A nossa riqueza no mundo



A universidade, esse lugar onde findamos a nossa etapa académica, pode ser às vezes fonte sublimada de confiança e apoio ou, muito pelo contra, mais uma etapa no nosso caminho formativo, pela que passamos sem maior incidência. Hoje, gostaria de entrevistar a minha companheira Sílvia Busto Caamaño e partilhar a sua experiência como docente e como pesquisadora independente após findar os estudos de Galego e Português na Universidade da Corunha. Acho que pode ser de interesse a sua reflexão e a sua motivação para continuar a trabalhar, achando uma via estimulante e reconfortante longe do berço académico, participando em diversas comunicações nacionais e internacionais relacionadas com o estudo do português, nomeadamente no caso da Galiza.

Que significa para ti comunicar fora?
foto-silviaPois na verdade, é que foi um grande estímulo para continuar pesquisando, são oportunidades importantes em que sinto que se me está apoiando no meu trabalho, circunstância que não percebo tanto num entorno mais próximo. Aliás, o facto de serem em linha supõe uma vantagem para mim, já que, atualmente, seria muito complicado poder deslocar-me até ao Brasil (uma organizada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro), o Perú (III Jornada Mundial sobre o Ensino e Aprendizado de Português) ou Nova Iorque (I Congresso de Português como Língua Estrangeira na Columbia University). Em definitiva, é um orgulho para mim colocar a Galiza no mapa mundial, pois temos uma riqueza linguística (e não só) que nada tem que invejar as que há pelo mundo. Para mim é uma satisfação levar a minha carreira por bandeira e poder estar comunicando com pessoas da Austrália, dos Estados Unidos, da Colômbia, da Venezuela, da Costa Rica ou da Espanha, entre outros países.

É um orgulho para mim colocar a Galiza no mapa mundial, pois temos uma riqueza linguística (e não só) que nada tem que invejar as que há pelo mundo. Para mim é uma satisfação levar a minha carreira por bandeira e poder estar comunicando com pessoas da Austrália, dos Estados Unidos, da Colômbia, da Venezuela, da Costa Rica ou da Espanha, entre outros países.

Como percebem desde o exterior a língua da Galiza? Têm conhecimento da sua existência?
Ligando coa resposta anterior, as pessoas mostram-se muito interessadas pela nossa língua, e muitas delas julgam que galego e português é tudo um, facto que cá nunca ouvi fora da universidade. Têm que nos dizer as pessoas de fora a riqueza que temos, cá não somos subsidiários/as de nada. Eu acho que falta consciência de comunidade.

Qual o futuro do galego segundo a tua perspetiva?
silviaCá para mim, como é bem sabido, o futuro da nossa língua é bem incerto por razões de sobras conhecidas e que não me corresponde a mim analisar. Então, acho que somos nós, as pessoas mais novas, as que devemos tentar dar a conhecer o nosso, apesar de não dispormos de grandes apoios. O futuro do galego penso que está nas nossas mãos. Devemos utilizar a variedade portuguesa para mantermos viva a galega, alargarmos a sua riqueza e darmos oportunidades às novas gerações. Aliás, elidirmos a questão económica seria enganarmo-nos, pois é uma questão mais do que demonstrada na nossa sociedade que as famílias querem dar às suas crianças as facilidades e as possibilidades que eles não tiveram e, neste sentido, cumpre entendermos o português como uma ferramenta que, unida ao galego, há de nos pôr no mapa mundial das línguas e de nos animar a manter o próprio não só como um elemento de identidade nacional, mas como um veículo comunicativo invejável. Em poucas palavras, o futuro do galego está ligado intimamente ao português se quer sobreviver, em caso contrário a tendência das últimas décadas desenha o seu particular fenecimento baixo o teto do castelhano.

Como consegues tirar tempo para fazer as comunicações enquanto trabalhas?
São projetos aos que lhes estou a dedicar bastantes horas (na atualidade, estou a acabar o curso de Inglês na UDC e também leciono aulas de Galego [reintegracionista, sem que a família saiba…]), pois embora ter sido educada em galego e ser paleofalante, os meus pais não acabam de assumir que galego e português sejam a mesma língua… Apesar dos meus esforços! Aliás, participo ativamente nos Webinários organizados pelas diferentes associações de promoção da língua portuguesa, como a APLEPES (Asociación de Profesores de Lengua Portuguesa en España). Além disso, confesso que o Portal Cultural do Mundo de Língua Portuguesa Plataforma 9, o qual conheci na universidade, é de grande ajuda para mim. Contudo, não conto com nenhuma pessoa que me oriente nem me diga onde está a informação, o que supõe, se calhar, um esforço extra pela minha parte.

Quais os teus projetos futuros?
Tenho muita vontade de ir para Portugal e continuar com a minha formação em língua portuguesa e depois quem sabe! Talvez consorcie com um português e fique lá!

Paulo F. M.

Paulo F. M.

Paulo Fernandes Mirás nasceu em Ordes e cursou estudos superiores na cidade da Corunha, onde realizou as carreiras de Inglês e Galego e Português; os mestrados de Literatura Cultura e Diversidade e de Professorado de Educação Secundária Obrigatória, Formação Profissional e Ensino de Idiomas; onde está a fazer o Doutoramento em Literatura atualmente. Foi o responsável das antologias poéticas de Ricardo Carvalho Calero (2019) e Ernesto Guerra da Cal (2021) publicadas na Através Editora e a biografia de Ricardo Carvalho Calero (2020) publicada na editora Ir Indo. É professor de língua e literatura galegas e Académico Correspondente da AGLP.
Paulo F. M.

Latest posts by Paulo F. M. (see all)


PUBLICIDADE

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Paulo, fantástica entrevista e fantástica entrevistada, adorei.

    A respeito desta questão:

    “pois embora ter sido educada em galego e ser paleofalante, os meus pais
    não acabam de assumir que galego e português sejam a mesma língua…”

    dizer que é algo absolutamente normal, pois com independência da posição que se tivesse respeito da nossa língua nacional, nós formamos parte dum estado que tem a sua escola Nacional, os seus meios Nacionais, o seu universo comunicativo Nacional,-isso gera uma muito forte corrente- e todos, até não poucos dos nacionalistas ferrenhos, resultam eles muito mais espanhóis do que eles imaginarem, para mim, por exemplo, Portugal serviu para descobrir o muito espanhol que eu sou, foi um espelho maravilhoso, e ainda que o estado seja em termos estritos Castela/espanha, e étnico no seu funcionamento profundo, isso não é transparente de jeito simples

    • Arturo Novo

      Eu, até que me tornei reintegracionista, não era nem minimamente ciente do acastrapado que estou. E não só na questão da língua!