Por Vítor Vaqueiro (*)
Numa invejável lição democrática a respeito das opções normativas, Tempos Novos (**) convida-me a escrever umas linhas sobre a Real Academia Galega, cousa que não se achava no conjunto dos meus projetos. Tentarei compor uma humilde reflexão, a respeito da questão normativa, que desenharei em quatro eixos, tirando, até onde for possível, avaliações pessoais e utilizando dados objetivos:
* Com a proclamação de “antilusismo linguístico” (sic), por parte de Constantino Garcia em 1974, rompe institucionalmente a linha de comunidade linguística galego-portuguesa, mantida desde o século XVIII polo padre Feijóo (“el idioma Lusitano, y el Gallego son uno mismo”), Sarmiento (“la lengua portuguesa pura no es otra que la extensión de la gallega”), Murguia (“la lengua que hablan cerca de tres millones de gallegos, dieciocho millones de habitantes en Portugal y sus dominios, doce en el Brasil”), Otero Pedrayo (“Por algo nuestra lengua es la misma de Portugal”), Álvaro de las Casas (“deveríamos suxetarnos no posible ao português”), J. V. Viqueira (“o galego … unha forma de portugués”), Castelao (“A nosa língoa está viva e frorece en Portugal”), Paz-Andrade (“la comunidad idiomática galaico-lusitana”), Cunqueiro (“tenemos que ir, inevitablemente, con los portugueses y los brasilerios hacia una unificación ortográfica”), e muitas mais pessoas, em prol da confluência.
* Nos últimos anos, e nomeadamente nos últimos meses, estão a se produzir abandonos da norma linguística da RAG-ILG, algumas verdadeiramente notáveis, como as de Teresa Moure ou Sechu Sende. Ao tempo aparecem editoriais que publicam em norma reintegracionísta.
* Prossegue a consolidação de uma “radiação de fundo” —por empregar as palavras que em 1965 usaram Penzias e Wilson para definir o “eco” do Big Bang— no que atinge à necessidade de achegamento ao sistema cultural e gráfico da lusofonia dentro de setores que aceitam as normas da Academia. Num recente artigo, Suso de Toro pronunciava-se em prol de dita opção, enquanto Ramón Villares, presidente do Conselho da Cultura Galega, afirmava que —partindo da postura (que todo o mundo compartilha) de que “Non se trata de que aqui falemos português”— certo posicionamento tomado há décadas “Quizais esteamos agora no momento de reconsidéralo”. Há apenas uns meses, numa conversa privada, um membro da própria RAG assegurava, referindo-se ao reintegracionismo, que “penso que tem razão; ora: como fazemos hoje para recuarmos?”. Eu diria: como sempre: com o diálogo e a Palavra, essa arma invencível, e reconhecéndomos que o erro é humano.
* Desde as suas origens um incessante recuo acompanha a prática do ILG. Voltemos sobre um artigo do professor Garcia, “A língua galega hoxe”, e olhemos o seu léxico: concencia, conocen, deprender, espacio, espíritu, espirituales, estudio, ésito, hastra, no aprendizaxe, nobleza, obligatoriedade, ocurren, poseer, prantexaba, precio, produxera, Rector, referinte, siguen, sin, testo, ventaxa. Trinta e nove anos depois de se escrever este texto, todas estas formas se consideram incorretas pola Academia e a versão das mesmas coincide com a norma luso-brasileira. Poderiam citar-se centos destes exemplos.
Em carta do 11 de janeiro de 1860, Marx escrevia a Engels: “Li agora mesmo no New York Tribune que se produziu um levantamento de escravos em Missouri. Foi esmagado, sim, mas o sinal fica dado”.
(*) Professor de Ciências da Comunicação da USC.
(**) Texto publicado originalmente na revista Tempos Novos, nº 192 (pág. 142); maio de 2013.
