O exercício mais natural e proveitoso do nosso espírito é o de conversar. Qualquer diálogo ensina e exercita à vez. Além disso, a discussão é boa, a diferença do que se costuma pensar, pois o acordo inteiro é frequentemente estéril. Que houver antagonismo nos juízos não nos tem de incomodar, mas sim despertar a atenção e excitar o interesse pela deciframento da realidade e a procura de soluções.
Se alguém nos contradizer de jeito cordial, analítico e racional instrui-nos. A racionalidade é uma conquista do nosso difícil processo evolutivo que não se pode perder. O filósofo Séneca assegurava que a terra e a mente não podem ser produtoras se não se cultivarem. É necessário dialogarmos sem teimosia acerca de todos os assuntos, procurando a verdade, seja de quem for. A consciência da humildade indicaria em boa medida uma inteligência superior e uma aproximação à sabedoria.
A nossa mente fortalece-se conversando com outras preparadas e rigorosas. Esse conhecimento, ganhado pelos outros na conversa e no diálogo, é sempre uma potência para o ser humano. Perde-se e degenera-se, no entando, no contínuo tratamento com os espíritos baixos e intolerantes. Platão, na “República”, proibia discutir com espíritos lerdos.
Os louvores hipócritas e a falta de sinceridade na abordagem dos temas são também coisas negativas. A pessoa deve-se expressar com valentia e autenticidade, de jeito que as suas palavras se acomodem ao pensamento, e com maior motivo no mundo da política.
Para além disso, tornou-se a linguagem em obscena. Até as mulheres não se salvam. Se calhar algumas entenderam que falar mal as igualaria com o homem. Às crianças desde pequenas se lhes permite dizer palavrões. Os pais atuais já não as corrigem e educam como os pais do passado. E toda esta impudicícia na palavra pode assinalar uma imoralidade crescente do espírito. Atua-se aos outros demais, não respeitando as formas sociais e a elegância. Parece ser que se quis uma democratização e igualação, vulgariçando e embrutecendo as relações sociais.
Conversar de maneira animada e cordial resulta imprescindível para a comunicação interpessoal. Porém, não se pode fazê-lo por fazer, sem sentido, não se podem manter sempre discursos fracos, instalados nas vacuidades mais simples, patéticas e anedóticas. O tempo vital é um bem escasso. Necessita-se em todas as oportunidades em que se possa profundizar nos assuntos, rigor e um bocado de inteligente senso de humor. Assusta a perda de tempo à que nos submete a televisão, ao introduzir nas relações os seus temas engraçados e intranscendentes. Hoje abundam em todos os campos as lérias, as palavras sem substância. Ficam cada vez mais longe aquelas maravilhosas e estensas tertúlias das cafetarias antigas, em que era um prazer escutar e conversar com pessoas com conhecimentos, que sabiam contar histórias de autêntico interesse e com um namorador estilo discursivo. Mas para podermos conversar e reflexionar bem necessitamos previamente saber, muitas experiências ou leituras. O bético Séneca dizia que a leitura era a que alimentava o pensamento.
Conversa-se pouco e mal, sem fio, porque se vive afastado da ilustração, da cultura impressa, perante a influência abafante da pseudocultura audiovisual, que é a que constrói, por causa da comodidade dos seus suportes e a superficialidade dos seus conteúdos, uma mentalidade chata, uniforme e alienada. Semelha como se não se falasse, porque já não se fosse capaz. Ao ler cada vez menos e menos obras de qualidade a gente conta com uma linguagem mais reduzida. Falar pobre e de jeito vulgar tornou-se infelizmente numa moda para os moços e moças, e numa rotina para certos radiodifusores juvenis. Estamos a derivar, como dizem os pedagogos, para um analfabetismo funcional e para uma incultura, que impossibilitam qualquer emancipação humana.
O adulto contemporâneo e a sua prole, após a devastação da memória, vivem ancorados num anódino imediatismo fatual, emprazados no seu limitado presente, instalados numa inconsciência passiva. Não se deseja aprender nada, quando o homem se deveria caracterizar, seguindo a Aristóteles, pelo seu apetite de saber. Não se possuem as imprescindíveis capacidades intelectuais interpretativas e críticas. Não se potencia a sensibilidade artística e a humana. Desapareceu o mistério e o poético das coisas e dos seres humanos que nos rodeiam, sendo substituídos pela apatia. Apesar de que nunca tantos estudaram bacharelato e chegaram à universidade o dom da palavra continua a ser escasso.
Falar bem constitui uma arte que se valoriza pouco e que é já estranha ou esquisita. Para alcançá-la reivindica-se, entre outras coisas, incrementarmos o nível de leitura e diminuirmos o império do audiovisual. Todo moço ou adulto deveria valorizar a qualidade da linguagem, e tentar conseguí-la. As palavras então surgirão fluidas, ajustadas, com toda a sua carga de expressividade. Recobraria-se nesse instante o gosto pela palavra e o gozo pela conversa.
