coisa. Ouvimos umas frases com alguns sons que associamos ao espanhol? Só pode ser espanhol!

Depois, se quisermos ir mais fundo, sim, todos nós temos uma história simplificada do nosso país e, por cá, Portugal existe porque se separou de Espanha. Chegamos ao ponto de às vezes dizer que a Batalha de Aljubarrota foi entre portugueses e espanhóis… Espanha é um bloco que existe na nossa narrativa histórica (mais uma vez sublinho: a história simplificada que temos na cabeça, não a História que é estudada por quem se interessa por isso) — e nessa narrativa histórica a Galiza desapareceu. Esfumou-se. Sumiu-se dentro do bloco. Que Espanha tenha durante tanto tempo contado uma história de si mesma que encaixava nesta narrativa simplificada e binária também não ajuda…

Atenção: isto não é má vontade dos portugueses (bem, às vezes também o é, mas nem sempre). É apenas isto: a Galiza não encaixa no que contamos sobre a nossa História.

Quanto à língua… Se quase todos achamos que a língua está intimamente ligada à construção duma nação, o português só pode ter uma origem portuguesa: fomos nós que pegámos no latim e o transformámos em português. Tudo o resto já não interessa. Quando alguns de nós, portugueses com a mania das línguas, dizemos que a língua nasceu dos dois lados do rio Minho, muitos ficam incomodados. Que é lá isso? O português é nosso, ora bolas! E é nosso: mas nasceu num território que incluía a Galiza actual.

Recentemente, a Através Editora publicou ‘A Imagem de Portugal na Galiza‘, de Carlos Quiroga. Numa entrevista ao autor, falando do leitor português, dizia:  Vai saber mais sobre si própria, vendo-se no espelho da Galiza, com dados representativos mas nunca asfixiantes. Como leitor do tal livro, concordas com esta afirmação?

Ora, isso é exactamente o que penso: que olharmos para a Galiza ajuda-nos a perceber melhor o nosso percurso histórico. Por isso acho o livro de Carlos Quiroga tão interessante — e será certamente surpreendente para os portugueses que o queiram ler. Surpreendente, porque os portugueses raramente têm noção da imagem que os galegos têm de nós. É uma imagem surpreendente, até porque é uma imagem complexa, com dinâmicas próprias da Galiza que nós, a sul, não conhecemos. Aliás, escrevo no meu livro que nós temos este triângulo identitário curioso: os portugueses dão importância ao Brasil (que pode traduzir-se em horror, para meu desgosto) e muitos brasileiros nem desconfiam. Já os galegos falam de Portugal (mal e bem) e nós nem reparamos. Muito melhor seria que este triângulo se reencontrasse de forma mais recíproca.

Cito aqui do livro de Carlos Quiroga, que tenho na mão: «Quando e como nasceu Portugal, como cresceu e com quem brincou e se bateu, explicam quem hoje é. E só a vizinha da mansarda de cima sabe. Porque ela esteve de sempre lá.»

Ora, pois: a Galiza é a vizinha de cima. E esteve lá quando nascemos. Magnífica imagem.

E eu acrescentaria, para voltar à língua: a Galiza foi uma vizinha que nos ajudou a aprender a falar — só que já nos esquecemos desses tempos, ficaram perdidos nas brumas da infância.

Agora, tenho de dizer: em Portugal, há uma dificuldade imensa em reconhecer o galego enquanto língua separada do castelhano. Sim, custa acreditar, quando sabemos nós que estamos a falar duma língua tão intimamente ligada ao português, mas o falante comum a sul do Minho tem mesmo sérias dificuldades em reconhecer o galego. Compreende muita coisa, mas há alguns sinais que o cérebro dos portugueses interpreta imediatamente como estranhos, levando a encaixar, de forma natural, o galego na gaveta do espanhol. Ainda há umas semanas, num debate onde estive com o José Ramom Pichel na Juventude da Galiza, em Lisboa, depois duma conversa exactamente sobre a invisibilidade do galego, uma portuguesa pergunta: “mas afinal em que língua esteve a falar?” — isto, virando-se para o José Ramom. Ela achava que tinha estado a ouvir espanhol. Para quem sabe a realidade, é desesperante, mas a abertura das vogais e a entoação um pouco diferente é o suficiente para baralhar o cérebro dos portugueses. Atenção, não é mesmo por mal, como se diz. Por isso gostava tanto que os portugueses ouvissem mais galegos, que conhecessem mais essa língua que tem tanto a ver connosco.

Manuel S. Fonseca, Fernando Venâncio e Marco Neves (foto: Pedro Varela)

No campo social da língua espanhola existe uma atitude que podemos alcunhar de “quanto mais melhor” e que consiste em afirmar que o espanhol se fala mesmo onde não se fala, as Filipinas ou Guiné Equatorial, ou que tem uma saúde férrea mesmo onde não a tem, os EUA. Isto, por vezes, parece contrastar com a atitude portuguesa, obviando a Galiza ou questionando o Brasil. Quanto menos, melhor?

Ui, entramos no mundo dos egos identitários… Dos discursos nacionalistas, ou talvez nem sejam discursos: serão complexos, ou imagens que podemos intuir sem perceber completamente. Terá a ver com o encaixe da imagem que temos da nação… Enfim, o que digo é que temos de ir com cautela. Mas é verdade que já me perguntei isso mesmo muitas vezes: os portugueses têm tendência para dizer que os brasileiros falam «brasileiro». Assumimos uma distinção que os brasileiros não assumem. Já os espanhóis, em geral, insistem mais na tecla da unidade da língua e gostam de sublinhar que o espanhol é uma língua internacional, de não sei quantos milhões de pessoas. Em contraste, muitos portugueses ficam incomodados com os 200 milhões de falantes do português do Brasil. Parece que ou bem que falam exactamente como nós, ou não podem chamar português à sua língua.

Tenho uma teoria: os países de língua espanhola não têm um elefante no meio deles. Não há um país que é maior do que todos os outros países juntos (e mais alguns). Ora, no mundo da língua portuguesa, temos o Brasil com um tamanho desproporcionado. Este tamanho do Brasil leva a que Portugal não tenha um papel de guia da língua que alguns portugueses acham que devia ter. Os brasileiros, verdade seja dita, não ligam muito a Portugal, que está longe e é pequeno. Os portugueses não se sentem bem a pensar num conjunto onde são apenas mais um — e mais um dos pequenos! Ora, no caso da Espanha, esse problema não existe: não há um gigante na turma. Espanha pode julgar-se o rapaz mais popular da turma (mesmo que os outros se andem a rir disso nas costas dele). Assim, para a visão nacionalista espanhola, olhar para a língua no seu conjunto internacional é reconfortante. É um resquício de grandeza imperial, se quisermos. Para um português mais nacionalista, nada disto se aplica: nós não podemos ter ilusões de grandeza num grupo de países onde está o Brasil. Há quem tenha, mesmo assim, mas são poucos.

Outro facto que chama a atenção às pessoas que conhecemos, melhor u pior, a atitude média do cidadão português sobre a variedade brasileira, é que haja um capítulo que leva por título: o português do Brasil não faz mal a ninguém. É tão difícil aceitar que o português é uma língua pluricêntrica, com diferentes variedades, todas legítimas?

Enfim: o português do Brasil mete medo, só pelo peso que tem. Alguns portugueses, mais ciosos duma certa pureza da língua, têm medo que o Brasil nos invada. É um medo absurdo, em todos os sentidos, mas existe.

Há, entre muitos portugueses, a ideia (absurda) de que o português do Brasil é uma língua estragada. Ainda há poucos dias li um comentário no Facebook em que alguém dizia que sentia «nojo» perante uma palavra brasileira. Nojo! Não sei explicar este sentimento tão forte…

Atenção: não me parece que seja uma característica típica dos portugueses. Xenofobia, medo do diferente, teorias da conspiração, tacanhez e ignorância existem em todas as latitudes. Talvez me seja especialmente doloroso este exagero retórico numa área que me diz muito — e principalmente por pessoas do meu país. A xenofobia e o disparate na boca dos nossos dói bastante. Por isso reparo tanto e me sinto tão picado por portugueses que se viram contra quem fala português da maneira que aprendeu e que é tão legítima como a nossa.

Já tive debates com pessoas que acham o português do Brasil uma autêntica perversão. Ora, se assim é, também nós falamos uma língua pervertida, porque é diferente do que já foi. E, aliás, o português do Brasil e o português de Portugal trilharam caminhos divergentes, mas ninguém ficou parado no tempo. Não se pode dizer que os portugueses falam a língua de Camões e os brasileiros é que desataram a correr por aí fora a inventar uma coisa nova. Não: dos dois lados, partimos duma época comum e desenvolvemo-lo de maneira diferente, porque tivemos diferentes influências, diferentes dinâmicas… Aliás, às vezes até me divirto a imaginar que, se Camões aparecesse agora por aí, era bem capaz de perceber melhor um brasileiro do que um português. Já agora, imagino que alguns puristas portugueses ficassem arreliados com a reacção do nosso maior poeta ao ouvir um galego.

Aliás, imaginemos um cenário em que Camões encontra um brasileiro, um galego e um lisboeta (num bar, claro está). O grande poeta ouve-os a todos a conversar. No fim, vira-se para o brasileiro e para o galego e diz-lhes, enquanto aponta para o lisboeta: donde vem este estrangeiro que está aqui a tentar falar português? (Certamente também acharia o falar do brasileiro e do galego um pouco estranho, mas menos do que o do sibilante lisboeta.)

Mas, não, há quem ache que Camões falava exactamente como um lisboeta de agora… E que até escrevia como os portugueses de agora…

Pois isso, sim, cada sociedade tem a legitimidade de falar a língua como esta, naturalmente, existe nessa mesma sociedade. É por isso que insisto tanto na proximidade. Prefiro essa palavra à sempre tão perigosa unidade. Desconfio das unidades à força — aliás, há quem tenha medo de todos os separatismos, mas esquecemo-nos que os unionismos também podem ser muito perigosos.

Olhando para as línguas, julgo que, em sociedades diferentes, deve ser possível à língua desenvolver-se sem unidades impostas à força. Curiosamente, ao lado do histerismo de alguns portugueses perante os brasileirismos, há alguns académicos brasileiros que insistem numa norma que volte a aproximar a norma brasileira do português europeu. Parece-me violento, tendo em conta a realidade linguística do Brasil. As diferenças existem e é normal que um idioma falado em países diferentes acabe por se diferenciar. Estas variedades, quanto a mim, devem respirar por si, independentemente do nome ou dos nomes que se dê à língua, e as normas cultas de cada país tenderão a reflectir essas diferenças — embora se mantenham naturalmente mais próximas umas das outras do que o português da rua, mais livre e com menos peso da tradição. Se alguma coisa podemos fazer para ajudar estes processos é apenas isto: sublinhar a proximidade, sem forçar a barra.

Julgo que não posso escapar a umas breves palavras sobres o acordo ortográfico. Parece-me ter sido um acordo superficial e, quanto a mim, inútil que teve, em Portugal, um impacto muito negativo na visão do português enquanto língua internacional — o que não deixa de ser tristemente irónico. O acordo inquinou a discussão sobre a língua portuguesa, sem vantagens concretas e significativas para os falantes da língua. Não melhorou a comunicação entre todos: eu conseguia ler textos brasileiros sem estas mudanças. Acabou, isso sim, por criar barreiras mentais entre todos.

Bem, voltando a assuntos mais agradáveis. Acho que me estou a repetir, mas isto é importante — é um facto indesmentível que brasileiros, galegos e portugueses falam qualquer coisa de muito próximo. Olhando para o galego, é certamente a língua mais próxima do português. Aliás, há tempos vi um mapa que tentava mostrar graficamente a proximidade lexical das várias línguas europeias, com uma linha menor ou maior conforme a distância entre cada língua — e o português e o galego eram dos poucos pares de línguas em que não conseguíamos ver linha nenhuma: a distância era mínima!

(Nota: o mapa está aqui )

No meu livro, tentei insistir nessa proximidade tanto no que toca ao galego como ao português do Brasil. Tentei dizer que o português do Brasil não nos faz mal: podemos ler livros brasileiros, podemos ver televisão em português do Brasil, podemos conversar à vontade. Não faz mal nenhum! Parece um absurdo dizer isto, porque parece óbvio, mas a verdade é que há quem tenha medo. Ora, também digo o mesmo em relação ao galego: oiçam essa língua curiosa que está aqui ao lado, oiçam os nossos vizinhos que falam de forma tão parecida com a nossa. Se fizerem isso, estarão a olhar para a história da nossa língua, porque esta nasceu entre o Norte e a Galiza. Reparem neste povo que fala qualquer coisa que tem muito de nós. Não digo que o galego e o português sejam a mesma língua (nem me compete a mim dizer tal coisa). Digo apenas que, olhando para a língua, estamos muito próximos uns dos outros. Para muitos, é uma surpresa: é como encontrar um irmão gémeo que não conhecíamos…

Marco Neves é um grande apaixonado polas línguas, não apenas pola própria. Noutros contextos internacionais, diga-se o anglófono, o francófono ou o hispanófono, julgas que existem apertas e afrouxas similares pola posse da língua, pola sua legitimidade?

Julgo que os fenómenos serão parecidos, embora com pesos diferentes dentro de cada sociedade. Na Inglaterra, também existe quem sinta aversão ao inglês americano — parece-me, sem poder comprová-lo com estudos concretos, que não é uma atitude com tanto peso como em Portugal. Em França, julgo que o francês parisiense tem um peso tremendo em todo o território do francês na Europa. Bem, na verdade, quando olho para o francês, os problemas que me surgem terão mais a ver com a aversão para com outras línguas, principalmente as línguas minoritárias de França — e também, num plano muito diferente, para com o inglês, que veio tomar o lugar do francês no que toca à posição de maior prestígio enquanto língua internacional. Esses dois problemas diferentes são, provavelmente, os mais visíveis quando olhamos para França. No Reino Unido, temos uma situação diferente: os ingleses aceitam as línguas minoritárias com alguma facilidade, mas têm uma grande preguiça de aprender línguas estrangeiras. Sei que já estamos a falar de assuntos bem distantes do nosso tema, mas, lá está, sou um apaixonado por estas questões da língua, principalmente na sua relação com a sociedade, com a cultura, com a política. Se olharmos para Espanha, enfim, teríamos aqui outra entrevista, não é? Gostava só de sublinhar a estranha atitude de alguns centralistas, que se viram contra o próprio conceito de bilinguismo, como se saber mais línguas fosse de alguma maneira negativo: ou como se aprender o catalão, o galego ou o basco fosse uma perda de tempo. Depois, quando se fala do espanhol frente ao inglês (por exemplo, em Porto Rico), já temos uma defesa da diversidade linguística. Ou seja, quando falamos das línguas minoritárias de Espanha, insiste-se na inutilidade de saber duas línguas. Quando falamos de línguas em concorrência com o espanhol (o inglês, em primeiro lugar), o bilinguismo é útil, benéfico…

Outro dos focos do teu livro é a mania da correção desnecessária. Falas de uma atitude muito entendida que consiste em anunciar erros que muitas vezes não são tais. Os leitores da Galiza vão achar familiares as tuas narrações. A que crês que se deve essa espécie de neurose. Achas que também ocorre noutras latitudes?

Sim: acho que é comum em muitos países, talvez com variações ao longo do tempo. Por exemplo, conheço bem as guerras da língua no Reino Unido e nos Estados Unidos. No Reino Unido, chegou a haver livros que advogam uma política de tolerância zero na língua. Enfim, neuroses, pânicos morais… Ainda há semanas assisti, em Portugal, a um episódio de guerrilha linguística (isto existe!) em que um grupo de pessoas atacou ferozmente (no Facebook, claro) um jornal por ter publicado uma notícia com uma palavra do registo popular. A palavra é «deslarga». A frase era «A chuva não deslarga». É uma frase que todos compreendem e o verbo «deslargar», aqui, era engraçado, dava um ar de impaciência informal: «Bolas, que isto nunca mais pára de chover.» Pois o jornal foi atacado e, incrivelmente, teve de mudar o título. E a guerrilha ainda veio exigir desculpas formais. Palavras do povo nos jornais? Nem pensar! Só me apeteceu dizer: querem mesmo sangrar a língua até que ela morra? Assim, pelo menos, não se mexe e não incomoda, não é?

Há aqui insegurança: de há algumas décadas para cá, o português-padrão deixou de ser território duma parcela diminuta da população, para ser aprendido por todos. Ora, esta aprendizagem não se faz sem dificuldades, sem hesitações, sem alguma insegurança social e linguística à mistura. Alguns acabam por ser mais papistas do que o papa, a querer ser mais correctos do que os outros todos. Inventam erros e andam por aí com alarmes linguísticos na cabeça, sempre a apontar o dedo aos erros, reais ou inventados. Como todos os moralistas ingénuos, acabam por perder todo o prazer do uso da língua e incomodam os outros.

No dia 16 de junho vais estar na livraria Ciranda/Lilith para falar-nos do teu livro. Que expetativas tens desse encontro com galegos e galegas?

É um gosto especial ir à Galiza apresentar este livro. Aliás, na primeira reunião que tive com o editor sobre a publicação do livro, lembro-me de dizer de imediato que achava muito importante apresentar o livro na Galiza.

Afinal, o livro defende uma visão aberta da língua: falamos como falamos, mas não temos de nos fechar dentro das nossas fronteiras. Podemos aproveitar a nossa própria língua — sem medo — para conversar com os povos que nos estão próximos. O português, felizmente, abre-nos as portas a mais experiências, a mais literatura, a mais pessoas do que pensamos. E isso é bom.

Por isso, acho muito importante aproximar os falantes através de conversas, de livros, de programas de rádio e de televisão, para nos habituarmos uns aos outros, para conhecermos as diferenças de tal maneira que estas começam a ter menos importância e começamos a percebermo-nos porque estamos habituados uns aos outros.

No caso do galego e do português, vejo com muita simpatia a aprendizagem de português por parte dos galegos. É aproveitar a proximidade! Do lado de cá, será bom irmos olhando com mais atenção para os galegos. Talvez, devagarinho, se vá corrigindo essa dificuldade muito séria em ouvir todos os que falam à nossa volta, que afinal falam qualquer coisa que tem muito de nós. Ir à Galiza, no fundo, é sempre um reencontro.

Ligações de interesse.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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  • Venâncio

    Peço desculpa por intervir… mas sinto-me aqui como Pilatos no Credo. Sim, que faz Pilatos nessa oração cristã?

    (Eu explico para outros descrentes: no «Credo» diz-se «Foi crucificado, morto e sepultado sob Pôncio Pilatos», e isto indignou, ao longo dos séculos, vários crentes, para quem o nome do governador romano significava uma intrusão).

    Pois, que faz, aqui, uma foto em que eu figuro, ainda mais com aquele ar ausente?

    Tive o gosto de ler o manuscrito de «Doze segredos da língua portuguesa» (conhecia bastantes dos textos do blogue) e de apresentar o livro, depois de tê-lo singelamente prefaciado. Reconheço o Marco Neves como o homem certo, no tempo certo, com as palavras certas. O seu discurso da «proximidade» de galego e português é mais importante, e mais urgente, do que o discurso da sua «identidade», discurso sempre precário, porque essencialmente ideológico.

    Compreendo que o Reintegracionismo galego invista na tese da «identidade». É uma maneira ‘forte’ de apresentar a questão, pondo-a imediatamente nos seus termos mais absolutos. Só que isso é um risco tremendo. Não só porque deixa tudo no ar (nunca ninguém demonstrou que galego e português são a mesma língua, nunca ninguém demonstrou que não são), mas também porque cria, desnecessariamente, resistências. Sim, e perdoai o símile: o antibiótico em excesso arrisca-se a produzir, e na prática produz, multi-resistências, o efeito exactamente menos desejado. E eu apercebo-me, cada dia, entre os linguistas portugueses, dessa resistência ao discurso reintegracionista.

    O Marco Neves propõe uma abordagem diferente: a «proximidade» de galego e português tem de ter, no nosso discurso, toda a prioridade. Com isso ganha-se terreno, decerto com alguma lentidão, mas com incomparavelmente mais segurança.

    Desculpai, de novo. Mas aquela fotografia era um tanto absurda sem este esclarecimento.

    • Ernesto V. Souza

      Agora retiramos. Apague, ou reformule o seu comentário. Saúde.

      • Venâncio

        Caro Ernesto: Tudo o que me resta é perguntar ao coordenador do PGL a razão de a fotografia ter sido retirada. Tudo o resto é especulativo.

        • Ernesto V. Souza

          Ante uma protesta, ou incomodo, ante o uso de uma foto pessoal não autorizada por uma das pessoas que figuravam nela, considero o melhor. Reitero as minhas desculpas.

          • Venâncio

            Ernesto: Se pudeste ‘ler’ no meu comentário o mínimo “incómodo” por eu figurar na foto, é porque me exprimi muito mal. Como poderia eu fazê-lo? Tive o gosto, e a honra, de prefaciar o livro e de ser o primeiro a apresentá-lo publicamente.

          • http://www.madeiradeuz.org madeiradeuz

            Eu também interpretei como queixa. A linguagem escrita, e também em função do contexto, dá muitas vezes para essas interpretações.

          • Venâncio

            Gerardo: eu comecei o comentário com uma brincadeira, aquele ‘topos’ cultural de “Pilatos no Credo”. Relê, por favor, o comentário todo. Verás que eu próprio informo sobre o muito sentido de a foto estar lá. Não porque ela ‘devesse’ lá estar, claro… mas pela pequena honra que ela, estando lá, representava.

          • http://www.madeiradeuz.org madeiradeuz

            Já dixem “interpretei”. Depois, é claro, relim e já enxerguei outras possibilidades.

          • Ernesto V. Souza

            Não queríamos que se sentisse como Pilatos no credo… simplesmente. Mas se quer se sentir, não há problema… volvo colocar e apago todos estes meus comentários.

          • Venâncio

            Caro Ernesto: Deixo ao teu sábio critério o que deva, ou possa, fazer-se. Abraço.

          • Ernesto V. Souza

            Aí está de novo a foto, achavamos interessante o diálogo. Só lamento ter lixado a entrevista com estes absurdo comentários. Se me permite, apago.

          • Venâncio

            Mais uma vez: deixo ao teu critério. Mas dá-te conta de que apagar comentários agora (!) só causa mais ruído.

            Por minha parte, agradeço, e aprecio, a decisão de recolocar a foto.

    • ranhadoiro

      gostei da foto

      • Venâncio

        Esta já é outra, e mais jeitosinha. Na primeira, o fulano do meio fixava o infinito, e por isso se falou, acima, em «ar ausente». 😉

  • Venâncio

    Tentando dar alguma moral à história: acabamos, todos, de ser vítimas dum mal-entendido. Eu comentei com alguma descontracção, e isso foi ‘lido’ como reticência, se não mesmo repúdio.

    O PGL fez bem em destacar, desta maneira, o livro do Marco Neves. Esta obra é (perdoe-se-me mais esta…) um verdadeiro marco nas relações culturais de galegos e portugueses. Merece a mais atenta leitura e as mais frontais reacções.

  • TerraBeirã

    Muito boa a entrevista, não acho que haja mais nada a acrescentar. Reflecte fielmente o pensamento geral português arraiano (no meu caso beirão) sobre a Espanha, a Galiza e as línguas.

    • TerraBeirã

      Gostaria de referir que quando fala-se da “construção nacional” faz lembrar-me o irredentismo português que é bastante particular e combina uma boa dose de sebastianismo e nostalgia, olhem bem, em Portugal passam todo o tempo a falar de Olivença pero é essa mentalidade a que realmente está a “destruir” o que esse irredentismo pretende construir, a união da língua nacional (galego-português) sempre está ligada ao progresso de Portugal, jamais pode ser considerado algo que seja contra esse ‘processo’ até porque a base identitária de Portugal é a língua e o bacalhau, pronto, só da língua.

      • potanonimomain

        E a España está a pensar em Gibraltar.

        • TerraBeirã

          Ainda hoje já o governo castelhano voltou a falar em Gibraltar pola visita do PM do Reino Unido a Gibraltar, são feridas que nunca vão sarar.

  • ranhadoiro

    Adorei a entrevista, uma mais das excelentes que se publicam no PGL.

    Segue-me a espantar a total ausência de política da língua portuguesa que há em Portugal, nunca houve (há retórica). (menos mal que aconteceu isso maravilhoso de haver o MIL)
    O Brasil português falava a língua geral.
    http://brasilescola.uol.com.br/historiab/lingua-geral-no-contexto-brasil-colonial.htm
    https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_geral_(Brasil),
    língua em que os únicos que tinham escolas, os jesuítas, alfabetizavam às populações.

    No momento da independência do Brasil, numa cidade como São Paulo, menos da metade da população falava o português, como diz neste livro genial
    http://www.usp.br/cje/anexos/pierre/ribeiro_darcy_povo_brasileiro_formacao_e_o_sentido_do_brasil.pdf
    de Darcy Ribeiro (leitura que recomendo vivamente) e para mim o melhor para entender Brasil
    Diz Ribeiro, o português converteu-se numa língua nacional no Brasil, por ser os escravos negros os seus grandes difusores…não esperariam que essa língua fosse no padrão coninbrão.

    Tendo isso de antecedentes, como vão pensar os portugueses que iam falar como eles, o povo brasileiro fala a mesma língua mas muito simplificada, o paradigma verbal é muito reduzido na população.
    ex. presente de ser
    eu sou
    você é
    a gente é (somos)
    vocês, eles são

    vários tempos verbais tem desparecido, no falar do povo

    O que tinha que admirar aos portugueses e enchê-los de orgulho, e que com uma ausência total de política linguística (paralela do que faziam os holandeses), que teve como corolário o aparecimento de muitos crioulos, http://www.pglingua.org/images/stories/pdfs/2008/20081015_crioulos_alexandre_banhos.pdf
    no português brasileiro se levem anos, e a contragosto de Portugal construindo uma língua nacional bem portuguesa em todos os sentidos, e com mais sentido de projeção internacional da língua do que há em Portugal

    • ranhadoiro

      Na Galiza há galegos que acreditam que o modelo brasileiro da língua é mais próximo da fala da Galiza que o de Portugal…Sendo ele muito mais distante em todos os sentidos… O que faz escutar algumas vogais sem apagar ou mais abertas!

      • TerraBeirã

        Concordo consigo! O Youtube por exemplo está cheio de populacho a dizer co Pt-Br é mais parecido ao Pt-Pt o que realmente é uma frase sem fundamento. A única cousa co Pt-Br tem mais próximo pode ser alguma vogal pero pouco mais além disso.

    • Venâncio

      Ranhadoiro:

      Concordo com a generalidade dos pontos de vista. A “política linguística” do império português foi um desastre do princípio ao fim, e ficou aí bem descrita.

      Mas não sei que pensar duma afirmação como esta:

      «No português brasileiro se levem anos, e a contragosto de Portugal construindo uma língua nacional bem portuguesa em todos os sentidos».

      Eu pergunto: «bem portuguesa» em que sentido, ou em que «sentidos»?

      • ranhadoiro

        Do império, da monarquia, ou da ditadura, que além de manter a taxa de analfabetismo em muitas regiões de Portugal nos valores do 50% e mais (isso é política de língua), incutiu um modelo de língua, o lixboês como único jeito de se ser o português, e isso último não foi modificado na democracia após 25 de abril, que por outro lado, sim que rematou com o analfabetismo.
        Essa image do português igual ao modelo Lixboês, está em parte na dificuldade que há em Portugal, e que apontava o entrevistado, frente a outros modelos de língua, incluída a dificuldade de uma concepção pluricêntrica ou o percebimento das falas galegas como mais uma variante do português

        • Venâncio

          Certo. Mas eu espero ter anos de vida para ver «o percebimento das falas portuguesas como mais uma variante do galego». E não estou a brincar.

          Séculos antes de Portugal existir, já este idioma estava definido, e era irredutível, nas suas estruturas fonológicas e gramaticais fundamentais, essas que valem até ao dia de hoje.

          E onde se deu isso? Na Gallaecia Magna, de Joseph Piel e da toponímia, à qual pertencia um sexto, ou ainda menos, do que depois seria Portugal…

          Terá que ser um português a convencer-vos disso? Pois que seja.

        • Venâncio

          [Retirei o ‘like’ depois de Ranhadoiro ter acrescentado o último parágrafo («Em Brasil constrói-se português…»)].

          Não, no Brasil, está a cavar-se um distância entre a Norma Culta Urbana dos brasileiros (a chamada NURC) e a dos portugueses. É uma questão de andar informado.

          O lusocentrismo de Ranhadoiro é espectacular. Primeiro, acha que os galegos se servem duma variedade de português. Depois, que os brasileiros andam a construir «português, não brasileiro».

          Ele anda a precisar de ler um livro: «Doze Segredos da Língua Portuguesa». Autor: Marco Neves. Informação acima.

          • ranhadoiro

            Ninguém, salvo um par de amigos, fala no Brasil de construir brasileiro, eu moro no Brasil, e falam sempre em português pt/br contrastivo com pt/pt, e a língua pluricêntrica e diversa, segue sendo una (não UNA simplex), ainda que sei que há polo mundo quem sonha com que rapidamente seja ao contrário. E até sei de algum português de pegar o inglês com essa ferramenta tão boa que é o duolingo, e dizer…Pa corrigem-me a minha língua, dou erro em português.

            Vou-te dizer uma cousa Fernando, os galegos (podes reduzi-lo a mim se gostares), quando nos achegamos a Portugal, ao começo sempre ensonhamos um Portugal paralelo de castela/espanha, é dizer um Portugal que tem sempre na sua agenda Olivença, que se orgulha de que o português se fale na Galiza, e até a reivindica, em definitiva um Portugal altivo (bravo diriam no Brasil)…
            A medida que conhecemos bem Portugal descobrimos, o que exprime tão bem o Estraviz, Portugal em realidade é Galiza, é tal como nós, só que aperfeiçoados.
            É tão Galiza Portugal que resulta um problema para os que se declaram nacionalistas galegos (tão balizados pos castela/espanha)… É é tão Galiza que resulta um problema a Galiza para a identidade nacional portuguesa, que compreendo muito bem.
            Eu como não sou nacionalista não tenho esse problema.

          • Venâncio

            Ranhadoiro:

            Espero realmente que sejas só tu, ou um minúsculo núcleo, a produzir essa enormidade de “Portugal em realidade é Galiza”. Digo isto porque, se algum dia quiseres arranjar um bom conflito com portugueses, mesmo se amigos teus, prega-lhes exactamente isso.

            Estás até aos cabelos no essencialismo e, pior, numa grirândola ideológica. Atenção: não és, no PGL, o primeiro galego com essa organização mental. Já há uns bons anos se leram aqui galegos que se diziam “portugueses”. Tu propões o reverso: que os portugueses (eu, por exemplo) são… galegos.

            Imagino que conheces, de nome, certo Norbert Hofer, austríaco, candidato derrotado da extrema-direita nas recentes eleições presidenciais. Pois que disse ele? Que os austríacos, “na realidade”, são alemães…

            Bom, e não regridamos à Austria dos anos 30, com certo outro austríaco de conhecido bigode, que afirmava o mesmo.

            Mas tu sabes quantas guerras se iniciaram porque alguém com poder achou que a nação vizinha era, “na realidade”, a mesma dele. Ou que a dele, e dos concidadãos dele, era, “na realidade”, a nação vizinha.

            Aconselho-te, caro Ranhadoiro, a não contaminares com esses teus exercícios mentais as relações entre as nossas duas comunidades, que devem manter-se saudáveis. Até acredito que esses teus exercícios sejam, como direi, singelamente ingénuos. Mas imagina que um político galego te ouvia, e se sentia imensamente inspirado…

          • Joám Lopes Facal

            Ontología: estudo do Ser; A é A, confirmam os lógicos, em que medida A pode ser B? é objecto de debate.
            Verbo ser: perigoso artefacto (o galego é …, o português é…Eu Sou quem Sou, afirmou umha importante personalidade)
            Por qué nom deixamos a ontologia a metafísicos e teólogos e passamos por enquanto à ágora da acçom comunicativa onde o debate é sobre agendas e possibilidades?

          • Luis Trigo

            Eu não me importo de ser galego, de ser português e de ser transmontano… serei o que bem entender. Isso das duas comunidades é muito questionável. Porque não 3, 7, 20? E depois devemos ter cuidado ao qualificar as pessoas e nos exercícios de paternalismo. Será que a Alemanha se devia ter unificado? e porque não devolver a Prússia Oriental ou a Alsácia? Porquê Hitler? porque não Garibaldi? Será que um galego isolacionista pode estar ao nível de um militante da Liga Norte de Itália? Conheci uma vez um anarquista que ironizava que Portugal começava no Minho e acabava no Lima… eu diria mais, para mim a Galiza começa no Lima e acaba no Minho e por isso terei de maquilhar a minha pureza racial! Cuidado com essas contaminações… Ainda vamos vingar essa treta de nos roubarem as relíquias de Braga!

          • potanonimomain

            Isso foi o que fixo o partido Íber.

          • TerraBeirã

            Venâncio, não acho muito comparável o Anschluss quando essa questão leva uma carga religiosa, política e social muito diferente, cada região é uma cousa diferente. E o que é que tem de mal a Portugaliza? Nessa corrente filosófica então os romenos que acham ca Moldávia é o mesmo país (porque sempre o foi até chegarem os soviéticos) está mal e é perigosa?

          • Venâncio

            Respondo abaixo.

          • TerraBeirã

            Sim, tens razão, Portugal é na realidade a Galiza e a Galiza, Portugal. Basta ir dançar a Saia da Carolina…

          • ranhadoiro

            Isso de que o UNA quer dizer portuguesa de Portugal é colheita tua

          • Venâncio

            Ah, fico então mais descansado.

  • potanonimomain

    Não entendo que os portugueses queiram mandar na língua. Terám que cooperar entre tódolos países lusófonos, digo eu. E se os portugueses se queixam de que o Brasil tem 206 milhões de falantes do português, mentres que Portugal só tem 10 milhões; pois que fagam filhos, e penso que num ou dous lustros xa tenhem acadado essa cifra.
    E eu penso que si que fai falha uma escrita comúm entre os países lusófonos, ainda que na fala haja diferenças.

    • Venâncio

      «[…] que os portugueses queiram mandar na língua». Se há portugueses que querem «mandar» na língua (e há-os, infelizmente), são gente desinformada, estúpida, reaccionária. Importa tê-los em conta? Não sei. Eu não tenho. Digo-lhes na cara o que aqui escrevo. Que são desinformados, estúpidos e reaccionários.

      A grande maioria dos portugueses representativos não quer «mandar» na língua. Aceita que o Brasil é o grande país do idioma, e que é óptimo que os brasileiros sigam o seu caminho. De resto, quer os portugueses quisessem ou não, eles haveriam de segui-lo…

      Leia-se o seguinte artigo de Ivo Castro, o mais importante linguista português da actualidade. Ele também responde a essa coisa da «escrita comum».

      http://www.clul.ul.pt/files/ivo_castro/2007_Unio_e_Separao.pdf

      • Joám Lopes Facal

        Agradeço a Venâncio poder aceder ao magnífico informe de Ivo Castro

        • Venâncio

          Tens razão, Joám. Este artigo do Ivo Castro tornou-se uma referência fundamental.

          Repara que se trata dum texto para auditório estrangeiro, no caso, catalães. Conserva, portanto, o tom cortês, mas diz verdades duras para a ‘Lusofonia’ (palavra que em momento nenhum é usada, e mesmo ‘lusófono’ só uma vez).

          E a verdade mais dura para Portugal é aquela que ele resume no que chama «um dilema interessante»:

          «Apostar na unidade de uma língua propulsionada a partir do Brasil ou preservar a sua autonomia e especificidade num quadro de desintegração do sistema linguístico?»

          Isto é, Portugal pode ver-se perante a seguinte escolha: ou assegura a unidade graças a uma confluência com a norma linguística do Brasil, ou aceita a crescente desintegração do sistema.

          Que tenhamos, tu e eu, os anos de vida para testemunharmos a escolha feita.

          • ranhadoiro

            Assim que sodes amigos e Ivo e tu… agora entendo

          • Venâncio

            Não, não somos amigos.

            Mas já agora pergunto: a que propósito vem isso ?

            Entretanto, e para teu proveito: assim que é, em português, uma expressão de tempo, e equivale ao esp. tan pronto como. Para traduzir o esp, así que usamos em português portanto, então ou equivalentes.

      • potanonimomain

        Não me referia a que a maioria dos portugueses quixessen mandar na língua. Porém, desafortunadamente, esses pouquinhos portugueses desinformados são os que recibem maior atenciom mediática. Isto pódese ver no jornal que tivo que retira-la palabra “deslarga” pola pressiom desta gente.
        Em fim, melhor seria que deixassen trabalhar aos entendidos e aos académicos e que os medios de comunicaciom pasassem desta gente.
        No que não estou de acordo é de que cada país siga o seu caminho. Penso que os países lusófonos deberiam cooperar entre eles pra conseguir uma ortografia comúm. Imagina que escândalo seria que um português ou um angolano lese un jornal ou um artigo brasileiro e não o entendessen, porque haberia moitas diferenças entre as diferentes normas. Pra evitar isto, cómpre uma escrita comúm. Despois, na fala si que se admitiriam as diferentes variedades. Mais só na fala.

        • Venâncio

          Aproveito-me do artigo de Ivo Castro para comentar esse «cómpre uma escrita comúm»: Escreve ele:

          «Se uma conclusão quisermos retirar de tudo isto, será esta: não se vê como a ortografia, unificada ou não, possa contribuir decisivamente para a manutenção de pulsões unificadoras no espaço do português».

          Trocando por miúdos: nem um nem muitos Acordos Ortográficos conseguem manter «uno» o português. O problema não é ortográfico. É linguístico, é questão de «normas», e elas vão-se, cada dia, afastando.

          Num artigo que acaba de sair num volume brasileiro, e referindo-me à secular ausência duma “política linguística” por parte de Portugal, escrevi:

          «Em matéria linguística, Portugal abandonou o Brasil à sua sorte. Isto não foi necessariamente uma tragédia».

          • ranhadoiro

            Engraçado é no Ivo Castro o assunto do lhe no artigo
            Engraçado que não entende-se que o lhe antes do verbo era no português de Portugal -do quinhentos, seiscentos-. era puro castelhanismo da corte e das classes altas, Que levaram os jesuítas e algum alto cargo ao Brasill (e ali se apreendia tudo de zero). Não é que muda-se o português após 1640 (numa evolução que ele diz), é simplesmente que dadas às costas a Castela, voltou ao seu rego histórico, o medieval e galego -regalizou-se e muito o português no século XVIII- desaparecido o castelhano como essa segunda língua dos escritores Portugal (Ivo).

            Além disso, no Brasil não se diz nem- lhe são- nem -são-lhe-dize-se: são para ele.

          • potanonimomain

            Polo vejo, estás a falar de que o português está condenado a fragmentarse como lhe ocorreu ao latim. Porém, aquela era outra época na que de Roma á Gallaecia tardábase moito em chegar (tempo, novas, influências, mudanças linguísticas). No entanto, agora, com novos artefactos disponhíbeis coma a rede, a tele, libros (doados de conseguir arestora, não coma naqueles tempos)…; é mais díficil que isso poida passar, xa que as diferentes variedades estám em comunicaciom continuamente; e mesmo chegam a confundirse ata o punto de não saber de que país é essa variedade.
            Polo tanto, não penso que “elas vão-se, cada dia, afastando.”

            Vivimos no século XXI, não na Idade Média.

          • Venâncio

            Escreves: «As diferentes variedades estám em comunicaciom continuamente; e mesmo chegam a confundirse ata o punto de não saber de que país é essa variedade».

            Não sei de que língua estás a falar, mas do português não é.

            Qualquer português e qualquer brasileiro (a não ser em textos técnicos. e às vezes mesmo nesses) sabem imediatamente donde o texto é proveniente. Pela sintaxe, pela morfologia, pelo léxico, pela pragmática… e até pela ortografia. 😉

            Admito que para um galego as diferenças entre as duas normas não saltam tão cedo à vista.

            E tudo isto no século XXI, imagina! Escandaloso, não é?

          • potanonimomain

            Admito que as variedades portuguesa e brasileira são as que mais se diferenciam por causas históricas bem conhecidas. Porém, diferenciar un texto português dum angolano é mais difícil; ainda que bem se pode. No entanto, não podo dici-lo mesmo das variedades da Angola e Moçambique. Aí a ver quem dá diferenciado. Ou um texto português dum de Cabo Verde, sobre todo se o texto português é de Madeira.
            Em definitiva, todo se pode diferenciar; com mais ou menos dificultades, mais ao que me referia é que ao estarem em contacto as diferentes variedades, palabras própias duma variante (a brasileira, por exemplo) podem ouvirse noutros lugares (Portugal, Angola…), pronunciadas pola gente nativa desses sitios. Así se espalhou a palabra “pipoca”, entre outras.
            E o contacto da gente com outras línguas, fai que se importem palabras procedentes desses idiomas. Isso explica o número crecente de anglicismos no português, galego, castelám… Porque, queiramos ou não, o inglês é actualmente a língua dominante. E onde mais predomina é em termos técnicos, informáticos, científicos…

          • Venâncio

            potanonimomain:

            Convém pôr alguma ordem nessas ideias. O facto de uma ou de várias formas “existirem” é interessante, é curioso, mas só isso.

            Vou repetir o meu mantra mais dilecto: reunindo tudo o que em Portugal “existe” em variedades locais, eu consigo demonstrar que a língua do meu país é… o Espanhol.

            Está a ver a perversão de fixarmo-nos no que “existe”?

            É pois inútil, e é enganador, comparar “existências”. Devem comparar-se as “normas”, os “sistemas”. Isso, sim, permite conclusões fortes e eficazes.

          • potanonimomain

            Bem, vejo que nunca nos poremos de acordo verbo deste tema. Polo tanto, abandono esta discusiom.

      • jot

        O mais importante linguista da atualidade… Reduça o nível dos elogios manipuladores, que os manipulados vão começar a enxergar a sua (burda) técnica.

        • Venâncio

          JOT,

          Eu escrevi de Ivo Castro: «o mais importante linguista português da actualidade». Faça a fineza de conferir acima.

          E, se mesmo assim não concorda, faça a gentileza de me informar.

          Ah, e agradeço a Vossa Senhoria que, sempre que que tiver essas delicadezas para dizer-me, tire esse covarde disfarce.

  • Venâncio

    É incrível (vê-se-o ao longo dos comentários) a resistência da parte dalguns galegos em aceitarem que o português tem duas normas perfeitamente definidas, estáveis (tanto quanto uma norma pode sê-lo) e irredutíveis: a norma do português brasileiro e a norma do português europeu.

    Claro: também existem portugueses resistentes a isso, e o livro do MARCO NEVES trata esse assunto com uma naturalidade, e um apelo ao bom-senso, deveras notáveis.

    Da parte de galegos, essa resistência é especialmente triste. É que cortam na própria carne, e isso sem utilidade nenhuma.

    Pelo contrário, quanto mais os galegos aceitarem o facto de o português possuir duas diferentes normas, tanto maior será a aceitação do galego como terceira norma do idioma.

  • jot

    Parece-me que os debates sobre a denominação e identificação da língua são um grande atrasso. E infelizmente a entrevista lembra-me inúteis passados debates. Na realidade diária das galegas e dos galegos, filmesonlinegratis é um site brasileiro, o Duolingo incliu pt-br (só) e a Galinha Pintadinha ou o Pocoyo no youtube foram feitos o dubrados em… Bom, é desnecessário continuar. Como no anúncio da Master Card, para todo o demais temos o castelhano (e o inglês). É bom não fazermos próprias as teimas do vizinho. Todo o que se faz no Brasil é também para nós, como o que se faz na Galiza (e em Timor!), imediatamente. Fora empanadas mentais!

    • Luis Trigo

      Felizmente para os portugueses também há coisas produzidas, legendadas ou dobradas em pt-pt. Gostava que houvesse mais… cada um vê o que quer ou o que pode 😛

    • Marco Neves

      Que teimas são essas, eu que tento sempre ser tão pouco teimoso? 😉 O que tentei dizer na entrevista é só isto: para lá da denominação e da identificação que levam a debates certamente importantes, há uma proximidade que é importante e deve ser sublinhada. Ou seja, tentei não bater na tecla da denominação e da identificação. Por isso, confesso que não percebo o “infelizmente”. Se ler com atenção, a entrevista vai no sentido do seu comentário…

  • Venâncio

    TerraBeirã escreveu:

    «Que tem de mal a Portugaliza? Nessa corrente filosófica então os romenos que acham ca Moldávia é o mesmo país (porque sempre o foi até chegarem os soviéticos) está mal e é perigosa?»

    E eu respondo:

    Os romenos acham que a Roménia e a Moldávia são um só país, porque sempre o foiram até à chegada dos soviéticos, em 1945. Há 70 anos.

    Agora o nosso caso. No momento em que Portugal surgiu, em 1140, acabou automaticamente o Condado Portucalense, que fazia parte da Galiza. Isto que dizer que a Galiza e Portugal nunca foram um só país.

    Eu peço mil perdões, e não quero insinuar nada a respeito de ninguém. Mas tenho de dizer isto: quem em Portugal alimenta esses fantasmas da “Portugaliza” é a extrema-direita e só ela. Muito cuidado, por favor, amigos!

    • Joám Lopes Facal

      A Portugaliza como reencontro, por via de factos, sem bençons institucionais que ninguém espera, por desbordamento de fronteiras mentais e esquecimento propositado dumha pésima escolarizaçom persistente é o caminho. O diálogo é fácil, como se demonstra. As concordáncias e discordáncias atravessam a exígua fronteira.

      • Venâncio

        Caro Joám,

        O lirismo é bom para animar as hostes. Mas tu sabes que, no mundo de referências dum português, escolarizado ou não, a Galiza simplesmente não existe.

        Quando vos recordo isto, eu corro um risco: é de esta mensagem ficar associada a quem aqui a passa… Mas paciência.

        Desde há anos, venho reparando no lugar que é dado à “Galiza” em livros e em artigos de portugueses sobre Portugal, na actualidade ou historicamente, até mesmo sobre a origem de Portugal… e tenho a dizer que são numerosos aqueles em que a palavra nem sequer aparece, ou só de raspão, porque algum português foi lá fazer qualquer coisa.

        Imaginas um longo artigo duma muito conhecida linguista portuguesa sobre a história da língua, em que as palavras “galego” e “Galiza” não aparecem? Acabo de lê-lo hoje mesmo. Quem repara em tais coisas? Eu, e pouca gente mais.

        Não, a Galiza simplesmente não “vive” no imaginário português.

        «O diálogo é fácil», escreves tu? Deixa o lirismo, amigo.

        • Ernesto V. Souza

          Acho que a realidade é hostil de mais. Supera-nos. Duvido que mereça a pena qualquer trabalho ou tentativa de comunicação com Portugal e com os mais dos portugueses… apenas com aqueles que por qualquer motivo olhem para nós é que se pode tentar conversar…

          • Venâncio

            Ernesto:

            A auto-imagem do português é tremendamente problemática. Faz-se de medos, de insegurança, de fanfarronice.

            Nunca é de mais recomendar a leitura das primeiras cinco ou seis páginas do primeiro artigo de O labirinto da saudade, de Eduardo Lourenço, autenticamente devastadoras.

            Esta informação é-vos indispensável. Nós vivemos num emaranhado mental onde nós próprios nos perdemos, e onde não existe “espaço”, ou disponibilidade, para atentar na Galiza.

          • Ernesto V. Souza

            Caro Fernando, eu acho que não é um problema nacional ou linguístico, ou de compreensão e interação de conjuntos, é apenas de “classe”, porque se repara a comunicação é fluída, apenas que nas “alturas” com as “alturas” e nas “margens” com as “margens”… algum no meio também se entende bem com os seus iguais…

            A questão é que tanto na Galiza como em Portugal todo o mundo sabe quem é o seu “igual”… e quem não… e afinal as cousas de classe terminam sempre por ir pelo rego…

          • Venâncio

            Caro Ernesto:

            Sim, o contacto é fluido, e eficaz, entre empresários galegos e portugueses, entre universidades galegas e portuguesas, linguistas galegos e portugueses, cantores e actores e escritores galegos e portugueses.

            A questão é que, se subtituíres “galegos e portugueses” por “espanhóis e portugueses”, tudo bate certo também.

            Nós, tu e eu, aspiramos a algo diferente: que as relações de galegos e portugueses sejam duma outra ordem, isto é, especiais, não comparáveis com outras.

            Talvez eu me esteja a repetir, mas como estamos em período de futebol… Num desafio Brasil-Espanha, um português não hesita: apoia o Brasil. Mas, num jogo entre a Espanha e qualquer outro hipotético contendor, o português apoiará a Espanha.

            Moral da história: será preciso construir, entre Portugal e a Galiza, uma “ecologia” (um microclima, um húmus, um cocktail hormonal) como a que nos liga ao Brasil, E, para isso, ultrapassar (neutralizar, combater) a “ecologia” que nos a liga à Espanha.

            Esta é a crua realidade. O resto são sorrisos. Que fazem sempre bem, mas que se apagam ao dobrar a esquina.

          • Ernesto V. Souza

            Mas Fernando essa é a realidade: são relações entre espanhóis e portugueses… os passaportes pesam muito, especialmente nas consciências dos funcionários públicos (que têm o nacionalismo fortemente incutido).

            Mas e com tudo, os galegos podiam ter uma relação privilegiada… mas…

            É, é preciso muito trabalho para criar esses novos espaços, pontes, essa ecologia.

            Mas vai ser difícil nos entender… os galegos nem nos entendemos entre nós…

          • Venâncio

            Sim, essa é mais outra face do problema.

            As ecologias Portugal vs. Brasil e Portugal vs. Espanha subsistem graças ao constructo (irracional, ou pré-racional) dos brasileiros, ou dos espanhóis, como massa compacta e homogénea.

            Nesse sentido, uma demasiado visível divisão entre galegos vem contrariar um processo de “especialização” das relações. Quando faço um apelo a um entendimento (mesmo mínimo!), estou realmente a pensar nisso.

          • Ernesto V. Souza

            Mas isso é justamente porque na Galiza não conformamos um Estado, ou simplesmente uma fronte nacional com um projeto comum de Estado… Isso facilitaria muito a cousa sei…

            Mas isto apenas é um conjunto variado… no que convergem trajetórias, ideais, conflitos de classe, projetos e relacionamentos diversos…

          • potanonimomain

            E pra que queremos ser um Estado? Galiza soinha jamais conseguiria ser uma potência mundial. Só seria um país coma calquera outro, sem destacar em nada em especial, sem ser referente prós outros países em ninguma cousa… Mais Espanha si que pode e o demostrou hai ums séculos. E se se une com Portugal, então aumentaria o seu potencial. E xa não falemos duma autêntica União Europea.
            A união fai a força. E Espanha poderia ser uma potência mundial de ter ums políticos competentes e que não estivessem vendidos aos interesses dos ricos e poderosos. Esses não são mais ca uma minoria.

          • Luis Trigo

            A realidade pode surpreender-nos 🙂 A mim está sempre a acontecer…

    • Luis Trigo

      Isto pode ser uma discussão sem fim… desde quando a Roménia é Roménia? Quando é que surgiu realmente o conceito de estado-nação? Como é que surgiu e o que significa? teria a mesma força simbólica um reino medieval ou um estado centralizado do século XIX? serão válidos os pressupostos românticos? porque sim? porque não? Da extrema direita, o equilíbrio das alianças pende para Espanha, tendo como referência a tragédia do galego Franco e do seu aliado Salazar… Mas na verdade não devemos nunca menosprezar a estupidez humana…

      • Celso Alvarez Cáccamo

        Concordo. Neste velhíssimo e aborrecido debate há dous erros recorrentes: 1) argumentar como se os vocábulos “país”, “reino”, “nação” ou outros significassem o mesmo em 1140 e agora; e, correlativamente, 2) argumentar como se os vocábulos “português”, “galego, “brasileiro”, “luso” ou outros significassem o mesmo a ambos e todos os lados das fronteiras políticas e outras linhas / limites (limes) sociais (intersubjetivas). Assim nunca, nunca, haverá possível negociação de sentidos, que é do que se trata.

        Mas eu chamo “erro”, claro, ao que talvez seja só uma (deliberada) epistemologia (e ontologia!): acreditar no “real” do político e dos seus territórios, que seria determinante. Estamos em eleições e osbervo que é exatamente o discurso de, por exemplo, a caduca esquerda federalista espanhola e galega. Então, a “Galiza” existe só (e só pode existir) como a Comunidade Autónoma Galega, que já sacralizou a sua identidade essencial nas insituições políticas do único âmbito real possível. O mesmo, evidentemente, para “Portugal”. Neste sentido, os “diálogos de classe” entre ambos lados seriam só miragens, esforços inúteis.

  • potanonimomain

    E porque não nos unimos tódolos países baixo um goberno único mundial? Após todo, todos somos seres humanos e todos moramos neste planeta (polo de agora). Remataríanse os países e, polo tanto, as guerras. Somentes poderia haber guerras civís, cousa que mentres o goberno seja bo abondo, não deberia suceder. Então, em certo jeito, acadaríamo-la paz.
    É que xa postos a unir países… unámonos todos e rematouse o problema.