“A Viola Encarnada” apresenta a riqueza da música caipira

Yuri Sopa faz homenagem ao tradicional instrumento campesino em banda desenhada



A viola caipira está presente em todos os recantos do Brasil. Uma guitarra de 10 cordas que chegou ao Brasil com as primeiras expedições portuguesas, no século 16 e foi utilizada pelos primeiros jesuítas na catequese, desde então, foi ganhando contornos, afinações e inúmeros ritmos e, durante o século 20 passou por altos e baixos, até chegar à Universidade de São Paulo, como Bacharelado com Habilitação em Viola Caipira e agora é homenageada com uma inédita história em quadrinhos (HQ) ou banda desenhada (BD).

Yuri Sopa

Yuri Sopa, idealizador e criador da banda desenhada “A Viola Encarnada: Moda de Viola em Quadrinhos”, utiliza o ritmo musical Moda de Viola, para criar uma história envolvente e de grande sensibilidade, utilizando parte do vasto repertório da música caipira, que pode ser conhecido aqui.
O renomado instrumentista, professor e pesquisador Ivan Vilela, assessorou todo o projeto e escreveu a introdução.

 

Yuri, conte-nos um pouco do seu trabalho e das várias linguagens artísticas que você utiliza em seus trabalhos

Nasci Yuri Carlos Garfunkel e sou conhecido como Yuri Sopa no universo virtual. Formei em 2007 o estúdio Sopa Art Br com Bruno Mestriner, designer, músico, eletricista e amigo desde a escola antroposófica. Fundamentamos nosso trabalho em comunicação visual direcionada a cultura, criando peças para artistas, festivais, livros, revistas e histórias em quadrinhos. A partir dessa bagagem passamos a trabalhar com a união de linguagens artísticas. Relacionando histórias em quadrinhos com arte urbana, música e educação, criamos as exposições Música-Visual (2009), X-Sampa (2011), Lendas na Rua (2013) e Centenário do Samba (2016) que circularam por ruas, galerias, parques e estações do Metrô de São Paulo. Chegamos a levar alguns desses trabalhos para Argentina, Itália e Espanha.

Como músico autodidata, integro desde 2008 o grupo instrumental Kaoll, com quem gravei 3 álbuns e circulei um bocado. A princípio tocando flauta transversal, acabei me aproximando da viola caipira em 2012, que me mantém cativo. Desde então tenho participado também do grupo Pequeno Sertão de música regional autoral.

 

Você é desenhista, músico e educador, qual a influência da música caipira em seu trabalho?

A música me ajuda muito a vencer horas de trabalho desenhando, e por isso consumo uma carga muito grande.
O repertório da música caipira me chegou na tentativa de encontrar trilha sonora para as paisagens do interior brasileiro em viagens que fiz. Trabalhando na cidade, ela traz a sensação de estar de volta a esses lugares, de um jeito muito inspirador. Apesar das estruturas musicais simples, ela é muito complexa em diversos aspectos, mostrando que uma base bem sedimentada pode alavancar possibilidades no trabalho criativo.
Além disso, a forma de comunicar da cultura caipira é muito simples, trazendo informações de forma direta mas simpática.

A música caipira, apesar da estrutura simples, é muito complexa em diversos aspectos, mostrando que uma base bem sedimentada pode alavancar possibilidades no trabalho criativo.

viola_encarnada_capaComo ou porque surgiu a ideia de fazer a banda desenhada “A Viola Encarnada: Moda de Viola em Quadrinhos” ? Qual foi a contribuição de Ivan Vilela e outros violeiros para a produção?

A ideia da banda desenhada se formou ao longo de muitos anos ouvindo música caipira. De modo geral, e no gênero Moda de Viola principalmente, as canções descrevem narrativas tão intensas que muitas músicas inspiraram filmes, mas até agora não conheço outra graphic novel feita a partir desse repertório. Entendi que era um trabalho que poucos poderiam pôr em prática, e mergulhei de cabeça. No final de 2017 eu já tinha clara a estrutura do roteiro, fui a uma palestra do Ivan Vilela e me apresentei a ele. O Ivan se interessou imediatamente pelo projeto, que inscrevemos no edital ProAC da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Aprovados, começamos a trabalhar, e ele sugeriu com toda razão que a história fosse além dos temas mais faroeste que eu trazia: tinha muito boi e bala. Ampliamos o roteiro com a origem da viola, derivada de instrumentos mouros e vinda ao Brasil com as primeiras caravelas portuguesas, e com a construção da Viola Encarnada, protagonista da história. Para isso busquei ajuda do Luiz Armando da Luthieria Trevo, que construiu efetivamente a viola em um mês! O Ivan também sugeriu outro desfecho para a BD, que termina na cidade grande, completando todo o trajeto percorrido pela música caipira.

 

O repertório conta com uma trilha sonora espetacular, que vai de “Jorginho do Sertão”, a primeira gravação da música caipira, de 1929, passando por grandes clássicos e mestres, até os dias atuais com Pereira da Viola, Almir Sater e Ivan Vilela. Qual foi o critério usado para selecionar essa trilha? 

 O roteiro se estruturou a partir de algumas modas fundamentais, que sugerem continuidade para um mesmo assunto ou personagem, como é o caso de “Boiadeiro Punhos de Aço” e “As Três Cuiabanas”. Algumas canções receberam respostas, composições que dão continuidade à história narrada, como o “Chico Mineiro”, que continua em “A Vingança do Chico Mineiro” e “A Viola do Chico Mineiro”. Em segundo plano, procurei canções que sugerissem paisagens, plantas, animais ou reações que complementassem a trama principal. E em geral, tentei apresentar canções dos compositores mais significativos do gênero, que algumas vezes foram priorizados quando tive a opção de escolher entre canções que abordam o mesmo assunto, muito recorrentes no repertório caipira. As composições de autoria de Ivan Vilela não foram selecionadas por serem instrumentais, usamos “Ranchinho Brasileiro” (Elpídio dos Santos), com ele e os cantores Suzana Sales e Lenine.

 

Pela infinidade de ritmos e temáticas da música caipira, você já está pensando no volume 2?  (A história da criação do pagode, por exemplo, onde cada violeiro conta uma história diferente do Tião Carreiro)viola_encarnada_pg_62

Realmente a cultura caipira sugere uma grande diversidade de assuntos que poderiam gerar muitas bandas desenhadas com narrativas variadas, de ficção a documentário. Dentro da proposta da Viola Encarnada de adaptar as letras de várias músicas a partir de um contexto, seria bem difícil criar outra narrativa abrangendo os principais assuntos, compositores e o desenvolvimento do gênero. O que imagino como continuação seria abordar assuntos que foram tratados mais superficialmente, como as canções de humor e terror, muito presentes no repertório. Outra ideia seria uma edição inteira voltada ao “Ferrerinha”, moda de viola que, segundo consta, tem 12 continuações musicadas.

Sobre a criação do pagode, assisti recentemente ao documentário “A Mão Direita do Itapuã”, dos parceiros Mário de Almeida e Saulo Alves, que trazem evidências históricas sobre esse feito, reafirmando os créditos de Tião Carreiro e do maestro Itapuã, que teria desenvolvido com ele o acompanhamento do violão. O filme pode ser apreciado aqui, recomendo fortemente!

 

Ivan Vilela nos ensina que a viola surgiu em Portugal por volta dos anos 1400, foi tocada inicialmente pelos mais humildes e encontrou no Brasil um novo lar, sendo tocada em todas as regiões do país, cada um do seu jeito e com afinações diferentes. Em sua opinião, chegou a hora da viola voltar para Portugal em forma de banda desenhada, pesquisas, shows de violeiros e gravações em conjunto com instrumentistas portugueses?

A Viola tem passado por um momento de grande revitalização no Brasil e assumido seu protagonismo em vários âmbitos musicais, e até onde pude acompanhar, ela passa por um processo parecido em Portugal, talvez em menor escala. Sendo assim creio ser um momento muito propício para o encontro das tendências do instrumento em diferentes países!

 

Há previsão de lançamento da banda desenhada em livrarias portuguesas?

Temos um convite para apresentar a BD no encontro de saberes do projeto AtlaS, da universidade de Aveiro, no 2º semestre de 2020. Paralelamente, a Red Clown, editora do livro no Brasil, está fazendo contatos para uma possível edição portuguesa, a ser lançada na mesma época. Até lá mantenho vocês informados!

Para conhecer mais sobre o autor, este é o seu facebook.

Para ver mais sobre o processo de criação da Viola Encarnada:

José Carlos da Silva

Desde 2008, José Carlos da Silva é correspondente do PGL no Brasil. Residente em Campinas (São Paulo), é produtor cultural e periodista. Como produtor cultural trabalha pela difusão da cultura caipira, que tem na viola de 10 cordas, sua maior expressão.

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