galego simbolico penhaguai



A penha o passa guai/A penha passa-o guai

No período de maciça recuperação de usos do galego do ponto de vista individual, que podemos situar como central nas décadas de setenta e oitenta do século XX, setores, diversos em muitos casos, castelhano-falantes em origem, começarom a usá-lo. Esse processo continua na atualidade mas provavelmente em menor medida que nessas décadas; não chegam para compensar quem o vai abandonando ou quem já não o usa para situar o uso oral do galego como maioritário na Galiza. Bastantes daquelas ou estas pessoas fizerom um esforço importante, técnico e social, para mudar de usos. Não era fácil socialmente, ainda que, por vezes, encontravam a compensação de fazer parte doutro grupo, de distinguir-se ou de conciliar essa decisão e prática com outro conjunto de ideias sobre a Galiza e a sociedade.

O processo foi coincidente no tempo com a persistência de preconceitos em relação ao uso do galego (entre as quais, ainda que de diferente natureza, gheadas e ausência de tetacismo -o mal chamado sesseio, como se fosse o uso marcado-; mas, sobretudo ter acento galego; ter um sotaque, umha prosódia consideradas baixas e vulgares, da aldeia, em definitivo, galegos; como baixas e vulgares eram consideradas as pessoas que o usavam); e coincidente igualmente com a sua progressiva entrada no ensino, com dominante insistência em aspetos da escrita (e em determinado léxico, algum em quase desuso) com abandono total ou quase da atenção à oralidade. Estes setores espanhol-falantes em origem forom fazendo os seus esforços, maiores ou menores, por colocar os pronomes conforme à norma galega e por utilizar algum léxico diferencial em relação ao espanhol (já o sistema vocálico ficava longe e confuso); fundamentalmente. Mas em acento, nada…: além de vulgar seria visto como artificial e um peso já excessivo; isso em casos; na maioria, nem tão sequer estava no seu horizonte de possibilidades.

O espanhol que se deitou fora pola porta, entra pola janela: a tendência em parte ao pidgin, ou à crioulização paira como ameaça…

E houvo e há mais algumha cousa: numha situação de conflito como a galega, o uso ganhava, sobretudo, valor simbólico: ubiquação de quem o usava em determinado campo ideológico (assim era e ainda é sistematicamente percebido socialmente), marca distintiva; de regra, um simbolismo político, social, cultural, de tipo e proposta nacionais (de nação política ou cultural, ou, até, simbólica ela também). Esse valor, ao lado da ausência de modelos fiáveis e acessíveis (exceto o diferencialismo e o hiperenxebrismo em determinados âmbitos), os pré-conceitos (anti-)rural(istas), que contribuíam para anular ou mitigar a necessidade de elaborações estándares, cultas, e, especialmente, de diferentes níveis e registos, e a esmagadora presença, pressão e prestígio do espanhol, fizerom com que hoje a qualidade linguística do uso do galego oral desses setores seja, em não poucos casos, bastante pobre. Essa índole simbólica sobrepõe-se à procura dum uso correto (em função da norma referencial de cada quem), particularmente em setores citadinos, normalmente situados em âmbitos da esquerda e do nacionalismo ou do independentismo: convivem assim, nesse campo, pessoas extremamente cuidadosas com outras que não o são tanto; pessoas de uso requintado (infelizmente tentando evitar, em casos, ser tomados como pedantes quando o que fazem é tentar usar corretamente a sua língua e pessoas que usam massivos castelhanismos, léxicos, sintáticos (abandonamos aqui o âmbito fonético-fonológico e prosódico), bem por inconsciência ou falta de atenção, bem porque, à procura dumha expressão moderna, anti-sistémica, alternativa, lá vai a enxurrada de “a penha o passa guai em Cies, tio, em plam…”. Usos, para os quais não encontram substitutos e aliás, coincidentes com galego-falantes em origem, com maior ou menor consciência ou compartilhamento desse caráter simbólico; algumhas destas, utentes do galego sem a ele atribuir ou mesmo rejeitar no seu uso qualquer marca simbólica de índole política; preservando nele, em todo o caso, um elemento simbólico familiar ou rural(ista).A conclusão é que o espanhol que se deitou fora pola porta, entra pola janela: a tendência em parte ao pidgin, ou à crioulização paira como ameaça (algo sentido por muitos setores; lembro pessoas de importância na construção da Norma ILG_RAG pedindo importação de léxico português, para contra-restar o castelhanismo maciço; recuperações ou adoções de feiras e carros são sintomáticos). Ao ir a língua deturpando-se, o símbolo vai igualmente perdendo força, desbotado e esvaído, que fica mais em evidência quando se sai do ambiente galego ou da Galiza: aqui, no quadro da intercompreensão e da presença habitual do espanhol, tudo flui sem muito reparo nas carências; mas a sua intercompreensão com o espanhol (referente ainda de oposição para algumhas pessoas) é nítida e sentida como excessiva, por vezes (a não tradução em emissoras espanholas do uso oral galego é prova disso); e, quando se fala com umha pessoa portuguesa (além da frequente tendência desta para passar-se ao espanhol) repara também a utente galega nas suas carências… (quando estiver com umha brasileira ou africana de língua portuguesa, por exemplo, acresce que ela não vai passar tão facilmente para espanhol, em geral). E assoma essa terrível sensação de não possuir umha língua forte e autónoma, com as variantes que forem…

Pessoas, então, que subjetivamente se colocam num plano de alta defesa da língua (nos seus usos individuais e sociais; na sua hegemonia) estão, objetivamente, contribuindo para o seu desaparecimento quanto valor cultural, social e comunicacional autónomo; simbólico também, por inútil no uso, auto-definição e delimitação.

Elias J. Torres Feijó

Elias J. Torres Feijó

Professor de Literatura, em origem, e, mais, na atualidade, de Cultura. Foi presidente da Associação Internacional de Lusitanistas (2008-2014) e vice-reitor da USC, onde coordena o Grupo de Investigação GALABRA.
Tenta trabalhar coletivamente e acha que o associacionismo é a base fundamental do bom funcionamento social e comunitário. A educação nos Tempos Livres é um desses espaços que considera vitais.
Elias J. Torres Feijó

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  • Venâncio

    Muito interessante reflexão, Elias, além de perturbadora. E ocorre-me perguntar o que há muito me pergunto a mim próprio.

    É sabido (ou é muito pouco sabido…) que a habitual fonologia do português europeu é grandemente coincidente com a galega genuína, ou rural. Nós também dizemos “É prò pai”, “Deixò aqui” [Deixa-o aqui], “tamém”, “fôrom”. É coincidente, porque herdeira directa dessa fonologia galega, claro.

    Pergunto: tens alguma experiência de falantes de castelhano acharem, com base nessa fonologia, que ouvindo um português estão a ouvir um galego, e mais exactamente um rural galego?

    Eu gostaria de que a resposta fosse sim. 😉

    • luiz

      a resposta que eu posso dar:
      qualquer português ouvido a falar espanhol por galegos (lembro o Saramago) é globalmente percebido como um “galego rural” a tentar falar ou a falar mesmo espanhol

      • abanhos

        Bem certo

    • Ricard Gil

      Caros desculpai a intromissão mas vou comentar o que me aconteceu. Um dia viajando de carro com um polícia madrileno paramos em Ribadavia (vilarejo importante pela sua ligação judaica e pela “festa da Istória”).Bom estavam dous rapazes a falar entre si em CASTELHANO e o polícia dixo qualquer coisa como “parecen portugueses hablando eso es el gallego?? E eu rim e dixem-lhe que estavam a falar castelhano mas com sotaque.

      Outro caso engraçado

    • Nicolau

      Venancio:

      Suponho que por «falante de castelhano» se refere a um castelhanofalante nom galego. Dou a minha resposta: se o português que ouvem é nortenho, existe a possibilidade de o confundirem com o galego ou, ao menos, em o identificarem como algo mui próximo, sempre e quando tenham ouvido o galego genuíno com anterioridade. Porém, se o português que ouvem é mais à lisboeta, nom só nom o identificarám com o galego, mas com nengumha outra língua do mundo. Neste caso ficarám a se perguntar «¿de qué país serán estos?». Cumpre ter em conta que um espanhol médio desconhece completamente como é a sonoridade do português de Portugal. Também acontece algo semelhante quando um espanhol ouve o galego auntêntico pola primeira vez, em contraste com o «galenhol» que ouvissem na TV, que nem legenda precisa.

      • Nicolau

        Engado:

        Também é importante o cenário desse encontro entre um espanhol e a fala portuguesa. Se for na Galiza, haverá mais possibilidade de que ache que está a ouvir galego. Deconheço o que ocorreria num território neutral. Madrid, por exemplo.

        A mim aconteceu-me o caso contrário. Estando eu em Lisboa falando galego com galegos, uns castelhanos de Burgos pensavam que éramos portugueses. É verdade: a algum surgira-lhe a dúvida de se éramos galegos, polo nosso «portugués menos cerrado» (algo conhecia, certamente). Mas a identificaçom galego/português, neste caso, ocorreu. E lembro que a situaçom me chocara: se estivéssemos em Porto -pensei- ainda eu entenderia a confusom. Mas em Lisboa! Se é que o português lisboeta nom soa nem parecido com o nosso galego!

        • Venâncio

          Nicolau, obrigado pelo que expõe. Mas receio que lhe tenha escapado o cerne do meu comentário.

          A distinção em que Vc insiste, a de “pronúncia nortenha” vs. “pronúncia lisboeta”, está cada vez mais esbatida, é cada vez mais do domínio da Fonética, isto é, dos sons acusticamente realizados.

          Onde eu pus o acento foi na Fonologia, quer dizer, no domínio dos sons distintivos. E por isso eu disse, e repito aqui: existe uma Fonologia do galego rural que se prolonga pelo território português inteiro. Dei os exemplos pró, deixò [deixa-o], tamém, fôrom, mas podem acrescentar-se os de ó [ao] (“ó sábado”), inda, coa [“Vai coa tia”].

          Muito interessante é constatar que a pronúncia “comò”, em por ex. “É comò outro”, que todos nós, portugueses, dizemos, pressupõe a forma COMA, ainda ‘galega’, e não COMO, caso em que a contracção resultaria simplesmente em “u”.

          Esta pronúncia de, repito, Portugal inteiro é a espontânea. Não é raro as pessoas chegarem ao ponto de negar (!) que pronunciam espontaneamente assim, pois não só não estão conscientes disso, como são incapazes de assumi-lo. Mas isso é um fenómeno conhecido em qualquer comunidade de falantes.

          E há outra coisa. Bastantes dessas formas sonoras portuguesas espontâneas são, ou foram, graficamente aceites como galegas pela Norma RAG… porque são genuinamente galegas. Na prática, pois, em bastantes casos, nós portugueses ortografamos à portuguesa e pronunciamos à galega. 😉

          • Venâncio

            P.S. E por isso eu continuo a supor que, para um falante de castelhano (sim, monolingue em castelhano), a sonoridade do português europeu lembraria a do galego “rural”. E vice-versa.

          • Nicolau

            Entendo.

            Eu interpretei de outra maneira e centrei-me na sonoridade, em como é que a fala soa, a sua melodia; em como é percebida por estrangeiros ou alheios a ela.

            Todos esses exemplos que o sr. deu de pronúncia popular tipo comò, prò, coa, etc. (aos que acrescento a forma em como pronunciamos os números: vintèdous, cinqüentètrês… com esse /è/ átono mas abertíssimo) marcam a diferença entre um falante genuíno e um neofalante. E eu nom vejo problema em que esta maneira de pronunciar seja levada à pronúncia culta galega, toda ou em parte. É a que temos. É mais: vejo-o como necessário para que o galego culto continue a soar a galego e nom a espanhol disfarçado de galego. Precisamente a pronúncia genuína galega desaparece do galego formal pola maneira em que somos ensinados a ler na Galiza: aprendemos o espanhol e a seguir aplicamos o aprendido ao galego. Eu mesmo devo fazer um esforço para ler um texto galego e que soe a galego. Da minha cabeça, e cuido poder falar por todos os galegos, é o código de leitura do castelhano que sai, pois levo-o gravado a ferro desde a infáncia, a idade crítica para o aprendizado da leitura. Mesmo som incapaz de escrever umha frase em inglês e nom ir lendo-a como se fosse espanhol enquanto a vou escrevendo.

            Ligado ao que escrevim acima, sobre a sonoridade. Quando estou em Porto, num ambiente de balbordo de gente, com muitas pessoas a falar, a música que percebo é a mesma que percebo na Galiza numha situaçom similar. Quando estou em Lisboa, porém, a sonoridade é outra. Já nem parece a mesma língua que na outra cidade. Eu sei que as diferenças de pronúncia em Portugal vam desaparecendo de geraçom em geraçom, confluindo num standard. Mas esse sotaque, essa música dos falares do Norte, continuam sendo mui familiares para o meu ouvido galego.

          • Venâncio

            Nicolau,

            Compreendo inteiramente. Eu coloquei-me no estrito âmbito da Fonologia. Mas reconheço que, numa percepção mais impressionista, o falar nortenho português lembre inelutavelmente o galego rural.

            A esse respeito (e abarcando eu mais de 60 anos de escuta consciente), posso dizer que, vindo de fora, do Sul, nos anos 50, conheci essa fala nortenha num estádio bem mais marcado do que ela é hoje, em que a uniformização pela fala de Lisboa se acha bastante mais avançada.

            E não só no Norte. Também aqui onde moro (no extremo sul do Alentejo) só anciãos de aldeias (aqui diz-se ‘montes’) muito retiradas ainda se exprimem como há 60 anos. E eu próprio falo no português mais neutro que imaginar se possa. 😉

    • abanhos

      O falante castelhano confunde amiúde os falantes rurais galegos com portugueses. De facto o medo a serem confundidos com portugueses (o eficaz racismo bem incutido nos populares da Galiza) funciona como força a prol do uso do castelhano com muita mais força da que se possa pensar.
      De todos os jeitos o sucesso da normalização da democracia a moda de Castela/espanha, leva a cousas como esta
      http://praza.gal/cultura/tratase-de-sacar-o-galego-das-aulas-de-levalo-aos-patios-e-a-vida-cotia
      Quando eu ia a escola anos sessenta do século passado, a língua da aula era o castelhano e a unica língua no pátio e da vida que se vivia, era a nossa nacional.

      Tenho também a anedota de portugueses empregados na hostelaria em Madrid, afirmarem-se como galegos

      Nem te imaginas a quantidade inumera de vezes que aos meus filhos urbanos, os tratavam de portugueses…simplesmentes por falarem

  • luiz

    O artigo magnífico,
    parabéns!

    A solução que eu posso enxergar :
    horas e horas de rádio e tv em português, não há uma outra alternativa de êxito.
    Aquilo que entra pelos ouvidos sai pela nossa boca. Impossível construir um registo culto a que (inconscientemente) adiram as pessoas não rurais se não tivermos referentes audiovisuais de garavata e pasta de negócios a falarem na nossa lingua.
    Sem telejornal da RTP não teremos nunca galego oral culto.

    Roteiro político:
    Cumprir a Carta das linguas minoritarias
    Cumprir o aprovado em Parlamento galego e congresso espanhol respeito da recepção das tv.

    • Carlos

      Olá, Luiz.
      Concordo plenamente. É mesmo assim.
      Relativamente à possibilidade de recebermos os canais de TV portugueses, como é que está atualmente o assunto? Essa reivindicaçom já é antiga…
      Abraço

      • abanhos

        Se castela/Espanha não permite que as emissoras de TV da Catalunha cheguem a Valência… Connosco poderás ter palavras, porém os feitos teimudos não remoem

  • abanhos

    O artigo é excelente.
    A Galiza vive um processo de perda de lingua…e o mais surprendente… Sempre com o sucesso nos avanços da normalização que não deixaram -os que vivem do “come-lo caldo” do negócio, e politicos que nisso tem o seu negócio, de parabenizar e abençoar

  • Paulo Gamalho

    Parabéns, Elias! Este tema tem que voltar a ser central no debate. [email protected] temos que fazer um esforço, em particular o professorado. Só mais um exemplo entre mil: a mestra de primário de uma escola pública ensinando as letras galegas em feminino: a “b”, a “c”, a “d” … Desleixo total. Triste.

    • Nicolau

      Precisamente. Começa-se ensinando os nomes das letras em espanhol e a seguir a «juntá-las» à maneira espanhola: «La P con la A = PA; la P con la E = PE…» Mas em galego o P com o E pode dar PÊ ou pode dar PÉ. Que fazemos com isto? Podem-se implementar dous distemas distintos de leitura nas nossas aulas, um para galego e outro para espanhol? Poder, pode-se, evidentemente. Mas que probabilidades hai de que se faga isto?

      • Venâncio

        Agora imagina, Nicolau, que, por intervenção divina, o Português era declarado “língua da Galiza”. Alguma coisa mudaria? Claro que não. Tanto mais que aqueles que hoje rogam aos Céus que intervenham não sabem, eles mesmos, haver-se com as 7 vogais orais.

        Existe um vídeo no YouTube em que um grupo numeroso de galegos canta “Grândola, vila morena”. Lindo? Muito lindo. Mas causa arrepios ouvi-los pronunciar unanimemente “Têrra da fraternidade”.

        E há outro vídeo em que crianças de 6 ou 7 anos lêem a letra duma canção portuguesa em que aparece “amarelo”. E como é que a pronunciam? Pois todos irmãmente Á MÁ RÊ LÔ. Pois bem, nem uma só destas vogais soa assim em português.

        Podemos ter a certeza: um “Português língua da Galiza” seria, no espaço de uma só geração, eficientemente triturado pelo Espanhol. Na folologia, na sintaxe e na semântica. O Espanhol não brinca em serviço.

        • Nicolau

          E dou-lhe a razom. Mas nom é necessário falar hipoteticamente: o português (que eu chamo galego) JÁ É triturado sistematicamente polo castelhano. Ensinar «português» na Galiza sem reconhecer previamente a unidade lingüística galego-portuguesa é ensinar umha língua estrangeira. E umha língua estrangeira nom pode ser triturada polo espanhol. Nom sei se me explico…

          Da mesma maneira que um português nom necessita conhecer a variedade brasileira da sua língua para aprender bem a sua, os galegos nom necessitaríamos aprender português Pt ou Br para conhecermos a nossa… se a situaçom sócio-lingüística fosse a normal. Mas necessitamo-lo, certamente. Necessitamos o reforço das demais variedades de galegoportuguês em todos os ámbitos, a pronúncia entre eles. Por exemplo, as crianças a que alude nesse vídeo, se ouvissem constantemente a palavra «amarelo» ou «terra» vindas da boca dum português, dum brasilerio ou dum paleofalante galego, com certeza que, no mínimo, pronuncariam esses «és» abertos (para o resto das vogais, já haveria diferenças, como as que hai entre Pt e Br). A isto ajudaria reconhecer oficialmente (e na prática, nos usos) a unidade lingüística galego portuguesa. Nós trabalharíamos no português, mas partindo do nosso português, do nosso galego, a contar com o reforço que as demais variedades sempre presentes nos ofereceriam.

          Em Espanha é habitual ver na TV apresentadores de hispánoamérica que conservam a sua fala, mesmo em programas infantis. Seria produtivo que na TVG, por exemplo, aparecesse algum apresentador falando à portuguesa ou à brasileiria. Mais produtivo, mesmo, que o «aborrecido discurso reintegracionista» de sempre (eu incluído, claro)

          …Antecipo-me a sua réplica: ainda assi, esse galego reintegrado no seu tronco comum seria triturado polo espanhol. Certamente, mas gosto de pensar que o seria menos. Nunca o saberemos.

          • Venâncio

            Nicolau,

            O discurso da unidade (Vc fala duas vezes em “a unidade linguística galego-portuguesa”) é um discurso ideológico.

            O ponto de vista em que procuro manter-me é o da História. E a História (a do período 1450 – 1730) mostra, sem a mínima dúvida, que o Português, se subordinado ao Espanhol, perde. E perde à grande.

            Nesse mesmo período, 95% dos neologismos cultos chegados ao português já existiam, e eram já correntes, em Espanhol, essa língua que todos os portugueses cultos compreendiam, liam e até usavam Os portugueses, mesmo quando politicamente independentes, acomodavam-se, pois, à realidade da língua espanhola.

            Essa, a História do passado. A do futuro nunca seria diferente. Um “português, língua da Galiza” estaria incomparavelmente mais subordinado ao Espanhol do que naquela época aludida. Sim, uma Galiza bilingue em Espanhol e Português soçobraria antes ainda de poder tomar forma. Nesse sentido, a boa notícia é que o Português nunca seria “triturado”, pois não teria sequer tempo para isso. 🙁

            Em suma, o modo como alguns de vós falais de oficializar o português na Galiza é duma imensa leviandade, por ignorar a simples realidade histórica. E é altamente irresponsável, por estar a enganar gente jovem e generosa.

          • Venâncio

            É nesse contexto, Elias, que a proximidade prosódica do galego genuíno e do português oferece já uma pequena vantagem. Como se com isso se rebaixasse um nadinha o degrau.

            O verdadeiro trabalho estará noutros domínios: o da gramática, o do léxico, o da pragmática. Mas a viva familiaridade sonora dos nossos meios de expressão já cria um atractivo. E a promoção duma prosódia “rural” galega, também ela ajudará a manter o espanhol à distância.

          • Jlvalinha Jlvalinha

            Fernando: É isso mesmo, isso é o que defendemos muitos, mais dos que se pensa…

          • Carlos

            Interessante, caro Venâncio.
            A título de curiosidade, como evoluiu a influência e o conhecimento da língua espanhola em Portugal durante a Contemporaneidade? Perante a progressiva hegemonia do francês e do inglês durante os dous/três últimos séculos, os portugueses cultos, como se refere, continuárom a prestar atençom ao espanhol, tentando ter certo conhecimento do idioma, ou a preponderáncia das outras duas línguas indicadas tornou quase impercetível a influência do castelhano?
            Como sempre, obrigado!

          • Venâncio

            Caro Carlos,

            A década de 1720 foi crucial em matéria de influências linguísticas externas em Portugal. É como se a publicação do grande dicionário de Raphael Bluteau (um frade francês radicado cá) tivesse significado o esmorecimento da influência do Espanhol e dado o sinal de partida para a francesa, que vai ser fortíssima, ela também.

            Estou a simplificar um tanto, já que a influência francesa já existia e a espanhola continuou até hoje, só que mais discreta.

            A questão daquele dicionário monumental (só possível com o ouro do Brasil, tal como o Aqueduto das Águas livres e a talha dourada das igrejas) é complexa. Bluteau tudo fez para interessar a elite letrada espanhola pela obra.

            No meu artigo “O castelhano como vernáculo português” (Limite. Revista de Estudios Portugueses y de la Lusofonía, nº 8, Universidad de Extremadura (Cáceres), 2014, pp. 127-146 ), conto tudo isto em pormenor. Se estiveres interessado no artigo, contacta-me para [email protected]

          • Venâncio

            O Dicionário de Bluteau (que ele chamou Vocabulário) foi feita em 10 grossos volumes e está descarregável em http://purl.pt/13969

          • Nicolau

            Venancio:

            Penso que estamos a falar da mesma cousa. Talvez a forma em como eu o expressei poda confundi-lo. O sr. dixo: “Importa, pois, que investais no Galego, aproveitando sim o Português” e eu dixem: “Nós trabalharíamos no português, mas partindo do nosso português, do nosso galego, a contar com o reforço que as demais variedades sempre presentes nos ofereceriam”.

            O da “unidade linguística galego-portuguesa”, ao menos tal como eu intrepreto (nom som lingüista), nom implica que nós tenhamos que falar à lisboeta. Nós já temos o nosso português: o galego. E consevando, restaurando e potenciando a nossa pronúncia genuína, mesmo estaremos a torná-lo “mais português”. Eu sei que chamar “português” ao nosso galego é um contasentido histórico (antes, é ao revés). Mas nós, galegos, nom nos deveríamos importar por identificar a nossa língua com o nome do país que a levou polo mundo adiante. A expressom “português da Galiza” nom substitui o termo “galego”, antes acompanha-o, como um subtítulo quando necessário.

  • Elias Torres

    Obrigado polos comentários, a amabilidade e a simpatia.
    Venâncio, a respeito da tua questão (“Eu gostaria de que a resposta fosse sim. ;-)”, tenho, mesmo de [email protected] falantes de espanhol, mas, atenção, de há tempos… Na atualidade, acho que, estendidas as falas galegas na Galiza através da televisão, sobretudo a partir da década de 90, isso, penso eu, acontece menos, para @s [email protected], porque há traços mui distintivos (gheada/tetacismo). Já de pessoas fora da Galiza espanhol-falantes, espanholas ou não, também tenho, e muitos. E podemos estender este fenómenos, por diversos círculos concêntricos de distância, a falantes doutras línguas e latitudes, que logo acham identidades linguísticas de modo espontâneo.
    O valor da prosódia e, menos mas mui importante, da realização fonético-fonológica é tão vigorosa que tenho assistido a usos por parte de pessoas galegas impecáveis do ponto de vista morfo-sintático e léxico-semântico da nossa língua comum, perfeitamente homologável com as falas portuguesas, cuja interlocutora, portuguesa, passava para espanhol (já conhecemos esta tendência) por causa da prosódia; e relatos de [email protected] [email protected] a não mudar e a afirmar que, com quem melhor se entendiam linguisticamente, era com as pessoas da costa galega, mais particularmente da Costa da Morte (mesmo com os seus castelhanismos de toda a índole exceto os do âmbito prosódico e fonético-fonológico).
    Eu gostava de fazer estudos desta índole, do ponto de vista da cultura (o que está em jogo é um bem e umha ferramenta culturais de primeira magnitude, um modo de estar no mundo, unido a muitos outros), mas falta dinheiro e tempo para isso, ainda que sempre há outras vias…). Pode isto recuperar-se? Pode: havendo acordo no ensino, nos meios de comunicação, na formação do professorado, pode. Ouvir [email protected] linguí[email protected] doutras partes do mundo será de grande ajuda; mas será preciso um processo endógeno , cultural (não linguístico, não enfrentá-lo como um problema técnico) e que alguém, com força e atração, o torne moda… Porque esta é umha questão de coesão social e de integração comunitária. Mais do que esperar sebasticamente soluções, podemos começar a desenhar estratégias próprias e positivas: o caminho pode ser fascinante, passo a passo.

    • Ernesto V. Souza

      Este comentário já vale por outro artigo 😉

  • Severino

    Achei o artigo muito interessante. Porém, discordo numa coisa. Eu conheço portugueses que moram cá há décadas e não falam castelhano e na cidade em que moro todos os brasileiros falam castelhano com os filhos.