Sabia você que o verbo 'mergulhar' é exclusivo dos falantes de Galego e de Português?

Um bom ‘mergulho’ no idioma

Existem numerosos verbos exclusivos de Galego e Português. Até este momento identifiquei 195



Mergulhão

Mergulhão

Sabia você que o verbo mergulhar é exclusivo dos falantes de Galego e de Português? Pois é verdade: enquanto nós dizemos que ‘mergulhamos’, os demais utentes de línguas latinas chamam-lhe coisa diferente. Assim, um castelhano diz zambullir, um francês plonger, um italiano tuffarsi.

O nosso verbo mergulhar tem origem decerto remotíssima. Está relacionado com o latim mergulus, nome da ave que chamamos mergulhão. Alguém, um dia, provavelmente na Galécia, achou adequado chamar merguliare à acção de imitar o que essa ave faz bem: afocinhar na água. E assim ficou.

Como este, existem numerosos verbos exclusivos de Galego e Português. Até este momento identifiquei 195. Este número limita-se a verbos ‘correntes’ (não inclui termos peculiares de profissões ou domínios do saber), e todos eles são usados pelos actuais falantes de Português. Digo ‘de Português’ porque nem todos esses verbos gozam, hoje, de igual circulação na Galiza.

Exemplos dessa exclusividade galego-portuguesa são verbos formados a partir de substantivos também eles exclusivos, como alicerçar, berrar, faiscar, orvalhar, peneirar, teimar. Ou feitos a partir de adjectivos só ‘nossos’, como afoitar-se, levedar, vadiar.

Noutros casos, os verbos formaram-se por prefixação dum substantivo, exclusivo ou não. Assim se obtiveram, por exemplo, adiar, amochar (ou amouchar), assanhar, engaiolar, ensarilhar, enveredar, esboroar, esmagar (maga é o resíduo da uva), espalhar, esvoaçar, rebolar. Ou por prefixação dum adjectivo, como adoentar, aviventar, requintar.

Existem, porém, verbos de cuja origem só temos vagas suspeitas, ou mesmo nenhuma informação, os casos de afastar, amarfanhar, barafustar, fungar, murchar e vários outros.

Origem latina, certa ou suposta

Dos nossos verbos exclusivos, numerosos são aqueles que, como mergulhar, tiveram uma origem latina. Daí nos vieram, entre outros, acenar, ajeitar, aturar, bradar, cheirar, esmorecer, furar, pular, salgar, voltar.

Noutros casos, as nossas formas verbais são efectivamente únicas, mas derivaram por via popular de verbos latinos que, na sua forma ‘culta’, compartilhamos com outros idiomas. Assim, temos conchegar (e ‘complicar’), espreitar (e ‘explicitar’), magoar (e ‘macular’), poupar (e ‘palpar’) e outros mais.

Galécia Maior a partir de dados de Joseph Piel

Galécia Maior a partir de dados de Joseph Piel

Seja dito à parte: existem, no Português, alguns verbos de origem latina, chegados por via popular, que o Galego globalmente desconhece. É o caso de espatifar, labutar e vasculhar. Em contrapartida, existem muitos mais verbos galegos nessa situação, que o Português nunca possuiu. Até este momento, e sem uma pesquisa sistemática, identifiquei 14, entre eles acougar, agarimar, decatar-se, engadir, latricar, rebuldar. Este tipo de latinismos não entrou, é claro, no meu cômputo geral. Por outro lado, uma tão nítida predominância galega de latinismos ‘populares’ exclusivos é uma excelente prova material (se necessária fosse…) de que a língua se formou na Galécia.

Por fim: em não poucos casos, a origem latina dos nossos verbos é tão-só suposta. Isto é, tudo parece indicar que, no latim, circularam formas que originaram verbos já presentes na língua medieval, mas jamais tais formas ‘latinas’ se viram documentadas. Por outras palavras: um bom número de verbos ‘latinos’ galego-portugueses são autênticos fantasmas. Contam-se nessa situação abalar (dum ‘advallare’?), convidar (dum ‘convitare’?), estourar (dum ‘extaurare’?), estragar (dum ‘stragare’?) ou pendurar (dum ‘pendulare’?). Trata-se de nada menos que 28 verbos, num universo de 73 que relacionamos com o latim. Como explicar semelhante realidade?

Existem três explicações. A primeira é esta: o latim da Galécia era muito mais peculiar, mais individualizado, do que se supõe. A segunda explicação: durante a Alta Idade Média, prosseguiu uma latinização particular da Galécia. Ambas as explicações são aceitáveis. Com efeito, desde a época romana, o território galego foi razoavelmente isolado, e socialmente estável, favorecendo o desenvolvimento, no idioma, de traços fortemente individualizadores.

Mas existe, para esses verbos fantasma, uma terceira explicação, mais especulativa, mas nem por isso menos admissível. Baseia-se na «Teoria da Continuidade Paleolítica» dos italianos Alinei e Benozzo (www.continuitas.org). Na matéria que nos importa aqui, ela parte do princípio de que o Latim, a língua do Lácio, era só uma de tantas variedades dum ‘Itálico’ espalhado pelo Sudoeste europeu. Assim sendo, o que chamamos ‘Latim da Galécia’ seria tão-só uma variedade desse idioma mais vasto, o Itálico. Teria, pois, havido uma variedade ‘itálica’ da Galécia, naturalmente aparentada com aqueloutra, mais prestigiosa, do Lácio. E, sobretudo, tudo se terá passado há uns bons milhares de anos, muito antes de aparecer, no Noroeste peninsular. o primeiro cidadão romano.

Que significa tudo isto?

Significa, primeiro, que a quantidade de materiais que Galego e Português detêm em exclusivo é imensa. Sim, limitámo-nos aqui aos verbos. Mas não são menos os substantivos e os adjectivos que só Português e Galego possuem.

Demonstra isto que são a mesma língua? Estamos, aqui, seguramente perante um dado de primordial importância. A resposta que darei adiante é de teor histórico, talvez o único viável, já que, num cenário ‘sincrónico’, isto é, actual, «a mesma língua» é um conceito político, ideológico, e não linguístico. Quanto tempo serão Português e Brasileiro ainda «a mesma língua»? Existe, tanto no Brasil como em Portugal, gente responsável que ousa fazer a pergunta.

A segunda constatação é a da espectacular permanência de tantos e tão diversos materiais galego-portugueses em duas comunidades linguísticas separadas politicamente desde há 900 anos. Isto tem duas implicações. Por um lado, esse acervo tem de ser antiquíssimo. Por outro, terá havido entre as duas comunidades, ao longo dos séculos, um mútuo enriquecimento lexical. Esta segunda implicação, sendo segura, é de mais difícil comprovação. Já quanto à antiguidade, estamos em terreno firme.

Na realidade, para a imensa maioria destes materiais, só um cenário é concebível: eles existiam, e circulavam, séculos antes de Portugal surgir. Isto significa que eram, de pleno direito, galegos, concebidos e socializados num território, a Galécia Magna, que incluía menos de um quinto daquilo que, muito depois, ia tornar-se ‘Portugal’.

Sejamos francos: por muito que os historiadores portugueses do idioma, e os portugueses em geral, possam lamentá-lo, é através do Galego que o Português se liga ao Latim. Por outras palavras: o Português é ‘língua latina’ em segundo grau, e o Galego em primeiro.

[A distorcida perspectiva, a este respeito, vigente em Portugal foi objecto do meu artigo «O passado galego do português», no recente número 206 da revista Grial. Aí lembro como a etiqueta Galego-Português para a língua medieval foi criada, por volta de 1900, para não ferir, com o nome de Galego, o orgulho português].

Não resta dúvida. O estado de língua que os primeiros escritos documentam revela (sob uma ortografia caótica) tamanha solidez e tamanha complexidade, tanto na gramática como no léxico, que só uma conclusão se nos permite: este idioma, naquilo que o distinguia de qualquer outro, estava definido e consolidado séculos antes de Portugal existir.

Fica, então, a pergunta: são Galego e Português a mesma língua? Sim, são-no, no sentido de que este idioma foi criação galega, depois adoptada pelos portugueses no seu novo Reino, porque… era o que havia, e funcionava bem.

Gerações mais tarde, os portugueses, esquecidos desta história, deram ao idioma o seu próprio nome, Português, e durante séculos fizeram quanto puderam para afastá-lo das variedades do Norte. Foi a chamada ‘desgaleguização’ do Português, um processo que se deixa descrever em pormenor, e que levou, por exemplo, à galopante multiplicação do ditongo ão, a marca mais antigalega, ao reduzir três terminações etimológicas a uma só. Em suma: historicamente, o Português é um fenómeno tardio.

Retórica e trabalho

Em diversos, e até opostos, quadrantes culturais galegos, sublinha-se a conveniência de aproveitar tudo aquilo que, por felizes circunstâncias, o Português conservou da riqueza comum. O princípio é óptimo, mas importa ir além da retórica e do espontaneísmo.

Há um trabalho a fazer. Não pode deixar-se esse processo ao deus-dará. É indispensável identificar os materiais e, depois, traçar estratégias para pô-los a render. O contacto com o português, particularmente no ensino, é importantíssimo. Mas o proveito a obter dele supõe uma planificação linguística, e um acompanhamento persistente.

 

Este artigo (afora a última secção) é a versão ‘jornalística’ do texto que apresentei, em finais de Julho passado, em Santiago de Compostela, em

Gallaecia III: Congresso Internacional de Linguística Histórica. O título da comunicação era «Verbos exclusivos do Galego-Português moderno».

Nota talvez importante

Quis fazer este exercício dentro dos critérios mais apertados. Os referenciados 195 verbos constam todos do Dicionario da RAG ou do Dicionario de Xerais (neste, como entrada independente).

Fora destes dois âmbitos (e lembrei-o na palestra em Santiago), são de uso em Galego bastantes outros verbos exclusivos do nosso idioma. Eles figuram abundantemente quer no Dicionario de Dicionarios de Antón Santamarina, quer no Tesouro Informatizado da Lingua Galega (TILGa). São exemplos abenzoar, aliñavar, borrifar, cantarolar, compartillar, enguizar, esgueirar, findar, resmungar, sobexar.

Fernando Venâncio

Fernando Venâncio (Mértola, Portugal, 1944) é escritor, crítico literário e académico. Mudou-se à Holanda em 1970. Na Universidade de Amesterdão completou os estudos de linguística em 1976.Dois anos depois, começou a leccionar no departamento de estudos de Português na Universidade de Nijmegen. De 1984 a 1988 leccionou na Universidade de Utreque; acabou tornando à Universidade de Amsterdam para ensinar Português e cultura, até hoje. É colaborador de numerosas publicações em papel e formato digital, entre as quais o PGL.

Latest posts by Fernando Venâncio (see all)


PUBLICIDADE

  • madeiradeuz

    Alguns verbos mais do que galegos(-portugueses) são mais propriamente galaicos. Digo alguns, ainda que entre os exemplos que colocou o Fernando, agora mesmo apenas identifico um, ‘orvalhar’, também utilizado na língua asturiana (‘orbayar’). De facto, é um dos verbos icónicos nessa língua, com certeza polo seu caráter diferencial a respeito do castelhano. Claro que também é um desses verbos que intenta ser utilizado como argumento para asturianizar as falas galegas do ocidente asturiano (mas esse é já outro conto).

    Depois, parece-me advertir um erro quanto ao verbo ‘berrar’, pois em castelhano existe ‘berrear’ e ainda o substantivo ‘berrinche’.

    • Ernesto V. Souza

      Existir existem seguramente todos ou poderiam ter existido… em formas diversas ou variantes populares seja no castelhano dialetal, no provençal ou no francês medieval… Acho que é da ideia nacional e romântica procurar exclusividades… As línguas modernas são como foi o latim meros constructos políticos administrativos… Escritos e padrões orais referentes que fingem umas unidades que não existem e que agacham tradições e variantes, algumas remotissimas, outras misturadas, outras com particulares especiarias… Nas margens é tudo um continuum de grandes grupos e pequenos grupos… Com um pouco de vontade ainda hoje percebemos frances, italiano oral, ou somos capazes de ler catalão, provençal, gascão, medieval ou barroco… com um pouco de hábito leriamos latim..

      • Venâncio

        Ernesto,
        Eu já esperava aqui essa doutrina (embora não exactamente de ti). É a tal léria, muito pós-moderna, de que tudo tem a ver com tudo, e que portanto de nada se pode afirmar nada…

        • Ernesto V. Souza

          Pode-se afirmar que as línguas as nações, as gramáticas, a história são grandes mentiras…

          • Venâncio

            Sim, existem muitas mentiras em todos esses domínios. Precisamente por isso é indispensável raspar, aqui e ali, uns restos de certezas. É o que tento fazer.

          • Ernesto V. Souza

            Bom, sem duvida é uma boa achega sim… Mas se reuníssemos um bom golpe de eruditos de todas as partes possíveis da antiga latinidade, da América, a África e a Ásia… Acho que ficaríamos surpreendidos de como as palavras e os significados correram tanto ou mais mundo que as técnicas, as artes, os ofícios, as ferramentas, as descobertas e as mercadorias…

          • Venâncio

            Mas, Ernesto, lamento ter de informar-te de que ESSA pesquisa ampla e aturada vem sendo feita desde há 200 anos, iniciada pelos inevitáveis sábios alemães.E já ficámos surpreendidos (!) por muita coisa.

          • Ernesto V. Souza

            Por isso digo…

          • Venâncio

            Não, Ernesto. O que tu dizes, o que tu sugeres, é que nada disso foi feito… Pois, foi feito muito. É bom saberes.

          • Ernesto V. Souza

            Eu estudei filologia… Lembra…mas smo num tempo fascinou-me a linguística românica a história da língua, a passagem das línguas ao latim e as literaturas medievais… Tudo quanto diz é fascinante… As cousas estão aí… Mas não reparamos ou não nos interessa reparar… Quanto ao que eu digo… Dos eruditos falar levam fazendo desde o humanismo…

          • Venâncio

            Exacto. E nós, hoje, humildemente, gratamente, aproveitamos o trabalho e as descobertas deles.

          • Louredo

            Non pode ser mentira o que nunca pode ser verdade. As gramáticas e o estándar son códigos. Son da verdade dos códigos 🙂

    • Venâncio

      Gerardo,

      Primeiro, o meu obrigado pela publicação deste trabalho.

      Depois, e a propósito de ‘orbayar’: parece-me normal que tenha havido, no decurso dos séculos, algumas ‘fugas para Leste’ de vocabulário originariamente galego.

      Quanto a ‘berrar’: a sua origem é o substantivo autóctone ‘berro’. Enquanto isso, o cast. ‘berrear’ é dado como onomatopaico… o que não exclui nova ‘fuga para Leste’. 😉

      • Ernesto V. Souza

        Fernando, a sério… Não há uma só palavra ai que com pequenas variações não possa ser possível em qualquer outra parte da Romania… Como acontece de qualquer jeito com as restantes fora essas 195?

        • Venâncio

          Ernesto: o importante, o incrível, o espectacular, o simplesmente verdadeiro… é que esses vocábulos NÃO existem, nem com pequenas variações, no resto da România. Isto faz-se sofrer assim tanto, ó homem?

          • Ernesto V. Souza

            E com isto? Mesmo que fossem 195, ou 3000… Entre tanta palavra comum? É querer ver o diferente… Eu lamento mas quanto mas leio e converso com italianos, catalães, franceses… Mais me admira o troncal comum… Não digo se são portugueses ou castelhanos… Quanto mais dialetal ou marginal… Maiores as semelhanças… Que os padrões incrementam as diferenças em nome da nação e das modas de corte.

      • Daniel Vasques Ribeira

        ‘Convidar’, porém, nom parece ser exclusivo, embora com usos diferentes no castelhano actual.

        • Venâncio

          Daniel: admito. Vou examinar, e depois direi.

          • Ernesto V. Souza

            E mergulhar e submergir… ?

          • Venâncio

            Qual é a pergunta?

          • Ernesto V. Souza

            Adivinhe

          • Venâncio

            Desculpa, o meu discernimento não chega lá… Não sei que faz aqui um verbo, «submergir», que é pan-latino, ao lado dum verbo, «mergulhar», que só a Galécia conheceu.

          • Ernesto V. Souza

            Emerger… Submerger… Merger… Merg-ulhar? U-lo extraordinário?

          • Venâncio

            É a chamada etimologia da batata frita.

          • Ernesto V. Souza

            São criativos eles… E já foram mais…

          • Louredo
          • Venâncio

            Caro Louredo, obrigado pela referência. Repare que o cast. «somormujar» deriva de «somorgujar» que, por sua vez, supõe um *submerguculare, que teria vindo do mergulus. Ainda que estes verbos tivessem a circulação do nosso «mergulhar» (e o verbo castelhano mais corrente é, de longe, «zambullir»), sempre valeria que *SUBMERGUCULARE e MERGULIARE são verbos diferentes, e que portanto «mergulhar» continua a ser exclusivo.

          • Daniel Vasques Ribeira

            Acho que fica fora dos usos normais do standard espanhol actual (para castelhano de séculos passados, fique o título completo do Burlador de Sevilha se calhar como exemplo de mais fama), mas ainda é uma forma popular viva nalgumas regiões como a de Cádis: [corte dos carnavais de Cádis do 2015] https://www.youtube.com/watch?v=Y9yyzfG7Gvs (no 14:46 começa o ‘cuplé’ que nos interessa, com ‘que haga así y te convide’ no 15:45)

          • Louredo

            Por Deus, non era preciso isto Sr. Vasques. Calquera persoa castelá culta coñece o verbo convidar

          • Ernesto V. Souza

            Só uma cousa, curiosa. Tenório é apelido galego, o pai e o tio Pedro trabalham na Casa do Rei e eu diria que são caracterizados como nobres galegos, ou de ascendência. O comendador chama-se Gonzalo de Ulloa, e a sua filha Ana de Ulloa… a caracterização das personagens e a história do convite ao morto e a posterior aparição está entroncada demais com a tradição céltico galaica… a obra de Tirso sempre se diz baseada numa lenda “sevilhana”… Sevilha era no século XIV a XVII uma cidade muito cheia de galegos e descendentes… talvez o convidado do título, já estivesse aí…

          • Daniel Vasques Ribeira

            Sim, também pensei que não era o melhor exemplo. Assim como assim a palavra em questão também existe no bloco oriental (mas neste caso desconheço os seus usos históricos): http://www.ccma.cat/tv3/el-convidat/

          • Venâncio

            Tem razão, Daniel. «Convidar» não é exclusivo nosso. Foi erro meu incluí-lo. Obrigado. Está agora eliminado na lista de trabalho.

      • Louredo

        Ollo coas comparacións co castelán. Neste idioma tamén hai lusismos e algún galeguismo. E nalgunhas rexións como as Canarias e a Extremadura estes son abundantes. De forma pouco explicábel, algúns deses lusismos chegan por exemplo a case toda a Andalucía de forma popular (peno en chamariz, ave – utilizada como “reclamo”, chamariz). Non digo que sexa o caso de berrear /berrea que parece claramente onomatopeico ao igual do que berrar. Infelizmente poucas persoas teñen abranxido o estudo das relacións asturleonés-galego, especialmente coa rexión pésica, de Cangas del Narcea (en plena Galaecia e moi conservadora). Interesante artigo do Sr. Venancio

        • Venâncio

          Louredo,

          Eu comparo normas, não me ocupo de “tudo o que existe”… Já o disse várias vezes por aqui: se o objectivo é microscópico, isto é, se formos comparar “tudo o que algures existe”, se dermos a tudo o mesmo peso, pode ser que descubramos que espanhol e português são a mesma língua.

          Mas agradeço o seu elogio. 🙂

          • Venâncio

            Quanto ao mapa: ele foi elaborado por Jopeph Piel, filólogo alemão, grande estudioso da Galécia. Ele demarcou aí a «Galécia Maior», ou «Galécia Magna», que não deve confundir-se com a Gallaecia romana, ou com o Reino Suevo, ou com o Reino do Galiza, que foram de maior extensão.

          • Louredo

            Referíame ao comentario sobre orbayo e berrar. Non ao seu artigo.Obrigado

          • Louredo

            Sei, obrigado. Só uns apuntamentos máis. Se comparamos os materiais populares e a literatura galega, é perceptíbel a presenza de formas tipicamente portuguesas e que non son populares en Galiza na norma escrita, e iso desde hai 150 anos. Quere dicer houbo unha construción diferencialista do galego escrito, mais tamén unha intención de introducir materiais léxicos portugueses, daí algunhas formas que cita na súa palestra que non veñen nos dicionarios galegos recentes (houbo unha actitude “purista” recente contra eles). A partir de 1982 entran “lusismos”, sobre todo formas cultas creadas en Portugal, mais de forma muito máis selectiva, a excepción da norma reintegracionista.

          • Venâncio

            Louredo:

            É verdade. Ao longo de todo o século XX, houve na escrita galega uma sistemática depuração, que foi aproximando o galego de si próprio, e portanto revitalizando as formas galego-portuguesas. Isto é perfeitamente demonstrável, e eu hei-de fazê-lo um dia.

            Seria bom que as várias tendências galegas reconhecessem pelo menos isso. No resto, poderiam continuar a rachar-se irmãmente os crânios.

        • Ernesto V. Souza

          O castelhano e uma forma culta refeita sobre dialectos… Os mais deles com uma importante base ou componente galega principalmente… Acho que isso explica tudo…

          • Venâncio

            Ernesto: não és, no vosso meio, o único a imaginar “mão” galega na criação do castelhano. É pura fantasia.

            O castelhano formou-se sem contacto com o galego, com o astur-leonês a servir de eficiente tampão. Não vás em lendas urbanas. Galego e Castelhano tiveram duas histórias estruturalmente incontactáveis.

            E sabes o que é chato? É que essa gente que lança tais atoardas não consegue dar um único exemplo do que fosse uma influência estrutural galega no castelhano. E não conseguem porque não a há. Mas a léria continua.

          • Ernesto V. Souza

            Eu basseio-me na história e criação do francês… Ex-nihilo na corte e não sobre uma base dialectal territorial.. . quanto o de humilhar naos sei que gente… Como conto com outros pode valer-lhe comigo… Não… Acho gente bem mais simpática e amável que a merda de galegagem…

          • Venâncio

            Ernesto:

            O francês não foi criado ex-nihilo… até porque foi criado três vezes 😉 Uma coisa é o ‘ancien français’, outra o ‘moyen français’ e outra o ‘français moderne’. Eles são (de resto, como o inglês) estudados como três línguas diferentes, e são-no efectivamente.

          • Ernesto V. Souza

            Pois o mesmo acontece ao meu entender com o castelhano ( e com o Português). E desse mesmo jeito acho deveriam ser estudados. Ou não?

          • Venâncio

            Conhecerás a teoria de Ángel López García, em «La lengua común en la España plurilingüe» (Frankfurt/Madrid, 2009), segundo o qual o castelhano é uma invenção basca.

            Os bascos, alarmados pelo avanço do latim nos seus territórios. teriam criado uma ‘lingua franca’, de transição, que protegesse o basco, mas permitindo o contacto exterior.

            Para assombro geral, essa língua ‘criada’ ter-se-ia tornado língua materna e portanto comunitária (um fenómeno corrente na história de idiomas), conservando, naturalmente, traços bascos.

            Pode tratar-se duma alegoria. Mais provável é que o castelhano seja o latim acomodado, ao longo de séculos, às característísticas fonológicas do basco.

          • Ernesto V. Souza

            Conheço, mas acho não tem mais força ou é um eco dessa teima mitologizante prestigiante, e antigalega, da cunha pidaliana…

            Não há restos escritos de castelhano e os que há curiosamente “leoneses”, não se encontram na ” origem” nem evoluem dela. A contrário uma vez inventado o castelhano é nessa zona e ao Sul do Tejo que mais se espalha. ???

          • Venâncio

            Mais um mistério. Que haveria de “antigalego” na suposição duma origem basca do castelhano?

            Pequenina resposta: nada. E porquê? Porque, no castelhano, já foram apontados traços estruturais bascos, e nenhum traço estrutural galego. O que não diminui, nem engrandece, o castelhano… ou o galego.

            Mas os mitos são ferrenhos.

          • Ernesto V. Souza

            Existe uma densa documentação politica. Judicial, histórica e literária sobre o choque em Castela das elites galegas e biscainhas… E existe uma constante prestigiar desde o xvi cara o basco em detrimento do galego… Por outra banda muita coisa estrutural mas qualquer galego culto lê ainda hoje escritos castelhanos anteriores ao xviii, não desbotaria gamos ao xvi ou antigos com mais facilidade que qualquer riojano, cântabro ou basco.
            Se o castelhano e uma invenção toledana e apos sevilhana construída para facilitar com simplificação estrutural de elementos fonéticos e sintaticos a um conjunto de utentes de romances fracos, não construídos, ou que se falava de romance nas castelas e cara o Ebro?

          • Louredo

            Está testemuñada a presenza de falantes de vasco en Burgos, e La Rioja en época medieval (son abundantes os topónimos euskéricos). Por outra parte hai zonas do País Vasco onde probablemente nunca se falou vasco (Las Encartaciones). Toda denominación é unha simplificación. Non é necesario falar de ” invencións vascas”, é obvio que hai similitudes fonéticas co vasco, que ese contacto con falantes vascos explicaría. A afirmación só se entende como exemplo simplificador ou no contaxto político actual. E despois está o facto de que as áreas romanizadas de Vasconia falan castellano. A extensión posterior ao reino de León e a relatinización de certos trazos explicaría tamén o carácter norteño do castellano e certas similitudes co galego e asturneonés (thetaísmo? perda de sonoras? algúns f iniciais?)

          • Venâncio

            Claro que afirmar a “origem” basca do castelhano é uma provocação… Não digo que Castela não merece ser humilhada. Mas convém fazê-lo com alguma verosimilhança.

          • Ernesto V. Souza

            Desculpe mas não falo com desconhecidos. Se quer conversar primeiro se apresenta.

          • Venâncio

            Ernesto: isso é espírito de “bunker”. Se existe aqui algum guarda-fronteira, são os Administradores do PGL. Passados eles, somos todos… conhecidos.

          • Ernesto V. Souza

            Fernando, ando farto de anónimos e trolls, eu sempre tenho sido amável com toda a gente. Mas nunca mais. Não coverrso mais com pseudônimos, anónimos ou desconhecidos.

          • Venâncio

            Compreendo. Mas lembro-te que, também entre conhecidos, temos, por vezes, gente muito chata… O essencial é que Louredo (que poderia ser o filólogo Eduardo Rodríguez Louredo, mas ele o dirá) se mostra uma pessoa informada. E é exactamente gente informada o que mais nos convém ter por perto.

          • Louredo

            Desexo asinar con ese nome , porque gosto de loureiros (non de laureis, teño que dicer). Mas tamén non quero confundirme con quen non son. Non son o Sr Rodríguez. Esperamos por novos artigos seus Sr Venancio, sempre con ideas frescas para o galego, Agradezo ao Portal da Lingua a súa autorización para comentar, aínda que o faga nunha ortografía da que non gostan. Un ex. de tolerancia que non acontece noutros ámbitos infelizmente

          • Louredo

            Son Louredo, un pracer (do lat. laurus) Supoño que lle dirá tanto o meu nome como a min o seu. Fico grato que continúa a facer caso ao consellos dos pais, probabelmente 😉

          • Ernesto V. Souza

            Está no seu direito vestir máscara, no meu não falar mais que com pessoas. Que tenha um bom dia.

          • Louredo

            Eu pensaba que o francés fora creado sobre os dialectos da Île de France, perdinme algo na romanística recentemente? Saudazóns

  • Venâncio

    Algumas observações:

    ‒ Identificar perto de 200 verbos únicos do nosso idioma exigiu uma pesquisa de anos. Os colegas galegos, brasileiros e portugueses que assistiram ao meu depoimento estavam conscientes disso. Claro que esse tipo de investigação dá bastante prazer. É bom achar aquilo que nunca ninguém procurou… porque não pensou sequer em ir procurá-lo.

    ‒ Além de ser um avanço no conhecimento do idioma e da sua história, esta pesquisa pode revelar-se útil para o estímulo da língua na Galiza, ao identificar materiais de primeira qualidade que, sendo portugueses, são também (e foram primeiro) galegos, mas hoje se encontram, não raro, em situação precária.

    ‒ Seria bom que esta pesquisa fosse estendida a outros domínios do léxico. Oxalá haja quem queira prossegui-la. Por mim, trabalho noutros projectos históricos e linguísticos, que também pedem tempo e empenho, e que poderão ser, julgo eu, de igual utilidade.

    • Ernesto V. Souza

      Pois… Não sei porque terminamos divagando…

  • Nicolau

    O primeiro de todo: parabéns polo seu trabalho, Professor.

    Sei que isto nom é um consultório, mas… que me poderia dizer do verbo “consertar” (assi, com “s”)? Os dicionários da RAG e o Xerais nom o recolhem e eu nunca o ouvim en galego com o seu significado de “arranjar” ou “amanhar”… ou talvez si.

    Minha bisavó, nascida a finais do séc. XIX e finada hai quase quarenta anos, sempre pedia que alguém lhe “concentrasse a rádio” para ouvir bem a música. Mas atendendo ao significado que ela lhe dava ao verbo “concentrar”, nom estou certo de se ela realmente estava dizendo “concentrar” ou “consertar”. Ou mesmo poderia estar a dizer “consertar” com metátese (e engadindo um “-n-“) e pronunciar “consentrar”. Tenha-se em conta que estes três verbos som mui parecidos: concentrar, concertar e consertar; demasiado para umha fala de transmissom oral sem suporte académico como era o galego dos nossos avós (e tenha-se em conta que no galego da minha família pronunciamos igual “concertar” e “consertar”; isso que chamam “sesseio” e que eu chamo “galego”).

    Saudações!

    • Venâncio

      Nicolau:

      Muito interessante achega. Nunca, nesta pesquisa, me tinha detido nesse verbo «consertar» (‘arranjar’, ‘amanhar’, ‘reparar’, ‘restaurar’). É um verbo correntíssimo em português, e um dos nossos tormentos tradicionais é distinguir, na escrita, o «conserto» dos sapatos do «concerto» musical.

      De facto, não encontro rasto dele em contexto galego, nem dentro da norma, nem fora dela. Mas o testemunho da sua bisavó nem por isso é menos curioso.

      • madeiradeuz

        Os lexicógrafos galegos sim se detiveram sobre esse verbo, embora como “concertar”, e precisamente atribuindo-lhe o valor dos (também) castelhanos «ajustar» ou «reparar»:

        http://sli.uvigo.es/DdD/ddd_pescuda.php?pescuda=concertar&tipo_busca=lema

        • Nicolau

          Nesse caso, este verbo nom entraria na listagem de verbos exclusivos do galego-português, por existir também em castelhano.

      • Nicolau

        Para precisar um pouco no que dixem antes, minha bisavó pedia “concentrar(?)” o aparelho nom para que lho ligassem, mas para eliminar as interferências que impediam ouvir a música. Por isso é que a mim me quadra mais o significado de “consertar”.

  • Heitor Rodal

    Dous verbos bem vivos na oralidade, mas penso que bem pouco refletidos na escrita: ‘aquelar’ e ‘aqueloutrar’. Nem sei se são usados em Portugal.

    • Venâncio

      Curiosíssimos verbos, Heitor. Desconhecia-os inteiramente.

      O Houaiss (e só esse) indica «aquelar» como regional de Minho e Trás-os-Montes, mas devo dizer que não encontro ocorrências escritas dele. Quanto a «aqueloutrar», não acho mesmo nenhuma documentação escrita.

      Em galego, sim. Basta ver aqui (e «aquelado» tem ocorrência ainda mais antiga):

      http://ilg.usc.es/TILG/?tipo_busca=lema&pescuda=aquelar&categoria=Todas&desde=1600&ate=2050

      e aqui (ver igualmente «aqueloutrado»):

      http://ilg.usc.es/TILG/?tipo_busca=lema&pescuda=aqueloutrar&categoria=Todas&desde=1600&ate=2050

      Interessantes são, também, os antónimos «desaquelar» e «desaqueloutrar».

      Nítida criatividade galega.

      • Venâncio

        O próprio pronome «aqueloutro/a» vai perdendo uso em português, e é sentido como antiquado. Eu uso-o… exactamente para ajudar a mantê-lo.

      • Heitor Rodal

        Pois. O certo é que eu sim que penso que o galego-português possui traços linguísticos e estruturais -alguns exclusivos dentro da România, outros partilhados só com algumas outras línguas latinas- cuja combinação dota de personalidade à nossa Língua.

        Ainda gostaria de acrescentar que há muita cousa a pesquisar e recolher ainda entre as falas “galecianas”, tanto da Galiza quanto do Norte de Portugal e tenho a sensação que os linguísticas e gramáticos galegos e portugueses desbotarom muita cousa por causa da sua formação académica de inspiração espanhola ou francesa, como por exemplo os verbos frasais -não simplesmente preposicionais- que como as meigas, existir, existem e sobre os quais não achei quase nada escrito.

        Saúde.

        • Venâncio

          Heitor,

          Quando uma pessoa põe um grupo tão grande sob suspeita («os linguistas e gramáticos galegos e portugueses»), o mínimo que deve fazer é ser explícito, e não ficar pela censura.

          Eu também não achei nada escrito sobre os “verbos frasais” em português ou galego. Trata-se dum conceito em uso para o Inglês… Mas se tens algum exemplo nosso, faz favor. Para sabermos de que falas.

          • Heitor Rodal

            Fernando,

            não, não é censura velada. É simples apreciação duma pessoa interessada na matéria, mas leiga.

            E sim, o dos verbos preposicionais e, principalmente, os verbos frasais é um conceito em uso para o inglês, mas que poderia – como com outros traços que dão personalidade à língua – ser aplicado com grande proveito noutras línguas como o galego-português, nomeadamente para aquelas pessoas que queiram estudá-lo ou aprendê-lo e não queiram ficar simplesmente com uma versão descafeinada ou despersonalizada do idioma. Vou tentar explicá-lo.

            Não sei se acontecerá outro tanto em Portugal, mas o certo é que na fala dos nossos maiores o uso de preposições acompanhando verbos era muito diferente, muito mais rico, habitual e variado que o uso que se pode achar entre os falantes mais novos, e mais ainda se estes são neofalantes que aprenderam a língua principalmente ou apenas na escola.

            [Compare-se por exemplo:

            1) Minha mãe ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro

            2) Minha mãe ficou perplexa quando lhe pedi ir ao enterro

            http://linguaportuguesa.uol.com.br/linguaportuguesa/gramatica-ortografia/20/artigo159341-1.asp%5D

            O certo é que esse uso tão habitual de determinadas preposições acompanhando os verbos davam sabor e também matizes a muitas expressões. Pois bem, além disso o que eu digo e que, ocasionalmente, para além de matizar o significado do verbo o uso de determinadas preposições acompanhando determinados verbos não só matizava, mas realmente muda(va) substancialmente o seu significado, que é o que os ingleses definem como “phrasal verb”.

            Dou um exemplo próprio: na fala dos meus maiores havia uma clara diferença entre ‘tirar (alguma cousa)’ e ‘tirar com (alguma cousa)’. O primeiro significava ‘extrair’, ‘sacar’, ‘arrancar’, ‘puxar’, enquanto o segundo significaba ‘atirar’, ‘arremessar’, ‘derrubar’, etc.

            Ex:

            1) Tirou a comida (do caço) / uma foto / …

            2) Tirou com a comida (do caço) / com a foto / …

            É muito provável que, tal como acontece no inglês, construções deste tipo não sejam usadas ou conhecidas de igual maneira em todo âmbito linguístico, mas isso não lhe resta em nenhum caso valor ao fenómeno.

            Dito isto, o que posso afirmar é que o uso de preposições para matizar ou mesmo mudar o significado do(s) verbo(s) está a desaparecer, polas causas que forem (castelhanização, ensino estandardizado dum modelo de língua pobre ou empobrecido ou simples processo de própria simplificação linguística), a olhos vistos das falas galegas. Desconheço se outro tanto acontece em Portugal, Brasil, etc.

            Saúde.

          • Venâncio

            Heitor,

            Primeiro: suponho que afirmas não ser a frase 2. («Minha mãe ficou perplexa quando lhe pedi ir ao enterro») aceitável em galego. Em português seguramente não o é. Dizemos «pedi para ir».

            Segundo: em português, para ‘extrair’ dizemos também tirar: «tirar a comida (da panela)», «tirar uma foto», etc. Mas, para ‘arremessar’, dizemos atirar. E, nesse caso, pode ou não usar-se «com». O uso desta preposição sugere, aqui, uma ‘acção consciente’: «Atirou com um pau».

            Admito que, como dizes, haja, no uso actual do galego, um problema de preposições. Mas existe, também, e bem mais grave, um problema de verbos. Repara na tua frase:

            «Isso não lhe resta em nenhum caso valor ao fenómeno».

            Um português não a entenderia. Nem falo da duplicação («lhe» e «ao fenómeno»), tipicamente espanhola, e contra a qual o gramático Freixeiro Mato se vem insurgindo. Falo de «restar». Tu usa-lo transitivamente, como em espanhol. Um português ou um brasileiro diria:

            «Isso não tira (ou retira) em nenhum caso valor ao fenómeno».

            O nosso restar não é intransitivo. Isto é, não posso «restar alguma coisa».

            Concretamente: existe uma grave descoincidência de significados, entre português e espanhol, nos verbos «tirar», «restar» e, também, «sobrar». Em (más) traduções do espanhol, isso transtorna inteiramente a compreensão do original.

            Imagino que tudo isso seja, para o vosso uso do português, um verdadeiro quebra-cabeças.

            Esta é, também, uma das razões (e elas são muitas mais, e mais graves!) por que a criação duma sociedade galega bilingue de Espanhol e Português é um projecto irresponsável.

          • Venâncio

            P.S.

            A duplicação espanhola do tipo «Yo le dé a mi padre» é prática, e mesmo necessária, pois a frase «Yo dé a mi padre» poderia significar “Eu dei o meu pai”…

            Mas o galego e o português não têm (a não ser raramente, como em «Deves amar a Deus») um complemento directo introduzido pela preposição «a». Portanto, galego e português não precisam de duplicar o complemento indirecto.

          • Heitor Rodal

            Pois é.

            Mas não é só o reintegracionismo quem está a precisar dum gramático, mas todo o galego e milhares e milhares de gramáticos e um contato constante e continuado com o português doutros lugares.

            Saúde.

          • Heitor Rodal

            Fernando,

            já voltando para o assunto da conversa, gostaria de conhecer a sua opinião sobre outros exemplos do que para mim são exemplos de frasalidade verbal como p. ex. “ele deu isso” ou “ele deu nisso”.

            Obrigado.

          • Venâncio

            Heitor,

            Desconheço uma construção pessoal como “ele deu nisso”. Só conheço a versão impessoal “Deu nisso” (= “A coisa deu nisso”), que significa “O resultado foi esse”.

            Existe, sim, em galego-português um uso impessoal de “ele”. Achas aqui alguns exemplos galegos com “hai”, que são os mais correntes no nosso idioma.

            http://ilg.usc.es/TILG/?tipo_busca=palabra&pescuda=el&categoria=Todas&desde=1600&ate=2050&tipo_contexto=palabra&pescuda2=hai&posicion=1&categoria2=Todas#

            Trata-se desse valor impessoal em “ele deu nisso”?

          • Heitor Rodal

            Também, mas nem só:

            ‘dei isso / dei nisso’; ‘deram isso / deram nisso’, etc.

          • Venâncio

            Sim, mas que significa “dei nisso”, “deram nisso”? Eu não faço ideia, já to disse.

          • Heitor Rodal

            Exemplos: “dei nisto / dei nisso / dei naquilo”

            · “Fiquei ausente do blogue, e fui para a praia e dei nisso, estou toda vermelha.”

            · “Depois dei nisto. Num misto de inadaptado e rebelde. Venceu o rebelde mas, em certas ocasiões, o inadaptado ainda vem ao de cima.”

            · “Eu sou tão negro quanto uns negros, metade da minha família é negra, mas por acaso genético dei nisso.”

            · “Eu era tão ajuizadinha……. depois dei naquilo que sou.”

            Logo:

            · “dei nisto / dei nisso / dei naquilo” = acabei sendo / ficando desta, dessa ou daquela maneira.

            Eu pessoalmente não acho dificuldade em perceber o sentido.

            Já logo, Fernando, abuso da ocasião e aproveito: acha qualquer sentido na expressão “comer no caldo” ou “comer no pão”?

            Obrigado e saúde.

          • Venâncio

            Heitor,

            Obrigado pelos exemplos de DAR EM ‘pessoal’. Vejo que (tal como eu tinha dito acerca do uso impessoal) indica o resultado dum processo.

            Assim, temos também «Ele deu em doido», «As tentativas deram em nada». Também dizeis assim?

            Um valor mais propriamente negativo de DAR EM é aquele seguido de verbo: «Ele deu em telefonar todos os dias». Vejo que isto se faz exactamente em galego também (ver exemplos de «ele deu em» + verbo):

            http://ilg.usc.es/TILG/?tipo_busca=palabra&pescuda=deu&categoria=Todas&desde=1600&ate=2050&tipo_contexto=palabra&pescuda2=en&posicion=1&categoria2=Todas#

            São estas construções tão únicas que mostram quanto galego e português coincidem, e que a prioridade na Galiza deve ser a do estímulo e fortalecimento destes materiais exclusivos nossos.

            Amanhã, tentarei uma resposta à tua pergunta do último comentário.

            Um abraço.

          • Venâncio

            Heitor,

            Perguntas se acho qualquer sentido na expressão “comer no caldo” ou “comer no pão”.

            Devo dizer que “comer no pão” me parece inteiramente transparente. Toda uma série de outros alimentos podem ser consumidos “no pão”. Nesse sentido, também outros produtos podem ser “comidos no caldo”.

            Mas possivelmente a coisa não é tão linear, e poderá ter havido algum outro motivo para o perguntares…

            Abraço.

          • Heitor Rodal

            Com efeito, Fernando, como bem aponta a cousa não é tão linear, no mínimo para um galego.

            Para nós esse “comer no pão” ou “comer no caldo” não refere exclusiva e diretamente para “comer algum alimento no pão ou no caldo”, mas provavelmente para ‘peteirar, petiscar ou comichar’ o pão (ou o caldo).

            Afortunadamente, posso dizer que isto não são apenas lucubrações dum amador coma mim, senão que, contradizendo o que disse anteriormente sobre os gramáticos galegos e portugueses, já há quem está a se ocupar e descrever isto em publicações académicas:

            http://ruc.udc.es/bitstream/2183/8395/1/RGF%2011%20art%203.pdf

            http://ruc.udc.es/bitstream/2183/13271/1/CC-129_art_7.pdf

            Mesmo não concordar eu completamente com as explicações que dá a Teresa Moure aos fenómenos que foram apontados no fio [p.ex. como já expliquei, para mim a diferença entre ‘tirar (algo)’ e ‘tirar com(algo)’ não é uma questão da vontade do agente, senão verbos com significados nitidamente diferentes. E, ao meu ver, ‘comer em’ não tem a ver com nenhum partitivo, mas antes com a matização ou modificação do significado do verbo pola partícula ‘em’], é de agradecer-lhe imensamente ter abordado duma maneira tão diáfana e explicativa esta perspetiva sobre a gramática do galego-português da Galiza tão difícil e complicada. Acho, realmente, que são textos que pagam a pena ler, e refletir sobre o que explicam.

            Aproveito isto para fazer uma pequena digressão: na minha opinião tudo isto tem a ver com o alto conteúdo contextual no falar das galegas e galegos ao que tem feito referência em repetidas ocasiões o Ernesto Vásquez Souza.

            E, desculpem, faço uma outra digressão sócio-linguística ainda maior: há tempo que venho pensando que o galego-português tradicional da Galiza funciona mais como uma ‘xíria tribal’, antes que como uma Língua e que isso explique não poucas vezes a rotura na transmissão intergeracional da Língua: talvez os nossos maiores pensaram que a gente da minha geração e posteriores, que fomos educados para nos unir à modernidade e que não participamos já de forma absoluta e geral dos costumes e ritos da Tribo, não nos compria falar nem conhecer a xíria secreta da Tribo. Experiências pessoais e episódios vividos levam-me a pensar isso.

            Sei lá… talvez, e apesar de tudo, não derom certo de todo.

            Saúde.

          • Venâncio

            Heitor,

            Li o primeiro artigo da Teresa Moure, e não posso decidir se é ela ou és tu quem tem razão. Trata-se, no caso de “comer no caldo” (e semelhantes), dum fenómeno, decerto interessantíssimo, mas próprio da norma galega, que eu, não falante nativo, não consigo ajuizar devidamente.

            Reparo, sim, na confluência da visão da Teresa Moure com a dos investigadores da Corunha: a da vantagem de estimular um «galego de qualidade».

            Também é de sublinhar a tua ideia de que a perda geracional do galego pode estar relacionada com um uso (e um estatuto…) dele como “gíria tribal”. É, possivelmente, uma intuição magnífica, que deverias desenvolver.

          • Heitor Rodal

            Obrigado polas palavras e as respostas, Fernando.

            Abraço.

          • Heitor Rodal

            Fernando,

            subscrevo o esclarecimento e a conclusão. Obrigado.
            Afinal este é o nível médio geral da Língua na Galiza.

  • Jorge Pinheiro de Mello

    E natural que o latim estivesse sempre influenciando a falas dos Astur-leonéses e a região Pátria do português, galego e castelhano; Bracara Augusta foi Capital Sueva é a sede episcopal do Primaz das Hispânhas… mas as linguas são levadas pelos seus falantes, não respeitam fronteiras políticas nem prohibições academicas…são constantemente influenciadas por contágio entre seres humanos que tentam comunicar em linguas e costumes diferentes… o Português partiu à 8 Séculos numa aventura para Sul aravessando oceanos e continentes desconhecidos dos Europeos… muitas palavras foram asimiladas do arabe, de linguas africanas, amerindias e asiaticas: açougue, almofariz, catana, abacaxi, chá, soba, etc

    • Jorge Pinheiro de Mello

      A forma como em português dizemos os días da semana : Domingo, segunda feira, terça feira, quarta feira, etc não foi invenção portuguêsa ; já se utilizava desde o século V … más a norte do minho e com a castelhanização das asturias e do Reino de Leão voltaram a utilizar a nomenclatura pre – cristã idolatrando deuses e planetas como em frances e outras linguas latinas: lunes, martes, miercoles, etc.