O segredo melhor guardado do país



Na biblioteca da minha faculdade havia um livro especialmente maltratado, e não precisamente pelo bom uso. Tratava-se dos Contos da montaña de Miguel Torga, que foram publicados no começo dos anos 90, “traduzidos” para o galego pela editora Galaxia. Miguel Torga foi o grande escritor de Trás-os-Montes, uma espécie de arraiano do outro lado a quem sempre se prestou uma atenção especial no nosso país. O seu exemplar adaptado à grafia galega chegara num momento complexo a um contexto hostil. Como mais uma vítima dum conflito surdo, o livro fora vandalizado com comentários que questionavam o sentido de “traduzir” um autor nascido a uns poucos quilómetros da fronteira arbitrária que divide um contínuo linguístico.

Editar literatura portuguesa em galego?

Estas semanas a generosidade duma editora galega punha nas minhas mãos outro clássico da literatura portuguesa “traduzido” para galego. Por mais que a edição fosse tão formosa como costuman ser estas coleções e que a adaptação ortográfica fosse encarregada a uma pessoa que admiro, soube imediatamente que não o leria, ainda que o livro despertasse a minha curiosidade o suficiente como para encomendar uma edição portuguesa no dia seguinte. Ler sempre que seja possível na língua original da criação pode ser mais uma teima de filólogo, mas não fiz estas coisas com as traduções de George Orwell ou Margaret Atwood que chegaram às minhas mãos nos últimos anos.

Os Contos da montaña de Miguel Torga, que foram publicados no começo dos anos 90, “traduzidos” para o galego pela editora Galaxia, fora vandalizado na biblioteca com comentários que questionavam o sentido de “traduzir” um autor nascido a uns poucos quilómetros da fronteira arbitrária que divide um contínuo linguístico.

Há quem diga que justamente essa é a questão: que algumas pessoas, por razões profissionais ou familiares, temos um contacto com a língua portuguesa que a maioria das pessoas não tem. Cresci numa casa com livros em português que o meu pai lia para mim pronunciando “à galega”. Interessei-me logo pelas línguas e a literatura e quando tive curiosidade por Antero de Quental, Clarice Lispector ou Saramago fiz questão de procurar os livros em português, apesar de todas as livrarias da minha cidade fazerem esforços para me vender traduções em castelhano. Talvez seja uma coisa minha, ainda que a experiência também me diga outras coisas: durante anos voltava das minhas viagens a Portugal carregado de livros infantis para as crianças dos amigos que estas devoravam sem quase notarem, no máximo perguntando por algum termo solto, mais ou menos como quando liam com ortografia galega. Sei que nos dias de hoje uma minoria de galegos e galegas continua a fazer o mesmo, oferecendo este tipo de produtos culturais às suas crianças, também com audiovisual na variante brasileira. Por outro lado, uma parte nada desprezível das editoras do país que se dedicam à língua galega publica numa ortografia convergente ou mesmo com idêntica grafia ao que conhecemos por português. Pode ser uma teima, mas também tenho a sensação, muitas vezes, de que o segredo melhor guardado da Galiza é que a imensa maioria das pessoas galego-falantes podem ler em português com um esforço mínimo. E isto é, em boa medida, independente da guerra de fundo que às vezes se manifestou vandalizando alguns livros.

Tradução e edição nas relações culturais

É certo que igual que uma língua não é só uma ferramenta de comunicação, uma tradução não serve só para fazer algo intercompreensível. Quando se traduziu o Quixote para galego foi um ato mais simbólico do que uma necessidade linguística. Muitas vezes, estas “traduções” do português cobrem um papel de aproximação entre os dois países, e às vezes mesmo estão financiadas por fundos relacionados com a integração europeia. Penso, porém, que muitos desses esforços bem intencionados teriam melhor fortuna noutra direção: uma edição adaptada para o público galego de certas obras não pasa necessariamente por uma adaptação ortográfica supérflua. A maior parte das vezes pode ser mais relevante saber o seu contexto histórico e literário, entender a sua relevância. Compreender o outro no que é diferente, não nas coisas que são praticamente iguais ou simples variantes da nossa realidade. E, obviamente, não ignorar a vantagem de que esse galego do sul devolva parte do vigor perdido ao minguado e arbitrário vocabulário que sancionam instituções como a Academia.

[Este artigo foi publicado originariamente no Nós Diario]

Mario Regueira
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