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João Aveledo: “As histórias da Galiza natural é a obra dum observador preocupado com o meio que o rodeia”

Sai do prelo, da mao da Através Editora, a coletánea de artigos As histórias da Galiza natural, um livro de João Aveledo que compila 80 textos escritos durante vinte e cinco anos de trabalho. Falamos com ele.

A biografia que aparece na orelha do livro deixa clara a tua filiação com um mundo híbrido, neto de labregos (o rural), filho de mestres (convenhamos, o urbano), criado na Corunha, mas vinculado ao Gestal em Monfero, de novo o campo e a cidade. Como conjugar a vida dum urbano com a Galiza natural?

Para conhecermos essa Galiza natural não é necessário viajar ao Courel ou à ilha de Sálvora. A Galiza natural abrange também o espaço urbano, é só reparar, p. ex. em todas essas aves que nos alegraram o confinamento nas cidades e vilas. Aliás, as nossas cidades são de pequeno tamanho e estão rodeadas de natureza; assim, chega, as mais das vezes, com um pequeno passeio para estarmos no rural, caminhando por um bosque ou na beira do mar, isto é um privilégio que nós ainda temos.

Os artigos foram publicados originariamente no Novas da Galiza e outros lugares. Dá isso uma nova perspetiva? Que muda ao sair agora em forma de livro?

Agradeço ao Novas e a alguns outros meios o terem-me dado a oportunidade de ver publicadas cada uma destas Histórias, num país em que os reintegracionistas somos censurados por razões ortográficas nos média majoritários.

Penso que ter todos estes artigos reunidos, compilados num só livro dão uma visão de conjunto da enorme variedade e riqueza natural da Nossa Terra. Também da sua problemática ambiental, por vezes, comum com a doutros muitos países, por vezes especificamente galega (p.ex. a eucaliptização, a ocupação tantas vezes anárquica do território ou os incêndios florestais recorrentes).

O livro abre com um texto chamado “A Galiza natural” em que ofereces uma olhada panorâmica do país do ponto de vista natural. Afirmas que a defesa deste espaço natural é indivisível da defesa da identidade nacional. Como devemos atuar para defender este espaço?

O ecologismo clássico responde com a conhecida frase “agir localmente e pensar globalmente”. Defendermos a Terra Mãe é a nossa maneira de defendermos a Mãe Terra. Isto deve traduzir-se em ações concretas que exigem da nossa responsabilidade individual e de atitudes coerentes. Ações como os três R (reciclar, reduzir, reutilizar), não sermos, portanto, hiperconsumistas, geramos demasiado lixo poluente e não biodegradável, como os plásticos, que muitas vezes acaba no meio natural. Como sociedade precisamos de mais austeridade e de menos hedonismo, iria-nos melhor ecologicamente, mas também economicamente e até psicologicamente, seríamos mais felizes. Outro grave problema ambiental galego são as plantações de eucaliptos, à procura dum benefício meramente económico; muitas pessoas na Galiza temos aldeia e nela, montes, leiras e prados da nossa propriedade, que deveríamos gestionar dum modo mais ecologicamente sustentável. Também deveríamos ser conscientes dos perigos que representam as nossas mascotes em habitats sensíveis como as praias. Por outra parte, é necessário manifestarmos a nossa oposição a projetos que, como o de ALTRI, representam uma ameaça séria para o ambiente. Insisto, quero fazer um chamado à responsabilidade individual e à coerência em matéria ambiental.

Num dos capítulos ofereces espaços naturais galego-portugueses em que passar umas férias naturais. O turismo aumenta cada vez mais, correm perigo estes espaços? E tendo em conta isto como se deve atuar nestes espaços para ser respeitosos?

Infelizmente, os nossos espaços naturais protegidos estão a funcionar como reclamos turísticos e não como ferramentas de proteção ambiental, procura-se apenas o desenvolvimento económico dos territórios e faltam verdadeiras políticas conservacionistas por parte do Governo. Um espaço natural como as Fragas do Eume, p. ex., piorou do ponto de vista ambiental desde a sua declaração como Parque Natural, não se parou a sua principal ameaça, a eucaliptização, que continuou avançando imparável e agora soma um novo perigo a turistificação, que antes só afetava a Caaveiro.

Infelizmente, os nossos espaços naturais protegidos estão a funcionar como reclamos turísticos e não como ferramentas de proteção ambiental, procura-se apenas o desenvolvimento económico dos territórios e faltam verdadeiras políticas conservacionistas por parte do Governo.

Falas da desaparição de espécies na Galiza, mas também de raças a recuperar como o cão de Castro Laboreiro. Em que radica a importância desta recuperação?

Ao recuperarmos as raças domésticas autóctones conservamos um património genético de grande importância. São raças muito rústicas e resistentes (como os Garranos, as Vacas Amarelas ou as Morenas ou as Ovelhas e Cabras Galegas), que quando criadas em extensivo, no caso de cavalos e vacas muitas vezes em estado semi-selvagem, resultam importantíssimas na preservação e restauração no meio natural. Ou os cães de gado que, como o Cão de Castro Laboreiro, podem ajudar na conservação do lobo, ao proteger os rebanhos dos seus ataques, fazendo mais doado o convívio entre a pequária em extensivo e este predador conflituoso.

Na contracapa fala-se do devagarinho de escrever este livro, das caminhadas, do guardar pedaços de bosques, de leituras, de águas. Quanto importa a vida lenta na escritura deste livro? Quanto importa o caminhar?

Demorei muito em escrever cada um destes artigos. Eu sou de pensamento lento. Acho que viver devagarinho permite-nos a reflexão necessária.

A informação dos artigos tem a sua origem, fundamentalmente, em revisões bibliográficas ou em conversas com especialistas. Mas eu adoro caminhar em contato com a natureza e assim ir conhecendo passo a passo esta Terra Mãe, esta Mátria, que a Providência me deu por berço. Acho que isto é algo que se transparenta no livro.

Ligado a pergunta anterior, este é o livro dum observador, dum leitor da paisagem. Como de importante é a observação do que nos rodeia para entender(nos)?

Esta é a obra dum observador preocupado com o meio que o rodeia e à procura, na leitura e na reflexão, das chaves que lhe permitam compreender esse meio, as suas dinâmicas e as suas problemáticas. A simples observação sem leituras e sem reflexão pode ser muito gratificante a nível espiritual, mas do ponto de vista da conservação resulta estéril.

Para finalizar, no livro vão aparecendo pessoas, autores, textos que falam do natural desde óticas distintas, desde momentos no tempo distintos. Esta ideia do natural como inamovível, quase atemporal, é certa? E ligado a isto, nestes tempos de rememoração, de nostalgia, como agir na Galiza a esta certa fascinação do tempo passado?

Não é certa. Essa visão estática que tantas vezes destila o ambientalismo não deixa de ser essencialista e falsa. Os equilíbrios ecológicos são processos dinâmicos, fortemente intervidos pola nossa espécie desde a Revolução Neolítica, nomeadamente, na Europa. Pensarmos que qualquer tempo passado foi melhor leva-nos a paradoxos como a Síndrome de Deslocamento da Linha de Referência: Que natureza queremos conservar? A da nossa infância? A do século XIX? A da Idade Média? Ou a do Pleistoceno?… E unido a isto, que Galiza queremos recuperar e para quê? Eu sou humanista e galego, quero conservar a nossa natureza para transmitir às gerações futuras uma Galiza sustentável. É o meu jeito de defender o Planeta e a Humanidade.

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