Os dous de sempre

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Por Antom Fente Parada

«Cada faixa que proclama “queremos trabalho” proclama a vitória do capital sobre umha humanidade escravizada de trabalhadores que já nom som trabalhadores mas que nom podem ser nada mais», André Gorz.

 

«Poema pra queimar na festa

L’ homme est un animal magique

Qui se change en paroles et en fumée de tabac (Luc Durtain: Poèmes Armoricains)

 

(A Augusto María Casas)

 

Os clocheles

encol do manantial planchado

do ceo verquen os dedos.

Coa xema do sol

bate o mar

seu derradeiro cocktail.

As noites de café con leite

endózanse

con coadradiños de luar.

Oxe é a festa da frol

nas nubens.

O foguete morre cantando.

Bebámol-o cognac musical

que fan as charangas roibas», Luis Amado Carvalho.

Os dous chamavam-se Luis. Os dous eram da mesma paróquia. Os dous da quinta dos meus pais que se conhecêrom e casárom na Alemanha. Todos partilhárom um destino comum, a emigraçom. Os dous Luis, os dous de sempre. Os dous mostram as consequências do trabalho nas nossas sociedades, os dous som um bom ponto de partida para entendermos as novas-velhas formas de violência social que inçarám na presente década.

A emigraçom galega foi descrita com mestria numha das melhores folhas ensaísticas das nossas letras, refiro-me a alínea terceira (“Éxodos”) do capítulo inicial de O atraso económico da Galiza:

«O pobo galego é un pobo bíblico: todas as madicións do antigo testamento semellan ter caído sobor dil, e singularmente a que dá o seu nome ao segundo libro. Dende un punto de vista demográfico, a emigración galega ven sustituir, no ciclo moderno, a función desempeñada no ciclo antigo pola mortalidade catastrófica – pestes, guerras e fames –, frecuentemente ensarilladas. Dende un punto de vista económico, a emigración galega, representa un dobre e constante desaxuste, por unha banda antre a presión demográfica e a estrutura do sistema produtivo; por outra banda, antre a capacidade de xeneración de escendente polo sistema e o uso ou destino do escedente realmente xenerado. Dende un punto de vista social, a emigración galega constitúe a manifestación masiva dunha forma de escravitude que pervive deica o noso século. Dende un punto de vista ético, a emigración galega siñofica a negación constante do dereito máis elemental da persoa: o dereito á propia vida no propio país. Dende todos iles, a emigración galega supón a renuncia á revolta».

O primeiro Luis corresponde-se com a vaga migratória europeia, concretamente à Suíça, onde trabalhou durante decénios e casou. O segundo “optou” pola migraçom interestatal , a Euskal Herria, onde trabalhou em Érmua de “torneiro” toda a sua vida. Nengum dos dous pudo nunca ouvir aquela “Carta a Fuco Buxán” da que o seu próprio autor remataria renegando após a volta do país dos anaos. Do trabalho para a morada ou o bar, da morada para o bar ou o trabalho. Quando o assalariado deixa de ser “escravo a tempo parcial”, como diziam Smith e Ricardo, pode esquecer-se da sua condiçom com um trago desse cognac musical.

O drama dos emigrados, desconhecido na Galiza, é um trauma do que, como da Guerra, nunca se fala, apenas as anedotas, o bom, o menos. Do resto silêncio. Esse drama que converte por vezes em tragédia quando chega o retiro. O emigrante que vai e vem remata por nom saber nem quem é nem qual é a sua missom na vida. Durante décadas era o trabalho. As horas extras para aforrar e fazer umha boa casa. O Luís da Suíça fixo-a em Portugal de onde era a sua mulher, o outro em Chantada o seu concelho natal.

Porém quando o único objecto da vida desaparece volve mostrar-se o baleiro em toda a sua dimensom. Nom pudo adaptar-se a Portugal, caiu na depressom, sentia ciúmes dos pais e do irmao doente que a sua mulher tinha que coidar. Imaginada o drama ainda maior da mulher na emigraçom e que nom vou tratar porque isto vai de Luises e nom de Luisas. Voltou para a Suíça. Nada nem ninguém aguardava por el na Galiza. De bar em bar, aguardo com os olhos vidrosos coma cam abandonado aguarda já sem esperança topar qual é que foi o seu lugar no mundo.

O basco era lá galego e na Galiza basco. O Centro Galego era a sua vida quando estava longe das máquinas e o patrom. A casinha galega e as férias o tempo de excessos, festas e ceias com os seus amigos da infáncia e a mocidade fugida. A grande e merecida aposentadoria nom serviu para tornar feliz um home ao que poderiamos aplicar aquilo que se lhe atribui a John Davison Rockefeller: «som tam pobre que só tenho quartos». Da manhá à noite ia destilando no fígado das estrelas até a última pinga de álcool nos bares da vila. O desengano do consumidor consumido. Ninguém os entende. A sua irmá coidando com diligência os pecados que ela nom cometeu, mas nom é este um conto de Maria Antonietas, mas de Luises.

Lá na tábua do peito desses velhos prematuros convertidos em mortos viventes e baleiros de espírito repenicam as campás da sua paróquia natal, da minha paróquia natal: Santa Cruz de Viana. A sua história, a história de todas e todos os emigrantes do rural galego, é a minha. A sua dor a dos trabalhadores de toda a parte inseridos numha sociedade sem ética, onde como dizia o Saramago o hipermercado é o grande fornecedor de ética e de moral.

Coda

O tempo dos pos-Polt, do hiperconsumismo que destrói até a Terra que o sustenta. Para além da questom da propriedade dos médios de produçom , deve rachar-se com um sistema produtivo e laboral que puxa para o consumo através de qualquer emprego. Um sistema que esvazia e impede a realizaçom da maioria da classe trabalhadora.

A sociedade actual vive um processo de (re)feudalizaçom notavelmente identifícavel nessa parte do mundo que chamamos Leste asiático e que é o centro do capital-industrial do sistema-mundo actual. Os trabalhares da multinacional Foxconn trabalham 16 horas, seis dias a semana para ganhar 100 euros que lhes permitam ser consumidores e nom apenas “escravos a tempo parcial”. Cada vez menos parcial é claro. Cada vez mais temporal. A tendência à baixa da taxa de ganho resolve-se mantendo no mercado “preços competitivos” e aumentando o mais-valor: ordenados cada vez mais baixos, mais horas de trabalho, despedimento livre e contratos sem garantias, etc. O feudalismo, os senhores rendistas vivem de sugar-lhe aos seus servos até a derradeira pinga de sangue.

E aqui, no contexto dumha Galiza onde emigram cada vez mais moços com titulaçom universitária, a clássica renúncia à revolta, a nova reforma laboral anunciada para o Reino da Espanha nom oferece dúvidas sobre o seu resultado: mais temporalidade, perda de poder aquisitivo, mais desemprego… Quanto maior é a reserva de força de trabalho, o número de parados, maior é a exploraçom a que o capital pode submeter à classe trabalhadora. Maiores as divisons na classe trabalhadora, maior a fascificaçom da sociedade e maior a pobreza e a exclusom sociais. No Reino da Espanha som já nove milhons de pessoas que vivem por baixo do umbral da miséria, isso que poderiamos qualificar como lúmpen. Som já tamém mais de três milhons de moradas em situaçom de exclusom social. Desde 2007 o aumento foi de 3’4 pontos enquanto os “botíns” anunciavam grandes ganhos a pesar da crise. O novo milhom de pobres som, sobretodo, moças e moços, com especial incidência em mulheres, imigrantes e ciganos. Todos estám dispostos a “colher o trabalho que seja”. Díaz Ferrán e os catequistas da reforma laboral sabem-no bem.

O meu pronóstico é aventurado e aguardo que seja errado: 30% de paro, menos ordenado, mais temporalidade, mais horas de trabalho nom remunerado e mais mercado laboral em negro que é o que realmente tem frenado, junto a aposentadoria dos fogares com maiores, a implosom social “à grega” no Estado espanhol. Os que “socializáromnca ” as perdas dos resgates à banca e da bancarizaçom das caixas através do Fundo de Reestruturaçom Ordenada Bancária (FROB) pagam um preço demasiado alto.

Quais serám as reacçons de toda esta mocidade que se coidava parte do mundo das maravilhas, onde a aparência, o vazio, a falha de referentes e valores o invadem todo. Onde um necessita, até na esquerda, aparentar mais ser do que ser. Vestir assi ou asá. Como será a carreira para a violência –entre elas a denominda de “género”, a drogadiçom, o alcoolismo, o racismo, a fascificaçom em definitiva das nossas exquisitamente democratíssimas sociedades urbanas e industriais?

A alternativa que deve desenvolver a esquerda de imediato é tripla:

a.- Nacionalizar as caixas e entidades intervidas para criar umha grande banca pública que resgate a quem realmente o necessita: os que nom podem pagar a hipoteca, os pequenos empresários e a “economia real” asfixiada pola falha de crédito, etc. A meio prazo hai que abandonar o euro. A queda da construçom e o turismo deve forçar a desenvolver umha indústria pública com umha aposta forte polo I+D.

b.- Implementar umha renda básica universal (de 500€) com a qual se garanta umha capacidade negociadora da classe trabalhadora à hora de aceitar ou nom um trabalho e de permitir a supressom da exclusom social. A renda básica é o melhor mecanismo que o Estado pode implementar nesta altura para limitar as relaçons de dominium.

c.- Redesenhar o modelo laboral das sociedades industriais. O mito do crescimento contínuo e do petróleo eterno em que se baseou o centro durante os últimos dous séculos tem data de caducidade. Hai que esquecer a ditadura do PIB, reduzir o horário laboral e a divisom do trabalho. A renda básica permite aliás trabalhar menos horas e voltar a recuperar os laços de solidariedade e a participaçom do tecido associativo e da sociedade civil. O decrescimento tem que desde já aplicar-se transversalmente as acçons de toda a esquerda.

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