Fuxam os ventos e os seus lindos cantares galegos



fuxam-os-ventos-foto-de-abrigueiro-comSomos bastantes os galegos e galegas que temos na nossa lembrança, certamente com verdadeira saudade, o grupo folclórico Fuxam os Ventos e as suas formosas canções populares galegas. Junto com aquelas em que musicaram os mais lindos poemas dos nossos poetas mais queridos, entre os que sobressaem os de Manuel Maria, o poeta da Terrachã. Ainda eu me lembro, não sem nostalgia, a atuação do grupo na quinta edição das Jornadas do Ensino de Galiza e Portugal, que tiveram lugar em Compostela em agosto de 1981. Por isto, dentro da mini-série que iniciei com os depoimentos dedicados ao grupo galego Milhadoiro (que também atuara nas quartas Jornadas do Ensino celebradas no Liceu “A Paz” da Corunha em agosto de 1980), e ao português Maio Moço, dedico o presente artigo ao coletivo Fuxam os Ventos, criado na cidade de Lugo no ano 1972. É este o número 53 da série de artigos dedicada à Lusofonia.

UMA PEQUENA BIOGRAFIA DO GRUPO

De forma sintética apresento uma singela biografia de Fuxam os Ventos.

fuxam-os-ventos-foto-de-memoria-de-sadaEra o ano 1972 quando se forma o denominado Grupo Folk 72 na cidade de Lugo. E, depois de atuar no festival de As São Lucas de Mondonhedo, decidem batizar o grupo com o nome da canção com que ganham o primeiro prémio, intitulada “Fuxam os Ventos”.

Em 1973, no 3º Festival de Música Ria de Ares (Ponte d´Eume), conseguem também o primeiro prémio. Mais tarde, já em 1976, sob o título de Fuxam os Ventos, gravam o seu primeiro disco. Nos seguintes anos vão saindo à luz outros dos seus discos, que recolhem um grande sucesso: O tequeleteque (1977), Galiza canta ao neno (1978), Sementeira (1978), Quem a soubera cantar (1981), Noutrora (1984), Sempre e mais depois (1999), Na memória dos tempos (2002) e Terra de sonhos (2009). Em 1974 o grupo participa também em festivais musicais de Ferrol e de Madrid. No seguinte ano sucedem-se dentro do coletivo algumas dissidências, devidas ao modelo musical a seguir: cultivar um folclore de visão universalista ou, pelo contrário, um folclore mais comprometido com a cultura e a identidade e realidade galegas, modelo que, afinal foi o que triunfou. Cujo primeiro trabalho foi dedicado ao Natal da Galiza, sob o título de “Galiza canta ao Neno”.

fuxam-os-ventos-foto-por-masletras-comNos anos seguintes o grupo começa a ter um grande sucesso nos seus recitais e atuações, com um roteiro impressionante por Catalunha, Euskadi, Lisboa, Bruxelas, Paris, Zurique e Brest, entre outros lugares, chegando a atuar nas edições de 1978 e 1979 do Festival Intercéltico de Lorient (França). Com tanta popularidade, nesta altura iniciam as gravações dos seus mais importantes discos, editados pela Philips-Fonogram. E iniciam um período de uma atividade musical imensa, com mais de um cento de concertos por ano. O seu quinto disco “Quem a soubera cantar”, fora editado pelo selo galego Ruada, e com ele pretendiam apoiar a primeira editora musical galega, que infelizmente terminou fechando e fracassando. O disco “Noutrora” fora editado em 1984 por Fonomusic, continuando o grupo com as suas atuações tanto na Galiza como fora da nossa terra. Em 1989 o coletivo tem a sua última atuação em direto. Que rompe em muito poucas contadas ocasiões: na Festa Labrega de Lâncara (1993), organizada pelo sindicato Labrego Galego, para comemorar a supressão da quota empresarial agrária; em 1997 no 25º aniversário da Associação “Auxília” de Lugo, com que o grupo sempre colaborou, e em 2007 na leitura do pregão da Feira de Artesãos de Instrumentos Tradicionais, celebrada dentro do Festival de Pardinhas em Guitiriz, interpretando seis canções do repertório histórico do grupo.

fuxam-os-ventos-foto-por-discogsEm 1999, depois de quinze anos sem editar, gravam o disco “Sempre e mais depois”, com temas musicais tradicionais na sua totalidade, e, em 2002 dão a lume o disco “Na memória dos tempos”, gravando também para o disco de cantares infantís “Pelo gato 24”, que em 2007 editou a Associação de Gaiteiros. Em 2009, dentro do disco “Terra de Sonhos”, reeditam as canções mais populares da sua história musical. Também neste mesmo ano, no dia 12 de outubro, dentro do programa das festas do S. Froilão de Lugo, na “Horta do Seminário”, perto da muralha romana, numa noite mágica, teve lugar uma das últimas atuações em direto do grupo, que encheu de emoção milhares de pessoas de todas as idades que formavam o auditório. Embora muito mais àqueles que de jovens tiveram a sorte de desfrutar dos cantares de Fuxam os Ventos nos anos setenta e oitenta. Que eram a verdadeira “voz do povo”.

Durante toda a sua vida musical, desde a sua fundação, o coletivo teve sempre um compromisso social, que motivou não só aos intelectuais galegos, senão também ao povo rural, que se sentia muito atraído pelas suas canções nas atuações em festas de aldeias e pequenas vilas (ainda lembramos o grande sucesso que teve na localidade de Amoeiro na década de setenta). No seu magnífico trabalho de tantos anos, o grupo recolheu infinidade de canções, de cantigas e de cantares tradicionais das pessoas mais velhas das aldeias galegas, além de incluir temas de composição própria, e também canções de protesto e poemas de muitos autores galegos, num momento em que era necessário opor-se à ditadura franquista, promovendo também a reivindicação de um povo, um idioma e uma cultura galega próprias.

fuxam-os-ventos-capa-disco-noutroraAs letras das cantigas de Fuxam os Ventos, tanto as próprias, como as populares e as poéticas dos nossos escritores, abrangeram temáticas muito amplas e reivindicativas, relacionadas a maioria com a nossa emigração, a autonomia, a ecologia, a rica natureza galega, as nossas artes, a infância, a escola, o ensino, e até mesmo a pobreza. Muitas das letras das canções procediam da tradição oral galega, certamente muito rica, com que o grupo sempre teve um contacto intenso. E mesmo todos os aspetos mencionados se fundiam num só tema que era a nossa Galiza, pois já o só feito de cantar em galego era muito reivindicativo, e quase revolucionário. Ao estar tantos anos proscrito o nosso idioma na escola, na igreja e em todos os atos oficiais e administrativos.

O Grupo Fuxam os Ventos, esteve composto pelos seguintes músicos e cantores: Antão Castro (sanfona, mandolina e voz), José Vázquez (percussão tradicional e voz), Pedro Lucas (gaita, flautas e voz), Joam L. Fuertes Saavedra (bouzuki, guitarra, violino e voz), Moncho Díaz (guitarra, flautas e voz) e os cantores Carmem Vázquez, Tereixa Novo, Maruxa Focinhos e Afonso Fernández. Em 1983 causaram baixa no grupo para criar outro coletivo com o nome de A Quenlha, os músicos José Luís Rivas Cruz (“Mini”), tocador de sanfona, guitarra e pandeiro, incluído o canto, e Baldomero Iglésias Dobárrio (“Mero”), tocador de guitarra e cantor. Por pequenas etapas e tempos, fizeram parte do coletivo mais de trinta pessoas, e chegou a incorporar também um trio de música tradicional.

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

0.-Fuxam os Ventos: Alalá nº 124.

     Duração: 44 minutos. Ano 2016. Produtora: TVG.

1.-Fuxam os Ventos: Álbum completo de 1976.

     Duração: 39 minutos. Ano 2015.

2.-O Tequeletequele: Álbum completo de 1977.

     Duração: 36 minutos. Ano 2015.

3.-Sementeira: Álbum completo de 1978.

     Duração: 37 minutos. Ano 2015.

  4.-Galiza canta ao Neno: Álbum completo de 1978.

     Duração: 37 minutos. Ano 2016.

  5.-Quem a soubera cantar: Álbum completo de 1984.

     Duração: 39 minutos. Ano 2015.

  6.-O Carro: Um poema de Manuel Maria.

     Duração: 11 minutos. Ano 2016. Produtora: TVG (Programa Luar).

 

  7.-Fuxam os Ventos: Mulher.

     Duração: 6 minutos. Ano 2008.

LETRA DO CANTAR “SEMENTEIRA”

Sementar sementarei
Loguinho de clarear
Em tanto no povo medre
Um meninho, um velho e um cantar.

Um meninho rebuldeiro
Que fale na língua mãe
Que suba aos pessegueiros
A fruta verde a roubar.

Sementar sementarei.

Um velho que dê conselhos
Um rosto de fumo e pão
Que conte contos aos nenos
Do cuco e do paspalhás.

Sementar sementarei.

Um cantar de redenção
Um velho e novo cantar
Que troque a desolação
Num limpo e claro alvorear.

Sementar sementarei.

Logo, deixai-me morrer
Entre dous regos queimados
Quando venham os solpores
Dos homens esfomeados.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

fuxam-os-ventos-caricatura-do-grupoVisionamos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinemaforum, para analisar o fundo (mensagem) deles, assim como os seus conteúdos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada ao grupo folclórico galego Fuxam os Ventos. Na mesma, além de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros, discos, CDs e monografias.

Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino uma Audição Musical das mais famosas peças do grupo, em que participem alunos e docentes. A escolha das peças musicais da audição podemos fazê-la dos seguintes discos do grupo: O tequeletequele (1977), Sementeira (1978), Galiza canta ao neno (1978) e Na memória dos tempos (2002).

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.


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