Mais sobre reintegracionismo



mapaTenho que reconhecer que desfruto muito com os debates sobre o reintegracionismo, e bem mais quando estes se apartam do debate estritamente filológico que, como nom, é quiçá o aspeto mais relevante do debate, mais nom o único. Por isto gosto dos artigos como os do sr. Veiga Taboada que introduzem reflexons políticas e económicas no debate.

De facto isto em muitas ocasions tem-se obviado e integrou-se ou desintegrou-se uma língua por razões simplesmente de conveniência política. Os processos de construçom de estados, muitos deles no nosso meio cultural, estám plagados de exemplos de assimilação linguística muito semelhantes ao nosso. O estado francês é bom mestre nestas práticas. O occitano, por exemplo, foi primeiro dividido em occitano e provençal, afirmando que som línguas diferentes e depois promovendo o uso da ortografia francesa em vez da tradicional, a usada pelos trovadores e nai da ortografia portuguesa contemporânea. E na Espanha o modelo imitou-se, por exemplo, com a diferenciaçom entre catalam, valenciano e balear. É quando menos curioso que tanto em Sevilha (Espanha) como em Chiquimula (Guatemala) seja falado o mesmo idioma enquanto entre Tortosa e Castelló parecem se falar idiomas diferentes. Nom sei, mas parece que o velho modelo francês foi imitado aqui e por questons políticas.

É quando menos curioso que tanto em Sevilha (Espanha) como em Chiquimula (Guatemala) seja falado o mesmo idioma enquanto entre Tortosa e Castelló parecem se falar idiomas diferentes. Nom sei, mas parece que o velho modelo francês foi imitado aqui e por questons políticas.

A defesa de uma língua nom deve fazer-se desde o utilitarismo, mas que uma língua seja útil para encontrar trabalho, ler no próprio idioma livros académicos ou permitir relaçons em internet nom tem porque ser em principio má coisa. Suponho que um nativo de York amará a sua língua por ser a sua, mas se além disso lhe traz vantagens em outros âmbitos nom acho que seja de lamentar. O debate devería, por tanto, dar-se sobre se o português e o galego som ou nom som a mesma língua. Os espanhóis parecem tê-lo claro e todo o que se pareça ao espanhol é espanhol, en quanto nós nom o parecemos ter tam claro, e incluo aqui também os portugueses. Não é um debate sobre geopolítica ou geoconomia das línguas o que deve nos motivar, senom se é ou nom a mesma língua. Se o é nom passa nada por tentar a escrever da mesma forma, só se nom o é se justifica, como os occitanos, usar ortografias diferenciadas. Mas compartilhar a mesma língua nom implica compartilhar a mesma nacionalidade, como bem diz o senhor Veiga, pois isto é algo que implicaria que é o idioma o único fator de definiçom da nacionalidade, algo com que nom acordo. Que falemos o mesmo idioma nom implica para nada que compartilhemos nacionalidade com, por exemplo, um nativo de Luanda. Uma mesma língua pode mudar a sua forma de se escrever sem mudar substancialmente a sua fala (caso do turco moderno que mudou a sua ortografia a começos do século XX) ou bem sendo o mesmo idioma se escrever com alfabetos diferentes como bem sabem rumanos e moldavos.  Mas ambas mudanças foram feitas por motivos políticos, no primeiro caso por se assimilar a ocidente e no segundo por integrar os moldavos no espaço soviético ao que foram incorporados digamos de uma maneira pouco ortodoxa.

Mas compartilhar a mesma língua nom implica compartilhar a mesma nacionalidade, como bem diz o senhor Veiga, pois isto é algo que implicaria que é o idioma o único fator de definiçom da nacionalidade, algo que com o que nom acordo. Que falemos o mesmo idioma nom implica para nada que compartilhemos nacionalidade com, por exemplo, um nativo de Luanda.

A pergunta a fazer-se deveria ser outra. Se por um casual determinasse-se que o galego e o português são no essencial a mesma língua, teria isto repercussões no âmbito político galego ou não? Os franceses parecem te-lo claro, e nós?

[Este artigo foi publicado originariamente no Nós Diario]

Miguel Anxo Bastos Boubeta

Miguel Anxo Bastos Boubeta

(Vigo, 1967) Polititólogo, doutor em economia e professor na Universidade de Santiago de Compostela.
Miguel Anxo Bastos Boubeta

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  • Ernesto Vazquez Souza

    O que é bem curioso… é que tantos anos e não apenas continua o debate quanto que o reintegracionismo está na moda. Acho que há um ambiente de mudança de vento.

    Por entanto a gente nas instituições e a gente cool arredor continua a não entender… a cousa vai para além da ingenuidade.

    Quanto a estratégia, eu destacaria este exemplo bem atual, um ato destes dias:

    Simposio O libro e a lectura: “Editar en linguas minorizadas”

    https://axendacultural.aelg.gal/2020/11/04/simposio-o-libro-e-a-lectura-editar-en-linguas-minorizadas/

    Se o passamos por um “robô reintegracionista” o título seria:

    Simpósio O livro e a leitura: “Editar numa língua globalizada”

    Quanto a tática ou prática… pois esta outra nova…

    “Non hai dicionarios que traduzan directamente ao galego, temos que facer ponte polo castelán”

    https://www.nosdiario.gal/articulo/lingua/non-hai-dicionarios-traduzan-directamente-ao-galego-temos-facer-ponte-polo-castelan/20201105204912108389.html

    O mais maravilhoso do mundo de fantasia dos isolacionistas é que desconhecem que o português é uma língua que verdadeiramente existe e que podes encontrar qualquer ferramenta pela rede e tanto nas definições que vêm por defeito nas maquinas quanto nas instruções….

  • Lamões

    Gostei do artigo. Sempre é bom encontrar gentes de diferentes ideologias que se aproximam a um’a ideia que, para ter sucesso, deve ser transversal.
    Vejo como relevante ser resposta a outro artigo de tendência oposta que se encontra no mesmo jornal. E feita em reintegrado por alguém que habitualmente nom o usa.
    É tamém relevante tratar-se de alguém que mora num mundo de ideologia e ideias econômicas e sociais diferente das que por aqui se encontram.