Língua incompleta



criancaA minha filha começou a falar. Reclama, perseverante, o nome de tudo o que aparece no seu caminho, sinalando com o seu pequeno indicador: cão, esquio, tesoura, vassoira… E compõe os seus primeiros sintagmas e frases de duas palavrinhas: pé nu, tenho colo… Gosta muito de folhear, e desfolhar, os livros ilustrados da casa. Estuda as imagens repetidamente. A sua curiosidade programada reproduz o processo evolutivo que nos tornou humanos.

Uma introdução à Ayurveda é o seu livro preferido. Deleita-se com as múltiplas fotografias de paisagens, animais (também humanos), frutas e hortaliças, minerais e sobretudo as suas rodas de cores. Um dia no que repassávamos os doshas, apontou para uma fervença.

  • Isto é uma fervença – disse-lhe – com o seu chorro de auga … mmhh … com a auga caindo da cima para baixo.

E, enquanto passava as páginas, comecei a cavilar: “Chorro não me parece que seja galego. E como se dirá? Em inglês é jet, em italiano getto, em castelhano chorro… e em galego?. Buf, sei-no até em italiano e não na minha própria língua… Bem, tenho de consultar o Estraviz.”

Pouco depois, indicou com a sua mãozinha outra ilustração, um recipiente com vários condimentos compartimentalizados. “E isto como se chama?”, parecia inquirir com os seus insistentes olhos.

  • Isto é … uma especiaria, bebé.

E como se dirá regaliz? Isto soa muito a castelhano. Consultarei também no dicionário. Sei como se diz em ingles? Sei, diz-se liquorice. E em italiano, liquirizia…”

Episódios como estes têm -se repetido já bastantes vezes nos seus poucos meses de oralidade.

Eu sou paleofalante com o galego como primeira língua, de família galegofalante mas criada na Corunha, com tudo o que isso implicou. Apesar de tudo, pensava que falava um galego bastante depurado de castelhanismos. Com certas carências que talvez supria com o castelhano, sim, mas em aspectos pontuais como certas expressões ou frases feitas. O simples e reduzido mundo de uma criança de ainda não dois anos fez-me decatar de que, na realidade, o castelhano está sempre latente, é desafortunadamente um substrato, ou o substrato, que aflora de maneira abafante onde o meu galego, incompleto, não alcança.

É verdade que o problema mais premente do galego é o índice marcadamente negativo da transmissão intergeracional, isto é, há uma perda acentuada de falantes nas novas gerações. Mas, a qualidade do galego é fundamental para a sua sobrevivência. Primeiro, porque a contaminação do castelhano acabará por o diluir definitivamente no espanhol. Segundo, porque quanto mais deficiente seja a expressão em galego, menos eficaz e atrativa será para o seu uso em âmbitos variados e menos provável será que as mães galegas a escolham como língua veicular. Terceiro, porque aquelas famílias que ainda porfiem no galego têm de fazer um esforço quase impossível.

Por isso, projetos de imersão linguística no ensino como as escolas Semente são tão valiosos para a conservação e restauração da nossa língua. Para além de que as nenas estão livres de bullying linguístico, podem preencher as lacunas do nosso malferido galego. A transmissão intergeracional pode funcionar em duplo sentido, porque as cativas também podem galeguizar os seus pais.

Saleta Gil Lorenzo

Saleta Gil Lorenzo

Nascida em Santiago de Compostela, morou até os vinte e cinco anos na Crunha, para depois se mudar para a Inglaterra. Estudou Engenharia Civil na Universidade da Crunha e um mestrado em sistemas ferroviários na Universidade de Birmingham. É doutora em Engenharia pela Universidade de Cambridge, especializada em revestimento de túneis. Gosta da natureza, de viajar e de aprender.
Saleta Gil Lorenzo

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  • ernestovazquezsouza

    e tanto… eu muitas vezes já decidi deixar de escrever, simplesmente
    por isso, porque me faltam palavras, expressões, porque as ligações não sei estabelecé-las… porque não tenho língua… apenas farrapos…

  • Celso Alvarez Cáccamo

    Parabéns polo texto. É assim. No nível geral essa deslexificação chama-se perda linguística (‘language attrition’), que conduz para o monoletalismo na língua a desaparecer. Uma vez uma língua é estruturalmente monoletal e socialmente quase dialetalizada, na terminologia de Heinz Kloss, pouco falta para que desapareça. E certamente a relexificação enxebrista, numa situação de dominação linguística como a da Galiza, não é suficiente para reverter o processo, porque o modelo da língua dominante sempre estará a interrompê-lo. Só é possível construirmos um neogalego, convertermos o próximo geográfico e social (o português, o brasileiro) em imediatamente disponível para o uso a meio de alfabetização maciça (ensino, literatura, coleções populares, imprensa, ciência) em materiais da outra lusofonia.

    • Saleta Gil

      Muito obrigada pola informação.
      .

    • https://pglingua.org/index.php abanhos

      Celso, podias nos dar um excelente artigo sobre o assunto

      • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

        Certo, publicável no BOLETIM DA ACADEMIA GALEGA DA LÍNGUA PORTUGUESA?

  • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

    Gostamos muito do teu artigo, Saleta, e mais do livro e dos pés de Lua; será boa investigadora como a mãe e o pai. Boa investigadora e boa escritora. Vê-la-emos. Bicos!

    • Saleta Gil

      A foto nao e L.

      • https://www.facebook.com/antonio.gilhdez.1 António Gil Hdez

        Vale. De facto não me parecia, mas, já vês … Carinho de avô faz ver …
        Outra cousa:
        A pressão do “reino del bourbon” (escola, média, …) nos súbditos da Galiza, CAG e “Galiza exterior”, faz com que todos eles disponham de línguas incompletas. As pessoas que optaram (livremente?!) ser hispano-utentes estão interferidas pelos galegos coloquial e “institucional”, por sua vez, avondo castelhanizados. E nas que procuram manter vivo e correto o seu galego, topam continuamente com o domínio do castelhano e com a “incompreesão” dos outros, galego-utentes ou não.
        Seja como for, ambas classes de pessoas “fruem” de línguas incompletas por interferidas.
        Nos meus anos de professor de “lengua castellana y literatura” pude comprová-lo.
        Uma estudante, procedente de Madrid, mas de família galega, insistia-me em que em Madrid “colo” ( = regazo) era de uso comum … na sua família.
        Apresentava aos alunos de “lengua” em COU uma listagem de palavras de diversos idiomas para as identificarem. Bastantes reconheciam como “no gallegas” os cultismos, comuns a castelhano e galego, e como “gallegas” as patrimoniais de galego … e português …

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Delicioso texto