Devolver os povoados ao povo



163-povoadosabandonados-pilarabades01_web

Pilar Abades

A meados do século XX as empresas do regime franquista constroem povoados para os trabalhadores das centrais hidroelétricas ou das exploraçons mineiras. Hoje, muitos deles estám abandonados.

Internet nom devolve demasiada informaçom sobre os povoados industriais na Galiza. Quando Bieito Silva decidiu centrar o seu trabalho de fim de mestrado nestas construçons nom topou umha bibliografia relevante para o seu estudo. Os povoados som pequenas urbes, completamente equipadas com centros de saúde, economatos, bares, pequenas escolas, praças e umha igreja. Muitos deles som e fôrom filhos da planificaçom económica do franquismo. Em 1941 funda-se o Instituto Nacional de Indústria que criará e administrará empresas públicas destinadas à exploraçom de recursos e construirá distintas infraestruturas: estradas, linhas ferroviárias, plantas térmicas e hidroelétricas. A procura do desenvolvimento dum tecido industrial vem acompanhada da edificaçom de soluçons habitacionais para umha populaçom ativa que, muitas vezes, tem que se mover forçosamente para o lugar de trabalho. Desenham-se e constroem-se assim os chamados povoados.

A maioria dos modelos destas contruçons derivam, paradoxalmente, do estrangeiro. Os seus arquitetos miram de esguelha para as Industrial Village inglesas, as Garden City ou as Company Town americanas. Cada empresa cria o seu modelo próprio de povoado, dependendo das necessidades. Entendia-se ao ser humano como mais um elemento da fábrica e os povoados formavam parte do recinto das mesmas. Estes assentamentos eram da ditadura franquista. Na Galiza, Fenosa edificará vários destes núcleos, sempre ao lado dalgumha das suas centrais hidroelétricas e encoros.

Cada empresa cria o seu modelo próprio de povoado, dependendo das necessidades. Entendia-se ao ser humano como mais um elemento da fábrica e os povoados formavam parte do recinto das mesmas. Estes assentamentos eram da ditadura franquista. Na Galiza, Fenosa edificará vários destes núcleos, sempre ao lado dalgumha das suas centrais hidroelétricas e encoros.

As pessoas que viviam nestas casas faziam-no em regime de aluguer. Muitos destes povoados desenvolvêrom um irmao gémeo: casas construídas polas famílias que habitavam os povoados. Isto vem motivado porque, como explica o arquiteto Bieito Silva, “a ti garantiam-te a vivenda até que te jubilaras, mas tampouco o sabias”. A situaçom podia mudar de repente. Entom, “muita gente, antes de efetuar umha inversom nestas casas ‑como arranjar um telhado- construiam a sua própria vivenda”. As Conchas, povo onde passou parte da sua infância, casa materna e onde vive a sua avó, é um exemplo deste fenómeno que tivo lugar na Galiza a partir da década de 40.

Bieito Silva: “A ti garantiam-te a vivenda até que te jubilasses, mas tampouco o sabias”

O encoro das Conchas e as lembranças das suas ocupantes
Na auto-estrada das Rias Baixas, trás o seu passo por Ourense e depois de deixar o polígono de Sam Cibrao às suas costas, topa-se o desvio para a AG-31. Seguindo o traçado destas estrada passamos Celanova, Bande e Os Banhos de Sam Xoám. Um sinal ao borde do asfalto indica a entrada aos restos do acampamento romano Aquis Querquennis. Este enclave, situado perto da beira do Límia, foi visitado em 1921 polos ourensanos Ramón Otero Pedrayo, Florentino López Cuevillas e Vicente Risco, quem começariam a exploraçom do lugar arqueológico.

163-povoadosabandonados_pilarabades_web

Blocos de vivenda do povoado de O Fontao, em Vila de Cruzes | pilar abades

A Guerra Civil impediu que os trabalhos arqueológicos prosperassem. O governo franquista planificou a construçom dum encoro, que empregaria as águas do Límia na produçom de energia dumha central hidroelétrica. Em 1948, o ditador Francisco Franco, inaugurava o encoro das Conchas. Baixo as águas quedavam restos do povo dos Banhos de Bande. A sua igreja foi trasladada, pedra a pedra, ao lado da estrada. Destino similar sofrêrom as aldeias de Aceredo ou Buscalque, separadas por apenas vinte quilómetros das Conchas. O filme Os días afogados narra o enterro das suas casas baixo as águas do encoro de Lindoso em 1992.

Ao lado do encoro das Conchas topa-se o povoado do mesmo nome e a aldeia homónima. A aldeia está hoje habitada, ainda que muitas vizinhas e vizinhos nom empreguem as suas casas como primeira residência, e acudam tam só durante as férias. O povoado envelhece quase vazio, com a exceçom dumha das vivendas. Parte da vizinhança, sendo consciente de que com a jubilaçom de Fenosa chegava também o fim do contrato de aluguer para as suas famílias, deixárom as casas da empresa. Da estrada nom é doado perceber a silhueta dalguns dos seus edifícios, a mansom dos altos cargos, o economato ou o centro de saúde.

Na mina de Santiago do Fontao trabalhariam forçosamente presos políticos do franquismo, entre eles o anarco-sindicalista pontevedrês Desiderio Comesaña.

Bieito Silva começou a estudar em profundidade estes povoados industriais a raiz dum trabalho de fim de estudos para o Mestrado em Meio Ambiente e em Arquitetura Bioclimática. Perante esta tarefa de propor a reabilitaçom de um núcleo, Bieito decidiu investigar o fenómeno do despovoamento na Galiza. “Nom há que esquecer”, incide, “que o projeto é de arquitetura”. Nom se tratava de paliar esta problemática dum ponto de vista sociológico, “senom arquitetónico”. Dentro da grande quantidade de núcleos abandonados “tratei de eleger um que me permitisse umha intervençom mais sustentável e económica”. Os povoados industriais apresentavam a vantagem de estar formados por vivendas idênticas nas suas dimensons e materiais de construçom. “E também no deterioro que apresentam”, assinala, “isto fai que a reabilitaçom seja mais singela do que um núcleo de casas tradicionais de pedra, com distinta tipologia e nível de conservaçom”.

163-povoadosabandonados-pilarabades03-web

Vista do povoado de O Fontao, em Vila de Cruzes | pilar abades

Bieito começou o estudo do que melhor conhece: o povoado das Conchas. A sua proposta nom contemplava a simples reabilitaçom das edificaçons. Outro dos problemas que topava na hora de recuperar a vida- urbanisticamente falando- para um povoado radicava na falta de serviços ou oportunidades laborais no seu entorno. Por isso, no seu trabalho, quijo dar mais um passo e propor a reconversom dum dos edifícios do povoado das Conchas, “um chalé para engenheiros que iam de visita de jeito pontual”, transformando‑o num centro de dia. “Converter a metade das vivendas para que residam famílias”, relata, “e a outra parte das vivendas para pessoas da terceira idade que se podem desenvolver por si próprias até certo ponto”. Estas últimas beneficiariam-se da proximidade dos banhos termais da zona, dum entorno natural, e seriam atendidas pontualmente polo centro de dia. Tratava-se dumha proposta no papel, mas também dum convite para a procura de soluçons ao despovoamento do rural.

Exemplos de recuperaçom: o povoado mineiro do Fontao

Dentro do seu labor de investigaçom o arquiteto estudou e visitou povoados que já foram reabilitados. Um deles foi o dos Peares. Outro o do Fontao, situado no concelho de Vila de Cruzes. Neste povoado residírom os trabalhadores dumha mina de volfrâmio que estivo em funcionamento entre 1934 e 1963 e entre 1968 e 1973. “Este povoado foi reabilitado e as casas- administradas agora pola Junta da Galiza- som agora vivendas de aluguer social”, conta Bieito, “a sua visita é umha experiência muito interessante”.

Este povoado mineiro, na época de máximo esplendor, chegou a contar com salas de cinema. Os seus anos de máxima produçom coincidem com a II Guerra Mundial e com a Guerra de Coreia. A mina fechou definitivamente em 1974, trás o qual o povoado ficou em estado de abandono. Arredor da riqueza do povoado nesses anos florescêrom negócios: padarias, tendas de ultramarinos, umha sala de dança e um campo para a equipa local, o Minas Clube de Futebol. Na mina de Santiago do Fontao trabalhariam forçosamente presos políticos do franquismo, entre eles o anarco-sindicalista pontevedrês Desiderio Comesaña.

Este povoado mineiro, na época de máximo esplendor, chegou a contar com salas de cinema. Os seus anos de máxima produçom coincidem com a II Guerra Mundial e com a Guerra de Coreia. A mina fechou definitivamente em 1974, trás o qual o povoado ficou em estado de abandono. Arredor da riqueza do povoado nesses anos florescêrom negócios: padarias, tendas de ultramarinos, umha sala de dança e um campo para a equipa local, o Minas Clube de Futebol.

O projeto de reconstruçom do Fontao foi obra do Instituto Galego de Vivenda e Solo e inaugurado no ano 2005 polo, na altura presidente da Junta da Galiza, Manuel Fraga Iribarne. No 2012, o edifício da igreja, o antigo auditório, e as escolas fôrom também reformadas para acolher o Museu da Minaria do Fontao. Nele guardam-se as lembranças do passado mineiro do povoado. Passado que segue latente no exterior em forma de numerosos barracons abandonados e nos letreiros em vermelho que lembram a perigosidade de passear por um lugar onde se praticou a minaria subterrânea e a céu aberto. As moradas topam-se numha zona de forte pendente que desce até o leito do rio Deça. Vários edifícios, entre eles o do antigo máximo cargo da mina, continuam abandonados detrás de cancelas oxidadas. Mas no povoado volta haver vida. A decoraçom exterior mostra o intento de apropiaçom das pessoas que o habitam. As flores, as figuras de barro, as caixas do correio, tentam dar personalidade própria às casas que, por outra banda, som exatamente iguais umhas do que as outras.

[Este artigo foi publicado originariamente no Novas da Galiza]

Raquel C Perez

Raquel C Perez

(Compostela, 1993). Nasci em Compostela, com raízes entre Touro e O Ribeiro, e criei-me em Cacheiras-cidade dormitório. Formei parte do conselho editorial do Novas da Galiza e mais do Salto Galiza antes de atracar como redatora em Nós Diario. Também participei no projeto Punto e Volta, arredor da música popular galega. Gosto da escrita cozinhada com calma, de caminhar polo monte, dos cafés e dos tendais.
Raquel C Perez

Latest posts by Raquel C Perez (see all)


PUBLICIDADE

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Esta Raquel conecta-nos com assuntos não muito frequentes no PGL, porém cheios de interesse, solta a sua caneta um jornalismo de intervenção bem interessante.
    Ela é pessoa para seguirmos, além disso, o nosso futuro, só pode dar certo, se as mulheres “tanguerem as juntas de bois”. e souberem marcar o caminho certo.
    Mulherres sábias, guias e mães.

    • Ernesto Vazquez Souza

      São interessantes mesmo e revelam que existe um jornalismo de altura e revezamento generacional no reintegracionismo e arredor… mas também são “textos de verão” artigos reciclados de publicações com as que há alguma cooperação.

      Com isto como em tudo o que evidenciam, para além dos próprios textos é que sempre apostamos por espaços próprios e diversificamos energias no canto de as agrupar… quando na realidade somos sempre mais ou menos a mesma gente…