Quero-lhe agradecer ao Portal da Língua a sua petiçom para que escrevesse este artigo voltando à questom que tratei no galizalivre.com há umha semana. A vontade de escuitar as críticas honra o criticado e favorece o sempre necessário contraste de ideias. Nom vou reiterar o já dito no texto inicial que qualquer um pode ler. Achei que resulta muito mais interessante replicar-lhe à resposta do presidente da AGAL. Esta foi redigida num post do seu Facebook e enriquecida com comentários de muitos sócios da AGAL que ajudam ainda mais a enxergarmos as posiçons de cada quem.
Em Fevereiro de há dous anos, Carlos Calvo publicou no Sermos Galiza um artigo intitulado O projeto gramsciano de Manuel Fraga. Nele assinalava:
Através da pirataria simbólica da expropriação e confiscação dos referentes galeguistas, a direita espanholista criou um novo galeguismo desativado de toda cárrega soberanista e que conseguiu fazer-se tremendamente popular. Este processo foi paradoxalmente concebido como uma estratégia contra-hegemónica que partia, polo tanto, do reconhecimento da existência da um projeto nacional galego que em muitos sentidos –como no cultural- era hegemónico. A contra-planificação cultural foi minuciosa: contra a autodeterminação, os (contra) conceitos de “autoidentificação” (com o seu correlato lingüístico) e “autoadministração”; contra o movimento anti-colonial, a brutal dissociação entre a “identidade” e a “política”.
Nom se pode descrever melhor. Di Eduardo que nom é a primeira vez que ouve as críticas que lhe dirigim e sobra-lhe razom, som tam velhas como o culturalismo galleguista mais antigo. Haverá discurso mais remoído que o da depolitizaçom da língua e a independência ideológica das suas entidades defensoras?
Num conflito linguístico e nacional, entender a língua como um fenómeno de livre escolha, alheia às relaçons de poder e aos dispositivos que a autoridade forânea estabeleceu secularmente, resulta cândido ou perverso. Se calhar, esta velha ladaínha pinheirista pode enraizar em quem confunde partidismo com política ou ideologia. Mas, ao cabo, serve para fortalecer o discurso hegemónico. O que se realiza desde o poder é o natural, no entanto o que se critica desde abaixo é política. Franco tinha-o claro e os seus herdeiros também. Quando Xosé Cuíña fechou ilegalmente as comportas do encoro do Úmia em 2001, acusou-nos à vizinhança que o reprovávamos de “fazer política”. Ele, um político profissional. Do mesmo jeito, Maragoto e os sócios da AGAL que o arrufam acham que louvar a Feijoo e a Valentin García publicamente e a menos dum ano das eleiçons autonómicas nom é política, mas sim criticar esse facto. Os governos de Feijoo, com Valentin García, às suas ordens, proibírom o ensino das ciências em galego, excluírom o nosso idioma da metade das escolas de infantil das cidades, conseguírom que o 30% dos menores 15 anos nom saiba falar nem escrever em galego. Mas nem só, também se rírom do cumprimento da Lei Paz Andrade substituindo medidas concretas por eventos inócuos e brindes ao sol. Este ano eleitoral nom aparece umha só vaga de português na convocatória de secundária. Já nom há Songoku em galego mas também nom em lisboeta ou brasileiro e apenas se transmite o 4% da programaçom infantil no nosso idioma. Contodo, a AGAL rechiou “apoliticamente” umha publicaçom de Valentín legitimando-o como coerente defensor da nossa língua há um mês. Sim, a AGAL, Associaçom Galega da LÍNGUA.
Quiçá o que pior valoro da resposta de Eduardo é a substituiçom dos factos polos abstratos. Assim, quando eu cito a participaçom comprovável de Penabade e Fernández Velho como fura-greves de Valentín no conflito CELGA, ele chama-lhe “acusações pessoais dirigidas a pessoas que tanto bem têm feito à língua”. Quando lhe critico que faga na imprensa um posicionamento político a favor do governo Feijoo (“É un político aberto ao que nós defendemos.”), quando lhe recrimino que justifique o cínico “quero mas nom podo” de Valentín (“explica muito bem neste parágrafo a difícil postura de quem, sabendo onde está o futuro, ao mesmo tempo deve lidar com o presente”), ele eslui-se. Entende-o como umha exigência de renúncia a valores intangíveis: “vontade de diálogo, pedagogia, humor, crítica só se for em positivo, empatia com quem nom pensa como nós (e mesmo pensa o contrário que nós).” Ou o que é o mesmo, acusa-me a mim de carência de todas essas qualidades por condenar que, na pré-campanha das autonómicas, lhe lave a imagem publicamente ao PP mais linguicida. É como se eu o acuso a ele de praticar um intrusismo otaku no reintegracionismo porque gosta de disfarçar-se fora do entruido.
A partir de aí, aplicar-lhe ao criticante o cliché anticomunista do pinheirismo resultou extraordinariamente doado. Dous dos paladins que melhor me chantam o estereotipo no seu comentário ao post do presidente som Xico Lopes [“Som taras das esquerdas quererem usurpar tudo quanto se move neste mundo e, a visão esquerdista é a verdade absoluta, quer dizer; absolutista, o demais é merda. Até da língua se quer apropriar.”] e Domingos Amigo [“É de justiça reconhecer que o galeguismo histórico,a grosso modo, sempre foi de esquerda. Mas este (o galeguismo) é compatível, sempre o foi, com a direita. R.Outeiro Pedraio,A.Cunqueiro ou mais recentemente José Pousada são um claro exemplo;ainda se poderia meter,se couber, Xosé Cuínha”]. Resumindo, gabar as políticas linguísticas do PP mais reacionário às portas dum processo eleitoral é o normal, opor-se é política. Porque a direita galeguista dos anos trinta é equivalente à direita espanholista do 2019 que pacta com VOX. A ela há que abrir o reintegracionismo a pesar da usurpadora esquerda soberanista. Ficou claro, unidade e viva o Ano Carvalho!
