Enhe que enhe



Preludio

Ad libbitum

Sou o que se conhece como reintegracionista, quer dizer, acredito galego e português nas suas múltiplas variantes fazerem parte do mesmo sistema linguístico, serem a mesma língua. E dito isso, se calhar até não sou reintegracionista no referente à língua en quanto acredito, como diria Manuel Lopes Zebral, o galego estar integrado desde há séculos. Não assim as políticas linguísticas.

Alborada

Cadaggio

A política… sempre a política. Já estamos a politizar. Madia leva. Se uma língua é algo científico, algo asséptico.

Bom, se considerarmos uma língua como uma simples ferramenta comunicativa desenvolvida por uma dada comunidade humana ao longo dos séculos, então sim, uma lingua é algo totalmente asséptico. É simplesmente um código sonoro, gráfico, gestual… empregado por essa comunidade para se comunicar.

Ora, considerarmos uma língua simplesmente uma ferramenta é, se calhar, reduzirmos muito a definição de língua.

Do meu humilde ponto de vista, uma língua transcende-se a si própria, e não pode ser entendida na sua plenitude se não a olharmos parelha à comunidade que a desenvolveu ao longo do tempo, e à comunidade que no presente a emprega.

E aí sim. Aí sim não podemos fugir da política.

Em comunidades com duas línguas, onde quase sempre há um processo de substituição linguística, escolher falar uma ou outra língua tem muito de política. Desenhar modelos ortográficos para as línguas, especialmente para aquela a ser substituída, tem muito de político. Se a língua própria fazer parte duma comunidade de falantes que vai para além das fronteiras políticas desse território, fazer com que a comunidade local acredite a sua língua ser local, tem muito de político.

Por isso, sim, política. Política linguística, política institucional, política editorial.

Foliada

Allegro

Todo isto deriva de que uns dias antes do Día da Galiza, estreou-se um capítulo do programa da CRTVG DígochoEu, no que praticamente se vinha a afirmar que esse símbolo de espanholidade que é o Ñ era um invento medieval galego, a aparecer inclusive no que, naquele programa, afirmavam ser o documento mais antigo em galego na Galiza, o Foro do Bõ Burgo de Castro Caldelas, datado no seu momento em 1228 da era común, ano que figura no escrito como 1256, (conforme ao reconto dos anos segundo a era hispânica, MCCLXVI).

Tudo depois duma descrição que começava “que non che conten contos!”

Duma banda, o caso é que a análise diplomática do documento levou a corrigir a afirmação de ser esse primeirinho documento galego da Galiza, passando a ser considerado como uma tradução posterior ao romance dum texto original em latim que sim teria sido redigido em 1228 (o gato que faz as vezes de leão no brasão real já era uma pequenina dica…).

Doutra banda, e por entrarmos no fundo do asunto, a arguida presença do enhe nesse documento era justificada mostrando, não o documento original, mas uma transcrição feita há anos em que, efetivamente apareciam palavras como viçiño ou señor enquanto no original a grafia que aparece a representar o som palatal nasal e um simples n, e assim, viçino e senor.

E além disso, estamos a falar de língua ou de fronteiras políticas?

Quer dizer, encontrar o primeirinho documento em galego tem maior interesse do que achar os primórdios da língua? Eu acho que qualquer outro interesse não surge senão dum sentimento chauvinista…

No que a mim toca, estamos a falar da língua de nosso, da língua que nos une, não só como povo galego, mas com uma imensa comunidade de falantes nos cinco continentes habitados. A nossa língua, a mais falada no hemisfério sul (facto do que, é claro, podemos presumir sem por isso justificar nenhum imperialismo passado; o passado é o que é).

E se falarmos da nossa língua, não podemos cingir o nosso olhar às atuais fronteiras políticas, fruto de processos e intenções que pouco têm a ver com a língua, se não é para o seu uso como elemento de submetimento do povo que a fala.

Portanto, se quisermos dar uma olhada pelas origens da nossa língua como herança histórica, se calhar devíamos obviar orgulhos localistas e pesquisar, a sério, os traços na documentação histórica que assinalam o nascimento, formação e consolidação duma língua. E quem quiser saber desses primeiros passos escritos da nossa língua, bem faria com ler o trabalho de J.A. Souto Cabo, nemo propheta in patria que conhece muito bem as origens do galego-português a se afastar de fronteiras políticas que não significam fronteiras linguísticas.

Moinheira

raVivace, pela peneira

É claro, em seguida começaram a surgir mensagens em RRSS, nomeadamente no Twitter, a assinalarem o erro do DígochoEu ao empregarem como fonte para esse episódio a transcrição e não a fonte original, para fazer a afirmação que faziam da galeguidade do enhe.

Assim, durante dois dias usuárias de dita rede publicaram tuítes a mostrar imagens do documento original em que se podia ver que o som palatal nasal, o que aparece em palavras como manhã ou anho, no dito documento aparecia representado, como dissemos, com um n.

E também como a origem da letra enhe do castelhano não é tão aplicável para à evolução do galego.

Por pasos. A forma Ñ aparece como uma forma de abreviar um duplo n, nn, com a intenção de aforrar tempo (imagino que as escrivães daquele tempo quereriam escrever tão rápido quanto nós queremos) e, sobretudo, espaço (quando trabalhar com crianças o tema da escrita antiga sempre gosto de dizer a piada de vacas e cabras serem um recurso limitado e também as suas peles).

Então, dum latino annus, na documentação medieval foi-se passando a um anno, depois año, que ficou em castelhano como año. E, do mesmo jeito, da latina canna deu-se uma evolução que acabou num castelhano caña; ou um cunnus acabou por dar esse castiço palavrão que Tejero disse depois do “se sienten…”

Ora, o que se passou no galego? É evidente, esse duplo nn acabou como um só n em ano e cana. De facto, no Foro de Castro Caldelas original aparece a grafia año, mas como jeito de abreviar esse anno ano que, de seguro, ao lermos o documento teríamos de ler como an-no ou ano, nunca como anho (o filho da ovelha). E, no que diz respeito ao palavrão, o Hyunday Kona nos países lusófonos chama-se Kauai por algo.

E com o anho seguimos, porque precisamente a mor parte das palavras galegas que contêm o som palatal nasal, na escrita, não derivam duma voz latina cum duplo nn, senão que evoluem doutros dígrafos como seniorem = senhor ou agnus = anho (agora sim).

Então, e sem esquecermos a alternância gráfica que aparece na documentação medieval para representar os sons (também não havia uma norma a unificar a ortografia) e que efetivamente há algum documento no galego-português daquela altura em que o som palatal nasal é grafado como Ñ (não estou eu certo de se é acertado chamar essa grafia nessa altura de enhe), não é tanta asneira considerarmos o facto de se padronizar o uso dessa grafia a representar esse som como fruto da influência da escrita do castelhano.

Também não podemos esquecer que Afonso IX (X para a historiografia com os olhos em Castela), chamado o Sábio, oficializou o castelhano como língua estatal (por simplificar, vamos obviar questões de presentismos e assim…), não muito depois desse 1228 do Foro de Castro Caldelas. Cantigas de loor à parte, o Afonso pouco fez pela nossa língua, e possivelmente também a sua, embora a falasse, ele sim, na intimidade.

O agarrado

Allegro, ma nom topo

E a equipe que cria os episódios do DígochoEu fez o quê? Informou do erro e fez uma retificação? Não retificou, mas fez um vídeo explicando o erro? Fez algo?

Pois, é claro, algo fez. Num alarde de humildade, colocou num tuíte uma imagem do documento original do Foro caldelão em que aparecia escrito algo como pona com uma linha horizontal por cima com o desafio “Que letra aparece xusto no medio desta imaxe? SPOILER: Está no Foro do bo burgo de Castro Caldelas”.

Asinha, quem isto escreve e como, se calhar, não deveria fazer diante de obvios clickbaits, entrou no baile e passou a escrever sobre o, acho eu, evidente. Após ver a coerência na escrita do documento, na imagem aparecia um N.

Quer dizer, a equipa do DígochoEu tentou fazer norma da excepção, e pôs uma imagem em que, acharam, aparecia algo como poÑan, e portanto aquela dita linha horizontal não era senão o traço superior dum enhe.

Porém, e vendo a coerência do escrivão do documento a representar sempre o som palatal nasal com n (lembremos viçinos, senor…), acho que não ía justo nessa palavra o caso concreto para que alguém de 2022 dissesse “eis o enhe!”. Não, de querermos fazer uma transcrição fiel ao documento, mas desabreviando as abreviaturas, teríamos de escrever ponan, porque no seu contexto o verbo pôr está flexionado na terceira pessoa do plural do presente do conjuntivo, e a dita linha horizontal está a representar esse n final do plural. Outra coisa é o que teriamos de pronunciar ao lermos o documento.

Refestejo

A piacere

Portanto, o que é que se passa?

Bom, em 2020, em pleno encerramento dentro dos nossos fogares, o DígochoEu surge como uma lumieira do bom galego, do galego bem falado. E, inclusive, a fazer uma tímida apresentação pública do reintegracionismo ao ser dedicadas as Letras Galegas desse ano a Ricardo Carvalho Calero.

E depois? Pois depois a linha editorial de programa foi passando por um processo de enfatizar as diferenças entre galego e português (é claro, falando em galego e português como línguas diferentes e diferenciadas, além de quase sempre tratar o português como algo monolítico e não como o que é, uma língua plena de variedades), a uma posição de, entendo que na busca de gerar tráfego em redes, provocação e incluso de hostilidade cara a posicionamentos que pulem abertamente pela unidade da língua.

E claro, o caso é que como bem saberá quem ler estas linhas, há uma Lei de aproveitamento da língua portuguesa e vínculos coa lusofonía, a Lei Paz Andrade, que não só não se está a desenvolver, senão que se vulneram os princípios reitores da mesma.

E diante disso, cabe-nos perguntar o porquê?

Porque esse aproveitamento da língua portuguesa fica em colaborações entre a TVG e a RTP nas que as pessoas da Galiza falam um galego cheio de castelhanismos tipo bueno, siempre…? Porque esse aproveitamento fica num programa que ressalta as diferenças e obvia que quando uma pessoa galegofalante ler um texto em português é muito possível que não aprenda nenhuma palavra nova porque são todas galegas?

Porque, em definitiva, desaproveitarmos a nossa língua?

Bom, a resposta é Espanha.

Explico-me.

Duma banda temos a direita espanhola cujo chauvinismo, no que diz respeito à língua, se resume em “el español es la lengua de todos”.

Doutra banda está a esquerda espanhola, que busca dissimular o seu chauvinismo com “todas son lenguas españolas, el castellano, el gallego, el vasco y el catalán” (as não oficiais já irão chorar a Cangas, de Onis, onde dom Paio).

Assim, da ótica espanhola com o catalão não há problema. É uma língua espanhola porque se fala dentro das fronteiras da Espanha (e se alguém falar no Roselló ou L’Alguer… a resposta é uma face a quadros). O mesmo acontece com o euskara, que em cima é uma língua troglodita e de laboratório (e se falarmos no Iparralde, te es un invento de los separatistas).

Ora, e se o que falamos na Galiza é o mesmo do que o português…? Como quadramos isso com as lenguas españolas.?

E o pior é que esse chauvinismo espanhol acabou inclusive por contaminar boa parte do galeguismo que acabou por aceitar como aforismo uma nação = uma língua, virando costas àquela toda gente que partilha a nossa língua no mundo.

Enfim. Como costuma acabar esse programa da CRTVG,

Te lo digo yo.

Abraão Herrero
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