Ricardo Cascalhar, editor discográfico: «Língua Nativa pretende criar um vínculo entre o público galego e artistas em português»

O primeiro projeto da nova editora verá a luz a 15 de dezembro



Ricardo Cascalhar, Deloise (Língua Nativa)Ricardo Cascalhar, artisticamente conhecido como Deloise é sócio da Pró-AGLP e agora está imerso no projeto Língua Nativa, uma nova editora galega de música independente que vai lançar o seu primeiro projeto o dia 15 de dezembro deste ano, projeto ao que queremos desejar a melhor das sortes.

Língua Nativa será uma editora na Galiza só a editar artistas de língua portuguesa, compreendendo o galego como parte da mesma. O projeto não foi algo premeditado, mas « uma descoberta baseada na minha própria experiência pessoal, após ter convivido com pessoas de Portugal ao longo de todos estes anos», explica Ricardo. Agora, a ideia é «criar um vínculo, fazer ver o público galego que somos capazes perfeitamente de compreender o português e que este tenha uma maior presença na nossa terra e vice-versa».

Por que e de que maneira surgiu a ideia de criar Língua Nativa?

A ideia sempre esteve presente desde que comecei a fazer música eletrónica há já quinze anos e com o passar do tempo, fui armando-me de tudo o necessário para poder levá-la em frente (contactos, equipa de som, desenhador gráfico, marketing, etc.). Mais tarde o fator linguístico acabaria por condicionar a identidade da mesma.

Por quem está conformada a discográfica? Qual é a procedência, tanto profissional quanto pessoal, das pessoas que formais Língua Nativa?

A Língua Nativa está formada basicamente por dois sócios que cresceram no bairro de Alcavre, em Vigo: o Carlos Ndungmandum e eu. Este primeiro é a pessoa encarregada da parte da comunicação visual e eu faço as funções administrativas e de relações públicas. A esta equipa de trabalho vem de se somar agora o português Ricardo Almeida, estabelecido em Barcelona. Ele gere tudo o que tem a ver com o marketing, redes sociais, etc.

O nome da editora alude diretamente à língua. Qual é a relação entre o projeto e a língua e cultura da Galiza e do mundo lusófono?


Como bem disse na primeira pergunta, a ideia de fazer uma editora musical não vem de agora, sempre esteve presente, mas a ideia de fazer uma editora na Galiza só a editar artistas de língua portuguesa (compreendendo a fala galega como variante da mesma), não foi algo premeditado, foi mesmo uma descoberta baseada na minha própria experiência pessoal, após ter convivido com pessoas de Portugal ao longo de todos estes anos. Agora a nossa ideia é a de criar um vínculo, fazer ver o público galego que somos capazes perfeitamente de compreender o português e que este tenha uma maior presença na nossa terra e vice-versa. Assim que poderíamos dizer que a relação vem de aí.

Qual achas que é a situação do panorama de edição musical na Galiza?

Acho que nos limites do estilo em que nós nos movemos, há algumas coisas interessantes, caso do Fluzo ou os Malandrómeda em Compostela. Trabalhos que foram editados por eles próprios em formato físico, em disco de vinil. A qualidade dos mesmos é boa, eu tenho vários discos deles em casa e acho que nada têm a invejar, em termos de construção, a um disco comercial de alguma multinacional. Depois a maioria edita tudo basicamente de forma digital utilizando contas como Soundcloud para lançar as músicas. Nós acreditamos que a linha a seguir é essa, ter presença na internet sabendo aproveitar as nossas vantagens e o dinheiro investi-lo noutras coisas, como já fizemos com os chapéus de promoção.

Língua Nativa preenche um vazio inexistente até o de agora no mundo das discográficas? Por que?

No mundo das discográficas é um termo muito amplo que na verdade desconheço, mas na Galiza, se falamos do estilo de música Hip Hop por exemplo (um estilo que se carateriza por ter muita presença de conteúdo na parte vocal), o movimento em língua galega fica longe de se consolidar, sendo puxado na maioria das vezes a competir noutro habitat distinto do seu natural, caso do panorama espanhol geral. É certo que existem bandas e artistas, muitos deles em coletivos e algum que outro com a sua própria editora, mas de acesso limitado.

Neste contexto nasce a Língua Nativa, querendo servir de referência para estes e outros artistas, contribuíndo deste jeito a fornecer os cimentos para um verdadeiro movimento de Hip Hop e música eletrónica galegos, sendo conscientes das nossas vantagens e apostando também pela confluência com artistas de fala portuguesa que nos permita expandir o nosso horizonte.

Língua Nativa

Língua Nativa

Em que consiste o primeiro trabalho da editora que está pronto para ser lançado? Com que se vai encontrar o público?

Este primeiro álbum é uma compilação de músicas de diferentes artistas e nacionalidades (galega, portuguesa, angolana, chilena e a canadiana) e poderíamos catalogá-lo como um álbum alternativo dentro do estilo do Hip Hop, com elementos eletrónicos e orgânicos, existindo um equilíbrio entre parte vocal e parte instrumental já que das dezasseis músicas que contém, sete são instrumentais. Em quanto aos mc’s, podemos encontrar um amplo abanico de temáticas: Sarcasmo, por exemplo, em “Intermitências da Sorte” relata-nos uma relação em que o amor e o ódio se misturam até o ponto de não perceber qual deles sentimos realmente; A Foice & Malvares de Moscoso, pelo contrário, fizeram uma interpretação de um poema do poeta galego Carvalho Calero em “A Orquestra Filarmónica de Osaka”, no que a crítica é para o eurocentrismo, para a imposição de umas identidades sobre outras, etc.; Depois, numa onda mais Spoken Word encontramos o Lágrima em “Grito Falante”, que traz consigo a introspeção crua e fria numa conversa solitária com a própria mente, gritada em voz alta, falada para um público imaginário com uma pseudoraiva, uma pseudotentativa de mudança, um pseudoensaio literário, talvez a página de um diário pessoal para ler nos dias de chuva. OTilt, no entanto, mostra uma visão crítica do controlo que exercem os políticos, grandes corporativas e meios de comunicação sob a sociedade, que parece ficar adormecida em “Édem de Kevin O’Leary”. E assim muitos outros.

Quem vai participar neste primeiro projeto? Podes adiantar alguma surpresa?

Os artistas a participar neste primeiro projeto são: artistas galegos como Rebeliom do Inframundo, A Foice & Malvares de Moscoso, Alexandre Villalba, ArreOh!, DJ Favio, Frank, J.CNNR, Milhomes, Rebeliom do Inframundo, Thomas Dylan, e eu; artistas portugueses como Dusk, Lágrima, L-ALI & VULTO, Metamorfiko, Sarcasmo, Stereossauro e Tilt. Por último o Ikonoklasta da Angola, Polar de Chile e o Routiger Slob do Canadá.

Mas na verdade, até o álbum sair qualquer coisa é possível.

Flyer Língua Nativa

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  • Ernesto V. Souza

    Que bom… é só impressão minha ou o reintegracionismo está em plena expansão?

    • Celso Alvarez Cáccamo

      Para mim que já nem é reintegracionismo, meu. Os ideologemas anteriores naufragam. A gente, simplesmente, fala e escreve, e sai-lhes assim, e estas cousas. Como começava a sair na década de 70, antes da ocupação político-mercantil da língua.

      • Ernesto V. Souza

        Pois esta a ultrapassar o reintegracionismo… Efetivamente… Que interessante e tudo…

  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    Avante com o projeto, Ricardo! 😀