Uma língua inscrita nos apelidos



atraves-apelidos-capa-def-290x422O nosso apelido desperta curiosidade. Quem foram os nossos antepassados? Porque se chamavam assim? Quem terá sido a primeira pessoa a receber o nome da minha família?

O que Diego Bernal faz neste pequeno e interessantíssimo livro é olhar para os apelidos não para investigar genealogias individuais, mas para perscrutar o passado da língua. Como vemos, os apelidos galegos e portugueses são, na sua grande maioria, os mesmos. Esta continuidade está disfarçada por pequenas diferenças, como a ortografia — mas está lá para quem souber ver. O livro de Bernal retira o disfarce e permite-nos ver melhor a nossa língua.

Cada língua é composta de vários materiais antigos, todos misturados. É difícil saber o que veio de onde. No entanto, se pegarmos num pedaço desse material e o analisarmos sob a forte luz da investigação, descobrimos a composição da língua. Diego Bernal pega num pedaço da língua — os apelidos — e trabalha como cientista, tentando descobrir de que materiais é feita. Não é um trabalho fácil.

Os apelidos galegos e portugueses são, na sua grande maioria, os mesmos. Esta continuidade está disfarçada por pequenas diferenças, como a ortografia — mas está lá para quem souber ver. O livro de Bernal retira o disfarce e permite-nos ver melhor a nossa língua.

Como em muitos outros aspectos da língua, a onomástica revela uma mistura de sistemas, naqueles arremedos de ordem misturados com desordem que os estudiosos da língua conhecem bem. É como se os falantes fossem criando sistemas coerentes, que vão sendo abandonados em prol de outros sistemas coerentes, mas sem que os anteriores desaparecessem, acabando por criar uma complexíssima mistura difícil de analisar. No caso da onomástica, encontramos os destroços do velho sistema patronímico, em que os filhos usavam o nome próprio do pai, com um sufixo (Diogo Vasques seria «Diogo, filho de Vasco»), misturados com o sistema de apelidos de vários tipos e origens. É esta desordem feita de ordens parciais que carregamos, sem suspeitar, nos nossos nomes.

Vemos também como o material onomástico comum é sujeito a convenções diferentes, impostas de cima. Não só na ortografia: afinal, os mesmos apelidos seguem a ordem típica de Espanha, com o apelido materno em último lugar, ou a ordem típica dos países lusófonos, com o apelido paterno em último lugar. Temos aqui, em amostra, o que se passa com a nossa língua na sua generalidade: os mesmos materiais ficam sujeitos a pressões diferentes, criando-se divergências que disfarçam a proximidade e continuidade.

Por outro lado, de um lado e do outro da fronteira, encontramos a mesma antiga ordem patriarcal a exigir primazia ao primeiro ou ao último apelido — seja qual for, tem de ser o do pai… Olhar para a língua também nos ajuda a conhecer melhor as nossas sociedades, para o bem e para o mal.

A língua revela a história e a sociedade. Por isso mesmo, este livro de Diego Bernal é tão interessante.

A língua revela a história e a sociedade. Por isso mesmo, este livro de Diego Bernal é tão interessante. De forma sistemática, faz uma breve introdução ao estudo da onomástica, mostra-nos os vários tipos de apelidos da nossa língua, descreve resumidamente os sistemas por que a língua foi passando e, por fim, olha com atenção para uma selecção significativa dos apelidos da nossa língua. O autor faz mais do que olhar para a língua: a bordo dos apelidos, apresenta-nos várias figuras importantes das culturas em galego e em português. O livro apresenta-nos assim esse espaço cultural aberto, em que podemos ler e conversar sem sair da língua que habitualmente falamos. Este simples facto é uma surpresa para muitos portugueses, tal como será uma surpresa ver os nossos apelidos em análise num laboratório galego… A verdade é que os nossos apelidos são, em grande parte, apelidos galegos.

Como prefaciador português, assumo aqui uma tarefa de orientação. A portugueses que encontrem este livro sem conhecer a situação linguística da Galiza, poderá fazer alguma confusão a ortografia em que o livro está escrito. O livro está escrito em galego, com ortografia reintegracionista, ou seja, com uma ortografia propositadamente próxima da ortografia portuguesa, mas onde notamos algumas diferenças que nos são surpreendentes e, digo eu, deliciosas. Também as opções vocabulares e sintácticas se aproximam do português, sem nunca deixarem de ser galegas. Que o resultado seja algo tão próximo do que se se escreve a sul da fronteira só mostra que há uma relação muito particular entre o galego e o português — dificilmente alguém poderia fazer o mesmo exercício com o castelhano ou mesmo com o mirandês. O galego pode ser encarado como uma outra variante de uma língua comum, partilhada com os falantes de português. Por outras palavras: o galego e o português partilham materiais suficientes para funcionarem como a mesma língua, se houver vontade. (Note-se o uso do infinitivo pessoal na última frase, uma das muitas particularidades gramaticais que os falantes de português partilham com os galegos — e mais ninguém.)

O galego pode ser encarado como uma outra variante de uma língua comum, partilhada com os falantes de português. Por outras palavras: o galego e o português partilham materiais suficientes para funcionarem como a mesma língua, se houver vontade.

A existência de duas ortografias para o galego mostra que há um conflito, que radica em diferentes estratégias defendidas para proteger a língua. Como efeito secundário do conflito linguístico na Galiza, há muitos galegos interessados na história da língua. Não sabemos nós, em Portugal, a sorte que temos em haver tantos galegos empenhados em estudar a língua — a nossa língua. Uma boa resposta nossa poderia ser uma maior atenção ao que se escreve a norte da fronteira — sobre a língua e não só. Este livro é um bom ponto de partida. O tema não poderia ser mais adequado: afinal, muitos portugueses têm apelidos bem galegos e nem reparam.

Convido então o leitor a abrir o «misterioso baú dos apelidos», nas palavras do autor — vai descobrir mais do que está à espera.

[Este texto é o prefácio ao livro de Diego Bernal, Apelidos da Galiza, de Portugal e do Brasil, cedido pela Através Editora para o PGL]

Marco Neves

Marco Neves

Tradutor e professor universitário. Vive em Lisboa e é autor de dois livros sobre a língua (Doze Segredos da Língua Portuguesa e A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa) e do romance A Baleia Que Engoliu Um Espanhol. Escreve regularmente no blogue Certas Palavras e assina uma coluna semanal no portal Sapo 24.
Marco Neves

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  • fiz pousa

    Em suma, um grande livro analisado por um grande perito da “linguagem” do norte-sul das beiradas do río Minho…

  • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

    Não sei mas até o “ciudadanos” Bal parece ocultar o VAL galego, “nonsi”?
    Sem contar os almeidas e os lamelas “madrileños”, tão “españoles” elas e eles. Etc. Já o amigo Monterroso Devesa me falou muito bem do livro do Bernal.

    • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

      Monterroso leva toda a vida a trabalhar com os patronímicos galegos, cá, na Galiza, e lá, nas Américas argentinas e uruguaias sobretudo, mas não só, também mexicanas.