A penha o passa guai/A penha passa-o guai
No período de maciça recuperação de usos do galego do ponto de vista individual, que podemos situar como central nas décadas de setenta e oitenta do século XX, setores, diversos em muitos casos, castelhano-falantes em origem, começarom a usá-lo. Esse processo continua na atualidade mas provavelmente em menor medida que nessas décadas; não chegam para compensar quem o vai abandonando ou quem já não o usa para situar o uso oral do galego como maioritário na Galiza. Bastantes daquelas ou estas pessoas fizerom um esforço importante, técnico e social, para mudar de usos. Não era fácil socialmente, ainda que, por vezes, encontravam a compensação de fazer parte doutro grupo, de distinguir-se ou de conciliar essa decisão e prática com outro conjunto de ideias sobre a Galiza e a sociedade.
O processo foi coincidente no tempo com a persistência de preconceitos em relação ao uso do galego (entre as quais, ainda que de diferente natureza, gheadas e ausência de tetacismo -o mal chamado sesseio, como se fosse o uso marcado-; mas, sobretudo ter acento galego; ter um sotaque, umha prosódia consideradas baixas e vulgares, da aldeia, em definitivo, galegos; como baixas e vulgares eram consideradas as pessoas que o usavam); e coincidente igualmente com a sua progressiva entrada no ensino, com dominante insistência em aspetos da escrita (e em determinado léxico, algum em quase desuso) com abandono total ou quase da atenção à oralidade. Estes setores espanhol-falantes em origem forom fazendo os seus esforços, maiores ou menores, por colocar os pronomes conforme à norma galega e por utilizar algum léxico diferencial em relação ao espanhol (já o sistema vocálico ficava longe e confuso); fundamentalmente. Mas em acento, nada…: além de vulgar seria visto como artificial e um peso já excessivo; isso em casos; na maioria, nem tão sequer estava no seu horizonte de possibilidades.
O espanhol que se deitou fora pola porta, entra pola janela: a tendência em parte ao pidgin, ou à crioulização paira como ameaça…
E houvo e há mais algumha cousa: numha situação de conflito como a galega, o uso ganhava, sobretudo, valor simbólico: ubiquação de quem o usava em determinado campo ideológico (assim era e ainda é sistematicamente percebido socialmente), marca distintiva; de regra, um simbolismo político, social, cultural, de tipo e proposta nacionais (de nação política ou cultural, ou, até, simbólica ela também). Esse valor, ao lado da ausência de modelos fiáveis e acessíveis (exceto o diferencialismo e o hiperenxebrismo em determinados âmbitos), os pré-conceitos (anti-)rural(istas), que contribuíam para anular ou mitigar a necessidade de elaborações estándares, cultas, e, especialmente, de diferentes níveis e registos, e a esmagadora presença, pressão e prestígio do espanhol, fizerom com que hoje a qualidade linguística do uso do galego oral desses setores seja, em não poucos casos, bastante pobre. Essa índole simbólica sobrepõe-se à procura dum uso correto (em função da norma referencial de cada quem), particularmente em setores citadinos, normalmente situados em âmbitos da esquerda e do nacionalismo ou do independentismo: convivem assim, nesse campo, pessoas extremamente cuidadosas com outras que não o são tanto; pessoas de uso requintado (infelizmente tentando evitar, em casos, ser tomados como pedantes quando o que fazem é tentar usar corretamente a sua língua e pessoas que usam massivos castelhanismos, léxicos, sintáticos (abandonamos aqui o âmbito fonético-fonológico e prosódico), bem por inconsciência ou falta de atenção, bem porque, à procura dumha expressão moderna, anti-sistémica, alternativa, lá vai a enxurrada de “a penha o passa guai em Cies, tio, em plam…”. Usos, para os quais não encontram substitutos e aliás, coincidentes com galego-falantes em origem, com maior ou menor consciência ou compartilhamento desse caráter simbólico; algumhas destas, utentes do galego sem a ele atribuir ou mesmo rejeitar no seu uso qualquer marca simbólica de índole política; preservando nele, em todo o caso, um elemento simbólico familiar ou rural(ista).A conclusão é que o espanhol que se deitou fora pola porta, entra pola janela: a tendência em parte ao pidgin, ou à crioulização paira como ameaça (algo sentido por muitos setores; lembro pessoas de importância na construção da Norma ILG_RAG pedindo importação de léxico português, para contra-restar o castelhanismo maciço; recuperações ou adoções de feiras e carros são sintomáticos). Ao ir a língua deturpando-se, o símbolo vai igualmente perdendo força, desbotado e esvaído, que fica mais em evidência quando se sai do ambiente galego ou da Galiza: aqui, no quadro da intercompreensão e da presença habitual do espanhol, tudo flui sem muito reparo nas carências; mas a sua intercompreensão com o espanhol (referente ainda de oposição para algumhas pessoas) é nítida e sentida como excessiva, por vezes (a não tradução em emissoras espanholas do uso oral galego é prova disso); e, quando se fala com umha pessoa portuguesa (além da frequente tendência desta para passar-se ao espanhol) repara também a utente galega nas suas carências… (quando estiver com umha brasileira ou africana de língua portuguesa, por exemplo, acresce que ela não vai passar tão facilmente para espanhol, em geral). E assoma essa terrível sensação de não possuir umha língua forte e autónoma, com as variantes que forem…
Pessoas, então, que subjetivamente se colocam num plano de alta defesa da língua (nos seus usos individuais e sociais; na sua hegemonia) estão, objetivamente, contribuindo para o seu desaparecimento quanto valor cultural, social e comunicacional autónomo; simbólico também, por inútil no uso, auto-definição e delimitação.
- Texto originariamente publicado em Viva Cerzeda
