Bea Busto: “O país e a identidade defendem-se permitindo-nos o presente e o futuro, nom apenas o passado”



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charo lopes

Através Editora lança, como novidade do mês de fevereiro de 2021, o livro Um país a la gallega, A Galiza no No-do franquista  da docente, antropóloga e etnomusicóloga, Beatriz Busto (Compostela, 1979).
Publicamos agora, numha primeira entrega, algumhas das perguntas que figérom parte de um colóquio mantido com a autora e proximamente, numha segunda parte, esta entrevista será ligada a umha proposta audiovisual mais irreverente da feitura da  própria Beatriz Busto, onde a modo de apresentaçom online em diferido para estes tempos monásticos pandémicos,  entraremos em muitas mais linhas temáticas do seu livro que permanecem, por enquanto, aqui e agora em suspense.
Passem e leiam!

Antes de mais, queríamos que contasses o porquê desse título tam engraçado e culinário como Um país a la gallega… Seique o livro  está cozinhado com sal grosso, azeite e pimentom de la Vera?
Pois o livro nom, ou espero que nom, realmente. Mas o país, sim. O que trato de evidenciar no livro, e de aí o título, é que o que se “cozinhou” com azeite, sal e pimentom, tanto metafórica como explicitamente falando, foi a própria Galiza no regime. O título que escolhim vem tratar de pôr sobre a mesa, através de algo que todos e todas aqui conhecemos mui bem, umha categoria inamovível, congelada, fechada com a qual nem nós mesmas temos direito a dialogar porque é um produto rentável e parece ser umha instituiçom identitária quando nom tem por que ser assim. O apontamento “a la gallega” vem ser umha crítica ao folclorismo que reside em qualquer elemento cultural congelado em produto só polo simples facto de ser “comercializado”, quer seja ou fosse politicamente, quer religiosamente, culturalmente ou turisticamente. O país inteiro, no franquismo e através de um cinema muito folclorista, apresentou umha narrativa “condimentada”, umha categoria fechada da Galiza; essencializada e primitivizada, sem direito a mudar se assim o quigesse.

O país inteiro, no franquismo e através de um cinema muito folclorista, apresentou umha narrativa “condimentada”, umha categoria fechada da Galiza; essencializada e primitivizada, sem direito a mudar se assim o quigesse.

Algo semelhante ao que lhe acontece ao próprio polvo, de facto. O polvo nom tem apenas direito a ser cozinhado por fora do “azeite, sal e pimentom”. O próprio animal é umha metáfora do encadeado que vive o país numha categoria estereotipada que continua a alimentar produtos culturais que nos deixam definidos em “categorias” fixadas e com as que nom acabamos de ser capazes de discutir dado que, nós próprios e próprias, as reproduzimos no quotidiano constantemente. Isso é o verdadeiramente perverso, desde o meu ponto de vista. Que agora nom se pode culpar só à instituiçom. Há algo de repetiçom e promoçom dessas categorias folcloristas da cultura em nós mesmas. E confundimos isso, constantemente, com um sentido de pertença territorial ou identidade. O país e a identidade defendem-se permitindo-nos o presente e o futuro, nom apenas o passado, a meu ver.

Um país a la gallega consegue que nos teletransportemos em cheio aos tempos do NO-DO, quando a ditadura franquista registou, nom por casualidade,  vários fotogramas da Galiza  relativamente ao seu folclore que durante décadas constituírom o cartom de apresentaçom da nossa terra perante o mundo. Sem nos desvelares muito, quais esses fotogramas mais relevantes e, com certeza, revoltantes?   
Ui.. Há muitos, já imaginarás… Nom só os há relevantes e repugnantes. Também os há totalmente intranscendentes, cómicos, dramaticamente ridículos, etc. O visionado de NO-DO dá para muito. Dá para indignar-se, enfadar-se, complexar-se, empoderar-se, escachar de riso e ruborizar-se da vergonha alheia. No livro trato de colocar algum exemplo de cada. Em qualquer caso, se tivesse que decidir-me por umha imagem representativa da Galiza segundo NO-DO, escolheria, sem dúvida, colonial. O país é apresentado como umha colónia, em termos políticos e territoriais, mas também em termos culturais, de aí toda a leitura que eu fago, no conceito do Galaiquismo, sobre o uso de elementos culturais como a música —que em NO-DO é folclorismo inventado— alimentam umha narrativa colonial da Galiza e dos e das galegas.

Se tivesse que decidir-me por umha imagem representativa da Galiza segundo NO-DO, escolheria, sem dúvida, colonial. O país é apresentado como umha colónia, em termos políticos e territoriais, mas também em termos culturais, de aí toda a leitura que eu fago, no conceito do Galaiquismo.

Por isso precisamente a Galiza sempre aparece feminizada e com atributos positivos e os galegos e galegas também. A narrativa que se fai de nós é essencialista, primitivista, ingénua, tribal, umha alegoria absoluta do “bom selvagem” e que, por suposto, a antropologia social leva umha centúria tratando de tirar abaixo. E relativamente à imagem mais repugnante que se mostra dela diria que é essa ideia de “conservadora” que no NO-DO se apresenta como fascista, diretamente. E é curioso porque em NO-DO todos os territórios, segundo NO-DO, eram fascistas, franquistas e/ou falangistas, mas essa ideia de Galiza como conservadora e “facha” foi mui potenciada na imagem polo simples e mero facto de que o próprio Franco era galego. Resulta evidente que a Galiza tinha que ser franquista. Se nom o era a Galiza sendo Franco de Ferrol, que território ia sê-lo? O único lugar que verdadeiramente nom podia ter o direito de ser antifascista era o lugar onde o próprio Franco nascera. Era-o? Nem mais nem menos do que outros lugares. Mas calhou. E os galegos e galegas pensamo-nos a nós próprias desde entom como “conservadoras”, naturalizando essa condiçom e dizendo que “sempre foi assim”. Pois bem, nem sempre foi assim, e ainda tendo sido assim, nom tem porquê continuar sendo assim. Cada umha escolhe o que se é. O que acontece é que há que exercer esse direito a “ser” livremente. E isso às vezes nom é fácil e quase nunca cómodo.

As nossas danças e a nossa música virom-se assim submetidas a um processo  de mistificaçom e padronizaçom cultural inerente em todos os  regimes totalitários. O culto à personalidade, a cenificaçom de rituais, umha narrativa e umha simbologia específica fôrom atribuídos, sem exceçom, a todos os povos pertencentes àquela Espanha “umha, grande e livre”. Inclusive Castela. Esses relatos que se elaborárom dos bascos, castelhanos, galegos, etc. através do seu folclore, de que maneira se interrelacionárom no mosaico e no macrorelato dessa Espanha franquista?
Pois a relaçom que existe é umha relaçom colonial, como dizia antes. O regime tivo que manejar a complexa e odiosa realidade territorial e cultural do estado. E digo odiosa porque por um lado pretendia-se do estado que fosse umha cousa que nom era e que também nom era possível que chegasse a ser. Para o regime, Espanha era —e continua a ser hoje— um odioso mosaico cultural, linguístico, territorial e isso era inegável, até para o próprio regime era inegável. Por isso, na verdade, a própria Sección Femenina de Falange Española, liderada por Pilar Primo de Rivera, tinha um comportamento cultural absolutamente bipolar: por um lado há que “conservar” o folclore de cada lugar e, ainda, na sua própria língua! Por outro lado, há que unificar os territórios através do folclore e até que os cataláns e os bascos saibam dançar sevilhanas, nom estará construída a naçom. Quer dizer, que os próprios territórios se sofrêrom uns aos outros.

A própria Sección Femenina de Falange Española, liderada por Pilar Primo de Rivera, tinha um comportamento cultural absolutamente bipolar: por um lado há que “conservar” o folclore de cada lugar e, ainda, na sua própria língua! Por outro lado, há que unificar os territórios através do folclore e até que os cataláns e os bascos saibam dançar sevilhanas, nom estará construída a naçom. Quer dizer, que os próprios territórios se sofrêrom uns aos outros.

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De aí que hoje em dia também arrastemos, todos os que nom somos do sul, que os que venhem de fora considerem que no estado espanhol, tudo é sul. De aí também que a própria cultura do sul fosse sequestrada, estereotipada e se figesse extensiva a todo o território, obrigando a todos os povos e culturas a sentir-se identificados com um traje de faralaes, por exemplo. Por isso na realidade, esse discurso ultranacionalista e fascista de considerar que o franquismo “amava” o país é umha falácia absoluta. Nunca amou tal. O estado é como é e já era como era naquela altura. Ou se aceita ou nom se aceita. E essa foi a contradiçom a manejar: amá-lo ou odiá-lo, aceitá-lo ou negá-lo, facilitá-lo ou reprimi-lo. E aí ficárom submetidos todos e cada um dos territórios do estado espanhol, das culturas, das línguas. Inclusive, efetivamente, a Castela sofreu esse processo, porque deixou de ter direito a ser também, igual do que o resto, e sob o seu nome submeteu-se a todos os demais. E isso, nom deve ser fácil de assumir. Porque ser vítimas é difícil, mas também é difícil ter que assumir ser verdugos.

Contudo, assustadoramente, os clichés paralisados no tempo traspassárom as décadas da ditadura e, como manténs no teu argumentário, permanecêrom assentes ainda no nosso imaginário atual… Até que ponto estám ainda infiltrados? Qual a tua proposta para peneirá-los da nossa cosmovisom e da nossa mentalidade?     
Encará-los com honestidade, tranquilidade, confiança e seguridade. Deixar de vitimizar-se e continuar para a frente sentindo-nos livres de aquilo que sim queremos acolher em nós e deixando atrás aquilo que nom. Nom há nada “essencial” numha cultura. Nom estamos obrigados a “ser” como o manual folclorista dos estereótipos di que “temos que ser”. Podemos ser de milhares de maneiras diversas e continuar a ser nós. Há que perder o medo. À tua pergunta de se continuam a estar esses clichés em nós, diria que continuam no imaginário atual, sim, e o que é mais triste ainda é que há outros que nom estavam e estám hoje mais do que nunca, justificando-se em que “antes” era assim para legitimar esse modelo. Vou colocar um exemplo concreto que sei que é polémico mas para mim é claro. Nas agrupaçons de Sección Femenina, os homens e mulheres, em termos binários, nunca dançárom com umha dicotomia corporal tam clara como hoje em dia se dança em muitíssimas agrupaçons. Nunca. Nem em NO-DO nem nos Coros y Danzas. Dizer que “antes” se fazia assim e que os homens dançavam em frente das mulheres erguidos e as mulheres em frente dos homens abaixadas, quando todos e todas sabemos que isso implica umha relaçom simbólico-espacial de dominaçom e que responde a um machismo insuportável, só pretende legitimar um modelo de representaçom que pode ser mui espetacular a nível visual mas que implica muitas questons a nível político. Além de nom ser verdade que “antes” era assim, e ainda que fosse efetivamente assim, nom tem por que continuar sendo assim em absoluto. Nom só nos legitima o passado. O presente e o futuro que queremos ser também nos legitimam, porque temos direito a ambos.

Nas agrupaçons de Sección Femenina, os homens e mulheres, em termos binários, nunca dançárom com umha dicotomia corporal tam clara como hoje em dia se dança em muitíssimas agrupaçons. Nunca. Nem em NO-DO nem nos Coros y Danzas.

Entom sim, há muitos desses elementos do NO-DO que continuam a estar porque na verdade já estavam antes do franquismo. A ideia de que na Galiza somos uns brutos inocentes nom é cousa do franquismo. E há outros elementos que estám hoje em dia presentes que nom estavam naquela altura. Que se pode fazer? Encará-los sobretudo quando operam em cada umha de nós, ainda que isso implique doer-se; sacudi-los de umha vez e continuar. O corpo, para mim, é umha ferramenta maravilhosa de crítica, tanto simbólica como literal, porque o corpo performa. O corpo pode desconstruir categorias através da encenaçom, da caricatura, do grotesco trazido de maneira consciente para desativar o insulto. O corpo e a autocaricatura, ante nós mesmas e os de fora, som ferramentas potentíssimas de desativizaçom simbólica e de relativizaçom depois. Um insulto, nom é insulto, no momento em que ti te aproprias del e decides passá-lo polo teu próprio corpo performado através do humor. Nesse momento só ti tes poder sobre el, e desde esse lugar nom só já nom magoa, também se ativa, numha mesma e naquel que olha, umha reflexom crítica e consciente brutal do estereótipo exercido. Aí precisamente surge o empoderamento.

O corpo e a autocaricatura, ante nós mesmas e os de fora, som ferramentas potentíssimas de desativizaçom simbólica e de relativizaçom depois. Um insulto, nom é insulto, no momento em que ti te aproprias del e decides passá-lo polo teu próprio corpo performado através do humor.

E para terminarmos, como reverterias a frase de Ranahit Guha  “O rebelde nom tem um local na história como sujeito da rebeliom” num retrato,  já em plena posmodernidade capitalista, dumha Galiza pos-Nodo que ainda deve olhar muito de frente para  encarar o seu próprio futuro?
Ranahit Guha usa essa frase fazendo umha análise de como o poder colonial —no caso da Índia como colónia británica— desativa a rebeliom do sujeito oprimido através de diversos exercícios para domesticá-lo, dominá-lo, esbatê-lo; subalternizá-lo, no fim. Guha, da mesma maneira que Spivak, Bhabha e outros teóricos e teóricas decoloniais eram mui conscientes de que o poder mais violento, mais direto, mais explícito e também outro poder mais indireto, simbólico e comunitário ou social tinham a absoluta necessidade de desativar por todos os meios a rebeliom de um sujeito subalterno. Também o fijo o franquismo e também se fai hoje em dia. Chega com encontrar um discurso que trate de deslegitimar por todos os meios certos processos de resistência. Seguro que podemos encontrar muitas casuísticas deste processo olhando o que está a acontecer na pandemia do COVID. De como o rebelde nom tem um lugar na história como sujeito de rebeliom.

atraves-nodo-capa-1-1-488x710O único lugar que se lhe concede ao rebelde é um lugar desativado: um tolo ou tola, antivacinação, terraplanista, ignorante irracional. Seguro que agora mesmo se estám a produzir narrativas “rebeladas” que se estám tratando de desativar através do reducionismo simplista do “estes som terraplanistas”. Nom podemos saber se o som ou nom, porque da mesma maneira que fazia NO-DO, hoje os mídia som os que constroem narrativas sobre esses comportamentos “rebelados” sem permitir que se expressem por si mesmos ou, o que é mais habitual, permitindo que ante a câmara só se expressem por si mesmas opinions terraplanistas que só deslegitimam —ou pretendem deslegitimar— a crítica toda que se poda estar dando. Nesse sentido, a frase de Guha, é hoje, provavelmente, de raivosa atualidade. Como resposta à tua pergunta citaria outra frase, que também convém ter em conta na atualidade. Gramsci diria: “Nenhumha dominaçom perdura sem o consentimento passivo dos dominados”. A pretensom da desativaçom simbólica da crítica acontecerá sempre em benefício do suposto pensamento “normativo”, “cabal”, “com sentidinho”. Inclusive nós mesmas podemos ser parte opressora desse exercício. Há que estar atentas, sobretudo a nós mesmas, diria. Porque contra os mídia de massas é mui difícil lutar com garantias mas em nós mesmas também se devem produzir lutas. Nessas também é importante lutar. Há que ser capaz de olhar e olhar-se. Sempre. Ainda que dóia. E desde aí, construir e fazer-nos fortes, juntas.


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