Na sequência da recente publicação, na Através Editora, do terceiro volume da coleção “Através do Brasil”, Para acordar os da casa-grande: (alguns) novos escritos de mulheres negras brasileiras, entrevistamos o Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, organizador dessa seleta, incontornável tanto para quem goste da literatura, quanto para quem se pretenda aproximar à vitalidade e complexidade duma parte substancial do Brasil atual.

Caro Henrique, com o referente das leitoras e dos leitores da Galiza e de Portugal, talvez seria bom começar por uma primeira e necessária pergunta dupla: quais o sentido e a razão do sugestivo título que encabeça a tua/vossa antologia de escrita feminina negra do Brasil de hoje? Qual a importância do conceito de escrevivência na potência da verdade e autenticidade com que se expressam as dez narradoras, as seis poetas e as cinco ensaístas no volume?
O título da antologia é inspirado em uma citação de Conceição Evaristo, um dos mais importantes nomes da Literatura Negra Brasileira, que aborda o modo como as mulheres negras retomaram a voz e a escrita que, no período escravocrata, haviam sido usurpadas pela casa-grande. Desse modo, se hoje em dia há quem tente sustentar essas antigas heranças, as mulheres negras podem, através das suas produções intelectuais, produzir diversas formas de resistência, obstando os injustos sonos coloniais. Contudo, se a obra evaristiana ocupa um lugar central na produção literária negra (não apenas de autoria feminina) contemporânea, e se o conceito de escrevivência tem alcançado ressonâncias profundas – a ponto de se haver convertido em um operador conceitual utilizado em diversos campos das ciências humanas, por exemplo –, sua inscrição nos projetos estéticos das escritoras negras brasileiras não ocorre de forma necessária. Se há autoras que operam explicitamente com esse conceito, outras se afastam deliberadamente dele, optando por outros caminhos estéticos. É preciso, portanto, compreender a particularidade de cada projeto.
Como complemento, poderias explicar os critérios político-reivindicativos e as escolhas estético-interventivas que alicerçam esse singularmente plural volume?
Retomo aqui algumas questões que discuto no texto prefacial do volume. O critério primário que segui, no que diz respeito à organização da antologia, foi convidar autoras que têm alcançado destaque mais recentemente no cenário intelectual brasileiro – o que nem sempre guarda relação com a idade, uma vez que, quando se trata de escritoras negras, o racismo presente na sociedade brasileira faz com que esse reconhecimento ocorra, muitas vezes, tardiamente (quando ocorre); em segundo lugar, deliberadamente optei pela inclusão de um grupo significativo de autoras que nasceram ou residem fora da região Sudeste do Brasil, que ainda é o centro econômico e editorial do país. A partir disso, procurei construir um retrato abrangente do que mulheres negras têm produzido, contemplando diversos gêneros literários, em um momento que se caracteriza por uma diversificação de projetos estéticos, propiciada pelos muitos caminhos abertos pelas escritoras de gerações anteriores.
Deliberadamente optei pela inclusão de um grupo significativo de autoras que nasceram ou residem fora da região Sudeste do Brasil, que ainda é o centro econômico e editorial do país.
Já noutra ordem de ideias, nesse teu labor de combate, debate e divulgação da literatura negra brasileira em que há tempo estás empenhado, sabendo como sabemos da publicação no Japão de uma outra antologia por volta da literatura negra brasileira, gostaríamos de conhecer as diferenças, semelhanças e complementariedades a respeito da coletânea agora publicada como terceiro volume da coleção “Atraves do Brasil”.
As duas antologias são bastante diferentes, na verdade. Embora a proposta de publicação da antologia que será publicada no Japão tenha surgido anteriormente, ela será publicada em data posterior, e não reúne apenas mulheres: ela colige 14 nomes, mulheres e homens, nascidos a partir de 1970. Precisamente a fim de evidenciar a riqueza da produção literária negra contemporânea, impus a mim mesmo o desafio de não repetir nomes nas coletâneas, e consegui cumprir esse planejamento: nenhum nome presente na antologia Vozes que soam na alvorada está em Para acordar os da casa-grande. Desse modo, as antologias efetivamente se complementam, constituindo um vasto panorama da nossa atual Literatura Negra Brasileira. E ouso dizer, para além disso, que vivemos em um momento tão produtivo que seria possível construir mais uma ou duas antologias com outros nomes que, por qualquer motivo, não foram incluídos nesses volumes.
Por fim, achamos que resultará também relevante saber como dialoga este teu meritório labor de rigorosa divulgação com a tua diversificada atividade na academia e com a tua relevante e reconhecida escrita literário-criativa.
Meu livro mais recente, o Diário negro de Tóquio, tem uma camada narrativa que o posfaciador, Michel Mingote, leu como um relato de formação que aborda como o escritor negro nasce do professor negro, a partir do contato com uma tradição literária negra que eu só tardiamente fui conhecer. De fato, foi quando eu comecei a ler essas autoras e esses autores, quando eu comecei a estudá-los para ministrar aulas na universidade e em cursos livres, que reinventei toda a minha produção literária, em um momento no qual, na verdade, eu tinha me afastado da literatura. Foi nesse momento que surgiu o [poemári0] Levante, abrindo o caminho para tudo o que veio posteriormente, inaugurando um novo modo de relação com a escrita – como uma prática coletiva e comunitária. Ler, estudar e divulgar escritoras e escritores negros, enfim, é uma parte essencial do meu próprio processo de criação literária.
